Desenvolvimento pessoal

Dê um reset no seu propósito

E viva em sintonia com a vida que você deseja criar
Elisa Rosenthal é a diretora presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário. LinkedIn Top Voices, TEDx Speaker, produz e apresenta o podcast Vieses Femininos. Autora de Proprietárias: A ascensão da liderança feminina no setor imobiliário.

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Os últimos anos foram marcados por uma corrida ao ouro: empresas com propósitos claros saíram na frente, recebendo o rótulo de “conscientes”. Com mais clareza nas mensagens, conseguiram se conectar com sua audiência e públicos-alvo de forma precisa.

A busca por essa essência “do que e pelo o que” fazemos foi tracionada há uma década pelo escritor americano Simon Sinek, com o best-seller “Comece pelo porquê” (2009), marcando uma linha transitória no valor que damos ao propósito em nossas vidas, empresas e atuações profissionais.

Quando o movimento Capitalismo Consciente nos provoca com a pergunta “qual é o propósito dos negócios?”, sabemos que a resposta não é maximizar lucros ou dar retorno aos acionistas. Contudo, “elevar a humanidade, atendendo às necessidades reais, oferecendo trabalho significativo, espalhando prosperidade e possibilitando mais pessoas a viverem vidas mais satisfatórias e humanas”, como Nilima Bhat e Raj Sisodia destacam no livro “Liderança shakti”, pode provocar um efeito paralisante e até angustiante, se não for tratado de forma orgânica.

## Todo mundo tem que ter um propósito?

Essa necessidade de ter seu “elevator pitch” pessoal (frase curta de impacto que resume sua qualidades, entregáveis e propósito) forçou muitos de nós a um parto prematuro.

Saber o porquê estamos aqui e qual a nossa contribuição para a humanidade durante os anos que viveremos neste plano, além de ser muita responsabilidade para resumir em uma frase, precisa, antes, estar alinhado a algumas expectativas. A primeira delas? Que estamos todos em um processo evolutivo.

Empresas e pessoas estão evoluindo junto com a História (sim, com H maiúsculo) e a pandemia do novo coronavírus nos mostra isso de forma mais evidente.

No mês em que ultrapassamos a marca de 100.000 mortos pela Covid-19 no Brasil, a morte está mais próxima de todos nós.

“A morte é provavelmente a maior invenção da vida. É o agente de mudanças da vida. Ela afasta o que é velho para abrir o caminho para o novo” observou Steve Jobs na sua célebre palestra para a turma de graduandos de Stanford, um ano após ser diagnosticado com câncer no pâncreas. E, quando ele continua exemplificando o ditado zen “Morra antes de morrer para que possa viver de verdade”, o primeiro “morra” significa nos confrontarmos com o fato de que somos mortais e, o segundo, com o sentido literal. (Liderança & Propósito, Fred Kofman)

A cada dia, a pandemia esfrega na nossa cara a fragilidade da vida em números. Essa consciência da mortalidade é angustiante e, segundo ensina Kofman, “para irmos além da nossa morte física, procuramos criar algo que sobreviva ao nosso corpo, como arte, música, literatura, religião, movimento políticos, instituições, nações e impérios”.

Para o autor, esta é a força motriz por trás de atividade humanas e de qualquer empresa.

Será?

## O propósito muda

O que fazia sentido para mim no início da carreira não tem tanta importância hoje. O que eu quero para o mundo também mudou com a maternidade e após o nascimento dos meus filhos. E como posso contribuir para a humanidade que está transmutando junto com a transformação digital da pandemia?

Sim, o propósito muda. E nos permitirmos revisitar esse conceito e nossos porquês é fundamental para alinharmos nossas expectativas à forma orgânica como vivemos, levando para dentro das empresas este entendimento de que há uma fluidez – conhecida no ambiente corporativo como resiliência.

O professor de estratégia da Fundação Dom Cabral, Paulo Vicente, traz, em sua participação no podcast da mesma instituição, seis passos para a construção da resiliência no contexto pós-pandêmico: inovação, cadeia de suprimentos, internacionalização, sustentabilidade, pessoas e marca.

Quando falamos sobre inovação, aceitar que o estágio que estávamos não existe mais é o primeiro passo para pessoas e empresas que desejam, de fato, se transformar.

Enfrentamos um ponto de virada em todas as organizações em relação à inovação, melhor dizendo, à necessidade de inovar. E com um ‘novo normal’ se desenhando, um pós-normal, um novo diferente ou como você deseja chamar o pós-pandemia, isto tende a se acentuar. (Trecho da minha coluna de julho aqui para o ‘Empresas Shakti’ – leia artigo completo aqui ).

Os stakeholders (conceito criado na década de 1980, pelo filósofo norte-americano Robert Edward Freeman) são mais importantes do que nunca. A cadeia de suprimentos, de fornecedores a clientes, está ainda mais potente na relação de qualquer indivíduo ou organização.

Com a transformação digital, essa relação é potencializada de forma geométrica: a escalabilidade proporcionada pelo digital amplificou e reverberou a voz de todos por mares nunca dantes navegados.

Daí a necessidade de construir sua resiliência no entendimento de que a cadeia de valor vai além do horizonte que conseguimos enxergar, o que aumenta a responsabilidade da mensagem que passamos adiante.

O que era uma tendência se mostrou uma consolidação com a chegada do anywhere office (as facilidades do home office levadas para qualquer lugar) à realidade corporativa.

Entre janeiro e março, a empresa californiana ZOOM aumentou sua receita em 169%, para mais de UU$ 328 milhões e obteve lucro de US$ 27 milhões, reproduzindo em números o que vivemos no dia a dia.

Num domingo, 2 de julho, estive numa aula online pela Shakti Fellowship com colegas de São Francisco, na Califórnia, à Xangai, na China. Enquanto ela mostrava a lua cheia pela janela, falávamos do clima nos diferentes hemisférios e continentes, conectadas todas pela plataforma que eliminou fronteiras e encurtou ainda mais distâncias e budgets de viagens corporativas.

Não é apenas o seu produto ou serviço que deve pensar internacionalmente. A sua mensagem e seu conteúdo também.

## Propósito, como?

Em tempos complexos e diferentes, o propósito pode ser visto como um retorno aos fundamentos e origem. Uma reconexão à ancestralidade, não apenas da marca, mas de quem somos.

No resgate à nossa essência mais primitiva, vemos marcas com propósitos claros e estampados, adaptarem seu discurso e atitude ao momento.

É o caso da Ford, que tem como missão “oferecer produtos e serviços excepcionais, que melhorem a vida das pessoas”. Da fabricação de motores automotivos, adaptou a produção para respiradores que, durante a pandemia, são os motores que propulsionam pela recuperação dos casos mais graves.

A gigante Unilever apresenta na sua missão “levar vitalidade para o dia-a-dia, atendendo necessidades diárias de nutrição, higiene e cuidados pessoais com marcas que ajudam as pessoas a se sentirem bem, bonitas e aproveitarem mais a vida” – e comprovou como, na linha de produtos Rexona, ao incluir o álcool gel e em spray nas gôndolas e prateleiras.

A reiniciação que empresas e pessoas precisam atualizar neste novo sistema é o como. “Walk the talk”, que significa “caminhe a sua fala” e é exatamente a essência dessa versão atualizada do propósito.

Mais do que saber o seu porquê, é vivenciá-lo. Como questionou Steve Jobs: “Tenho me olhado no espelho todos os dias de manhã e me perguntado – ‘Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu ia querer fazer o que estou prestes a fazer hoje? E sempre que a resposta for ‘não’ por dois dias seguidos, sei que preciso mudar algo”.

Quando começamos pelo “como”, precisamos nos questionar diariamente se o que estamos fazendo está em coerência com a vida que queremos criar.

O que você fará hoje está alinhado com a vida que você quer criar?

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