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Desempenho e juventude, a associação a superar?

É nos esportes que o preconceito contra pessoas mais experientes no mercado de trabalho fica mais evidente. É possível combatê-lo? Até quando agiremos como se a maior longevidade não fosse uma realidade que chegará à maioria?

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A cultura do esporte enfatiza desempenho e juventude, trazendo a crença de que atletas mais velhos são menos capazes. Dificuldades para conseguir patrocínios e oportunidades de trabalho são apenas a ponta do iceberg trazidos pelo etarismo nos esportes.

Em um rápido paralelo com o nosso universo organizacional, veremos que nada disso é novidade: profissionais mais velhos também carregam consigo estereótipos negativos relacionados ao envelhecimento, como dificuldades de aprendizado e perda de produtividade. O etarismo nas organizações deixa cerca de 95% das pessoas acima de 50 anos que trabalham no Brasil de fora do mercado formal (IBGE, 2022).

## Com que idade um atleta fica velho?

Individualmente, a idade é um alvo em movimento, que se afasta na medida em que nos aproximamos dele: quem se considera velho demais para fazer algo que domina?
Velho é sempre o outro, mas na prática, as coisas são diferentes. Somos vistos com outros olhos, em geral menos tolerantes do que os nossos. A ex-ginasta [Daiane dos Santos](https://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2020/08/daiane-dos-santos-relembra-episodio-de-racismo-em-clube-alemao-por-que-voce-dessa-cor-esta-aqui.html) foi criticada por ingressar no atletismo aos 11 anos, entrada considerada tardia para a modalidade. Mulher, negra e “velha para isso”, ela sofreu o que os norte-americanos chamam de “triple jeopardy”, o preconceito triplo do qual muitas celebridades (e pessoas “normais” que [possuem](https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fsoc.2019.00043/full) essas intersecções) são vítimas.

Interseccionalidade é o termo que atribuímos à soma de formas de exclusão social, conforme condições identitárias de raça, gênero, sexualidade e classe social. A intersecção de dois ou mais marcadores identitários é maior do que a da simples soma desses preconceitos e nossas atletas corriqueiramente passam por isso.

Carol Gattaz, grande nome do vôlei brasileiro trouxe o tema do etarismo em recente [podcast](https://olympics.com/pt/noticias/podcast-carol-gattaz-luta-contra-burnout-lesoes-etarismo-esporte-feminino) sobre o esporte feminino, assunto que não se limita ao Brasil ou às atletas mulheres: Fernando Alonso, piloto espanhol de Fórmula I desabafou há dois anos sobre o excesso de questionamentos sobre sua idade, na época 40 anos, e a irrelevância que esse tema deveria ter para o setor. Aliás, refletir sobre a relevância da idade para qualquer setor talvez seja o ponto crucial deste debate.

## O etarismo é maior para atletas de modalidades individuais?
Há quem argumente que atletas individuais sejam mais cobrados para finalizarem suas trajetórias antes de se tornarem “velhos demais”: lembranças congeladas de energia e vigor. Roger Federer (42) e Rafael Nadal (37), atletas do tênis, conseguiram quebrar alguns destes estereótipos conquistando títulos “apesar” da idade avançada. Ainda assim, são considerados “pontos fora da curva” e Federer anunciou no ano passado (2022) a sua aposentadoria.

No futebol, esporte coletivo, dirigentes e torcedores reclamam da “falta de renovação” e atribuem problemas de desempenho à questão etária quando jogadores ou treinadores têm idade acima da média. Vanderley Luxemburgo, 71 anos, ressente-se do etarismo no futebol, especialmente por parte da imprensa, que, segundo ele, protege os técnicos mais jovens e paradoxalmente não tem a mente aberta para ideias inovadoras no esporte.

## Planejamento de carreira no esporte é possível?
Jogador, técnico, escritor, coach e palestrante, aos 64 anos um símbolo de sucesso no esporte brasileiro. Estamos falando de Bernardinho, que em seu livro *Transformando suor em ouro* nos mostra que aplicar teorias de administração de empresas ao estilo de liderança talvez tenha sido o “pulo do gato” para consolidar sua performance vitoriosa. Analisando sua trajetória e de outros atletas, percebemos que atuar de forma individual ou coletiva nos esportes não parece ser o diferencial, por mais que a aposta corriqueira seja no binômio esporte-juventude.

Um atleta que investe em autoconhecimento, formação e planejamento financeiro compreende que as possibilidades neste mercado são inúmeras: entretenimento, educação, psicologia, eventos, desenvolvimento físico, treinamento e gestão são algumas delas.

Atletas que mantém a mente aberta ao aprendizado e atualização têm mais facilidade de se preparar para mudanças na trajetória, como é o caso de Joel Santana, que se apresenta como técnico de futebol e youtuber. O ex-nadador e medalhista brasileiro Fernando Scherer, conhecido por Xuxa, é outro que se reinventou: aos 48 anos é empresário e palestrante de alta performance com foco em saúde mental.

## *Nyad*, o filme: um ponto fora da curva
O filme *Nyad*, em cartaz no serviço de streaming Netflix, retrata a história da atleta Diana Nyad, que em 2013 consegue finalmente atravessar a nado o estreito de Flórida, trecho de mar aberto que separa Cuba dos Estados Unidos, após quatro tentativas frustradas. Polêmicas à parte sobre sua história, o que mais chama a atenção nesta produção norte americana? A idade da atleta ao cumprir o feito: 64 anos. Além de sua persistência, claro.

Em 2016, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, o nadador Anthony Ervin foi consagrado o “mais velho campeão de natação”, aos 35 anos de idade e, em 2022, o brasileiro Nicholas Santos ganhou na Austrália o título de mais velho campeão mundial de natação em piscinas curtas, aos 42 anos de idade, vitória com a qual encerrou a sua carreira de nadador profissional, como tetracampeão. Nicholas agora é detentor de um programa online de desenvolvimento para incrementar a performance e longevidade de atletas.

A carreira dos atletas é bastante curta quando comparada às trajetórias organizacionais. Porém, no Brasil, profissionais com mais de 60 anos que ainda trabalham não somam 1% das vagas formais nas organizações (IBGE, 2022). Isto se deve ao etarismo, o famoso preconceito de idade, que, de acordo com a[ Organização Mundial da Saúde (2021)](https://www.who.int/news-room/events/detail/2021/03/18/default-calendar/kicking-off-a-global-conversation-about-ageism), atinge um a cada dois idosos no mundo.

## Etarismo, um novo nome para um velho preconceito
A frase acima designa o nome do [livro](https://www.amazon.com.br/Etarismo-Novo-Nome-Velho-Preconceito/dp/6589911754) que lancei em 2021 sobre o tema “etarismo”, palavra que só agora foi adicionada formalmente ao nosso idioma pela[ Academia Brasileira de Letras](https://escolaeducacao.com.br/academia-brasileira-de-letras-adicionou-10-novas-palavras-ao-pt-br/). O etarismo é o preconceito de idade, que pode atingir qualquer pessoa ao longo da vida, mas que é praticado, na maior parte das vezes, contra pessoas idosas.

O etarismo no mercado de trabalho deixa de fora milhões de pessoas, especialmente aquelas com idade acima de 50 anos. Na vida de um atleta, isto ocorre mais cedo.
Paradigmas que atrapalham a trajetória de nossos atletas

O setor esportivo diverge do empresarial em alguns aspectos, mas o paradigma do sucesso e enriquecimento parece ser o mais marcante: todo jogador de futebol sonha ser um Cristiano Ronaldo, Messi ou Neymar, dentre os atletas dessa modalidade mais bem pagos do mundo. Este sonho demanda talento, carisma, perseverança, planejamento, adaptabilidade, suor e sorte, não necessariamente nesta ordem.

Embutida nesse sonho está a mobilidade social, já que boa parte dos atletas vêm de camadas mais pobres da sociedade, com habilidades físicas que se sobrepõem aos problemas básicos de acesso à educação e trabalho. O sonho de ‘chegar lá” torna-se potencialmente possível através do esporte, que pode promover a grande transformação na vida destas pessoas, como um bilhete premiado de loteria.

A priorização de ganhos financeiros em detrimento dos estudos contribui para a falta de preparo e planejamento de carreira. Somam-se a isso as dificuldades estruturais e desigualdades socioeconômicas ao longo do processo de formação que limitam sua inserção no meio internacional de competições.

Qual percentual de atletas no mundo consegue alcançar o patamar dos sonhos? Quantos deles são brasileiros?

## E o que significa “chegar lá”?
Reconhecimento, riqueza, bens materiais e uma vida sem sacrifícios: o grande prêmio para os atletas que chegam lá, ao menos em sonho. Se, por um lado, as três primeiras coisas podem se concretizar, o sacrifício, para eles e elas, dificilmente diminui, pois a manutenção do sucesso com o avançar da idade torna-se um enorme desafio.

Com o sucesso, surgem os “oportunistas de plantão”, que não contribuem para o desenvolvimento de uma mentalidade estratégica. E a mídia segue em sua constante busca de falhas profissionais ou pessoais. Quem realmente aproveita os frutos desse sucesso? Quem consegue se preparar de fato para o próximo passo?
Casos de depressão são corriqueiros neste meio: a saúde mental cobra o seu preço pela falta de atenção e investimentos. Muitos não se reconhecem sem o seu “sobrenome atlético”, o equivalente ao nosso “sobrenome organizacional”: quem sou eu fora da empresa? O ex nadador Fernando Scherer, o Xuxa, é um exemplo de ex-atleta às voltas com este tipo de problema desde que largou as competições aquáticas.

## Estresse de performance, envelhecimento e outros quetais
Atletas são submetidos à alto grau de pressão: o equilíbrio emocional e saúde mental são questões relegadas à um segundo plano e tendem a cobrar o seu preço, especialmente nos momentos críticos de suas carreiras. Além disso, a tendencia a exceder limites físicos e psicológicos pode trazer desequilíbrios metabólicos, na chamada síndrome do excesso de treinamento (ou overtraining).

A prática de esportes ao ar livre por períodos prolongados contribui para o envelhecimento da pele: o sol, o vento e o frio são os maiores responsáveis pelas rugas precoces dos atletas. Os raios UV destroem as fibras de colágeno e elastina; além disso há uma produção extra de radicais livres, provocada pelo consumo excessivo de oxigênio, em práticas intensas e prolongadas de esportes, que também se reflete no envelhecimento da pele, e, consequentemente, na aparência.

O estresse de performance ao qual os atletas profissionais são submetidos tem efeitos comprovados no envelhecimento precoce do organismo, provocando calvície e outros problemas relacionados ao envelhecimento. O estresse mental provocado pela tensão, exposição, pressão por resultados e dificuldades financeiras soma-se a isso tudo, podendo acarretar problemas de saúde na velhice dos atletas, que raramente se preparam para uma reinvenção no futuro ou para a aposentadoria.

## A volta dos que não foram
Para aqueles que não obtiveram sucesso em seus esforços, resta a frustração de ser “mais um” ou “mais uma” na multidão. Conseguindo viver de parcos rendimentos, acumulando trabalhos menos glamourosos ou aliando o esporte à rotina profissional, seguem em busca do “olheiro” que irá finalmente descobrir o seu talento.

Saúde mental e equilíbrio emocional aqui também são questões a serem observadas.

## Afinal, a carreira de atleta é para ser mesmo curta?
A resposta a essa pergunta é complexa e individual, pois embora seja senso comum afirmar que “atleta tem carreira curta”, a trajetória de um esportista pode envolver atuações em diferentes frentes. Um atleta pode e deve planejar sua trajetória, exercício constante que todos nós deveríamos fazer. Porém, sabemos que o cenário, a saúde e condições físicas e mentais das pessoas podem mudar: coisas que nunca aconteceram ou foram sequer previstas podem acontecer e acontecem todos os dias.

Pessoas não atletas ou atletas não profissionais podem adquirir o gosto de treinar na maturidade, quando possuem mais tempo e decidem dedicar-se a algum Hobbie. A Federação Internacional de Tênis introduziu em 2021 a categoria de tenistas “super seniors” em seus torneios, para atletas com mais de 90 anos.
A bifurcação da trajetória do atleta para uma posição de gestão é também uma alternativa viável, assim como qualquer outro caminho de interesse, desde que haja preparo para que isso ocorra.

É certo que vamos viver mais. Com o prolongamento da longevidade, é de se esperar que os parâmetros etários sejam estendidos para todas as atividades, incluindo profissionais e esportivas. Maiores cuidados com a saúde contribuem para isso, assim como o combate ao etarismo.

Crédito da imagem: Shutterstock, com inteligência artificial

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