Estratégia e Execução

Desenhe futuros, porque todo amanhã começa hoje

O design de futuros é um processo divergente-convergente, com fases exploratórias e decisórias; oito orientações ajudam a construir caminhos de futuro no curto, médio e longo prazo
Gustavo Donato é reitor, professor titular e pesquisador da FEI, onde também preside o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão; e já atuou como head de inovação. Preside o Conselho Deliberativo do Instituto Brasil Digital.

Compartilhar:

O campo multidisciplinar do design de futuros, que combina análise de dados, tendências emergentes, criatividade, desenvolvimento de cenários e capacidade decisória, cria uma base coerente e robusta para a tomada de decisões estratégicas envolvendo crescimento, inovação e perenidade. Mais do que antever o amanhã (não se deve confundir design de futuros com o que se denomina futurismo), essa abordagem visa moldar o próprio futuro como indivíduo ou organização por meio de visões analíticas, transformações suficientemente planejadas e ações concretas no hoje com impactos do curto ao longo prazos.

Um relatório do Fórum Econômico Mundial mostra que empresas que investem na exploração do futuro estão melhor preparadas para se adaptarem às mudanças rápidas e às incertezas do mundo atual. Ao invés de serem meras espectadoras, essas organizações se tornam agentes de transformação, determinando ativamente os caminhos que seguirão e que definirão o campo competitivo do mercado.

Em um mundo marcado pela velocidade e crescentes transformações, o design de futuros oferece uma bússola confiável para navegar o desconhecido de forma proativa e propositiva. Para além das competências técnicas e comportamentais tão amplamente discutidas e essenciais, o letramento em futuros (sim, no plural) foi apontado em 2022 pelo Fórum Econômico Mundial como a primeira de três competências-chave para o profissional do século 21 em um cenário pós-pandêmico, junto da esperança e da fraternidade.

As transformações e aumentos de velocidades recentes não permitem planejamento de longo prazo baseado na abordagem usual de forecast (previsão) lastreada por modelos calibrados por dados do passado e suas extrapolações; a mentalidade e os raciocínios devem migrar para o campo do foresight estratégico, que é muito mais voltado ao desenvolvimento de visões, cenários e então decisão estratégica, transposição a valor presente e implementação diligente e adaptável dos roadmaps resultantes (que podem envolver tecnologias, pessoas, modelos de negócio, mercados…). É um processo divergente-convergente, respectivamente nas fases exploratórias e decisórias, mas que resulta em portfólios que combinam o core business com novas iniciativas e fornece robusta base estratégica para a inovação e perenidade das organizações ou trajetórias profissionais.

## Oito maneiras de começar a construir o amanhã
Para auxiliar nesse processo, compartilho orientações iniciais para quem se interessar por conhecer o assunto e construir perspectivas no presente que vão ajudar a definir caminhos de curto, médio e longo prazos:

### 1. Entenda a perspectiva do letramento em futuros
Complementando o breve contexto apresentado, vale a leitura do artigo da UNESCO “Futures Literacy: An essential competency for the 21st century”.

### 2. Defina com clareza o escopo e horizonte de futuro que pretende vislumbrar
Por exemplo, você quer vislumbrar o futuro da mobilidade a caminho de 2050. Mesmo nas fases de exploração, nas quais a diversidade de perfis dos participantes do processo e mesmo as fontes e temáticas de pesquisa devem ser bastante amplas, é importante que todos tenham claro o objetivo a se desenhar, ou seja, o futuro de um setor (ou de uma tecnologia, ou de um profissional) e o horizonte temporal vislumbrado (idealmente décadas adiante, para ampliar a capacidade de inovação dos cenários). É recomendável, especialmente nos casos corporativos, que o processo seja conduzido em grupo e de forma participativa.

### 3. Explore os sinais do futuro
Nessa fase, o objetivo é ampliar a consciência sobre os possíveis futuros e compreender a dinâmica e os principais drivers das mudanças. Para tal, no macro, pesquise e mapeie as megatendências 2040 ou 2050 (também chamadas macro forças) de interesse, as quais fogem ao nosso domínio de influência – pense de forma ampla, considerando questões demográficas, tecnológicas, econômicas, geopolíticas, entre outras; em seguida, pesquise e documente os sinais e elementos de transformação (tanto explícitos como, principalmente, os mais disruptivos e menos óbvios) do setor de interesse e daqueles potencialmente sinérgicos. Somente ao final, e para estruturar e garantir a completude das influências identificadas, faça uma classificação dos drivers segundo uma análise PESTEL (Political, Economical, Social, Technological, Environmental, Legal). Garanta que não deixou nada de alta criticidade para trás. Também ajudará, para cada um, identificar os níveis de probabilidade, de impacto e se se relacionam a curto, médio ou longo prazos.

### 4. Passe então à construção de cenários
Construa cenários que representem visões alternativas e auspiciosas para o futuro, prezando por desafiar hipóteses correntes ou limitantes. Lembrem-se de que não há certo e errado no desenvolvimento de cenários, podendo ser altamente desafiadores, desde que consistentes e plausíveis. Desenvolva pelo menos quatro cenários, explorando de forma combinatória pares de dicotomias/polaridades – por exemplo para mobilidade: híbrido ou elétrico; propriedade ou as a service. A lógica pode ser adaptada a todas as polaridades que se desejar apreciar, gerando cenários variados – e não se esqueça de desenvolver um breve e envolvente storytelling para cada cenário, o que dá clareza e trará as equipes à discussão. Ao final, aplique a lógica dos cones de futuros, apresentada por Hancock & Bezold em 1994 no artigo “Possible futures, preferable futures”, o que ajudará na avaliação dos níveis de impacto, plausibilidade e incerteza envolvidos nos cenários.

### 5. Traga (os futuros) a valor presente
Selecionados os cenários de maior interesse, ou os preferíveis, busque trazer a valor presente conectando esse futuro vislumbrado com um timeline de grandes passos e/ou iniciativas a partir do hoje para que se possa entregá-lo com sucesso. Surgirá então um roadmap preliminar que pode incluir programas, projetos, pessoas-chave, tecnologias e iniciativas específicas necessárias em variados horizontes temporais, suportando a fase posterior de decisão e formulação estratégica. Vale notar que a mesma lógica pode ser aplicada a futuros indesejáveis, com ações para mitigação e gestão de riscos (corporativos ou pessoais de carreira).

### 6. Compreenda estrategicamente o cenário e tome a decisão
Avalie de forma crítica as implicações estratégicas e de mercado do cenário e roadmap desenhados, especialmente de longo prazo e impactados por eventuais fatores exógenos (uma espécie de stress test), e então tome as decisões para sequência. Favoreça que o processo seja dialógico com as equipes, garantindo que a visão seja compartilhada, influencie positivamente a cultura e cada um se sinta pertencido.

### 7. Detalhe a estratégia e faça uma execução diligente, com experimentação controlada
Nessa fase, é de grande utilidade desenvolver um Canvas para a Proposta de Valor e um segundo Canvas para o modelo de negócio, além das atividades típicas de detalhamento estratégico e tático-operacional. Durante a implantação, use a mentalidade de experimentação controlada e métodos ágeis, permitindo correções de rota e adaptabilidade.

### 8. Pratique o aprendizado contínuo
Cultive a cultura de aprendizado contínuo e aberto à mudança. Isso possibilita que a organização se adapte e evolua à medida que novas transformações de horizonte se apresentem.

__AO CONSIDERAR ESSES PONTOS__ para navegar pelas incertezas (e oportunidades, por vezes ocultas) de forma mais estratégica e inovadora, cria-se a consciência da necessidade de se desenhar futuros desejáveis para as organizações e profissionais, e as lideranças conseguem direcionar melhor os rumos e o atingimento dos objetivos propostos. Se você deseja se transformar e causar impacto de fato, fortaleça seu letramento em futuros e seja proativo, criativo e crítico, hoje, na construção de futuros auspiciosos para sua vida e seus negócios no amanhã.

Crédito da imagem: Shutterstock, com inteligência artificial (inspirada em Marc Chagall)

Compartilhar:

Artigos relacionados

O luxo não vende exclusividade. Vende uma nova forma de viver.

Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

ROA, ROE e EBITDA estão ficando obsoletos?

O mercado aprendeu a medir estoques, fábricas e patrimônio físico. Mas como medir inteligência, dados e conhecimento? O desafio das empresas hoje não é apenas criar valor, mas desenvolver métricas capazes de reconhecê-lo.

O sucesso de ontem pode ser o maior risco do seu negócio

Da Kodak aos desafios da economia digital, a história dos negócios mostra que organizações raramente fracassam por um único erro. Elas perdem relevância quando insistem em estratégias, processos e crenças que deixaram de responder às transformações do mercado.

Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
12 de julho de 2026 13H00
Durante décadas, o mercado tratou a satisfação do cliente como prioridade absoluta. Este artigo questiona os limites dessa lógica e mostra como a normalização de abusos, agressões e desgastes emocionais está afetando a saúde mental dos trabalhadores e comprometendo a própria cultura das organizações.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
12 de julho de 2026 08H00
Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

Bruno Mazanek - CEO da Zanek

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Finanças
11 de julho de 2026 14H00
O mercado aprendeu a medir estoques, fábricas e patrimônio físico. Mas como medir inteligência, dados e conhecimento? O desafio das empresas hoje não é apenas criar valor, mas desenvolver métricas capazes de reconhecê-lo.

Carolina Almeida Cruz - Cofundadora e CEO da C-MORE

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de julho de 2026 08H00
Enquanto o sonho do hexa mobilizou milhões de brasileiros, outro fenômeno também ganhou força fora dos gramados. Este artigo discute como o avanço das apostas online está influenciando a relação dos jovens com dinheiro, educação e carreira, e por que empresas e líderes não podem ignorar seus efeitos sobre o futuro do trabalho.

Rodrigo Santos - Psicólogo e tutor educacional na Leapy

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de julho de 2026 14h00
O futuro dos caminhões no Brasil será multienergético, e a engenharia nacional terá papel decisivo nessa transformação. Este artigo mostra por que a transição energética do transporte de cargas dependerá da combinação entre múltiplas fontes de energia, inovação tecnológica e soluções adaptadas à realidade do país.

Eduardo Oliveira - Diretor de Engenharia da IVECO para a América Latina

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança
10 de julho de 2026 08H00
Da Kodak aos desafios da economia digital, a história dos negócios mostra que organizações raramente fracassam por um único erro. Elas perdem relevância quando insistem em estratégias, processos e crenças que deixaram de responder às transformações do mercado.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Inovação & estratégia, Liderança
9 de julho de 2026 15H00
O maior risco da sucessão não é a troca de comando. É deixar para depois. Este artigo mostra por que a continuidade dos negócios depende menos dos herdeiros e mais da preparação, da governança e da capacidade de construir o próximo ciclo de crescimento.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio da FC Partners

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
9 de julho de 2026 08H00
A inteligência artificial já consegue executar boa parte do trabalho operacional. O que ela ainda não faz é dar sentido, construir confiança e imaginar futuros. Este artigo mostra por que o verdadeiro gargalo das empresas deixou de ser tecnológico e passou a ser a forma como lideram, colaboram e tomam decisões.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de julho de 2026 15H00
A inteligência artificial deixou de ser um projeto da área de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de todas as áreas da empresa. O problema é que, em muitos casos, sua adoção avança mais rápido do que os mecanismos de segurança, compliance e governança capazes de sustentá-la.

Rodrigo Hülsenbeck - CEO da Premiersoft

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
8 de julho de 2026 08H00
A maior vulnerabilidade da era da IA pode não estar nos profissionais juniores, mas nos cargos criados para coordenar fluxos e transmitir informações. O que acontece quando a tecnologia passa a fazer isso melhor, mais rápido e mais barato?

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo