Uncategorized

Dividir para multiplicar?

O processo que deve ser completado pela HP no final de 2015 pode mostrar quando e como vale a pena realizar uma cisão nos negócios e, ainda, tirar o estigma que a ferramenta tem de “admissão do fracasso”, tornando-a estratégica para CEOs
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

Compartilhar:

Um dos acontecimentos empresariais de 2015 será, sem dúvida, a divisão da HP em duas empresas, de uS$ 50 bilhões de receita anual cada uma. pode ser uma espécie de rubicão do mundo corporativo. Entre os especialistas que chamam a atenção para a relevância da movimentação da gigante da informática está Emilie Feldman, da Wharton School, que se dedica ao tema. Segundo ela, a operação poderá criar conhecimento para as cisões que ocorrerem daqui por diante, servir de base para definir quando a cisão é um caminho que gera valor aos acionistas, e talvez marcar o fim de anos de crescimento por aquisições –eliminando o estigma atual de que a cisão é um reconhecimento do fracasso, ou a “filha feia” da estratégia, e fazendo com que os CEOs usem a opção proativamente. 

A HP, com faturamento na casa de uS$ 112 bilhões anuais, dará origem à Hewlett-packard Enterprise e à Hp inc. a primeira terá foco em infraestrutura tecnológica, software e serviços para clientes corporativos, enquanto a segunda se dedicará aos negócios de computadores pessoais e impressoras. Em outras palavras, elas querem que o foco as ajude a surfar melhor nas ondas atuais. para a Hp Enterprise, a onda é o “novo estilo de TI” –computação em nuvem, grandes bancos de dados, segurança, mobilidade–, sempre do ponto de vista dos clientes corporativos. para a Hp inc., a onda são os smartphones e os tablets, que ainda não conseguiu aproveitar, e até os computadores pessoais, onde vem perdendo terreno.

**CONHECIMENTO** 

Qual é a melhor maneira de dividir uma empresa em duas? Essa é uma pergunta ainda sem respostas suficientes. Há muitos aspectos delicados a considerar em um processo assim –tão delicados ou mais do que os de uma integração, uma vez que os estudos de neurociência já mostraram que perdas encontram maior resistência do cérebro humano. 

Questões como identidade e cultura, relacionamentos com stakeholders em geral (fornecedores, clientes e os próprios colaboradores) e distribuição de recursos são pontos potenciais de conflitos –ou de produtividade. um processo de cisão, na opinião de José paulo Rocha, sócio-líder da área de finanças corporativas da firma de consultoria Deloitte no Brasil, é complexo. “O processo de separação de negócios não é trivial, porque em geral as empresas têm um compartilhamento de recursos, como de pessoal e infraestrutura, chegando até a não ter fronteiras entre seus diversos negócios. 

Para não gerar ineficiência econômica, a cisão exige preparação prévia, planejamento e muitas vezes investimento. caso contrário, o custo pode ser alto, e o sacrifício, não valer a pena”, pondera. Isso significa que a geração de valor para os acionistas não são favas contadas em uma cisão. No caso da HP, a CEO Meg Whitman se disse convencida de que o valor será criado. “Geraremos valor de longo prazo para os acionistas”, atestou ela em um comunicado à imprensa no fim do ano passado.

**QUANDO FAZER**

Rocha, da Deloitte, explica que a cisão deve ser levada em conta sempre que houver fatores financeiros e/ou estratégicos que a justifiquem. Mostra-se uma alternativa para empresas com alguma dificuldade financeira, uma vez que as ajuda a obter recursos. ao se cindirem, as organizações em geral reduzem um pouco do tamanho, diminuem o capital de giro necessário e podem eventualmente receber recursos com a venda de ações ou partes a terceiros. 

Já a decisão estratégica é motivada pela percepção de que não se está tendo sucesso em alguma frente do negócio. “Quando uma empresa se diversifica, por exemplo, pode não obter sucesso com o que não é seu core business”, explica rocha. algumas cisões ainda podem acontecer para que a empresa se desfaça de alguma unidade geográfica, embora seja raro –como se, no Brasil, uma empresa se separasse em duas, uma do Nordeste e outra do Sudeste, por exemplo. a decisão de construir as duas novas Hps é considerada correta segundo esse raciocínio, em especial no campo estratégico, na medida em que foco, independência e flexibilidade permitirão às duas empresas aproveitar as oportunidades derivadas das rápidas dinâmicas de mercado, o que não vem acontecendo hoje. mas e quanto ao timing? alguns analistas acreditam que a decisão está atrasada, porque as motivações já estavam dadas desde antes de 2011. a professora Feldman, de Wharton, discorda, como disse ao site Knowledge@Wharton. “Era preciso tempo suficiente da expansão da Hp por meio de aquisições [Compaq, EDS, 3Com, Palm etc.] e, agora, já se passou.” 

**FIM DE UMA ERA**

Nos últimos dois anos, o mercado norte-americano está assistindo a um número maior de divisões de empresas. Dois exemplos são a eBay, que promoveu a cisão da PayPal, e a Symantec, que admitiu planos de ter dois negócios: um focado em segurança e outro em gestão da informação. isso pode representar o fim da febre de fusões e aquisições que já dura décadas. No Brasil, por enquanto, o forte continua a ser a consolidação, conforme rocha, como tem sido nos últimos 15 anos, o que é explicado pela busca por ganho de eficiência. Mas pondera-se que talvez seja apenas uma questão de ciclo de vida. a cisão da Hp deve contabilizar mais de 90 mil demissões entre os 317 mil colaboradores que havia. No entanto, mesmo assim, meg Whitman pode deixar seu nome na história com o uso dessa ferramenta.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Mudar para continuar o mesmo

Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

SOMPO Holdings: da crise provocada por si mesma a uma transformação guiada por propósito

Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Por que lavar as mãos ainda é uma das maiores armas da medicina?

Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Vamos falar sobre vendas?

Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
14 de julho de 2026 08H00
Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de julho de 2026 14H00
Dados mostram o avanço da solidão no ambiente de trabalho, especialmente entre profissionais remotos. O texto propõe uma reflexão sobre como relações de confiança, segurança psicológica e capacidade de convivência se tornaram ativos estratégicos para a saúde organizacional.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de julho de 2026 08H00
Durante décadas, empresas competiram por telas, cliques e atenção. Agora, à medida que agentes inteligentes passam a interpretar intenções e executar tarefas, o valor começa a migrar para outro lugar: dados, contexto e capacidade de decisão.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
12 de julho de 2026 13H00
Durante décadas, o mercado tratou a satisfação do cliente como prioridade absoluta. Este artigo questiona os limites dessa lógica e mostra como a normalização de abusos, agressões e desgastes emocionais está afetando a saúde mental dos trabalhadores e comprometendo a própria cultura das organizações.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
12 de julho de 2026 08H00
Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

Bruno Mazanek - CEO da Zanek

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo