Uncategorized

Don Tapscott e a Revolução do Blockchain

Nesta entrevista, o consultor canadense explica por que a tecnologia que sustenta a criptomoeda tem potencial para revolucionar a economia mundial
Editor-chefe sênior da McKinsey Publishing e trabalha no escritório da McKinsey em Nova York.

Compartilhar:

**Vale a leitura porque…**

… cada vez mais especialistas acreditam que o blockchain revolucionará o mundo dos negócios tanto quanto a internet – ou até mais.

… a ruptura representada pela tecnologia trará tanto oportunidades como ameaças.

… a realidade avança mais rápido do que a projeção. A primeira corporação autônoma (DAO), baseada em blockchain, já nasceu: o DAOhub. 

No início dos anos 1990, a mídia era centralizada, controlada por forças poderosas e com receptores passivos. A nova mídia, a web, é, ao contrário, altamente distribuída; todo mundo é participante, não receptor inerte. Essa incrível neutralidade tem o potencial de criar uma sociedade muito mais igualitária e próspera, onde todos possam compartilhar a riqueza que produzem. Muitas coisas boas vêm acontecendo de fato, mas, em geral, os benefícios da era digital são assimétricos, pertencem a uma pequena porção de empresas que transformam os dados em lucros ou a governos poderosos que utilizam esses dados para nos espionar. 

**SAIBA MAIS SOBRE DON TAPSCOTT**

**Quem é:** Consultor canadense especializado em estratégia corporativa, transformação organizacional e o papel da tecnologia nos negócios e na sociedade e professor da Rotman School of Management, da University of Toronto.

**Seus livros:** É autor de 15 livros sobre tecnologia e negócios, entre eles o best-seller mundial Wikinomics: Como a Colaboração em Massa Pode Mudar o Seu Negócio.

E se houvesse uma internet de segunda geração que permitisse a troca de valor verdadeira, peer-to-peer?

Don Tapscott, que há 35 anos estuda a era digital, acaba de lançar com seu filho, Alex, o livro Blockchain Revolution: How the Technology Behind Bitcoin Is Changing Money, Business, and the World, que trata da tecnologia que, acredita ele, viabilizará esse compartilhamento de valor entre todos. Segundo Tapscott, o blockchain poderá facilitar a colaboração e o rastreamento de todos os tipos de transações e interações, oferecendo uma privacidade genuína e tornando-se “uma plataforma para a verdade e a confiança”.

O blockchain é um banco de dados de distribuição livre que usa criptografia de última geração. Ele pode mudar tudo o que fazemos, porque não precisaremos mais de fiadores. Se hoje, quando vamos enviar dinheiro a alguém, temos de passar por um banco, uma operadora de cartão ou um órgão governamental que autentique quem somos e quem é nosso receptor, poderemos fazer operações diretamente com base em um protocolo de confiança provido pelo blockchain. 

Quando Satoshi Nakamoto criou o protocolo bitcoin [leia reportagem a respeito na HSM Management nº 116], o gênio da tecnologia mais uma vez saiu de sua lâmpada. A internet pode estar nascendo de novo, como mostram os principais trechos desta entrevista de Tapscott, editada em tópicos.

**COMO FUNCIONA**

“O blockchain é basicamente um banco de dados distribuído por milhões de computadores que utiliza criptografia de última geração. É livre, o que significa que qualquer um pode mudar o código subjacente e ver o que está acontecendo ali, e realmente direto, pois não exige intermediários poderosos nas transações. 

Esse banco de dados pode registrar qualquer tipo de informação estruturada, não apenas quem pagou a quem, mas também quem se casou com quem, quem possui qual terra ou que lâmpada usou energia de qual fonte. Isso faz com que seja adequado à internet das coisas, porque será preciso estabelecer trilhões de transações em tempo real entre objetos, algo que as instituições financeiras, por exemplo, não conseguirão fazer. 

O blockchain é algo impossível de hackear e, por isso, tem sido considerado uma plataforma para a verdade e para a confiança. Suas implicações são surpreendentes, não só para a indústria de serviços financeiros, como para quase todos os aspectos da sociedade.

Para mim, o blockchain é a maior inovação da história da ciência da computação. Refiro-me à ideia de uma base de dados distribuída, na qual a confiança é estabelecida por meio da colaboração em massa e por códigos inteligentes, em vez de precisar de uma instituição poderosa que faça a autenticação e o acordo.

Se eu lhe devo US$ 20 e fazemos a transação para que eu lhe pague, isso será autenticado por uma grande comunidade de ‘mineradores’, pessoas que têm um poderoso recurso de computação. Só para falar do bitcoin, que é o maior dos blockchains hoje, alguns estimam que toda a capacidade de processamento do Google equivaleria a 5% do poder da capacidade de processamento do bitcoin.

Como os mineradores conseguem autenticar a transação? Cada um deles é incentivado a se tornar o primeiro a descobrir a verdade, e esta, uma vez descoberta, se torna evidência para todo mundo. Quando o minerador descobre a verdade, ele recebe dinheiro em bitcoins. 

Essa plataforma resolve o enorme ‘problema de cobrança dupla’. Sabe como? Para eu conseguir enviar os mesmos US$ 20 para outra pessoa (ou pegar o dinheiro de volta), teria de tentar hackear o que o minerador recebeu, e isso não é possível, porque há um bloqueio de 10 minutos. Também há um bloqueio de 10 minutos no minerador antes dele, no outro, no outro, e assim por diante. Há bloqueios em cadeia. Como o blockchain envolve um sem- -número de computadores de mineradores, cometer fraude fica praticamente inviável. 

Esse banco de dados distribuído nos permite ter um registro fiel e imutável de tudo e não depende de um país, porque está espalhado pelo mundo inteiro.” 

**MUDANÇAS**

“A indústria de serviços financeiros pode viver grandes transformações. Na pesquisa para o Blockchain Revolution, identificamos oito coisas que essa indústria faz: movimenta dinheiro, armazena dinheiro, empresta dinheiro, troca dinheiro, atesta dinheiro, e assim por diante. E tudo isso pode ser modificado com o blockchain.

O mesmo vale para qualquer indústria. Um exemplo é a da música. É um desastre, pelo menos do ponto de vista dos artistas. Eles costumavam ter a maior parte de seu valor tomado por grandes selos e, hoje, as empresas de tecnologia ficam com a parte do leão. 

Agora, imagine se a nova indústria da música fosse um aplicativo distribuído no blockchain em que eu, como compositor, pudesse postar minhas músicas com um contrato inteligente especificando a forma de uso. Eu diria: ‘Essa música é grátis para você ouvir agora, mas, se quiser usá-la em seu filme ou como toque de seu celular, tem de me pagar x, e um contrato inteligente me garantirá o pagamento’. 

Não é ficção. Imogen Heap, cantora e compositora brilhante do Reino Unido com recorde de vendas, está participando da criação da Mycelia e trabalha com uma empresa incrível chamada Consensus Systems, que atua no mundo todo, de desenvolvedores de blockchain que usam a plataforma Ethereum; Ethereum é um blockchain. Ela já postou sua primeira música na internet e espero que muitos grandes artistas venham a fazer isso.”

**O QUE PODE SAIR ERRADO**

“Não sou futurista. Acredito que o futuro não deve ser previsto – é algo a ser alcançado. No entanto, identificamos dez obstáculos e os analisamos detalhadamente em nossa pesquisa. Um deles é a energia consumida para o blockchain funcionar, que é gigantesca; outro, a possibilidade de essa tecnologia ser o novo exterminador de empregos. 

Os maiores problemas talvez tenham a ver com governança. Diferentemente da internet, que é um ecossistema de governança sofisticado, o universo de blockchain e moedas digitais é selvagem como o Velho Oeste norte-americano, um lugar de imprudência, caos e calamidade, ou seja, pode matar se não encontrarmos uma liderança que una e crie organizações equivalentes às que temos para a governança da internet. 

Para esta, temos a Internet Engineering Task Force e o W3C Consortium, que desenvolvem padrões para a rede. Contamos também com o Internet Governance Forum, que cria políticas para governos. E há a Internet Society, que é um grupo de apoio. Temos a Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (Icann), rede operacional que apenas entrega os nomes de domínio. Há uma estrutura e um processo para descobrir as coisas. 

Agora, precisamos disso para o blockchain. Eu tenho esperanças de que isso aconteça.”

**O QUE ESTÁ EM CURSO E O QUE FALTA ACONTECER**

“Para mim, é como se estivéssemos novamente nos anos 1990 [quando a internet começou a se popularizar]. Temos os investidores mais inteligentes, os programadores mais inteligentes, os executivos mais inteligentes, as pessoas em bancos mais inteligentes, o governo mais inteligente e os empresários mais inteligentes trabalhando nisso. Isso sempre é sinal de que algo grande está acontecendo. Em 2015, US$ 1 bilhão foi gasto em investimentos na área e consigo ver o poder das aplicações baseadas em blockchain: vão intervir positivamente em muita coisa. 

Tenho muita esperança. Em vez de simplesmente redistribuir a riqueza, talvez possamos mudar o modo como é distribuída. 

Imagine todas essas pessoas que carregam um supercomputador no bolso [o smartphone] e estão conectadas a uma rede, mas não têm uma conta no banco porque possuem apenas alguns porcos e galinhas. Essa é a conta bancária delas. Haveria 2 bilhões de pessoas entrando no sistema financeiro global. 

Calcula-se que 70% de todos os donos de terras não têm um título registrado que comprove a propriedade e podem perdê- -las a qualquer momento. Imagine poder mudar isso. 

Imagine um mundo em que a ajuda filantrópica não fosse consumida pela burocracia, mas chegasse diretamente ao beneficiário sob um contrato inteligente. Ou então um blockchain de Airbnb, que faria cada proprietário de imóvel ficar com o lucro, em vez do dono do aplicativo. Isso tudo tem a ver com o valor que vai para os criadores de valor e não para forças poderosas que hoje o capturam. 

Imagine usar a internet e poder proteger a privacidade, um direito humano fundamental e a base de uma sociedade livre. Está tremendamente mal informado quem diz que a privacidade morreu. Basta que cada um de nós tenha a própria identidade em uma caixa-preta no blockchain. Quando fizermos uma transação, será a caixa-preta que proverá as informações necessárias para concretizá-la e que coletará dados, e ninguém terá acesso a ela. Manteremos nossos dados e apenas se quisermos os venderemos para lucrar com isso.

Sei que ainda não conseguimos fazer essas coisas, mas estou convencido de que, com o blockchain, poderemos fazê-las. Sinceramente, nunca vi uma tecnologia com tanto potencial para a humanidade.”

**Você aplica quando…**

… começa a monitorar os usos que têm sido dados à tecnologia blockchain.

… faz projeções de como ela pode se encaixar em seu negócio.

… utiliza o cenário de um mundo modificado pelo blockchain em seu planejamento de longo prazo.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Autoridade não se mede em decibéis

Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Hyper-growth: o desafio não é acelerar, é sustentar a velocidade

O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

O tamanho da sua bolha define o tamanho das suas decisões

Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

O que os Niyamas podem ensinar sobre consciência, disciplina e evolução organizacional

Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura
Cultura organizacional
2 de outubro de 2026 08H00
Medo e pressão são ótimos para o resultado. Desde que você não precise das mesmas pessoas no trimestre seguinte.

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Comunicação, Estratégia
1º de outubro de 2026 14H00
Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

Caetano Tona - Fundador da Life Lab, TEDx Organizer e Professor de Comunicação na ESPM

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de outubro de 2026 08H00
A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Carol Martins - CEO da SOAP

Oferecido por SOAP
3 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
30 de setembro de 2026 14H00
Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.

Juliana Tubino - Cofundadora do Ecossistema Octo e coautora do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

6 minutos min de leitura
ESG
30 de setembro de 2026 08H00
Dados recentes mostram uma queda significativa na representação de grupos historicamente sub-representados na comunicação das empresas. Mais do que uma questão de imagem, a mudança reacende discussões sobre consistência, coragem institucional e a capacidade das marcas de sustentar seus valores quando eles deixam de ser consenso.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de setembro de 2026 14H00
Dois jovens iniciaram a carreira no mesmo programa de trainees, com formações semelhantes e perspectivas promissoras. Trinta anos depois, vivem realidades profissionais e financeiras muito diferentes. A partir dessa história, o artigo propõe uma reflexão sobre como empresas podem contribuir para trajetórias mais sustentáveis e equitativas ao longo de toda a vida.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de setembro de 2026 08H00
Enquanto algumas organizações reduzem contratações de profissionais em início de carreira graças aos ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial, outras fazem exatamente o oposto e ampliam seus programas de formação. O motivo é simples: toda vaga júnior eliminada hoje pode se transformar em uma escassez de profissionais experientes amanhã.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
28 de setembro de 2026 14H00
Lideranças são constantemente cobradas a desenvolver equipes engajadas, seguras e resilientes. Mas o que acontece quando elas recebem a responsabilidade pela mudança sem tempo, recursos ou autonomia para promovê-la? Uma reflexão sobre o limite entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional.

Indira Leite - Consultora em Educação Corporativa e Mestre em Psicologia Organizacional, Especialista em Engajamento de Equipes.

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução