Tecnologia e inovação

E a Justiça brasileira também se transforma

Pode-se dizer que a transformação digital da administração pública é uma marca da metaeconomia. E, no ranking do Banco Mundial de governos mais digitais, o Brasil perde só para a Coreia do Sul, superando estrelas digitais como Arábia Saudita, Emirados Árabes, Estônia, França, Índia e Rússia. Como? O poder judiciário é exemplo a observar.
__Ademir Piccoli__ é CEO da J.EX - Judiciário Exponencial, empresa de consultoria em inovação especializada na área que organiza um prêmio de inovação no setor. Lançou em 2022 o livro Inovação no Ecossistema de Justiça, escrito com Bernardo de Azevedo e Souza. É organizador de programas de imersão em lawtechs com a SingularityU Brazil.

Compartilhar:

Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) instituiu o sistema Processo Judicial Eletrônico. O quadro era preocupante: apenas 30% dos processos da Justiça brasileira estavam digitalizados. Agora, segundo último relatório do CNJ, o índice atingiu 98%. São dez anos, mas dado o tamanho desse sistema, o avanço é significativo.

O leitor tem ideia desse tamanho? Em 2022, entraram 31,5 milhões de casos novos em todos os segmentos de Justiça, segundo o CNJ. O total de processos julgados foi de 29,1 milhões e o estoque de processos em tramitação ao final era 81,4 milhões. Detalhe: houve um crescimento de cerca de 10% de casos novos e julgados sobre 2021.

A digitalização torna as informações mais acessíveis a todos os envolvidos em um processo judicial, incluindo advogados, partes e a sociedade em geral, o que contribui para a transparência e a prestação de contas à sociedade como um todo. A introdução de inteligência artificial, análise de dados e automação, além de mediações e julgamentos em formato online, também têm permitido uma gestão mais eficiente e rápida dos processos judiciais. Segundo o CNJ, os processos eletrônicos têm, em média, tempo de tramitação reduzido em cerca de um terço na comparação com o tempo registrado nos processos físicos – ações que tramitam em sistemas eletrônicos têm duração média de 3 anos e meio para a conclusão, enquanto as processadas na forma física aguardam quase 11 anos. Isso altera o trabalho dos magistrados e também a gestão, ou seja, o trabalho de servidores e diretores.

Em 2022, a Defensoria Pública de São Paulo atendeu mais de 2 milhões de pessoas com o aplicativo de mensagens WhatsApp. É como se, considerando que os anos têm cerca de 250 dias úteis, fossem atendidas 8 mil pessoas por dia. Você acredita que haveria essa capacidade de atendimento presencial mesmo nos sonhos mais otimistas? Melhor ainda: há condições de a Defensoria atender 29 milhões de pessoas, a demanda estimada, já que a nuvem que abriga os dados é elástica.

E, além do atendimento prestado – do qual aqueles que residem em Comarcas do Estado com acesso mais restrito a atendimento presencial ou têm dificuldades de locomoção se beneficiaram especialmente –, o app é usado para lembretes, atualizações e esclarecimento de dúvidas.

Exemplos não faltam. Cito o agendamento online dos serviços de solução de conflitos da Defensoria Pública do Estado da Bahia. Lembro o atendimento online para débitos inscritos em dívida ativa oferecido pela Procuradoria Geral do Estado da Bahia. Registro o Juízo 100% Digital, dentro dos Núcleos de Justiça 4.0, criações de 2020/2021, que permitem ao cidadão ter acesso à Justiça sem comparecer fisicamente a fóruns; já há 194 dessas unidades judiciárias em funcionamento, voltadas ao atendimento de demandas especializadas com competência sobre a área territorial que fica nos limites da jurisdição do tribunal.

O próprio enfrentamento da crise sanitária da covid-19 em 2020 e 2021, que poderia ter paralisado a Justiça brasileira e agravado a crise ainda mais do que já aconteceu, deve-se a esse esforço de transformação digital e inovação. O que vimos foi o contrário de estruturas paralisadas, que talvez fosse a expectativa geral.

Também poderia me demorar aqui em exemplos de projetos para inclusão de pessoas com deficiência, monitoramento de queimadas e desmatamentos, emprego de mulheres em situação de vulnerabilidade, reconhecimento facial, verificação da ficha limpa, contra violência doméstica, ressocialização, ligados aos órgãos de Justiça.

## Dois desafios

O Brasil é um país com dimensões continentais, no qual nem toda jurisdição tem acesso pleno à internet, à tecnologia. Talvez esse seja um dos principais desafios à transformação digital da Justiça: democratizar o acesso à internet em toda Comarca brasileira. Segundo dados da Anatel, só 53,5% dos moradores rurais têm cobertura móvel – e, possivelmente, acesso à internet – ainda; entre os moradores urbanos, como comparação, a cobertura sobe para 99,6%. A equidade no acesso à tecnologia é crucial para evitar a criação de disparidades no processo judicial.

Outro desafio é cultural. Cada pessoa integrante do ecossistema de Justiça tem de perceber que não é o investimento em tecnologia em si que faz as mudanças; são os novos pensamentos e posturas adotados. A ideia da Justiça como algo pouco acessível é a primeira que tem de cair por terra. Os valores que devem ganhar espaço são outros: cooperação, adaptação, flexibilidade, inclusão, sustentabilidade, participação e empatia.

__Para um produto digital ser implantado na justiça__, colhem-se ideias, criam-se projetos, montam-se grupos de trabalho, desenvolvem-se aplicativos e estes agilizam entregas. Há milhares de projetos de inovação em andamento hoje e, em sua maioria, utilizam a inteligência artificial. As ideias podem vir de qualquer funcionário em geral. Em alguns lugares, já há laboratórios de inovação estruturados, como na Justiça Federal de Minas Gerais.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O retorno ao escritório e a ilusão do controle

O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

O RH precisa parar de provar que é importante

Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

O que a Odisseia pode ensinar às empresas sobre liderança e crise

Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

A confiança é a nova infraestrutura da velocidade

Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Quanto vale uma franquia da Omie?

Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Como a inteligência artificial pode destravar R$ 2,5 trilhões em crédito

Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
4 de agosto de 2026 de 2026
Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

3 minutos min de leitura
Liderança
3 de agosto de 2026 14H00
Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo