Uncategorized

É bom ter falsificadores

A compreensão da influência social ressignifica o papel dos imitadores
Este artigo é baseado nos highlights do livro O Poder da Influência – As Forças Invisíveis que Moldam Nosso Comportamento, de Jonah Berger, recém-lançado pela HSM. Berger é professor e pesquisador da Wharton School, autor do best-seller Contágio.

Compartilhar:

A Raindrop Besace, da Louis Vuitton, é uma bolsa à prova d’água de US$ 1.960 feita de um material que lembra um saco de lixo. É um saco de lixo de verdade, para jogar lixo fora. 

Esses sacos marrons, adornados com o famoso padrão dourado de flores com quatro folhas, são o presente perfeito para qualquer amigo sofisticado, aquele que acha que o lixo dele é melhor do que o lixo dos outros. 

Porém, antes de começar a se perguntar como é que o mundo chegou a esse ponto, vale a pena dar uma olhada atenta nessa bolsa na internet. Ali se vê o inconfundível monograma “LV”, que compõe o design do padrão da marca? Em muitas, não. São réplicas. 

Da Louis Vuitton à Lego, do Rolex ao Ray-Ban e à Nike, quase 10% do comércio global envolve produtos falsificados. Por ano, US$ 0,5 trilhão de dólares que pertenceria por direito a grandes empresas e marcas é interceptado por criminosos, o que é mais do que o PIB da Noruega, da Polônia ou da Bélgica. Só nos Estados Unidos, a pirataria custa às empresas mais de US$ 200 bilhões por ano. No fim dos anos 1990, a fabricante de isqueiros Zippo perdeu um terço de sua receita para os falsificadores. 

E as perdas não se limitam à receita. Quando os consumidores têm problemas de qualidade com os produtos falsificados, a reputação da marca fica prejudicada. À medida que os itens pirateados se proliferam, a exclusividade se desgasta. E a disponibilidade de alternativas baratas reduz a disposição dos consumidores de pagar o preço cheio pelas ofertas legítimas da marca. 

Basta visitar qualquer grande porto do mundo para ver a extensão do problema. Contêineres de remessa com os dizeres “casa e jardim” estão na verdade repletos de milhares de bolsas falsificadas. Outro contêiner, que deveria estar ocupado com materiais de construção, na verdade está cheio de caixas de tênis pirateados. 

A internet só facilitou a distribuição. Agora os falsificadores vendem diretamente aos consumidores. Os funcionários aduaneiros tentam derrubar os sites que facilitam essas transações, mas novos sites surgem com uma velocidade atordoante. E não estamos falando apenas de pequenas operações de fundo de quintal. Um estudo de 2008 revelou que quase todas as bolsas Louis Vuitton e perfumes Dior vendidos no eBay eram falsos. Oito em cada dez produtos que pareciam ser da Tiffany & Co. na verdade eram falsificações. É todo um mar de mercadorias ilegais. 

Como seria de esperar, as empresas de marcas da moda têm feito de tudo para deter os falsificadores. A Louis Vuitton, por exemplo, tenta patentear designs com o padrão repetido do monograma “LV”. Outras marcas procuram criar produtos mais difíceis de imitar. A Dolce & Gabbana usa um complexo sistema antipirataria que inclui um certificado de autenticidade, um holograma especial e um selo de segurança feito com um fio que reage à luz ultravioleta. 

Quando todos os recursos falham, as empresas tomam medidas legais, indo atrás dos falsificadores, dos revendedores e dos sites que vendem os produtos piratas. Só em 2004, o conglomerado de luxo LVMH gastou US$ 20 milhões para combater a pirataria, conduzindo mais de 6 mil batidas de fiscalização e abrindo mais de 8 mil ações judiciais ao redor do mundo. 

Mas será que a pirataria na verdade não poderia beneficiar essas marcas? 

Dois professores de direito analisaram a questão e descobriram que a resposta para essa pergunta é, surpreendentemente, sim, por conta da influência social. E a razão disso tem a ver com a sinalização da identidade. 

As pessoas, especialmente as mais ligadas em estilo de vida, importam-se com o que suas roupas comunicam a seu respeito. Elas querem estar na moda ou pelo menos não usar itens ultrapassados. 

No entanto, se o valor dos sinais dos diferentes estilos nunca mudasse, as pessoas jamais precisariam comprar algo novo. Elas poderiam continuar usando as mesmas botas Ugg ou as mesmas gravatas finas ano após ano. Se essas botas e gravatas sempre sinalizassem que quem as usa está na moda e é descolado, as pessoas não teriam razão alguma para trocar esses itens por algo mais moderno. Elas poderiam continuar usando suas botas e gravatas até se desgastarem ou estragarem. 

Essa situação deixaria a maioria dos consumidores feliz, mas os varejistas e os fabricantes provavelmente não compartilhariam da mesma felicidade. As receitas despencariam e empregos seriam perdidos. 

Por sorte, os falsificadores entram em cena para salvar a pátria. Ao produzir e distribuir suas imitações, a pirataria acelera a obsolescência. Cópias inferiores podem macular o artigo original, mas, ao ampliarem a disponibilidade, as falsificações também mudam o sentido de usar 

**A influência social e as modas gerenciais**

No livro O Poder da Influência – As Forças Invisíveis que Moldam Nosso Comportamento (ed. HSM), o professor e pesquisador da Wharton School Jonah Berger destrincha a influência social, detalhando os mecanismos que fazem com que imitemos as pessoas ou queiramos nos diferenciar delas e também em que situações os outros nos motivam ou desmotivam.
O negócio da falsificação de produtos de grife serve para ilustrar o poder da influência no que diz respeito tanto à tendência de imitar como à de se diferenciar – os não iniciados imitam os iniciados adquirindo réplicas de determinado produto e os iniciados buscam se diferenciar substituindo o original que foi replicado.
É interessante notar que o mesmo mecanismo de influência social é observado em produtos originais e em ferramentas gerenciais adotadas pelas empresas. No primeiro caso, basta observar como muitos amantes de relógios de marca preferem usar um discreto Vacheron Constantin, invisível para a maioria das pessoas, a um ostensivo Rolex, ou uma bolsa Bottega Veneta de aparência simples, que poderia talvez custar US$ 15 a neófitos, mas que vale, na verdade, US$ 6 mil, a uma Louis Vuitton com logo evidente.
No caso das empresas, a mesma lógica explica a sucessão de modas gerenciais, segundo Jonah Berger. Querendo mostrar que estão à frente das outras, algumas organizações entram em ondas gerenciais como o 6-Sigma ou a gestão da qualidade total (TQM, na sigla em inglês). Então, surgem as imitadoras, em geral companhias menores que começam a copiar tudo o que veem as empresas “inovadoras” fazendo. Só que, depois de serem copiadas por um bom número de imitadoras, essas abordagens perdem seu valor como sinais de pioneirismo das inovadoras. E, assim, elas querem se diferenciar e precisam partir para a próxima ferramenta de gestão.

um estilo ou uma marca. Se qualquer pessoa pode comprar um item parecido com a Louis Vuitton queridinha da estação, o sinal enviado pela bolsa se deteriora. À medida que os preços baixos possibilitam a ampla difusão do acessório, ele deixa de sinalizar que seus proprietários são pessoas exclusivas ou definidoras de tendências e passa a indicar o mercado de massa ou um seguidor de moda medíocre. E acaba acontecendo que os verdadeiros fashionistas procuram algo novo para comprar. 

As gírias funcionam da mesma forma. Os adolescentes começam a usar palavras como “shippar” ou “trollar”. Com o tempo, os pais adotam as gírias para parecerem descolados ou modernos. Mas a adoção por outsiders muda o sentido do sinal. O que passava a mensagem de uma pessoa descolada começa a sinalizar alguém que está se empenhando demais para dar essa impressão. Em vista disso, os adolescentes abandonam a gíria. E, quando a vovó começa a dizer que está sendo “trollada” na turma do baralho, a gíria já está obsoleta. 

Ocorre que a sinalização da identidade tanto transforma algo em moda como o torna obsoleto. Um pequeno grupo de adotantes iniciais começa a usar uma gíria ou aplicar uma prática de gestão específica. Se esses pioneiros forem vistos como descolados, modernos, inovadores ou desejáveis, outros vão imitá-los para tentar sinalizar a identidade desejada. E, à medida que cada vez mais pessoas entram na onda, a gíria, a prática de gestão ou qualquer outro item cultural ganha status e começa a se tornar popular. 

No entanto, quando muitas outras pessoas ou empresas entram na onda também, o sinal começa a mudar. O que antes significava ser moderno ou inovador quer dizer algo “batido”. Assim, os adotantes iniciais abandonam o item para não transmitir uma identidade indesejada. Isso só acelera a mudança do sinal. Quando o significado desejado original é perdido, até os adotantes posteriores abandonam o item. E o que já foi popular passa a ser impopular. 

Os ciclos da moda acontecem com frequência, mas a falsificação ajuda a acelerar o processo. Ao assegurar sua distribuição, a pirataria força a morte do que está na moda, mas, com isso, também mantém os consumidores clamando por novos itens fashion. Como Shakespeare gracejou, “a moda desgasta mais roupas do que o homem”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

IA como álibi das decisões não pensadas

Será que as empresas, focando a agilidade das entregas com assistência de inteligência artificial, deixaram em segundo plano a qualidade do raciocínio? E quais são os riscos disso?

O problema não começa no canteiro. Só fica visível nele.

Atrasos, mudanças de escopo e disputas contratuais costumam ser tratados como falhas da execução. O artigo argumenta que, na maioria dos casos, os conflitos já estavam contratados desde o início, em escopos incompletos, riscos mal distribuídos e orçamentos desconectados da realidade do projeto.

Executivos estão estudando contabilidade para chegar ao C-level. Eu fiz o caminho inverso.

O artigo reflete sobre a evolução da carreira financeira e sobre o papel da contabilidade como ferramenta de gestão, mostrando que lucro, sozinho, raramente conta a história completa de uma empresa. Mais do que interpretar demonstrações financeiras, entender balanços, fluxo de caixa e capital de giro tornou-se uma competência essencial para líderes que desejam crescer de forma sustentável, tomar decisões mais consistentes e enxergar riscos e oportunidades antes que eles apareçam nos resultados.

Inovação & estratégia
21 de outubro de 2026 08H00
Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por POK Brasil
8 minutos min de leitura
ESG, Liderança
20 de outubro de 2026 08H00
Ao celebrar 13 anos de atuação, o Grupo Mulheres do Brasil reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa. Mas sua trajetória revela um impacto que vai além das causas e dos projetos: a força de uma rede capaz de conectar mulheres, criar oportunidades, fortalecer vínculos e promover desenvolvimento pessoal e coletivo.

Alexandra Segantin - CEO do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
18 de outubro de 2026 15H00
Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor responsável técnico da Hotfloor

5 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de outubro de 2026 09H00
Inclusão não se resume ao acesso ao emprego. Ela envolve reconhecimento, desenvolvimento, representatividade e perspectivas reais de carreira. O artigo reflete sobre os avanços conquistados, os desafios que persistem e o papel das organizações na construção de ambientes onde todas as pessoas possam prosperar.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
17 de outubro de 2026 15H00
Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
17 de outubro de 2026 09H00
O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

6 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
16 de outubro de 2026 15H00
Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de outubro de 2026 09H00
Entre previsões apocalípticas e promessas de produtividade ilimitada, os dados mais recentes sobre inteligência artificial publicados pela Gartner, MIT e Frontiers contam uma história mais complexa.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

CAPA_HSM_30_ANOS-1_pages-to-jpg-0001

Acesse agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #175

EDIÇÃO ESPECIAL DE 30 ANOS DA HSM MANAGEMENT