Direto ao ponto

É hora de revisar o papel das consultorias no mundo

O livro "The Big Con", de Mariana Mazzucato e Rosie Collington, acha que sim. Leia uma resenha feita por consultores brasileiros
André Neves e Silvio Meira são sócios da TDS Company, consultoria especializada em transformação digital e inovação. Enquanto Neves tem um foco em design, Meira é autoridade em tecnologias digitais. Eles usaram o ChatGPT como ponto de partida do texto e, como lembram, outras ferramentas na elaboração do texto, como internet e Word.

Compartilhar:

*The Big Con*, obra recém-publicada de Mariana Mazzucato e Rosie Collington, é uma análise aprofundada do papel das consultorias no cenário contemporâneo global. O livro começa reconhecendo que a única maneira de enfrentar os gigantescos desafios de nosso mundo é unir ambição, criatividade e habilidades de todos os tipos de organizações, mas o movimento atual vai no sentido contrário. Os governos vêm reduzindo investimentos em sua capacidade de impulsionar mudanças significativas, e as empresas privadas têm fugido de responsabilidades nessa área. O espaço vazio decorrente tem sido ocupado não por organizações do terceiro setor, segundo as autoras, mas pelas grandes consultorias globais, que assim crescem e lucram.

The Big Con explora como essas consultorias se tornaram indispensáveis para governos e empresas em todo o mundo, lidando com tarefas críticas como adaptação climática, programas de vacinação e comissionamento de serviços sociais essenciais.

Ao longo desta resenha, discutiremos como as autoras tratam a crescente influência da indústria de consultoria em um mercado global que movimenta de US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões por ano, abrangendo setores e países; como isso afeta todos os níveis da sociedade; e a análise que fazem da presença (ampla e profunda) dessas consultorias em momentos de tomada de decisão em crises econômicas globais – como a atual –, em projetos ambiciosos e até na administração da infraestrutura digital de inúmeras organizações.

## Um tanto de passado
As autoras mostram como, ao longo das décadas, as consultorias se tornaram cada vez mais influentes na política e nos negócios. Começam o livro destacando projetos como o Cybesyn, desenvolvido no Chile durante o governo de Salvador Allende, e identificam três períodos distintos na evolução da consultoria moderna: o dos “engenheiros consultores”; o (da popularização) do “gerenciamento científico”; e o da introdução de métodos de “contabilidade de custos”. A influência das consultorias em momentos históricos decisivos, como a guerra fria, é citada.

O livro levanta críticas crescentes à eficácia, à falta de transparência e à questionável relação custo-benefício dos serviços prestados pela indústria.

## Um passado quase presente
A relação complexa entre governos e consultorias é abordada por Mazzucato e Collington, que destacam exemplos como o fracasso do healthcare.gov nos Estados Unidos.

O livro critica muitas grandes empresas de consultoria pelo envolvimento em casos de gastos excessivos, corrupção e má conduta profissional.

Para as autoras, as coisas não serão promissoras sem respostas mais ambiciosas dos governos – como medidas regulatórias rigorosas exigindo maior transparência e promoção de uma cultura de responsabilidade e ética – e sem os governos fortalecerem suas capacidades internas – reduzindo a dependência de consultorias externas.

## O futuro delegado a terceiros
As autoras discutem o impacto negativo da terceirização excessiva para consultorias privadas em organizações públicas, usando o exemplo do hospital New Karolinska Solna, na Suécia. A contratação excessiva de consultorias pode, segundo elas, comprometer a capacidade de aprendizado e a memória institucional das organizações públicas.

Além disso, a terceirização da regulação para consultorias corporativas pode reduzir a influência do Estado nos mercados, comenta o livro.

## Presente inspirado no passado
Os riscos associados às consultorias empresariais são analisados no livro, como falta de responsabilidade e busca por lucros em detrimento de busca por valor para o cliente. São abordados casos em que falhas na indústria de consultoria afetaram o desenvolvimento econômico, a democracia e o planeta. A falta de responsabilidade e de transparência pode ter consequências como erosão da confiança pública e concentração de poder em poucas empresas.

As autoras abordam a crescente demanda por consultorias especializadas em sustentabilidade, mas questionam se essa abordagem é capaz de solucionar a crise climática, apontando a possível parcialidade dos consultores e a falta de ação governamental (foi o meteorologista Godwin Obasi, ligado às Nações Unidas, quem deu uma contribuição decisiva para a compreensão da mudança climática).

Um dos capítulos destaca a importância de governos e empresas repensarem o hábito de recorrer a consultorias e considerar soluções internas alternativas, como promoção de ética empresarial, governança corporativa robusta e práticas de negócios sustentáveis.

## Máquina de consumir futuros
Ao concluir o livro, Mazzucato e Collington apresentam uma reflexão sobre a abordagem da economia orientada pelo mercado, que tem sido fortemente influenciada pela indústria de consultoria nas últimas décadas.

Embora essa abordagem tenha gerado lucros significativos para muitas empresas e consultorias, também contribuiu para problemas como a financeirização da economia e a crise climática. Para superar essa dependência e estimular a criação de valor na economia, as autoras propõem quatro medidas essenciais que constroem futuros:

1. Reconhecer o governo como criador de valor na economia e dar mais liberdade aos órgãos públicos para assumir riscos controlados e experimentar novas abordagens.
2. Investir na capacitação e no desenvolvimento de capacidades internas dentro das organizações governamentais para atrair indivíduos competentes e curiosos ao setor público.
3. Estabelecer parcerias de aprendizado com outras organizações e promover a transparência em relação aos interesses dos clientes da consultoria.
4. (Para governos) adotar uma abordagem mais ativa no desenvolvimento das próprias políticas e programas, em vez de depender de consultorias externas. Isso inclui investir em infraestrutura digital interna e estabelecer contratos que promovam a aprendizagem e a reflexão contínua.

*The Big Con* traz uma mensagem clara: a abordagem “menos remo, mais direção” não é mais suficiente para as organizações na busca de objetivos comuns e no enfrentamento dos problemas mais prementes de nossa época.

O sucesso, mesmo o sucesso dos negócios, depende, cada vez mais, da colaboração entre governos, empresas e sociedade civil.

__Leia também: [CEOS do século 21 escutam os investidores?](https://www.revistahsm.com.br/post/ceos-do-seculo-21-escutam-os-investidores)__

Artigo publicado na HSM Management nº 156.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de junho de 2026 08H00
Pagar mais já não basta, médicos estão escolhendo onde trabalhar pelo “como”, não pelo “quanto”. Este artigo revela como a disputa por médicos qualificados está sendo redefinida por fatores estruturais, organizacionais e de experiência profissional.

Rafael Duarte - CEO e fundador do Grupo RD Medicine

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
20 de junho de 2026 14H00
Se mais gente não significa mais resultado, o que ainda justifica equipes gigantes? Este artigo revela como a inteligência artificial está redefinindo estruturas, papéis e critérios de eficiência nas áreas de marketing e growth.

Brian Bittencourt - VP de Growth & Marketing da Woba

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
20 de junho de 2026 08H00
Mais de 92 mil pessoas foram demitidas em tech só nos primeiros meses de 2026, ao mesmo tempo em que big techs reportavam resultados recordes. O Gartner mostra que esses cortes não estão entregando ROI. O problema não é a tecnologia, é a intenção por trás dela.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

12 minutos min de leitura
Lifelong learning, Inovação & estratégia
19 de junho de 2026 14H00
Por trás de um dos reconhecimentos mais cobiçados da AWS, este artigo mostra que o verdadeiro diferencial não está em acumular certificações, mas em construir conhecimento consistente a partir da prática, da comunidade e da evolução contínua.

Alceu Conerado Neto - COO da Dati

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
19 de junho de 2026 08H00
A partir de uma cena cotidiana, este artigo expõe um erro recorrente nas organizações: confundir treinamento com preparo e transferir a curva de aprendizagem para o cliente, com impactos diretos na experiência e nos resultados.

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de junho de 2026 16H00
Entre a inovação e o risco, este artigo discute até onde se deve confiar na IA dentro do contexto clínico. A tecnologia, sem dúvidas, amplia capacidades, mas ainda depende de dados de qualidade, supervisão humana e confiança para cumprir seu potencial.

Adalene Tiso - Diretora da unidade Healthcare da Interplayers

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança, Lifelong learning
18 de junho de 2026 08H00
Por que empresas aprendem mais com fracassos analisados com honestidade do que com cases heroicos?

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de junho de 2026 15H00
O entusiasmo com inteligência artificial segue um ciclo já visto antes. Este artigo mostra por que o próximo desafio das empresas não é implementar a tecnologia - mas transformar uso em resultado, superando velhos erros de gestão que já limitaram outras ondas de inovação.

Marcus Garcia - Diretor Comercial da Konia Tecnologia

3 minutos min de leitura
Lifelong learning
17 de junho de 2026 09H00
Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.

Daniel Luzzi - CEO Cognita Learning Lab

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
16 de junho de 2026 15H00
O mercado discute o futuro - mas continua ignorando quem já está pronto para trabalhar. Este artigo chama atenção para um movimento ignorado: a crescente presença da geração 60+, e o custo de continuar excluindo um dos recursos mais experientes e disponíveis da força de trabalho.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão