Uncategorized

E quando bater uma sensação de abandono ou medo de ser esquecido?

Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Compartilhar:

Durante os meus dois primeiros meses de sabático, estive tão ou mais ocupado do que quando precisava me reportar regularmente a um escritório. Minha agenda continuou bem intensa e com o mesmo jeitão: projetos, reuniões, aulas, palestras, viagens, eventos, encontros de negócios e conversas diversas. Mudaram os espaços e as pessoas ….

Mas espera lá! ‘Enjoying life, family and friends’ dizia o meu Linkedin?! E a família, amigos, colegas e parceiros comentando o quão ocupado eu parecia estar e me perguntando: “Você está empreendendo?”, “Já se recolocou?”, “Não era pra dar um tempo?”.  Quando a Daniela me deu uma dura, falando que então eu apagasse o tagline na mídia social, parei para refletir. Acho que eu queria tudo isso e nada disso ao mesmo tempo. 

Quase tudo saíra como eu havia planejado e, puxa, deu até um certo orgulho. Só que na hora de devolver o crachá no departamento de pessoal, veio um vazio esquisito, como se parte da minha identidade tivesse ficado grudada naquele maldito cartão de identificação. Eu nunca pensei, um dia, nutrir carinho por aquela foto 3X4 horrorosa que me acompanhou, de um lado para outro, durante tempos. Usava até fora da empresa. Aliás, nunca imaginei sentir emoções tão conflitantes naquele desembarque do mundo corporativo. Portas em automático…

_Será que o sabático está sob sério risco?_

Não necessariamente. A verdade é que sentimentos sempre fogem ao script, seja em decisões na vida pessoal ou profissional. Trocar de emprego ou dar uma parada na carreira são episódios que costumam nos pôr em teste – inclusive nas nossas pretensas certezas – por mais planejamento que haja. É a famosa “hora do vamos ver”, quando é fácil se pegar dizendo: “Nossa, o que foi que eu fiz?!”

Porque, depois do plano em execução, no momento em que se recolhe os pertences nas gavetas e se dá adeus aos colegas, a gente começa a prestar mais atenção àquilo que está perdendo. Vai entender o ser humano!

No meu caso, **deixar o meu time foi a perda mais difícil**. Em especial quando os meses que antecedem a saída viram uma agenda de despedidas afetuosas, generosas. Difícil não balançar. E que privilégio deixar para trás um ambiente de trabalho dividido entre a alegria pelo que me esperava e tristeza pelo que ficava. Mais uma grande contribuição para enriquecer o repertório de vida – ou, como você já deve ter me ouvido falar em algum artigo ou palestra, mais um item para incluir no cinto de utilidades à la Batman.

E isso é só o começo. Na sequência, enquanto você ainda está administrando essa profusão de sentimentos dúbios, o mundo trata de te dar mais uma chacoalhada. Você acorda no dia seguinte, sem carro da empresa, sem secretária, sem mordomias, sem as bajulações. Celular? Mudinho da Silva. Você dá até uma conferida para ver se não é problema com o aparelho ou com a operadora. Mensagens por aplicativo escasseiam na mesma proporção em que os e-mails com convites para eventos. 

Bate aquele sentimento de rejeição. Você não é mais como um outdoor de Vegas com o sobrenome corporativo piscando na testa. Mas, vai por mim, nada mais revelador. Joio do trigo, sabe? **E o desapego é parte do processo de aprendizagem, apesar de ser um negócio difícil até para monge.**

_Quanto preparo psicológico, hein, Marcelo?_

Que nada! Se você perguntar como me planejei para a transformação que me permitiu tirar um sabático, eu posso sentar com você e ficar horas falando do passo a passo (isso é apenas figura de linguagem, pois não consigo falar horas sobre tema algum!). 

Eu contaria todos os meus cuidados em relação à família e às finanças – que, nessa ordem, devem ser as partes de maior atenção para quem é aspirante a um sabático. Falaria sobre como essa ideia de dar uma parada na carreira começou a tomar forma ainda na faculdade, inspirada pela provocação de um professor, e como ela se fortaleceu na convivência com dois grandes executivos em multinacionais pelas quais passei.

De novo: que nada! Lembra da minha agenda cheia? Pura necessidade de autoafirmação e de me sentir útil. Ainda não consegui passar um dia inteiro em casa sem fazer nada, sem ter um objetivo a cumprir ou uma longa lista de tarefas a realizar. Talvez nunca consiga!

Não mudei a tagline, mas mudei a atitude. Estou deixando espaços em branco (repare: em branco, não vazios) na minha agenda para realmente curtir a vida, a família e os amigos. Estou resgatando antigos hobbies, promovendo reencontros de velhos amigos, fazendo supermercado, preparando o meu almoço ou dando uma volta pela vizinhança. Esse rebalanceamento me permitiu uma constatação reveladora: **existe vida fora dos escritórios…**

Por isso tudo, há um ponto que admito que consideraria fazer diferente: ter um profissional me ajudando nesse preparo psicológico. Hoje, se voltasse atrás, eu teria contratado, no momento da decisão, um coach para me acompanhar na jornada e ajudar a prever, mais à frente, as armadilhas que seriam jogadas pelo meu caminho – em especial por mim mesmo. Acredito que curtiria ainda mais as revelações diuturnas dessa caminhada desafiadora de ser um ex-crachado.

Saudações sabaticosas! (com tantos neologismos por aí, resolvi também criar os meus).

Compartilhar:

Marcelo Nóbrega é especialista em Inovação e Tecnologia em Gestão de Pessoas. Após 30 anos no mundo corporativo, hoje atua como investidor-anjo, conselheiro e mentor de HR TechsÉ professor do Mestrado Profissional da FGV-SP e ministra cursos de pós-graduação nesta e em outras instituições sobre liderança, planejamento estratégico de RH, People Analytics e AI em Gestão de Pessoas. Foi eleito o profissional de RH mais influente da América Latina e Top Voice do LinkedIn em 2018. É autor do livro “Você está Contratado!” e host do webcast do mesmo nome. É Mestre em Ciência da Computação pela Columbia University e PhD pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Artigos relacionados

Cultura no centro do lucro

Este artigo revela por que a cultura deixou de ser um elemento simbólico e passou a representar um dos custos – e ativos – mais invisíveis do lucro, mostrando como liderança, engajamento e visão sistêmica definem a competitividade e a perenidade das organizações.

Por que o líder que sabe tudo se tornou um problema?

Este artigo traz dados de pesquisa, relatos de gestão e uma nova lente sobre liderança, argumentando que abandonar a obrigação da infalibilidade é condição para equipes aprenderem melhor, se engajarem mais e entregarem resultados sustentáveis.

Líder-mentor: quem inspirou as maiores lideranças do país

A partir das trajetórias de Luiza Helena Trajano e Marcelo Battistella Bueno, este artigo revela por que grandes líderes não se formam sozinhos – e como a mentoria, sustentada por vínculo, presença e propósito, segue sendo um pilar invisível e decisivo da liderança em tempos de transformação acelerada.

Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
9 de abril de 2026 14H00
À medida que a tecnologia se democratiza, a vantagem competitiva migra para a forma de operar. Este artigo demonstra que como q inteligência artificial já é comum, o diferencial agora está em quem sabe transformá‑la em sistema de crescimento.

Renan Caixeiro - Co-fundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
9 de abril de 2026 07H00
O mercado não mudou as pessoas. Mudou o jeito de trabalhar. Este artigo mostra que a verdadeira vantagem competitiva agora não está no que você faz, mas no que você sabe delegar - e no que não delega.

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
8 de abril de 2026 16H00
Quando a experiência falha, o problema raramente é tecnologia - é decisão estratégica. Este artigo mostra que no fim das contas o cliente não quer encantamento, ele quer previsibilidade, simplicidade e pouco esforço.

Ana Flávia Martins - CMO da Algar

4 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
8 de abril de 2026 08H00
O bar já entendeu que o mundo virou parte do jogo corporativo. Conflitos, tarifas e decisões políticas estão impactando negócios em tempo real. A pergunta é: o CEO entendeu ou ainda acha que isso é “assunto de diplomata”?

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

10 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
7 de abril de 2026 16H00
Executivos não falham no cenário internacional por falta de competência, mas por aplicar decisões no código cultural errado. Este artigo mostra que no ambiente global, liderar deixa de ser comportamento e passa a ser tradução

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
7 de abril de 2026 08H00
Se a IA decide quem indicar, um dado se impõe: a reputação já é lida por máquinas - e o LinkedIn emergiu como sua principal fonte.

Bruna Lopes de Barros

5 minutos min de leitura
Liderança, ESG
6 de abril de 2026 18H00
Da excelência paralímpica à estratégia corporativa: por que inclusão precisa sair da admiração e virar decisão? Quando a percepção muda, a inclusão deixa de ser discurso.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

13 minutos min de leitura
Marketing & growth, Liderança
6 de abril de 2026 08H00
De executor local a orquestrador global: por que essa transição raramente é bem preparada? Este artigo explica porque promover um gestor local para liderar múltiplos mercados é uma mudança de profissão, não apenas de escopo.

François Bazini

3 minutos min de leitura
Liderança, Bem-estar & saúde, Gestão de Pessoas
5 de abril de 2026 12H00
O benefício mais valorizado pelos colaboradores é também um dos menos compreendidos pela liderança. A saúde corporativa saiu do RH e entrou na agenda do CEO - quem ainda não percebeu já está pagando a conta.

Marcos Scaldelai - Diretor executivo da Safe Care Benefícios

5 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de abril de 2026 07H00
A nova vantagem competitiva não está em vender mais - mas em fazer cada cliente valer muito mais. A era da fidelização começa quando ela deixa de ser recompensa e passa a ser estratégia.

Nara Iachan - Cofundadora e CMO da Loyalme

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...