Tecnologia e inovação

Educação em tecnologia: aprendizagem tem que ser meio, e não fim

A demanda e a oferta por profissionais em tecnologia no mercado de trabalho não estão no mesmo ritmo. Para resolver o descompasso, deve-se começar pela forma de ensino
Fabrício Inocêncio é head de educação e documentação na Digibee, responsável por liderar iniciativas globais relacionadas à educação de produtos, treinamento e documentação de software dos clientes da companhia. Com mais de 20 anos de experiência como empreendedor e executivo nos setores de educação, publicidade e software/TI.

Compartilhar:

A demanda por profissionais de tecnologia segue em constante crescimento diante da corrida por inovação e transformação digital nas empresas. A oferta, no entanto, não acompanha o mesmo ritmo, seja por falta de boa formação na área, seja pela fuga de talentos em um mercado global competitivo. De acordo com o relatório da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), de 2021, seria necessário contratar, em média, 70 mil profissionais por ano, até 2024, para suprir a necessidade do setor.

Como vencer essa escassez de talentos? Investir na capacitação de profissionais é um dos caminhos, e muitas empresas e instituições já oferecem programas de treinamento e mentorias para seus funcionários e parceiros desenvolverem habilidades e conhecimentos específicos em tecnologia. Há também uma oferta crescente de opções de cursos livres. Ampliar o acesso à educação é essencial, mas não é tudo: é preciso sair do óbvio e garantir ensino eficiente com a agilidade que o momento pede, e isso necessariamente passa por rever os modelos de ensino e aprendizagem hoje utilizados.

Quando nos tornamos adultos nos habituamos a buscar as informações no momento em que precisamos para aplicá-las na prática. O ideal seria que o modelo de ensino respeitasse a mesma objetividade, colocando-se como um meio para chegar a algum lugar – como resolver um problema ou realizar alguma tarefa – e não um “aprender por aprender” sem saber muito bem o porquê (quem nunca teve essa sensação quando estava na escola?).

A maioria dos cursos e treinamentos em tecnologia ainda costumam ser “infodump”, ou seja, passam muitas informações de uma só vez, e seguem uma estrutura linear, que imita o modo como nos acostumamos a aprender no colégio e na faculdade – partindo de conhecimentos básicos e avançando em complexidade. Enquanto isso, o dia a dia real de trabalho cobra soluções rápidas.

Isso tem implicações sérias quando se trata de formar novos desenvolvedores. Novas tecnologias, boas práticas e ferramentas surgem a todo momento, e um estilo tradicional de ensino simplesmente não consegue acompanhar esse ritmo frenético de mudanças.

Por isso, além do aprender fazendo, aposto que isso deve estar conectado com o dia a dia do trabalho, o on-the-job learning: ao se deparar com um problema, o profissional vai atrás das respostas e volta para aplicar o que aprendeu e resolver a questão. É um aprendizado mão na massa e que não utiliza a lógica da teoria primeiro e prática depois. Entender o porquê de cada passo do processo aumenta a motivação e o engajamento dos profissionais, além da produtividade das equipes. Afinal, para que “cobrar pedágios” de aprendizado ensinando temas que não serão aproveitados, enquanto se deixa para depois outros que podem ter aplicação imediata? Desperdiça-se com isso um tempo precioso para a realização de projetos, além de recursos humanos e materiais significativos.

Obviamente, a depender da complexidade do que se estuda, o desenvolvedor deverá se debruçar mais intensamente para absorver os conceitos fundamentais, até mesmo para compreender o próprio problema. Mas inserir a teoria antes da prática deve ser uma decisão intencional de design instrucional, e não simplesmente porque sempre fizemos assim.

Alguns educadores ainda encaram aprendizagem como um processo para estocar conhecimento, como se fosse possível recorrer à nossa memória quando fosse necessário. Hoje em dia já sabemos que não conseguimos aprender tudo o que é necessário e que é muito difícil reter tudo o que aprendemos na memória de longo prazo.

Treinamentos on-the-job, muitas vezes, acontecem durante as próprias atividades de trabalho, utilizando a carga horária dos colaboradores para absorção de conteúdos. Para usar um trocadilho em inglês: se o aprendizado tradicional escolar é just in case, pois estudamos muita coisa para, talvez, um dia precisar aplicar, o on-the-job é just in time: a pessoa aprende para usar na hora, de acordo com a necessidade.

Outro conceito útil é o de aprendizagem em espiral, que consiste em revisitar o mesmo tópico em vários momentos ou contextos da formação, trabalhando-o em diferentes perspectivas e níveis de profundidade. Criando-se “camadas” de conhecimento, há mais chance de consolidar o que foi aprendido. E é justamente em uma dessas revisitações em que acabamos por nos aprofundar nos conceitos teóricos, mas evitando que isso se torne uma barreira de entrada, seja por sua complexidade ou por falta de clareza sobre sua relevância.

Outra questão que devemos tratar com cuidado é o quanto o desenvolvedor já sabe sobre o tema. Diferente de um ambiente escolar, em que há um nivelamento maior entre alunos de uma mesma série, no ambiente de trabalho temos pessoas com diferentes backgrounds e níveis de conhecimentos. Assim, acredito que devemos combinar duas formas de aprender: linear e não linear.

Partindo da premissa de que o desenvolvedor está buscando aprender algo do início, talvez faça sentido um processo mais linear, em que ele ainda não sabe fazer as perguntas certas. Assim, uma boa dose de conceitos e fundamentações teóricas se faz necessário. Já um desenvolvedor mais avançado que busca aprofundar algum tópico para resolver um problema, direciona a sua jornada de aprendizado por meio de buscas pontuais, de forma não linear, até encontrar o que precisa. O problema é quando o programa de treinamento força um consumo linear, ou é pouco amigável para uma busca pontual. Isso acaba gerando uma frustração muito grande.

Existem outras formas de tentar resolver o gap de profissionais. Como exemplo, ampliando o escopo de pessoas treinadas em tecnologia. Para isso, é preciso, derrubar estigmas e incentivar a educação em tecnologia para todos os públicos – não só entre pessoas “de exatas” ou majoritariamente homens, por exemplo, assim como refinar o processo de formação e seleção de talentos nas empresas. Nem todo mundo estuda pensando em se tornar um desenvolvedor sênior; as pessoas são diversas, complexas e possuem diferentes necessidades. Aprender novas tecnologias vai beneficiar todas as áreas e funções, principalmente com o avanço de ferramentas low code, por exemplo.

Felizmente, empresas, escolas e universidades vêm dando espaço para essa democratização da tecnologia, desenvolvendo projetos de carreiras para pessoas de baixa renda e mulheres, por exemplo.

Outra forma de tentar resolver esse gap é por meio da adoção de novas tecnologias na aprendizagem, a fim de tornar tudo mais eficiente. Temos visto um avanço significativo na adoção de inteligência artificial nesse sentido, e isso também impacta o público desenvolvedor.

Todo esforço é válido, quando queremos resolver o gap de profissionais em tecnologia, e obviamente a democratização do ensino ou a adoção de tecnologias na aprendizagem contam bastante.

No entanto, acredito que esses esforços serão amplificados se nos dedicarmos em rever o processo em si, questionar as velhas formas de ensinar e modificar completamente a forma como ensinamos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Smart Sampa: vazamento de senhas expõe o desafio de proteger uma cidade monitorada por milhares de câmeras

O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Estratégia
28 de outubro de 2026 15H00
Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

Alexandre Farias Benjamim, - Sociólogo e membro do Conselho Fiscal da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de outubro de 2026 08H00
A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Marcelo Martini - Gerente de Vendas do Aftermarket da FUCHS

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de outubro de 2026 15H00
O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Afonso Morais - Fundador do escritório Pardi e Morais Consultores Jurídicos e Criador e apresentador do podcast Falando de Fraudes

6 minutos min de leitura
Estratégia
27 de outubro de 2026 08H00
Na teoria, cada contato acontece no momento certo e segue o fluxo previsto. Na prática, volume, prioridades e limitações operacionais exigem adaptações constantes. O desafio das empresas não é criar estratégias perfeitas, mas garantir que elas resistam às pressões do dia a dia sem perder seu propósito original.

Guilherme Busch - VP da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de outubro de 2026 15H00
Quando a visibilidade se transforma em critério implícito de reconhecimento, profissionais podem passar a priorizar projetos que geram exposição em detrimento daqueles que realmente precisam ser feitos. O artigo explora como o loud working pode afetar a colaboração e a dinâmica das equipes.

João Paulo Batistella - Fundador e CEO da Eleva Technologies,

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de outubro de 2026 08H00
De onde vem o termo, o que existe ao redor de um agente e por que transformar capacidade de raciocínio em trabalho confiável é uma decisão de gestão, não apenas de tecnologia.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
25 de outubro de 2026 14H00
À medida que a inteligência artificial transforma funções, processos e competências, cresce a pressão sobre as áreas de Recursos Humanos para encontrar profissionais preparados para um cenário de constante transformação. O desafio não é apenas contratar talentos, mas desenvolver a capacidade de adaptação dentro das organizações.

Daniela Camargo - Head of People & Culture da VOLL

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de outubro de 2026 08H00
Os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em diferentes regiões do planeta e tendem a se intensificar nas próximas décadas. Mais do que reagir aos desastres quando eles acontecem, o texto defende uma abordagem baseada em prevenção, planejamento e uso estratégico da tecnologia para reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade de adaptação.

Álvaro Trilho - Diretor de Riscos da WTW Brasil

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
24 de outubro de 2026 14H00
A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.

Juliana Marinelli - Pesquisadora pHd de bem-estar digital

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de outubro de 2026 08H00
Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

Andrea Kohlrausch,- Presidente da Calçados Bibi

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução