Uncategorized

Em busca do negociador-empreendedor

Figura mais frequente nos Estados Unidos do que no Brasil, segundo pesquisa, ele não vê a situação da negociação como um dado, mas como uma oportunidade a ser descoberta e trabalhada
O artigo, escrito com exclusividade para HSM Management, é de Denise Flecke Roger Volkema, professores, respectivamente, do Coppead-UFRJ e do IAG-PUC Rio

Compartilhar:

> **Saiba mais sobre os autores**
>
> **Denise Fleck:** brasileira, professora do Coppead, escola de negócios da Universidade Federal do Rio de Janeiro, titular de estratégia e crescimento organizacional, Ph.D. pela McGill University, de Montreal, Canadá. 
>
> **Roger Volkema:** norte- -americano, professor do IAG, a escola de negócios da PUC-Rio, Ph.D. pela University of Wisconsin-Madison, de Madison, Wisconsin, EUA. 
>
> **Focos de pesquisa:** comportamento organizacional, crescimento corporativo, estratégia empresarial, longevidade saudável das organizações e negociação.

Após exaustiva viagem intercontinental, Fred dirige-se à recepção do hotel para o qual fez reserva de quarto antecipadamente. Recebe sem surpresa a notícia de que seu apartamento ainda não está preparado, pois conhece a política de horário de check-in do hotel. Faz o pré- -registro, deposita sua bagagem para guarda até a liberação do quarto e segue o roteiro que preparou para o dia. Ao retornar ao hotel, completa o registro, recebe as chaves e dirige-se a suas acomodações. Ao chegar lá, surpreende-se: porta entreaberta e vozes humanas. 

Verifica o número do apartamento e não há engano. Abre completamente a porta e depara com dois homens segurando duas peças enormes que parecem ser portas ou prateleiras. Eles rapidamente esclarecem que estão consertando o armário. Fred sente-se muito cansado. Tudo o que quer neste momento é tomar um banho e descansar, e seu quarto não está pronto. Resolve voltar à recepção e solicitar outro apartamento. “O hotel está lotado”, diz o funcionário. A única opção seria remanejá-lo para uma acomodação de categoria inferior. Inicia-se uma longa conversação sobre as alternativas disponíveis para seu alojamento, ao  final da qual Fred decide retornar ao dito apartamento. 

O conserto do armário será finalizado no dia seguinte. Fred é um negociador profissional, viajou para negociar com um cliente de sua empresa. Será que, com o hotel, ele negociou como deveria? 

**UMA PESQUISA**

O que devemos fazer para atuar competentemente em nossas negociações? Não há respostas simples para essa questão, mas os primeiros passos certamente são conseguir reconhecer situações de negociação e ser capaz de tomar a iniciativa de começar um processo de negociação. Para entender melhor esse primeiro passo, examinamos recentemente 77 gestores –40 brasileiros e 37 norte-americanos– com idade média de 27,5 anos, experiência executiva de mais de cinco anos, que faziam pós-graduação em gestão nos respectivos países de origem. Deles, 58% eram homens. Nosso objetivo com o estudo era entender a propensão a iniciar uma negociação, relacionando-a com quatro características de personalidade importantes para a negociação em geral: propensão ao risco, propensão à conduta de natureza maquiavélica, percepção de controle sobre os acontecimentos e autoconsciência das próprias habilidades. 

**RECONHECER A SITUAÇÃO**

Reconhecer uma situação de negociação é importante. Embora passemos a maior parte de nosso tempo envolvidos com outras pessoas buscando resolver questões onde há conflitos de interesses, nem todas as situações de conflito constituem uma situação de negociação. São quatro as condições necessárias para que uma situação seja, de fato, de negociação: 

1. Há ao menos duas partes cujos interesses estão em choque. 

2. Cada parte envolvida na situação precisa da outra para resolver seu problema ou atingir seu objetivo particular. 

3. Não existem regras fixas e claras para resolver o conflito. 

4.As partes preferem não usar a força para resolver o conflito. 

> **O processo iniciador do negociador-empreendedor**
>
> **Etapa 1:** Reconhecimento da oportunidade. Para iniciar uma negociação, o negociador precisa primeiro identificar a situação como passível de negociação. Diante de uma situação de conflito, o negociador dotado de versatilidade empreendedora imediatamente verifica se há regras fixas e claras plenamente estabelecidas para resolver a situação. Sua ausência é um indicativo de oportunidade para iniciar um processo de negociação. 
>
> **Etapa II:** Neutralização das apreensões. Uma vez identificada uma oportunidade, faz-se necessário avaliar os prós e contras de iniciar um processo de negociação. Em primeiro lugar, o negociador-empreendedor avalia os possíveis riscos decorrentes de tomar uma iniciativa. Para tomar a iniciativa de negociar, ele precisa vencer temores relativos à reação da outra parte quanto à verbalização de suas demandas. Essa análise leva em conta tanto as implicações imediatas como as possíveis consequências para o médio e longo prazos. 
>
> **Etapa III:** Qualificação para o pleito. Finalmente, o negociador- -empreendedor avalia as chances de sucesso nessa potencial empreitada. Para aumentar as chances de sucesso em seu pleito, o indivíduo precisa se sentir merecedor do que está pleiteando para poder vencer com eficácia os obstáculos e resistências naturais da outra parte.

**INICIAR UMA NEGOCIAÇÃO**

Iniciar uma negociação constitui um processo de três etapas: 

I. Reconhecimento da oportunidade. 

II. Neutralização das apreensões. 

III. Qualificação para o pleito. 

Nem todas as potenciais situações de negociação dão lugar a um processo de negociação. Muitas vezes, os indivíduos não percebem uma oportunidade de negociação. A razão para isso, como descobrimos na pesquisa, é que os seres humanos diferem uns dos outros quanto a sua propensão a iniciar uma negociação. Àquela pessoa que toma iniciativas de negociar chamamos “negociador-empreendedor”. 

**O NEGOCIADOR-EMPREENDEDOR**

Para a maioria das pessoas, a situação de negociação é um dado, mas, para o negociador-empreendedor, as potenciais situações de negociação constituem oportunidades a serem descobertas, avaliadas e trabalhadas, se frutíferas. Além de identificar uma potencial situação de negociação, para tomar a iniciativa de iniciá-la, o negociador precisa se tranquilizar com relação a dois aspectos: as possíveis consequências de iniciar o processo e a pertinência das demandas que serão feitas.

Como empreendedor que é, esse tipo de negociador rastreia, em regime contínuo, oportunidades de negociação a sua volta. Enquanto muitos podem permanecer insatisfeitos e acomodados diante de determinada situação, o negociador-empreendedor identifica, avalia e desbrava novas trilhas. O negociador-empreendedor toma a iniciativa porque identifica a situação, vence seus temores quanto à possível reação da outra parte e se sente merecedor do que está pleiteando. Ele exibe autoconsciência de sua competência para atingir objetivos em situações de negociação, o que lhe favorece tomar iniciativas de negociação. É com isso que ele cria um círculo virtuoso: a autoconsciência das próprias habilidades de negociar estimula o negociador a tomar iniciativas de negociação; com isso, aumenta sua experiência em negociar, o que favorece o desenvolvimento e a sedimentação de habilidades de negociação, as quais impactam positivamente os resultados obtidos em negociação; reforçada pelos resultados obtidos, a autoconsciência das habilidades estimula o negociador a tomar novas iniciativas; e assim por diante. 

> **Inicie o círculo virtuoso do negociador-empreendedor**
>
> Há cinco elos no círculo virtuoso do negociador-empreendedor: autoconsciência, iniciativa, experiência, habilidades e resultados, e tudo recomeça na autoconsciência, que pode ser desenvolvida. Para tanto, uma abordagem gradual deve ser posta em prática, partindo de situações corriqueiras, cujos resultados são de baixo impacto. O primeiro passo seria tentar reconhecer esse tipo de situação de baixo risco, iniciar uma negociação, sem ainda lançar demandas. Mais adiante, além de iniciar o processo, a pessoa experimenta explicitar suas demandas, para finalmente, em momentos posteriores, vivenciar o processo completo. O fundamental no processo de desenvolvimento de habilidades em negociação é estabelecer um processo sistemático de autoavaliação. Tal processo deve buscar identificar não somente os pontos fortes do negociador, como aqueles aspectos que merecem ser mais trabalhados por ele. Assim, ele desenvolverá uma autoconsciência construtiva que lhe permitirá empreender

**DE VOLTA A FRED (E À PESQUISA)**

Será que Fred atuou de maneira competente na questão? Afinal, acabou ficando no apartamento problemático. Em sua chegada, tudo transcorreu conforme rezam as claras regras hoteleiras, mas, no retorno ao final do dia, exausto, sem querer procurar outro hotel àquela hora da noite, ele viu, sim, uma oportunidade de negociação e iniciou o processo. E, se permaneceu no controverso quarto, negociou a redução no preço das diárias e a gratuidade do café da manhã. Fred mostrou ser um negociador-empreendedor.

É maior a probabilidade de Fred ser norte-americano e jovem. Em primeiro lugar, porque, segundo nossa pesquisa, os norte-americanos mostram- -se mais propensos a identificar uma situação de negociação do que os brasileiros. Em segundo, eles também parecem mais inclinados a iniciar uma negociação, uma vez que a pesquisa mostrou que norte- -americanos com alta disposição a correr riscos iniciam uma negociação mais do que brasileiros com baixo apetite por risco. Como não vimos relação direta entre risco e iniciativa, a cultura parece ser o fator de influência. Em terceiro lugar, quanto mais jovens os pesquisados, maior propensão a iniciar uma negociação. No entanto, nada indica que um Frederico brasileiro e mais velho não possa ter o traço empreendedor.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

O que CEOs e CFOs realmente avaliam nas reuniões de orçamento

Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo