Uncategorized

Empresa feita de muitos líderes

O CEO da Kerry para a América Latina ressalta que o engajamento dos funcionários os transforma em líderes, consequentemente, facilita formar equipes que consigam desempenhar bem

Compartilhar:

Quando mais jovem, a definição de sucesso deMarcelo Marques era ser um jogador de futebol convocado para a seleção na Copa do Mundo. A definição mudou, mas ele continua a achar que, como nos esportes, o verdadeiro sucesso nos negócios não se alcança sozinho; é necessário um time – engajado.

Nesta conversa com a VP de RH Latam Tatiana Godói, o CEO da Kerry para a América Latina conta como é estratégica a gestão de pessoas nessa empresa fornecedora de produtos para a indústria de alimentos e bebidas. Seja pelo ritmo de crescimento – ela atua há 27 anos na região e, nesse período, adquiriu, em média, uma empresa a cada dois anos –, seja pelos desafios diversos à frente, que precisam do talento das pessoas para ser vencidos. Ou só porque o engajamento é a chave do sucesso.

## CICLO VIRTUOSO

__TATIANA GODÓI:__ Falamos muito de engajamento dos colaboradores, então começo por esse ciclo virtuoso: a empresa contribuindo para engajar e o engajado contribuindo para a empresa. Como estamos trabalhando esse ciclo na Kerry, em sua opinião?

__MARCELO MARQUES:__ Engajar pessoas é a melhor forma de termos uma empresa líder feita por líderes. Porque todo profissional engajado é um líder, no sentido de que chama os temas para si, se apresenta, se dispõe a liderar iniciativas que contribuem para desenvolver a empresa e as demais pessoas.

Para que esse ciclo virtuoso se instale em qualquer lugar, deve, antes de mais nada, haver a identificação do profissional com o propósito e os valores da organização. No nosso caso, temos esses dois pontos muitos fortes em nossa cultura organizacional. Nosso propósito é “Inspirar os Alimentos e Nutrir a Vida” e nossos valores são “coragem, senso de dono, inclusão, mente aberta e espírito empreendedor”. Outro ponto que reconheço em todo profissional engajado é a curiosidade; ele está sempre disposto em aprender coisas novas, quer experimentar, melhorar em parceria com a organização.

Como uma empresa alimenta o ciclo virtuoso? Primeiro, criando um ambiente de segurança psicológica, estimulando uma cultura aberta, inclusiva, para que todos se sintam confortáveis em compartilhar suas ideias, em discordar, trazer pontos de vista diferentes. Aqui trabalhamos para haver essa segurança, que leva as pessoas a naturalmente assumir um papel de protagonismo, tanto no negócio como também em relação ao seu desenvolvimento e suas carreiras.

Outro aspecto-chave para a empresa gerar o ciclo virtuoso é que todos os níveis de gestores pratiquem uma gestão humanizada, tratando os colaboradores de uma forma empática, entendendo suas ansiedades, inseguranças, orientando e dando clareza. O engajamento, que é responsabilidade dos gestores, brota dessa humanização e dessa clareza. Como você sabe, prezamos muito “walk the talk” ao liderar, a coerência entre o que falamos e o que fazemos, o que reforça clareza e alinhamento. O CEO, inclusive, tem de ser percebido como acessível e até vulnerável.

O que o colaborador engajado faz pela empresa? Atua em equipe para mobilizar e conduzir iniciativas para o sucesso da companhia. Tanto iniciativas como simplificação de processos, melhoria da colaboração e interação entre as áreas, trabalho em matriz e aceleração do desenvolvimento de talentos, por exemplo, como projetos relevantes. Tudo isso é crítico para seguirmos crescendo no ritmo que esperamos, e com a velocidade que as coisas acontecem hoje.

O indivíduo engajado trabalha em prol da empresa e do coletivo, não foca somente no individual. Aí o fluxo de comunicação melhora muito; é possível perceber a energia no ar.

__… e o cliente agradece, porque é mais bem cuidado. Esse ciclo virtuoso foi transformado na pandemia? Os papeis do líder e do RH nele seguem iguais?__

A pandemia incluiu na equação o home office e, mais que isso, o anywhere office, algo que pode aumentar o engajamento, porque significa trabalhar em uma cultura baseada na confiança. Voltamos à segurança psicológica, percebe? Se você, líder, entende que o importante é a qualidade da entrega e não de onde a pessoa entrega; se você tem uma equipe engajada, com metas e valores claros; se você tem a confiança instalada no time, você e todo mundo pode trabalhar de qualquer lugar.

Acredito que o anywhere office é uma tendência que vem para ficar e impacta demais a preparação das lideranças e do RH, sim, você tem razão.

É preciso que a liderança seja mais empática, mais humanizada, mais inclusiva, que entenda e respeite que cada membro do time vai querer viver e trabalhar daqui para frente de uma forma diferente. Se eu quero voltar para o escritório full time, volto. Se eu quero voltar no modelo híbrido pelos meus filhos, tudo bem. Se eu sou solteiro e posso trabalhar de qualquer lugar, viajando por aí, tudo bem também. A liderança que vai ter que estar muito preparada para trabalhar a gestão de equipes virtuais, com mindset ágil. E a cultura organizacional como um todo tem de ser muito ágil. É o que temos trabalhado aqui na Kerry.

__Como nossa área de RH, na Kerry, tem traduzido as prioridades estratégicas em ações de pessoas?__
Antes de responder, acho importante destacar a forma como estruturamos nossa área de recursos humanos. Adotamos um modelo de business partners, onde temos profissionais dedicados a certas áreas para entender mais profundamente seus negócios, apoiar a liderança na gestão de pessoas e traduzir as demandas do negócio em pessoas.

Assim, vocês são muito conectados com o negócio na Kerry e têm o papel de garantir um balanço entre um RH focado no negócio e um RH focado em pessoas, assegurando que haja equilíbrio entre a busca dos resultados de curto prazo e nossa visão de futuro, que precisa que as pessoas estejam bem para se materializar. A conexão do nosso RH com nosso planejamento estratégico é forte e o RH traduz nossas metas estratégicas para a gestão de pessoas com ações focadas em três principais frentes – liderança, cultura e talento.

Um exemplo: como boa parte das multinacionais, temos uma estrutura matricial, que traz algumas complexidades para a organização. E temos de ser ágeis. O RH capacita todos a tomarem decisões no modelo matricial de modo ágil.

Outro exemplo, já que falamos bastante em engajamento: na Kerry temos uma pesquisa anual sobre engajamento, a “Our Voice”, divulgada pela RH. A mera divulgação da pesquisa, seguida da formação de grupos de trabalho com líderes e colaboradores para cocriarem soluções para eventuais desafios, é uma tradução e tanto da nossa estratégia.

Mais um exemplo em que a ação do RH é crucial: diversidade e inclusão. Temos um comitê de sustentabilidade social global, com programas e práticas globais nesse campo, e garantimos o cascateamento disso localmente.

## VIDA PESSOAL E CARREIRA

__A pandemia virou outra chave: temos nos desafiado sobre o que priorizar e não priorizar. Concorda?__
Sim. Um legado da pandemia, se podemos falar assim, foi que a gente começou a ter atitudes diferentes para encontrar um equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Um exemplo simplista, mas típico de uma organização internacional, é que, antes, sempre estimulávamos as interações entre os distintos países e regiões com muitas viagens de avião. Agora essas interações se tornaram mais frequentes e foi graças à tecnologia. Vale ainda priorizar viagens de avião? Ou podemos, sem elas, aumentar qualidade de vida e proximidade com a família, reduzir o impacto ambiental e gerar economia para a empresa?

Para quem sempre viajou muito, e eu me incluo nessa lista, o fato de termos passado por isso sem dúvida traz uma perspectiva de como nortear as nossas viagens, de como ter objetivos claros para cada viagem fazer sentido. Apesar dos incalculáveis impactos negativos que a pandemia nos trouxe, devemos guardar os bons aprendizados.

__Como você lida com erros? E como aprende?__
Sempre cometi muitos erros, como todo mundo – nesse campo, o importante é reconhecer o erro. Quanto a aprender, eu tenho a felicidade de interagir com muitas pessoas e com muitas organizações diferentes, como startups, universidades, empresas de tecnologia. Isso me aguça a curiosidade e me faz querer continuar aprendendo sempre. Quando começamos a nos sentir numa zona de conforto, é um erro que está acontecendo – para voltar à primeira parte da sua pergunta – e precisa ser reconhecido.

Aprecio também a educação continuada, e a Kerry estimula programas de desenvolvimento em hard e soft skills. Já fiz cursos, por exemplo, como Berkeley e Yale e, mesmo durante a pandemia, fiz cursos online em universidades.

Também é necessário aprendermos sobre nós mesmos. Devemos buscar nos conhecer melhor para lidar com todos esses desafios que enfrentamos. Isso e o time são o que nos ajuda.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quanto vale uma franquia da Omie?

Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Como a inteligência artificial pode destravar R$ 2,5 trilhões em crédito

Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Nem toda empresa precisa de um C-level

Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Hiperconectados, solitários e irrelevantes?

Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

A próxima revolução será humana?

Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo