Estratégia e Execução

Encontre o próximo Steve Jobs

Encontre vítimas de bullying

Compartilhar:

Muitas pessoas criativas acreditam em si mesmas e na própria criatividade. Em geral, elas foram as mais espertas de todas as crianças da turma –e ainda acreditam nisso. E costumam estar certas. É por isso que podem ser tão desagradáveis. Muitas outras pessoas criativas, contudo, foram intimidadas e ridicularizadas por serem diferentes, por terem ideias estranhas ou por se vestirem de um jeito esquisito. As outras crianças zombavam delas o tempo todo. 

Os professores tentavam botar algum juízo na cabeça delas. Os pais se desesperavam ao pensar que os filhos jamais seriam “normais”. Algumas dessas crianças revidavam, mas muitas nunca se defendiam. Nada faz as pessoas se conformarem mais rapidamente que o medo de se machucar, de serem intimidadas ou ridicularizadas. A dor é um grande motivador. 

Da mesma forma como as outras crianças, professores e pais podem destruir a criatividade de uma criança, as empresas também podem minar a criatividade de seus colaboradores, destruindo sua autoconfiança ao longo do caminho. Isso é particularmente verdadeiro se a identidade da pessoa se fundamenta na criatividade. É quase impossível manter sua autoestima se você propõe uma ideia interessante após a outra e sua empresa se recusa a adotar qualquer uma delas –ou até mesmo deixa de levá-las em consideração. Pior ainda, a empresa pode ridicularizar suas ideias. Essa reação é uma forma de bullying tão degradante quanto a versão do pátio da escola. 

Isso deixa uma pessoa criativa extremamente frustrada e infeliz. Afinal, todas aquelas grandes ideias que ela achava que estava levando à empresa não deram em nada, e agora ela fica largada em sua sala, sentindo-se mal pela sua incapacidade de executar. Um grande número de empresas se vangloria das pessoas criativas que tem na equipe. Mas essas mesmas empresas não necessariamente levam a cabo as ideias criativas. Sabem que sairão bem na fita, gabando-se de serem empresas criativas, mesmo se não deixarem seu pessoal criativo agir com liberdade. Enquanto isso, seu pessoal criativo, infeliz e subutilizado, vai aos poucos sendo treinado para acreditar que a criatividade só os deixará em apuros. 

Assim, em sua próxima entrevista de emprego, essas pessoas minimizam sua criatividade. “Não quero mais passar por isso”, decidem. “Dessa vez, não vou arriscar.” Essas pessoas criativas precisam encontrar um emprego em que possam ser, digamos, inventivas –em outras palavras, em que possam ser elas mesmas. Em algum ponto você entrevistará uma pessoa como essa para um emprego. Tire-a da toca. Deixe-a à vontade. 

Ela pode não ter sido capaz de realizar nada em seu último emprego, mas leve-a a falar sobre suas vitórias criativas antes disso. Ela pode ter vencido um concurso de poesia na escola, ganhado o primeiro prêmio em uma feira de ciências ou atuado no papel principal no teatro do bairro. Com o tempo, ela aprendeu a esconder esse lado, que na verdade é sua característica mais interessante e valiosa. Alguns de meus melhores colaboradores vieram de empresas nas quais seus talentos foram totalmente desperdiçados. Lembro-me de uma empresa particularmente tóxica que costumava fazer um pequeno show com as ideias criativas de seus colaboradores. 

Elas nunca levavam essas ideias ao mercado, mas queriam exibi-las para se gabar de sua originalidade. Os colaboradores que se destacavam nesses eventos nunca conseguiam vender suas ideias em qualquer outro momento. Aqueles eventos acabaram se transformando em uma espécie de feira de emprego para essas pessoas, que eram escolhidas por outros empregadores capazes de enxergar e valorizar seu potencial. Um alerta às empresas que se recusam a promover seu pessoal criativo: não façam um show para apregoar esses colaboradores aos concorrentes.

> **ENCONTRE O PRÓXIMO STEVE JOBS**
>
> Nolan Bushnell com Gene Stone • hsm • 2014
>
> O empreendedor norte-americano Nolan Bushnell, famoso como fundador da icônica companhia de games Atari e da Chuck E. Cheese’s, rede de centros de entretenimento familiar dos Estados Unidos, tem, em seu currículo, o fato de ter empregado –e impulsionado– Steve Jobs. Bushnell agora escreve um livro sobre como identificar e atrair pessoas talentosas como o homem que viria a fundar a Apple, uma das empresas mais valiosas do mundo. Segundo ele, isso implica, entre outras coisas, procurá-las onde ninguém as procura e recrutá-las como ninguém faria. E também implica escrever um livro de recursos humanos que ninguém escreveria. É o que o célebre empreendedor faz em Encontre o Próximo Steve Jobs, que se inicia com o relato de uma festa em 1980 em sua casa de Paris, à qual Jobs, já como fundador da Apple, compareceu. Receitas inusitadas se sucedem, em capítulos curtos escritos de maneira provocadora e irreverente por ele e pelo coautor Gene Stone. HSM Management publica aqui dois desses capítulos, na íntegra.

> **CONTRATANDO NAS ARQUIBANCADAS**
>
> Um de meus maiores prazeres da vida sempre foi comparecer aos eventos esportivos de meus filhos. Tenho muito orgulho deles e não me importo se ganham ou perdem. Reparei que muitas pessoas espertas também vão assistir aos eventos esportivos dos filhos… E ficam entediadas. Sim, poucas coisas são piores que seu filho decidir que quer participar de uma equipe de natação, porque as competições de natação são intermináveis e incrivelmente enfadonhas. E lá está você, sentado na arquibancada, enquanto um bando de crianças indistinguíveis a distância avança ruidosamente em uma piscina, chapinhando água por todos os lados. 
>
> Para aliviar o tédio, você acaba passando o tempo conversando com outros pais. Costumo falar sobre tecnologia e já aconteceu de eu contratar pessoas lá mesmo. Por exemplo, em um evento esportivo nos idos da década de 1970, estava batendo papo com o sujeito sentado ao meu lado, um homem chamado Bob Brown. Perguntei o que ele fazia, e respondeu que projetava chips customizados. Um assunto levou a outro, e logo estávamos conversando animadamente sobre a indústria dos games. Isso foi numa época em que muitas pessoas eram contra a guerra, e concordamos que criar chips para games era mais divertido que criar chips para aplicações militares. Antes do fim do evento, eu já tinha contratado Bob, um excelente engenheiro capaz de projetar praticamente qualquer coisa. Nunca pare de pensar em lugares para encontrar e contratar um bom pessoal.

**CONTRATE DEBAIXO DO SEU NARIZ**

O Observar as pessoas trabalhando fora da sua empresa é uma das melhores maneiras de encontrar pessoas criativas. Quando digo isso, as pessoas costumam rir. “Não posso simplesmente entrar em outra empresa e assistir”, insistem. Sim, você pode. Você só não está sendo criativo ao pensar onde essas pessoas podem ser encontradas. As pessoas criativas não trabalham necessariamente em empregos criativos. 

O problema do mercado de trabalho (e das práticas de contratação em geral) é que as pessoas criativas muitas vezes ficam sem emprego –ou pelo menos não conseguem encontrar um emprego na área que gostariam. Ser empolgado e interessante, por si só, não paga as contas, de modo que pessoas empolgadas e interessantes muitas vezes acabam em empregos sem graça, porque ninguém quer contratá-las. Contratei muita gente que me chamou a atenção por demonstrar criatividade em seu trabalho. 

Uma das melhores contratações que já fiz foi uma garçonete de uma rede de restaurantes. Ela era divertida, transformou todas as minhas patéticas tentativas de fazer graça em uma verdadeira comédia e fez com que todos se sentissem muito bem. Minha família e eu observamos admirados aquela mulher, como se ela tivesse um holofote de dez mil watts focado nela. Eu a contratei ali mesmo para desenvolver alguns programas de marketing inovadores. 

Ela se mostrou espetacular na função, espalhando, na nossa empresa, a mesma energia positiva que fazia dela uma garçonete incrível. Em outra ocasião, estava em uma loja de equipamentos de camping em Palo Alto, Califórnia. O jovem vendedor que me ajudou sabia tanto sobre os equipamentos e era tão apaixonado por acampamento que foi um enorme prazer conversar com ele. É raro encontrar um vendedor ao mesmo tempo tecnicamente competente, encantador e divertido. Soube imediatamente que seria perfeito para a Chuck E. Cheese’s. 

Ele foi alocado no atendimento ao cliente, já que seu talento para isso era óbvio, e subiu ao topo do departamento em apenas um ano. Normalmente as pessoas só enxergam o que esperam ver. Se você esperar ver apenas uma garçonete, só verá uma garçonete. Se observar todo mundo como um colaborador em potencial para sua empresa, todo um novo mundo de possibilidades se revelará para você. Abra os olhos. As pessoas criativas estão por toda parte. 

Não deixe de procurar só porque você não está na empresa. Algumas das pessoas mais criativas que você encontrará estão escondidas à vista de todos. Atenção, candidatos a emprego: não importa qual seja o seu trabalho atual, se pelo menos uma pessoa estiver assistindo, você está no palco. Você nunca sabe quando alguém vai lhe oferecer seu próximo emprego. Na verdade, você pode nem precisar sair do escritório para encontrar pessoas criativas escondidas em empregos comuns. O simples fato de terem sido contratadas não significa que estejam no melhor cargo possível. Pelo contrário, podem ter sido vítimas de um equívoco de alocação. Uma das melhores maneiras de encontrar pessoas criativas é praticar a gestão de corredor. 

Em outras palavras, quando você tem um problema, saia da sua sala e vá conversar com a recepcionista, com a mulher da contabilidade, com o cara de vendas. Por quê? Para começar, você estará incluindo pessoas que normalmente são ignoradas, o que, por si só, já é bom. Além disso, não é raro obter uma nova perspectiva sobre um problema, de alguém que conhece bem o negócio dele. Opiniões e sugestões diversificadas são tão necessárias para o crescimento criativo da sua organização quanto a água é para a vida. As expectativas impulsionam as ações. Se a criatividade não for esperada na sua organização, ninguém será criativo. Por outro lado, se criar uma organização na qual a criatividade é esperada, as pessoas se empenharão para atingir essa expectativa.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A maleabilidade mental como nova vantagem competitiva

Neste artigo, a capacidade de discordar surge como um ativo estratégico: ao ativar a neuroplasticidade, líderes e organizações deixam de apenas reagir ao novo e passam a construir transformação real, sustentada por pensamento crítico, consistência e integridade cognitiva.

Gestão empresarial entra em uma nova era com Reforma Tributária e IA

Ao colocar lado a lado a Reforma Tributária e o avanço da inteligência artificial, este artigo mostra por que a gestão empresarial no Brasil entrou em um novo patamar – no qual decisões em tempo real, dados integrados e precisão operacional deixam de ser vantagem e passam a ser condição de sobrevivência.

Paralisia executiva: O paradoxo da escolha na era da IA ilimitada

Em vez de acelerar a inovação, o excesso de opções em inteligência artificial está paralisando líderes. Este artigo mostra por que a indecisão virou risco estratégico – e apresenta um caminho prático para escolher, implementar e capturar valor antes que seja tarde.

Quando a liderança encontra a vida real

Este artigo mostra que quando cinco gerações convivem nas empresas e nas famílias, a liderança deixa de ser apenas um papel corporativo e passa a exigir coerência, empatia e presença em todos os espaços da vida.

Lifelong learning
8 de maio de 2026 08H00
Neste artigo, a capacidade de discordar surge como um ativo estratégico: ao ativar a neuroplasticidade, líderes e organizações deixam de apenas reagir ao novo e passam a construir transformação real, sustentada por pensamento crítico, consistência e integridade cognitiva.

Andre Cruz - Founder da Neura.cx

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
8 de maio de 2026 07H00
Ao colocar lado a lado a Reforma Tributária e o avanço da inteligência artificial, este artigo mostra por que a gestão empresarial no Brasil entrou em um novo patamar - no qual decisões em tempo real, dados integrados e precisão operacional deixam de ser vantagem e passam a ser condição de sobrevivência.

Odair Benke - Gestor de operações com o mercado na WK.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de maio de 2026 15H00
Este artigo mostra por que a inteligência artificial está deslocando o foco da gestão do tempo para o desenho inteligente do trabalho - e como simplificar processos, em vez de acelerá‑los, se tornou a nova vantagem competitiva.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de maio de 2026 08H00
Em vez de acelerar a inovação, o excesso de opções em inteligência artificial está paralisando líderes. Este artigo mostra por que a indecisão virou risco estratégico - e apresenta um caminho prático para escolher, implementar e capturar valor antes que seja tarde.

Osvaldo Aranha - Empresário, palestrante e mentor em Inteligência Artificial, Inovação e Futuro do Trabalho

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
6 de maio de 2026 15H00
Depois de organizar clientes, operações e dados, falta às empresas organizar a si mesmas. Este artigo apresenta o One Corporate Center como a próxima fronteira competitiva.

Edson Alves - CEO da Ikatec

3 minutos min de leitura
Liderança
6 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra que quando cinco gerações convivem nas empresas e nas famílias, a liderança deixa de ser apenas um papel corporativo e passa a exigir coerência, empatia e presença em todos os espaços da vida.

Ale Carreiro - Empresário, Fundador e Diretor Comercial da EBEC - Empresa Brasileira de Educação Corporativa

13 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de maio de 2026 14H00
Com crescimento acelerado na contratação internacional e um fluxo cada vez mais bidirecional de talentos, o Brasil deixa de ser apenas exportador de profissionais e passa a se consolidar como um hub global de inteligência artificial - conectado às principais redes de inovação do mundo.

Michelle Cascardo - Gerente de vendas para América Latina da Deel

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
5 de maio de 2026 08H00
Diversidade amplia repertório, mas também multiplica complexidade. Este artigo mostra por que equipes diversas só performam quando há uma arquitetura clara de decisão, comunicação e gestão de conflitos - e como a falta desse sistema transforma inclusão em ruído operacional e perda de velocidade competitiva.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
4 de maio de 2026 15H00
Ao comparar a indústria automotiva ao mercado de smartphones, este artigo revela como a perda de diferenciação técnica acelera a comoditização e expõe um desafio central: só marcas com forte valor simbólico conseguem sustentar margens na era dos “carros‑gadget”.

Rodrigo Cerveira - Sócio e CMO da Vórtx e co-fundador do Strategy Studio

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de maio de 2026 08H00
Quando a IA torna o conteúdo replicável, a influência só sobrevive onde há autenticidade, PI e governança. Este artigo discute por que o alcance virou commodity - e a narrativa, ativo estratégico.

Igor Beltrão -Diretor Artístico da Viraliza Entretenimento

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão