Cultura organizacional

Equidade de gênero nas empresas, uma questão de compliance

A área de compliance assume um papel importante no combate às desigualdades de gênero nas empresas, e isso não é um debate ideológico: é uma questão de eficiência organizacional e gerenciamento de risco
Advogada e fundadora da [SafePlace](https://safeplacebrasil.com/), plataforma digital com o objetivo de reduzir as desigualdades de gênero no ambiente de trabalho.

Compartilhar:

5.600 mulheres que atuavam como representantes de vendas processaram a farmacêutica Novartis nos Estados Unidos em 2010. Elas alegaram que suas carreiras estavam estagnadas nos degraus inferiores da hierarquia da empresa em função de um “clube de homens (…), cujos funcionários do sexo masculino cuidavam uns dos outros às custas das mulheres”.

Elas também argumentaram que foram mais excluídas do que os homens em um importante programa de treinamento. Na época, a Novartis fez um acordo de 175 milhões de dólares depois de perder um processo no tribunal do júri.
Anos depois, em 2017, a Fox fez um acordo de 20 milhões de dólares para resolver o caso de assédio contra a apresentadora de TV Gretchen Carlson. Ao que consta, ocorrências similares na Fox deram origem a pelo menos sete acordos de quantias vultosas, sendo alguns voltados à empresa e outros contra funcionários.

No Brasil, uma pesquisa realizada recentemente pelo LinkedIn divulgou que 47% das mulheres afirmam já ter [sofrido assédio sexual no ambiente de trabalho](https://www.revistahsm.com.br/post/assedio-moral-no-trabalho-pesquisa-revela-que-metade-dos-profissionais-brasileiros-pratica-ou-tolera).

Nos últimos meses, assistimos à repercussão da denúncia de abuso realizada contra o ator e chefe do departamento de humor da Rede Globo, Marcius Melhem, que teve o seu contrato encerrado em agosto de 2020, após 17 anos trabalhando na emissora.

Em outubro do mesmo ano, [uma matéria da jornalista Mônica Bergamo](https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2020/10/marcius-melhem-foi-violento-com-varias-atrizes-diz-defesa-de-vitimas.shtml) indicou que o motivo do encerramento do contrato do ator com a emissora poderia estar ligado a uma série de denúncias de assédio realizadas por atrizes da Rede Globo.

A repercussão pública do [caso de Marcius Melhem](https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-que-mais-voce-quer-filha-para-calar-boca/) não foi uma exceção. Nos últimos anos, presenciamos diversos movimentos para promoção da equidade de gênero na comunidade empresarial que tomaram conta das redes sociais e encorajam outras mulheres a se manifestar sobre abusos e opressões enfrentadas no ambiente de trabalho.

## Equidade e coerência

Nesse [novo cenário](https://www.revistahsm.com.br/post/o-mundo-precisa-de-uma-sacudida), gerir implica reavaliar o modo como a sua empresa responde à pauta de equidade de gênero. É importante lembrar que os seus funcionários e clientes estão atentos com a forma como todos são tratados no local de trabalho e este é o momento de você saber se está adaptado à nova realidade. A palavra de ordem é coerência.

Nesse sentido, tornou-se fundamental a atuação efetiva da área de compliance na construção e acompanhamento de políticas e processos que promovam a equidade de gênero, especialmente: [políticas antiassédio](https://www.revistahsm.com.br/post/assedio-moral-e-sexual-no-trabalho-como-evita-los-na-sua-empresa), políticas de incentivo à formação profissional da mulher, processo para análise de dados sobre disparidade de oportunidades entre homens e mulheres, dentre outros temas e ações.

## Respostas ao novo risco

Este é um momento importante para rever a forma como a sua empresa aborda a pauta, e garantir que não seja apenas uma iniciativa publicitária. Isso significa identificar e comunicar claramente a cultura, as normas e os [padrões de comportamento que a empresa gostaria de promover](https://www.revistahsm.com.br/post/livros-apontam-caminhos-para-uma-lideranca-inclusiva). Além disso, é necessário demonstrar que, se estes padrões forem violados, a empresa estará preparada para adotar as medidas necessárias.

Essa abordagem não só inspira confiança nos funcionários, como também pode ajudar a empresa a responder rapidamente em momentos de crise.

Analise os dados da sua empresa para verificar se há disparidade de oportunidades entre homens e mulheres. É importante que a empresa comunique amplamente quais são as habilidades e competências necessárias para o crescimento na organização e desenvolvimento de carreira. O objetivo é mostrar efetivamente que todos e todas têm a oportunidade de se desenvolver dentro da área onde escolheram trabalhar.

Esse é um bom momento para fazer uma pesquisa com os funcionários sobre os processos internos da empresa, incluindo os relacionados à tomada de decisão, e o quanto esses processos viabilizam ou dificultam a promoção da equidade de gênero.

O processo de tomada de decisão é fundamental para uma boa gestão de risco relacionada à equidade de gênero. Especialmente, na investigação e deliberação de denúncias sobre discriminação ou [má conduta praticada contra mulheres dentro da empresa](https://www.revistahsm.com.br/post/trabalho-sem-assedio).

Os funcionários perceberão se, com frequência, as recomendações da área de RH sobre tais denúncias forem vetadas pelos gestores, diretores ou conselheiros.

Para que um processo de investigação seja levado a sério, é necessário que haja autonomia na tomada de decisão e imparcialidade daqueles que o conduzem.

## Oportunidades e valores inerentes ao negócio

Além do amplo benefício intrínseco ao local de trabalho em que todos possam prosperar, o compromisso efetivo com a equidade de gênero, também pode ser um benefício para a empresa em ocasiões de crise.

Em 2017, a Google se viu no meio de uma controvérsia pública envolvendo o engenheiro James Damore, que fez circular um memorando no qual atribuía parcialmente a baixa representação de mulheres na área de tecnologia às diferenças biológicas. Nesse caso, o engenheiro foi demitido e o CEO da Google emitiu uma declaração pública explicando por que a posição do engenheiro era contrária aos valores fundamentais da empresa.

Naquela época, a atitude de James Damore não gerou tanta repercussão negativa para a imagem da empresa como aconteceu no caso da Fox, por exemplo. Isso ocorreu porque a Google já vinha se dedicando a abordar questões de equidade.

Certamente, falar abertamente sobre políticas e práticas de promoção da equidade de gênero dentro das empresas é um tema tão necessário quanto relevante para o próprio negócio. [Não há como voltar, e nem devemos retroceder](https://www.revistahsm.com.br/post/a-nova-era-do-empreendedorismo). Se a sua empresa pretende se manter ativa, trabalhe por políticas e práticas eficazes para todos e todas, e envolva as diversas áreas necessárias, especialmente, compliance.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

O que CEOs e CFOs realmente avaliam nas reuniões de orçamento

Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo