ESG

ESG e os guias de estilo: como fica a competência comunicativa das empresas?

Não é errado traçar um perfil corporativo de comunicação e alinhar expectativas e tendências dos relacionamentos profissionais, desde que seja feito com empatia e respeito ao colaborador. A humanização no trabalho não é um conceito que pertence apenas ao futuro
Designer de relações profissionais, Daniela fundou a Consultoria Daniela Cais, especialista em Comunicação Interpessoal aplicada a ambientes corporativos e hubs de inovação. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP, TEDx Speaker e facilitadora de treinamentos de renomadas instituições nacionais e internacionais. Mentora de programas de desenvolvimento de carreiras e negócios, como BNDES Garagem, RME - Rede Mulher Empreendedora e Wadhwani Foundation.

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ESG é uma abordagem que prega a responsabilidade das empresas na conciliação de temas muito valiosos para todo ecossistema. Como relacionar, no cotidiano das empresas, a preservação ambiental, as relações sociais (tanto no que tange às atitudes por justiça e igualdade, quanto pela promoção de saúde e bem-estar) e a governança, ou seja, os atos administrativos que fecundam a economia e a ética das organizações?

Em essência, pede-se uma composição de valores que precisam ser refletidos e praticados para que exprimam e atinjam um propósito muito maior, coletivo, que transcende os limites geográficos das empresas, de forma a sustentar-se reciprocamente, construindo o presente e projetando futuros possíveis, com mais justiça, mais inclusão e mais diversidade.

No entanto, a grande maioria das empresas traz os princípios ESG estampados em seus quadros e falam em humanização do trabalho, sem efetivamente vivenciar todas as dimensões do conceito, talvez pela crença de que ele pertença ao futuro.
Proponho que as empresas se perguntem sobre onde, quando e como esses princípios se manifestam. A localização das respostas ajudará a trazer as ações, pequenas que sejam, para o presente.

Não por acaso, o S (social) ocupa a posição central, pois as articulações externas (ambiental) e internas (governança) precisam do posicionamento e da atitude das pessoas – da forma como se relacionam, do espaço vivo onde expressam suas personalidades, suas culturas, seus aprendizados, onde se criam as possibilidades de evolução.

Numa equação difícil de ser reconhecida, sobretudo para os mais conservadores, a autonomia e a interdependência são tentáculos do desenvolvimento pessoal e são aspectos que dão suporte para mudanças maiores, mais profundas, voltadas para o desenvolvimento coletivo. ESG é sobre isto.

Quando se sugere que um comportamento ou uma roupa ou qualquer outro indicador pessoal é mais aceitável que outros, como a edição de um guia de estilo ou a prescrição de uma norma estética, isto imobiliza a diversidade e normaliza a exclusão, tendo como consequência a desconexão. A estética padronizada viola o direito de ser quem se é, porque obriga uma busca equivocada que cala e marginaliza muitas culturas.

Em outras palavras, sem conexão entre as pessoas não há disposição para cuidar do ambiente, para cultivar relações ou para aprimorar estratégias hierárquicas e administrativas – são erguidas muralhas difíceis de se transpor e, por trás delas, há a hostilidade, o desconforto, o abandono e o preconceito.

Por outro lado, algumas empresas sentem dificuldades em dar atenção devida ao ESG simultaneamente ao seu core business. Muitas vezes, parece-lhes contraditório e distante. Como resolver este impasse?

Recentemente, uma instituição financeira, que se diz praticante de ESG, com fama de ser tecnológica e disruptiva, lançou um guia de estilo, sob a justificativa de que colaboradores, alguns jovens, sem a bagagem de mercado e sem traquejo social, acomodados ao status remoto, precisavam ser expostos a informações sobre a esfera executiva do mundo corporativo. Novos tempos, velhas práticas.

Não há nada de errado em traçar um perfil corporativo de comunicação baseado na cultura organizacional, nos valores primordiais e nas estratégias setoriais do mercado, sem interferência e com respeito à autenticidade das pessoas e dos grupos. Não há nada de errado em comunicar expectativas e tendências dos relacionamentos profissionais, desde que com empatia e respeito.

Para isso, pode-se adotar rituais de onboarding, team building, novos projetos, enfim, momentos, contextos ou situações especiais, que precisam ser discutidas, orientadas, planejadas. Os rituais podem transformar esses momentos e dar sentido às informações, sem descuidar das pessoas, proporcionando confiança e conexão.

Com este exemplo, podemos voltar a falar sobre os princípios ESG, a competência para comunicar-se e comunicá-los é um passo importante para que eles sejam efetivos, desde o instante presente, continuamente. Alex Bretas disse em uma apresentação algo que eu, por conta e risco, chamo de futuro no presente: “O futuro não é o lugar para onde estamos indo, é sim o caminho que construímos, diariamente, para ir adiante”. Isto é, para conciliar as responsabilidades ambiental, social e de governança, vislumbrando um mundo melhor, é necessário começar pelo “mundo menor”, aquele que se alcança abrindo os braços.
De braços dados nosso mundo vai crescendo.

À medida que conhecemos melhor nosso entorno, conhecemos também suas dificuldades, suas necessidades, seus desejos e sonhos; as pessoas ao nosso redor nos permitem contribuir para que problemas sejam solucionados, sonhos sejam realizados, histórias sejam contadas, comunidades sejam fortalecidas. É possível fazer a diferença com mínimos atos a partir das interações pessoais.

Mas não podemos nos esquecer que há muito para ser feito. A ONU estabeleceu a agenda 2030, com metas que clamam pela consciência organizacional e pela responsabilidade solidária de todo o mundo, chamando atenção para impactos visíveis e urgentes, como a equiparação dos salários de homens e mulheres em cargos iguais, que representa um excelente indicador de justiça social e diversidade.

É preciso começar e, para isto, não há tempo melhor que o presente.

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