Uncategorized

Estratégias pós-pandemia para a educação

No Brasil, são mais de 55 milhões de alunos que ficaram privados das atividades presenciais, da Educação Infantil à Pós-Graduação.
PhD em Administração pela FEA/USP. Membro do Comitê de Educação Básica da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED). Reitor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix e Diretor do Colégio Metodista Izabela Hendrix.

Compartilhar:

Os cenários desenhados para as instituições educacionais durante e após o período da suspensão das atividades presenciais por conta da pandemia da Covid-19 não são muito animadores.

Os impactos negativos econômicos se abatem sobre escolas e instituições de educação superior, sejam estas públicas ou privadas. As que dependem de mensalidades veem-se diante de famílias e estudantes com menor renda ou afetados pelo desemprego. Os impactos fiscais com a desaceleração da economia reduzem as possibilidades de financiamento público nos âmbitos Federal, estadual e municipal. 

A pandemia impôs o distanciamento social a cerca de 1,4 bilhão de estudantes e 63 milhões de professores em todo o mundo, que ficaram impedidos de frequentar os espaços físicos das escolas e instituições de educação superior. No Brasil, são mais de 55 milhões de alunos que ficaram privados das atividades presenciais, da Educação Infantil à Pós-Graduação.  

Problemas encontrados para realizar as atividades acadêmicas
————————————————————

Trata-se de uma situação inédita pela escala alcançada e a velocidade com que os fatos se desdobraram. As medidas tomadas para tentar diminuir o prejuízo dos estudantes escancaram uma série de problemas no segmento educacional, já percebidos antes da pandemia. 

Foi preciso reorganizar as atividades acadêmicas e muitas instituições tentaram migrar para o ensino remoto emergencial, diante da possibilidade de longa duração da suspensão das atividades escolares presenciais por conta da pandemia da Covid-19. Nem todas conseguiram. 

Há um aumento da evasão e da inadimplência, com notícias alarmantes sobre centenas de instituições educacionais sob o risco de fecharem as portas devido ao estrangulamento do fluxo de caixa e dificuldades com endividamento. Alunos de escolas públicas são os que correm o maior risco de terem o ano perdido, seja pela falta de acesso ou pelas dificuldades inerentes a uma mudança desse porte em tão pouco tempo. 

Veio à tona a desigualdade do acesso às Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Em 2019, eram 20 milhões de domicílios brasileiros que não tinham acesso à Internet, 28% do total. Além disso, dos que tinham acesso, 58% acessaram a Internet somente pelo celular – muitas vezes por planos que não contemplam largura de banda adequada para assistir a uma videoaula, por exemplo. 

Essa precariedade se agrava na população mais empobrecida e coincide com os extratos sociais onde é mais crítica a chamada Crise de Aprendizagem, a constatação de que muitos dos alunos chegam ao final de sua jornada na escola e na Educação Superior com profundos déficits em relação ao que deveriam ter aprendido.

Aula remota é diferente de EAD
——————————

O regime emergencial de aulas remotas ora adotado por várias instituições educacionais e sistemas de ensino é algo muito diferente de um programa de Educação a Distância (EAD) de boa qualidade.

Há 25 anos de pesquisa e desenvolvimento da EAD online que demonstram que a aprendizagem por esses meios requer um trabalho cooperativo, desenvolvido por equipes que incluem professores, designers instrucionais, desenvolvedores, bibliotecários e, muitas vezes, ex-alunos e stakeholders externos, tais como empregadores. 

Portanto, o que o Brasil e mais 190 países vivenciam na pandemia é uma situação emergencial, onde as respostas são as possíveis, ainda que longe do ideal. Num esforço que pode ser considerado de caráter humanitário, milhares de escolas brasileiras lutam bravamente para manterem a oferta de atividades a distância para crianças, adolescentes e jovens nesse período de distanciamento social.

Como fazer uma EAD de qualidade
——————————-

Em nenhum país do mundo há programas de EAD aplicados para crianças da Educação Infantil ou das séries iniciais do Ensino Fundamental. As TIC são crescentemente adotadas pelas escolas junto a essas faixas etárias de uma maneira complementar ao presencial, para enriquecer as relações de ensino-aprendizagem e promover a alfabetização digital.

Um programa de EAD de boa qualidade exige que os docentes sejam previamente capacitados para atuarem de forma competente nesse novo universo. Alunos e professores precisam contar com suporte técnico e administrativo adequados. A concepção dos currículos e dos materiais didáticos deve levar em consideração as características intrínsecas ao modelo pedagógico adotado. 

Por exemplo, é preciso definir qual a frequência, duração e objetivos das atividades síncronas a distância – quando professor e aluno estão em comunicação simultânea, por videoconferência, texto ou áudio. 

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/b5f848e8-1789-4a92-b3df-adcf4230f92a.png)

                    Figura 1: O continuum da Educação a Distância

O tamanho da turma acompanhada e a carga horária atribuída ao docente para esse trabalho na EAD são aspectos a serem levados em conta. Pois a abrangência e a profundidade que caracterizam a mediação que se estabelece pelo diálogo humano são as pedras de toque que vão indicar o maior ou menor desempenho da aprendizagem. É nessa variável que a escola se diferencia de um mecanismo virtual de busca, de uma editora ou de uma emissora de televisão.

Uma das características da EAD é a perda da privacidade do espaço da sala de aula. Alguns docentes consideram que a liberdade acadêmica é comprometida quando as atividades que desenvolvem com seus alunos são expostas nos meios digitais. Na prática, o que se observa é que os bons professores tornam-se ainda mais admirados quando contam com o suporte adequado e se dedicam com criatividade à realização de cursos não presenciais.

As formas de entrega do conteúdo e os meios disponíveis para a interação entre professores e alunos são recursos da maior importância. Apesar do louvável esforço de gestores, professores e corpo administrativo, talvez esses sejam os aspectos mais preocupantes do momento atual do regime emergencial de aulas remotas. Um problema que não é exclusivo das escolas brasileiras.

A capacitação prévia do corpo docente é fundamental para atuar competentemente nesse novo mundo. O planejamento das atividades, a concepção de novas formas de avaliação, a produção e disponibilização organizada de objetos de aprendizagem se somam à mediação que privilegie a participação mais colaborativa e menos centrada nas aulas expositivas. 

Estratégias para a transformação digital na educação
—————————————————-

Os sistemas educacionais permanecerão expostos e vulneráveis, se pensamos em simplesmente reverter ao que fazíamos antes da crise da escola vazia ou se nos basearmos diretamente no que estamos emergencialmente praticando.

Uma oportunidade que a pandemia trouxe foi acelerar a mudança de larga escala necessária na educação. Há um desalinhamento gritante entre a formação oferecida pelas instituições educacionais, a regulação governamental para o setor, as demandas das organizações e o perfil dos estudantes – sejam os da “Geração Internet” ou os adultos da população economicamente ativa que precisam continuar a estudar por toda a vida.   

A transformação digital é exigida para adequação à chamada Sociedade da Informação, marcada pela aceleração da cultura propiciada pela globalização e o uso intensivo de tecnologia, tanto na automação de processos produtivos quanto nas relações que as pessoas estabelecem no universo digital. As máquinas e softwares são parceiros cada vez mais presentes em todas as atividades produtivas, como ilustrado pela figura 2. 

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/96a5aacf-5c9b-4d30-8fdd-45899454c637.png)

Figura 2. Cenários para o trabalho pareado: Níveis de automação

O modelo linear de educação, emprego e carreira não será mais suficiente no futuro, exigindo novas combinações de competências, habilidades, experiências e colaboração de instituições educacionais e organizações. 

É bom rever Mintzberg (2001, p.121)*, que já alertava que de vez em quando há uma descontinuidade realmente significativa no ambiente, quando tudo o que é importante parece mudar de uma só vez, cabendo aos gestores administrar dentro de uma determinada orientação estratégica na maior parte do tempo e ainda identificar a transformação que realmente importa – isso é a essência da administração estratégica.

*MINTZBERG, H.; QUINN, J. B. O processo de estratégia, 3ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2001.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Essa reunião podia ser um agente

Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão – e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Marketing
14 de maio de 2026 15H00
Executivo tende a achar que, depois de um certo ponto, não é mais preciso contar o que faz. O case da co-founder do Nubank prova exatamente o contrário.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Liderança
14 de maio de 2026 08H00
À luz do Aikidô, este artigo analisa a transição da liderança coercitiva para a liderança que harmoniza sistemas complexos, revelando como princípios como Wago, Awase e Shugi‑Dokusai redefinem estratégia e competitividade na era da incerteza.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Liderança
13 de maio de 2026 15H00
Em um mundo dominado pela urgência e pelo excesso de estímulos, este artigo provoca uma reflexão essencial: até que ponto estamos tomando decisões - ou apenas reagindo? E por que recuperar a capacidade de pausar, escolher e agir com intenção se tornou um diferencial crítico para líderes e organizações.

sabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

7 minutos min de leitura
Finanças, Inovação & estratégia
13 de maio de 2026 08H00
Entre pressão por resultados imediatos e apostas de longo prazo, este artigo analisa como iniciativas de CVC podem sobreviver ao conservadorismo corporativo e construir valor além do retorno financeiro.

Rafael Siciliani - Gerente de New Business Development na Deloitte

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
12 de maio de 2026 14H00
O que antes era visto como informalidade agora é diferencial: este artigo explora como a cultura brasileira vem ganhando espaço global - e se transformando em ativo estratégico nas empresas.

Bell Gama - Sócia-fundadora da Air Branding

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
12 de maio de 2026 08H00
Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão - e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
11 de maio de 2026 15H00
A troca no comando da Apple reacende um dilema central da liderança: como assumir um legado sem se tornar refém dele - e por que repetir o passado pode ser o maior risco em qualquer processo de sucessão.

Maria Eduarda Silveira - CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de maio de 2026 08H00
Vivara, Natura, Blip, iFood e Endeavor já estão usando o Open Talent para ganhar agilidade e impacto. Este artigo revela por que a liderança por projeto e o talento sob demanda estão redesenhando o futuro do trabalho.

Cristiane Mendes - CEO da Chiefs.Group

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de maio de 2026 15H00
Em certas empresas, estar certo não basta - é preciso ser relevante na sala onde as decisões realmente acontecem. Este artigo revela por que, em estruturas de controle concentrado, a influência do CFO depende menos da planilha e mais da capacidade de ler pessoas, contexto e poder.

Darcio Zarpellon - Diretor Financeiro (CFO) e membro certificado do Conselho de Administração (CCA-IBGC | CFO-BR IBEF)

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela como contratações executivas mal calibradas - ou decisões adiadas - geram custos invisíveis que travam crescimento, atrasam decisões e comprometem resultados no longo prazo.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão