Liderança

Existe liderança fora das escolas de negócios?

Dona Rosa, sócia cofundadora da Cooperativa de Catadores e Recicladores de Alagoinhas, prova que é possível liderar uma jornada educativa sobre sustentabilidade, inclusão e diversidade nas ruas catando resíduos sólidos
Elisangela Matos é diretora de sustentabilidade da Ardagh Metal Packaging.

Compartilhar:

Na posição de diretora de uma empresa global com grandes desafios na área de sustentabilidade estou sempre em busca de referências para o meu trabalho, o que inclui metas corporativas ambiciosas e baseadas na ciência, como reduzir as emissões de CO2 até 2030, reduzir a intensidade do consumo de água em 20%, implementar ações para sete dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) do Pacto Global da ONU e avançarmos na educação ambiental e impacto social, tanto interno quanto com as comunidades que atuamos. Assim, ler artigos, participar de fóruns com experts, ouvir conferencistas renomados ou líderes midiáticos são oportunidades para obter insights, fazer descobertas, encontrar algo que inspire e construir parcerias.

Mas quem tem me inspirado ultimamente encontra-se em um modesto barracão de uma cooperativa de catadores. Sem títulos acadêmicos, sem nunca ter estudado em uma faculdade, sem ter milhares de seguidores e nem sequer ter perfis nas redes sociais, uma mulher, preta, humilde, com não mais de 1,60 m de altura, que impressiona e empolga com sua voz contagiante e com o sentimento que transmite quando fala de reciclagem de resíduos, a importância dos catadores e o trabalho em cooperativa.

Rosa Queirós, a Dona Rosa, como é conhecida, não expõe estatísticas nem discorre sobre teorias de aquecimento global. Ela apenas conta a história, da sua vida e da Cooperativa de Catadores e Recicladores de Alagoinhas (Coral), da qual é sócia fundadora, que se misturam num exemplo de luta e empoderamento.

Quando era jovem, atravessava madrugadas empurrando carrinho com duas filhas crianças agarradas à saia e catando resíduos pelas ruas da Alagoinhas, cidade baiana a uns 120 quilômetros da capital. Hoje, com alguns problemas de saúde e quase sexagenária, faltam-lhe condições físicas para continuar na rua. Em compensação, sobram energia e determinação para continuar liderando uma jornada educativa sobre sustentabilidade, inclusão e diversidade.

No início, catar lixo era sua alternativa para “pôr comida nos pratos das filhas”. Com o passar dos anos, porém, o que começou como obrigação de mãe tornou-se a causa de uma cidadã que Dona Rosa nutre diariamente conversando, orientando e mobilizando cooperados, autoridades públicas e a comunidade em torno da importância da preservação do meio ambiente e do papel essencial dos catadores. Neste ponto, a liderança de Dona Rosa emerge pela firmeza, simplicidade e, sobretudo, autenticidade que conquistam confiança e inspiram. Como ela diz, “eu lidero meu povo, não ordeno!”.

A reciclagem de resíduos sólidos é altamente relevante para o planeta porque tem duplo papel no combate à crise climática. Numa ponta, a destinação correta reduz a emissão de gases de efeito estufa. Na outra, permite logística reversa e economia circular que podem diminuir a extração de recursos naturais do meio ambiente para a produção de insumos ou matérias-primas. Uma tonelada de alumínio reciclado, por exemplo, poupa cinco toneladas de bauxita e quase 17 mil kWh de energia, conforme dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas).

Graças às cooperativas de catadores e, também, aos trabalhadores informais, o Brasil é imbatível nesta categoria e recicla 98,7 % das latas de alumínio após o consumo. Mas em outros setores ainda há muito por fazer. De acordo com o último Índice de Sustentabilidade de Limpeza Urbana (ISLU 2020), o índice médio de reciclagem no Brasil não passa de 3,5%, e cerca de 50% dos municípios continuam descartando lixo incorretamente.

Desde o lançamento da Política Nacional de Resíduos Sólidos, em 2010, os catadores informais são reconhecidos legalmente como atores fundamentais na cadeia de reciclagem. Estudos da organização internacional Wiego (Mulheres em empregos informais: globalizando e organizando) apontam que esses trabalhadores geralmente não têm proteção social ou têm proteção social limitada e enfrentam grandes riscos (riscos à saúde, acidentes, violência urbana etc.). As mulheres são mais expostas a estes riscos porque constituem a maioria nas cooperativas.

Vistos, muitas vezes, com desprezo, ideias preconcebidas e preconceito, catadoras e catadores têm papel fundamental para que o Brasil possa atingir algumas metas de ODS, como a 11, no item seis (reduzir o impacto ambiental negativo per capita das cidades, inclusive prestando especial atenção à qualidade do ar, gestão de resíduos municipais e outros) ou a 12, item 5 (reduzir substancialmente a geração de resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso).

São metas difíceis e, mesmo que não saiba, Dona Rosa contribui cada vez mais para que sejam alcançadas, porque sempre que ela fala, seja para seus cooperados ou qualquer pessoa da comunidade, sua liderança inspira e tem uma força transformadora, mobilizando mais pessoas para a causa.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que pensar sua carreira como um sistema

Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira. Para a autora, currículo registra conquistas, mas a verdadeira vantagem competitiva nasce de como elas se conectam.

O que significa educar quando as máquinas também aprendem?

Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

As pessoas vão permanecer mais tempo, sua empresa está pronta?

Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Estratégia
27 de junho de 2026 15H00
Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira. Para a autora, currículo registra conquistas, mas a verdadeira vantagem competitiva nasce de como elas se conectam.

Nathália Brandão - Head de Educação Corporativa no TikTok LATAM, Escritora e Forbes Under 30

5 minutos min de leitura
Uncategorized
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão