Uncategorized

Formatar e reformatar problemas

Por que e como a capacidade de “reenquadrar” problemas aumenta nossa capacidade de resolvê-los
Este artigo foi traduzido em linguagem visual sobre um texto original dos autores, publicado na revista Rotman Management. Sara Beckman é fellow e palestrante da Haas School of Business, da University of California em Berkeley, e diretora de aprendizado do Jacobs Institute of Design Innovation do College of Engineering, da mesma universidade. Michael Barry é professor do programa de design do Hasso Plattner Institute for Design, da Stanford University, e sócio da empresa de design PointForward.

Compartilhar:

O buzz atual sobre o design thinking é impressionante, mas poucos parecem enxergar o benefício central da metodologia, bem específico: a capacidade de formatar e reformatar um problema a ser solucionado. Por que isso é tão importante? Porque o mundo da gestão empresarial é limitado por processos predominantemente lineares e analíticos – graças ao treinamento de gestão da qualidade, à ferramenta 6-Sigma e afins. Quanto mais linear e analítico for um processo, menos possibilidades exploratórias ele nos abre.

O design thinking faz o contrário (e essa é a real razão de ser tão celebrado): ele nos ensina a formatar e reformatar um problema a resolver e, assim, permite que embarquemos em explorações que conduzem aos melhores e mais inovadores caminhos. Os acadêmicos Sara Beckman e Michael Barry, professores de Berkeley e Stanford, advogam essa tese. Em uma linguagem visual, HSM Management apresenta as três lições e as quatro habilidades que eles propõem para a reformatação de problemas, para que o gestor possa desenvolvê-las imediatamente.

**Lição 1**

**Às vezes, precisamos de várias reformatações de um mesmo problema para conseguir ver as muitas soluções possíveis.** 

Entender o porquê por trás de um problema pode gerar uma ampla gama de opções para solucioná-lo. Ferramentas como gestão da qualidade total (TQM, na sigla em inglês) e seus cinco porquês também ajudam a identificar mais perspectivas para o problema, mas  o design thinking leva isso um passo além, sobretudo quando o problema simplesmente não pode ser resolvido com o formato atual.

A fabricante de microfones e fones de ouvido Shure identificou uma catastrófica perda de audição dos roqueiros que consomem seus produtos, em consequência do som ensurdecedor dos alto-falantes no palco. Tentou propor soluções para protegê-los, mas todas foram encaradas com desdém pelos roqueiros, que temiam parecer vovôs com aparelhos auditivos. Quando os profissionais da empresa passaram um bom tempo em campo ao lado das bandas, famosas e de garagem, foram capazes de reenquadrar o problema: o protetor auricular tinha de ser um objeto de desejo; mais que proteger a audição, devia ser charmoso e melhorar o desempenho no palco. A solução foi um fone de design incrível (tão incrível que a Apple se inspirou nele para seus fones de ouvido) e com recursos de monitoramento do áudio que realmente ajudam a melhorar a performance dos artistas.

**Lição 3**

**Às vezes, os formatos em si devem ser metafóricos para conseguirmos unir todos os elementos de um problema perverso e ver como a mudança em um deles pode afetar os demais.** Gostamos de pensar nisso como um processo de histórias que entram e histórias que saem:

Todas as empresas estão acostumadas com esses formatos metafóricos, ainda que usem para eles o nome que Peter Senge lhes deu: “modelos mentais”. “São imagens, generalizações e histórias que carregamos em nossa mente sobre nós mesmos, outras pessoas, instituições e todos os aspectos do mundo. Sutilmente determinam o que vemos.” 

_Histórias que entram:_

São comuns as histórias que vêm diretamente dos consumidores, permitindo-nos trazer à tona contradições, normas tácitas e explícitas, sucessos e fracassos fundamentais, ajudando-nos a realmente entender as necessidades deles. Tais histórias nos fazem entender os modelos mentais de nossos consumidores, o que, por sua vez, nos faz entender nossos modelos mentais. Em cerca de dez entrevistas, uma equipe de design consegue coletar centenas de histórias; a equipe as vasculha para identificar padrões interessantes, oportunidades e melhorias, assim como histórias paralelas que possam dar origem a novas histórias.

**Lição 2**

**Alguns problemas não conseguimos resolver da maneira em que são formatados; precisamos de um enquadramento totalmente diferente.** Existem problemas sistêmicos altamente perversos, nos quais há muitos elementos inter-relacionados que têm de ser trabalhados em conjunto para chegar a uma solução. Redesenhar um sistema de cuidado com a saúde ou descobrir como lidar com a mudança climática são exemplos clássicos de problemas perversos, mas criar experiências bem integradas para o cliente também pode ser visto como um problema perverso sistêmico. O resolvedor precisa manter em mente o sistema inteiro ao mesmo tempo e, nesse caso, uma boa abordagem é o uso de metáforas.

Há dez anos, a fabricante de chicletes Wrigley queria mudar o consumo de seu produto na China, fazendo-o passar de “algo agradável mas esporádico” a “um refrescante bucal diário e importante”. Havia barreiras. Por exemplo, a empresa descobriu que, na China, falar sobre mau hálito é um grande tabu. Então, criou uma metáfora forte, ligada à ideia de “porta”, que é muito importante na cultura chinesa – o chiclete Wrigley Doublemint começou a ser simbolizado como um “abridor das portas da confiança”. Na embalagem do novo produto, os gestores da fabricante combinaram todas as formas de usar e significados do chiclete de menta e produziram anúncios bem-humorados, que mostravam as portas profissionais abrindo magicamente diante do chiclete. Em dois anos, as vendas aumentaram 13% e a China se tornou o maior consumidor da marca depois dos EUA.

_Histórias que saem:_

Emanando do processo de design, há histórias que motivam uma equipe a imaginar soluções novas e interessantes e, quando contadas fora da empresa, inspiram os consumidores a participar de uma nova história. As histórias mais inspiradoras parecem seguir as três estruturas dramáticas primárias de trama, como descritas por Chip e Dan Heath em Made to Stick: a trama do desafio,  a trama da conexão e   a trama da criatividade.

As três são desenvolvidas conforme a equipe de design brinca com os dados, extraindo insights significativos deles, formatando e reformatando o problema a ser resolvido para os consumidores, gerando soluções alternativas para ele.

**HABILIDADES**

Conheça agora as quatro habilidades necessárias para identificar formatos e recriá-los, e que aumentam nossa capacidade de captar as histórias que entram e criar histórias que saem.

**Chegar ao porquê**

Essa talvez seja a parte mais difícil do processo de estruturação do problema. Na verdade, exige que você identifique o “tema” mais importante da história que o cliente está vivendo hoje (a história que entra), o que lhe permitirá escolher um tema para a nova história que você vai contar (a história que sai). Esse tema, por sua vez, orientará todos os outros elementos da “trama”, determinando o conjunto de soluções gerado e a escolha de soluções a serem entregues. 

Também implica encontrar padrões em conjuntos ambíguos e complexos de dados, extraindo pedaços de informações  das histórias dos consumidores e descobrindo as histórias que revelam preocupações ou interesses compartilhados. Sistemas de pensamento e uma gama de ferramentas podem ser usados nesse estágio.

_Nas histórias que entram_

Desenvolver empatia: No coração do design thinking, que costuma ser chamado de design centrado no usuário ou no ser humano, está o desenvolvimento de uma compreensão profunda das necessidades do consumidor. Extrair e capturar histórias dos clientes exige interesse, curiosidade e empatia. Especificamente, ter empatia permite identificar pressupostos dos consumidores, em especial sobre como vivem e sobre a cultura em que atuam. A capacidade de se colocar no lugar do outro é fundamental para enquadrar os problemas de modo que eles possam ser resolvidos.

**Gerar e selecionar ideias**

Dito de modo simplista, divergir é a capacidade de chegar a uma ampla gama de ideias alternativas, enquanto convergir é a capacidade de selecionar entre as opções, combinando-as e refinando-as para criar uma melhor. A “pegadinha” é que você não pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e sim gerenciar um equilíbrio dinâmico entre as duas, que vai além da geração de muitas ideias. Gerenciar esse equilíbrio dinâmico implica deixar em aberto a possibilidade de escolher um formato para o problema, ao menos até que se tenha aprendido o suficiente sobre ele e as alternativas para resolvê-lo. Isso significa desenvolver a capacidade de divergir e permanecer nesse estado.

_Nas histórias que saem_

Aprender pela experimentação:  No cerne da capacidade de experimentar está ser capaz de ir do tudo ao nada. Descartar uma história, ideia ou protótipo não é uma indicação de fracasso, mas parte do ciclo de aprendizado. Esse é o estágio no qual as estruturas escolhidas em estágios anteriores são colocadas em teste. Tal habilidade é especialmente difícil de ensinar a pessoas com tendência a se apegar às primeiras soluções identificadas, que se fecham a soluções alternativas e têm grande dificuldade de abrir mão das soluções que desenvolveram. Levar as pessoas a aprender com o fracasso exige ensiná-las a desenvolver experimentos baratos por meio dos quais elas possam aprender sobre vários aspectos das soluções propostas. Isso, por sua vez, requer que pensem nos riscos associados a suas soluções, o que, para muita gente, exige uma mudança de mentalidade: de escolher e implementar uma solução única passa-se à ideia de brincar e de experimentar múltiplas soluções.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Ataques inevitáveis, impacto controlável: a nova lógica da cibersegurança

A pergunta já não é mais “se” sua empresa será atacada – mas quão preparada ela está para responder quando isso acontecer. Este artigo mostra por que a cibersegurança deixou de ser um tema técnico para se tornar um pilar crítico de gestão de risco, continuidade operacional e confiança nos negócios.

A longevidade das PMEs como objetivo social

Se seis em cada dez empresas não sobrevivem, o problema não é apenas o ambiente. Este artigo revela que a alta mortalidade das PMEs no Brasil está ligada a falhas internas de gestão, governança e tomada de decisão

Estratégia, Gestão de Pessoas
24 de maio de 2026 12H00
Quando a energia do Mundial entra no cotidiano corporativo, o humor, empatia e pertencimento se modificam; e quem ganha é a corporação, com o incremento do comprometimento de colaboradores e impactados

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

0 min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de maio de 2026 08H00
Este artigo propõe uma nova lógica de liderança: menos controle, mais calibração - onde a inteligência artificial não reduz a agência humana, mas redefine a forma como decidimos, pensamos e lideramos em contextos de incerteza.

Carlos Cruz - Pesquisador, Escritor e Consulting Partner Executive na IBM

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de maio de 2026 16H00
A pergunta já não é mais “se” sua empresa será atacada - mas quão preparada ela está para responder quando isso acontecer. Este artigo mostra por que a cibersegurança deixou de ser um tema técnico para se tornar um pilar crítico de gestão de risco, continuidade operacional e confiança nos negócios.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de maio de 2026 09H00
Este artigo desmonta o entusiasmo em torno do Vibe Coding ao revelar o verdadeiro desafio da IA: não é criar software com velocidade, mas operar, integrar e governar o que foi criado - em um ambiente cada vez mais complexo e crítico.

Wilian Luis Domingures - CIO da Tempo

4 minutos min de leitura
Marketing & growth
22 de maio de 2026 15H00
Mais do que visibilidade, este artigo questiona o papel das marcas em momentos de emoção coletiva e mostra por que, na Copa, só permanece na memória aquilo que gera conexão real - o resto vira apenas ruído.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

2 minutos min de leitura
Empreendedorismo
22 de maio de 2026 11H00
Se seis em cada dez empresas não sobrevivem, o problema não é apenas o ambiente. Este artigo revela que a alta mortalidade das PMEs no Brasil está ligada a falhas internas de gestão, governança e tomada de decisão

Sergio Goldman

6 minutos min de leitura
User Experience, UX
22 de maio de 2026 07H00
Ao ir além da experiência do usuário tradicional, este artigo mostra como a falta de clareza jurídica transforma conversão em passivo - e por que transparência é um ativo estratégico para crescimento sustentável.

Lorena Muniz e Castro Lage - CEO e cofundadora do L&O Advogados

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz a visão de um executivo da indústria que respondeu ao mito da substituição. Que, ao contrário da lógica esperada, mostra por que inovação não é destruir o passado, mas sim, reinventar relevância com clareza, estratégia e execução no novo cenário tecnológico.

Antonio Lemos - Presidente da Voith Paper na América do Sul.

7 minutos min de leitura
Estratégia e Execução, Marketing
21 de maio de 2026 13H00
Este artigo mostra como o descompasso entre o que é planejado e o que é efetivamente entregue compromete a experiência do cliente e dilui o valor da estratégia, reforçando que a verdadeira vantagem competitiva está na consistência da execução.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

4 minutos min de leitura
Liderança
21 de maio de 2026 07H00
Quando ninguém mais acredita, a organização já começou a perder. Este artigo revela como a incoerência entre discurso e prática transforma cultura em aparência - e mina, de forma silenciosa, a confiança necessária para sustentar resultados e mudanças.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão