Direto ao ponto

Geopolítica no mapa de riscos

Artigo da Knowledge@Wharton aponta que administrar os riscos políticos é um desafio cada vez maior para as empresas

Compartilhar:

Pandemia de covid-19. Nacionalismo e protecionismo crescentes. Tensão comercial entre Estados Unidos e China. Insegurança provocada por regimes autoritários. Desde que o fenômeno da globalização ganhou força, nos anos 1990, operar globalmente nunca foi tão complexo para as empresas. Essa realidade está tornando a geopolítica (entendida como a influência da geografia sobre os processos políticos e as dinâmicas de poder entre as nações) uma prioridade para a gestão de riscos das empresas.

O problema é que elas ainda estão aquém do desafio. É o que aponta a segunda edição da pesquisa “Geostrategy in Practice 2021”, apresentada na plataforma Knowledge@Wharton. Realizada pelo Wharton Political Risk Lab, em parceria com a consultoria EY-Parthenon, a pesquisa ouviu mais de mil executivos – 25% deles CEOs – proporcionalmente distribuídos entre Américas, Europa, Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico. Metade dos entrevistadosrepresentam companhias com mais de US$ 5 bilhões em faturamento. Alguns resultados foram considerados alarmantes, entre eles: 94% dos executivos relatam que riscos políticos inesperados impactam cada vez mais seus negócios, mas apenas 55% afirmam estar confiantes em sua capacidade de gerenciá-los (contra 74% no ano anterior).

“É dramático”, afirma Witold Henisz, diretor do Political Risk Lab e fundador do ESG Analytics Lab, em artigo da Knowledge@Wharton. “Estamos vendo os riscos políticos aumentarem enquanto a confiança na habilidade de gerenciá-los diminui.” Isso não significa que as empresas estejam paralisadas. Quase 70% dos pesquisados informam que suas companhias mudaram a forma como gerenciam os riscos políticos no último ano. Porém, a abordagem é considerada reativa na maioria dos casos.

### O fator China

Uma das maiores dificuldades está na gestão das cadeias de fornecimento. Nos últimos 20 ou 30 anos, diversas indústrias buscaram integrar essas cadeias. A pandemia, porém, revelou um efeito colateral desse movimento: o excesso de dependência em relação a poucos fornecedores globais. “A maior preocupação dos executivos é que as empresas precisem ter uma cadeia de fornecimento com base na China e outra fora”, diz Henisz.

Segundo ele, muitas companhias começam a desenvolver estruturas paralelas às atuais para dar conta do crescimento do mercado chinês e do resto do mundo. Isso gera mais custos e desperdício, especialmente em setores muito dependentes de fornecedores chineses, como eletrônicos e telecomunicações.

### Dados e política

Um risco emergente apontado pelo estudo diz respeito à privacidade e à segurança de dados. “Dados são, cada vez mais, usados como instrumento político”, afirma Henisz. “Muitos executivos falam sobre isso, mas nem todos se dão conta de que política e dados estão se conectando de um jeito novo.” Ele menciona o caso da Apple. De acordo com uma reportagem investigativa do jornal The New York Times, a empresa armazena os dados pessoais dos consumidores chineses em data centers, aos quais o governo chinês tem acesso. Há dois anos, durante protestos contra o governo em Hong Kong, a Apple cedeu à pressão da estatal de mídia chinesa e apagou da App Store um aplicativo que permitia que os manifestantes monitorassem a movimentação dos policiais.

A pressão por controle dos dados de companhias multinacionais, assim como por manifestações de lealdade a regimes nacionalistas, também acontece em países como Rússia, Turquia e, segundo Henisz, Brasil. “A tensão entre ser uma empresa global e ser percebida como suficientemente nacional ou fiel [a um governo local] é uma batalha que muitas companhias enfrentam neste momento.” Os executivos ouvidos no estudo relatam uma dificuldade crescente de navegar entre os interesses de lideranças políticas locais e as demandas de ONGs, consumidores e colaboradores.

### A solução: proatividade

Como gerenciar riscos políticos num mundo mais imprevisível? Para o diretor do Political Risk Lab, a solução passa pela proatividade. As companhias precisam identificar os fatores que representam riscos políticos e se antecipar na proposta de soluções. “Trata-se de mudar as contratações, a estrutura de fornecimento ou as operações da empresa de uma maneira que resolva o problema daquelas pessoas que, de outra forma, levantarão barreiras. Você se antecipa na ação e soluciona esses problemas por meio do negócio, e não com um envelope de dinheiro.”

Um bom exemplo é a Anglo-American. A mineradora desenvolveu a ferramenta Socio-Economic Assessment Toolbox (sistema de avaliação socioeconômica, numa tradução livre) para analisar o ambiente político e social de um determinado país ou região antes de iniciar ali um projeto. A análise pode levar de um a dois anos e envolve um mapeamento, feito por antropólogos e outros especialistas, das redes de relacionamentos e das questões críticas daquele lugar. “Não é perfeito e houve casos de implementação incompleta ou mesmo fracasso”, diz Henisz, “mas é um dos melhores sistemas que já vi.”

Compartilhar:

Artigos relacionados

Fomento para inovação: Alavanca estratégica de crescimento para as empresas

O volume e a previsibilidade dos instrumentos de fomento à inovação como financiamentos, recursos de subvenção econômica e incentivos fiscais aumentaram consideravelmente nos últimos anos e em 2026 a perspectiva é de novos recordes de liberações e projetos aprovados.  Fomento para inovação é uma estratégia que, quando bem utilizada, reduz o custo da inovação, viabiliza iniciativas de maior risco tecnológico, ajuda a escalar e encurtar o tempo para geração de valor dos projetos.

Tecnologia & inteligencia artificial
25 de janeiro de 2026
Entre IA agentiva, cibersegurança e novos modelos de negócio, 2026 exige decisões que unem tecnologia, confiança e design organizacional.

Eduardo Peixoto - CEO do CESAR

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de janeiro de 2026
Inovação não falha por falta de ideias, mas por falta de métricas - o que não é medido vira entusiasmo; o que é mensurado vira estratégia.

Marina Lima - Gerente de Inovação Aberta da Stellantis para América do Sul

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de janeiro de 2026
Se seus vínculos não te emocionam, talvez você esteja fazendo networking errado. Relações que movem mercados começam com conexões que movem pessoas - sem cálculo, sem protocolo, só intenção genuína.

Laís Macedo - Presidente do Future Is Now

3 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de janeiro de 2026
Se a IA sabe mais do que você, qual é o seu papel como líder? A resposta não está em competir com algoritmos, mas em redefinir o que significa liderar em um mundo onde informação não é poder - decisão é.

João Roncati - CEO da People+Strategy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de janeiro de 2026
Como o mercado está revendo métricas para entregar resultados no presente e valor no futuro?

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Inovação
20 de janeiro 2026
O volume e a previsibilidade dos instrumentos de fomento à inovação como financiamentos, recursos de subvenção econômica e incentivos fiscais aumentaram consideravelmente nos últimos anos e em 2026 a perspectiva é de novos recordes de liberações e projetos aprovados. Fomento para inovação é uma estratégia que, quando bem utilizada, reduz o custo da inovação, viabiliza iniciativas de maior risco tecnológico, ajuda a escalar e encurtar o tempo para geração de valor dos projetos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89 empresas

5 minutos min de leitura
Liderança
19 de janeiro de 2026
A COP 30 expôs um paradoxo gritante: temos dados e tecnologia em abundância, mas carecemos da consciência para usá-los. Se a agenda climática deixou de ser ambiental para se tornar existencial, por que ainda tratamos espiritualidade corporativa como tabu?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de janeiro de 2026
Falar em ‘epidemia de Burnout’ virou o álibi perfeito: responsabiliza empresas, alimenta fundos públicos e poupa o Estado de encarar o verdadeiro colapso social que adoece o país. O que falta não é diagnóstico - é coragem para dizer de onde vem o problema

Dr. Glauco Callia - Médico, CEO e fundador da Zenith

7 minutos min de leitura
Liderança, ESG
16 de janeiro de 2026
No início de 2026, mais do que otimismo, precisamos de esperança ativa - o ‘esperançar’ de Paulo Freire. Lideranças que acolhem perdas, profissionais que transformam desafios em movimento e organizações que apostam na criação de futuros melhores, um dia de cada vez.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
15 de janeiro de 2026
A jornada de venda B2B deve incluir geração de demanda inteligente, excelência no processo de discovery e investimento em sucesso do cliente.

Rafael Silva - Head de parcerias e alianças da Lecom

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança