Business content

Gestão baseada na confiança

CEO da ticket serviços acredita que, no novo modelo gerencial, a área de recursos humanos fica mais estratégica do que nunca; o RH prepara a adaptação dos líderes
Felipe Gomes Passou por Shell, Nabisco, Embratel, Oi, T-Systems, Brasil Telecom e Allianz.José Ricardo Amaro Recebeu o prêmio Top of Mind de RH 2020 como melhor dirigente de RH.

Compartilhar:

Confiança. Muito mais do que um valor, trata-se de um modelo de gestão, como destaca Felipe Gomes, CEO da Ticket Serviços. Faz sentido. Sem confiança, habilidades relevantes que desejamos nos profissionais do futuro, como a adaptabilidade, a inovação, a flexibilidade, simplesmente não encontram espaço para atingir seu máximo potencial. Confiança é, ainda, a base de uma força de trabalho engajada, algo que ele ressalta como fator-chave ao êxito de um negócio. E fazer uma gestão baseada em confiança depende muito de CEO e líder de RH trabalharem a quatro mãos.

Nesta conversa entre Gomes e José Ricardo Amaro, seu diretor de recursos humanos, a ênfase é na gestão para a confiança. A seguir, Gomes, que aproveitou 2020 para fazer o programa executivo da Singularity University, no Vale do Silício, discute os desafios, o futuro e até faz uma auto-reavaliação: “Tive um começo de carreira inquieto, com várias experiências em intervalos curtos. Eu arriscava muito. Hoje vejo que, se tivesse ido um pouco mais devagar e apostado no que eu já tinha, teria tido ainda mais oportunidades”.

## A transformação é irreversível
__josé ricardo amaro: A pandemia mexeu muito com todos os RHs, no mundo e no Brasil. Na Ticket, respondemos rápido. A que você atribui essa rapidez?__

__Felipe Gomes:__ Respondemos rápido, com certeza. Quando vimos a mudança abrupta no comportamento do consumidor, com o delivery sendo usado intensamente na pandemia, isso impulsionou imediatamente a ampliação de nossa presença digital. Como você bem sabe, fomos a primeira marca presente em todos os aplicativos de delivery de comidas e também apoiamos os restaurantes com iniciativas para dar visibilidade aos seus cardápios para delivery.

Em paralelo, mexemos em diversas estruturas de atendimento, reformulando nosso portal, adotando WhatsApp no pré e pós-venda, fazendo uma nova versão do aplicativo para usuários etc. Também investimos na EVA, a inteligência artificial da Ticket, e em tecnologia de dados para oferecer atendimento personalizado no suporte aos clientes. E há muito mais.

Acho que a reação rápida foi possível porque não é de agora que estamos atentos às mudanças nas necessidades dos clientes – pessoas físicas e jurídicas – e nos hábitos de consumo. As informações que temos vêm apontando uma forte tendência de digitalização em todos os aspectos da relação de consumo, o que tem levado até as pequenas e médias empresas a acelerar a digitalização de serviços e processos internos. Aliás, o fato de investirmos fortemente em pesquisas nos permite ser percebidos como fonte segura e oficial de informações sobre o mundo corporativo pelas áreas de RH das empresas que são nossas clientes.

__Em que medida o RH fez diferença nesse processo? Mais tecnologia exigiu mais RH ou menos RH?__
Primeiro de tudo, precisamos deixar uma coisa clara: a humanização vai ser, cada vez mais, um grande diferencial dos negócios. As empresas avançarão na digitalização, sim, mas não podem jamais deixar de lado o aspecto humano.
Eu diria que a pandemia acelerou uma transformação também no campo da gestão de pessoas, e que ela é irreversível. Agora, o modelo é o da gestão baseada na confiança, que nada mais é do que proporcionar às pessoas flexibilidade na realização de suas atividades. A rotina de trabalho mais rígida, que prevalecia no presencial, deu lugar ao compromisso das pessoas com metas diárias – independente do horário e da forma que o trabalho é realizado e entregue. Isso é um método de gestão baseado na confiança, algo novo para a maioria, e só estamos ganhando com ele.
Na Ticket, somos pioneiros em projetos de trabalho a distância, algo que acontece no Brasil desde 2005 para uma parcela dos colaboradores. Na pandemia, expandimos o modelo para todos na organização e, com base em estudos, fomos ajustando alguns pontos. E, quando medimos os resultados, a produtividade foi maior do que no período pré-pandemia, sem prejuízos em prazos e na qualidade das entregas.
Muitas conquistas desse período vão continuar fazendo parte do cotidiano das empresas depois da pandemia, como o uso da tecnologia facilitando a comunicação, reuniões mais efetivas e sem deslocamento, contratação de profissionais distantes geograficamente. O retorno às atividades presenciais é impensável sem manter essas facilidades.
E, respondendo diretamente, mais tecnologia fortalece o RH: agora, o gestor da área tem um papel mais estratégico do que nunca. As empresas que têm maior valor no mercado hoje são as que têm pessoas mais motivadas, produtivas e engajadas. O gestor de RH deve estar atento a ferramentas que tornem sua área cada vez mais relevante para o negócio, como inteligência de dados, mas sem perder a essência de cuidar das pessoas.

__Podemos chamar 2022 de o “ano da readaptação”?__
Acho que sim! Aqui, pelo menos, faremos a readaptação das equipes ao trabalho presencial ou híbrido. Serão ajustes, como readequar horários e jornadas de trabalho, e também será o olhar para a dor de reduzir vínculos fortalecidos neste ano – por exemplo, ficar mais tempo longe dos filhos ou mesmo dos pets. O apoio emocional será fundamental nesses casos, inclusive para não afetar a produtividade. Tudo isso depende bastante do RH. E estou pensando na readaptação dos líderes também.

__Como você vê a relação entre o RH e os líderes?__
São especificamente as lideranças de RH que devem olhar para o futuro e preparar os demais gestores para as mudanças que vão acontecer – não só o novo modelo de trabalho híbrido, mas também a transformação digital e o trabalho com metodologias ágeis, tendências corporativas que vieram para ficar. São os gestores de RH que têm a missão – vou além, a obrigação – de preparar a adaptação dos líderes a essa nova realidade.

## Investir para o colaborador inovar
__Investir requer fazer escolhas. Investir em engajar o funcionário vale a pena na visão de um CEO?__
Sem sombra de dúvida vale a pena, porque unimos o foco no resultado à essência de cuidar das pessoas. São pilares que se completam: pessoas mais felizes e engajadas significam maior retenção de talentos e maior produtividade e, por isso, melhores resultados no curto, médio e longo prazos.
Investir nesse caso é adotar ao menos quatro iniciativas: ter lideranças inspiradoras, que estejam comprometidas com os valores da empresa em todos os processos de gestão; valorizar as pessoas, para que entendam quão relevante é seu trabalho para a empresa e a sociedade; investir no bom clima organizacional; e estimular os colaboradores a inovar.
Na Ticket, como você sabe bem, os colaboradores estão sendo motivados a experimentar novas ideias e a ter atitudes intraempreendedoras. Usamos desafios internos para que tenham novas ideias, há um hub com espaço físico para cocriação, mantemos relacionamentos com startups, temos uma plataforma de conteúdo para inspirar tudo isso etc.

## 2.792 horas DE VOLUNTARIADO
__Estamos investindo bastante em ESG, a seu ver?__
Temos atuado fortemente no campo do social; participamos de tantas ações que eu ficaria um bom tempo aqui para listar todas. Para exemplificar, no ano passado doamos 2 milhões de cestas básicas digitais por meio da Ticket Alimentação, fazendo diferença para mais de 9 milhões de pessoas. E incentivamos nossos colaboradores a participarem de projetos sociais, que somaram 2.792 horas doadas em 2021.
Diversidade, equidade e inclusão também nos são valores importantes e estamos acelerando essa agenda. O ano de 2021 está sendo um marco nesse ponto: ouvimos as percepções dos colaboradores sobre isso, capacitamos gestores para exercerem liderança inclusiva e elaboramos nosso compromisso público com a diversidade, equidade e inclusão, que abrange o relacionamento com todos os stakeholders. Somos dois homens conversando aqui, mas temos, até 2030, a meta global de ter pelo menos 40% das posições executivas ocupadas por mulheres. E é um objetivo apoiado em ação – em nossos programas para valorizar as mulheres no ambiente de trabalho.

## Facilitador do sucesso
__Há um jeito certo de se liderar para ter sucesso?__
Há habilidades que tornam a liderança mais inspiradora e eficiente. Entre elas, ser genuinamente motivador, liderar pelo exemplo, criar uma visão de futuro poderosa para todos, ser capaz de tirar as pessoas da zona de conforto, resolver conflitos e construir relações de confiança. Sucesso, para mim, é o caminho, com quem vamos e como caminhamos – errando, aprendendo, acertando. O aprendizado é o facilitador do sucesso.
Focar na singularidade e na intensidade dos momentos me traz equilíbrio.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Entre viralizar e ser lembrado: O que acontece quando o algoritmo assume a estratégia?

As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Acordo Mercosul e União Europeia representa um novo ciclo de crescimento para o franchising brasileiro

A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

As edtechs brasileiras aprenderam a crescer sem investimento. Mas até onde isso pode levá-las?

Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Eleitor 70+: o valor do repertório em uma sociedade que envelhece

À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

A publicidade não disputa mais audiência. Disputa atenção.

O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo