Melhores para o Brasil 2022

Gestor(A) de futuro

Chefes de gabinete (“chiefs of staff”, em inglês) são uma tendência no Brasil, como explica Debora Mattos, uma das pioneiras aqui
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

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Marco Túlio Tirão (Marcus Tullius Tiro, em latim) foi mais do que um escravo do célebre Cícero, advogado, político, escritor, orador e filósofo da Roma Antiga. Tirão era seu braço direito, atuando como colaborador literário, secretário, estrategista político, cobrador de dívidas por quase 40 anos, na última década já liberto. Em suas cartas, Cícero elogia o valor e a lealdade de Tirão, que é apontado como o inventor da escrita taquigráfica. Com as lentes de hoje, Tirão poderia ser considerado o chief of staff (COS) de Cícero – uma posição equivalente à de vice-presidente.

Chief of staff – ou chefe de gabinete – não é função restrita ao âmbito governamental, como alguns pensam. Vários CEOs e executivos C-level de grandes empresas se renderam aos benefícios de ter um COS ao seu lado, principalmente em países como os Estados Unidos. Há vários COS nas equipes norte-americanas de Google e LinkedIn. No Brasil, a função está começando a ganhar visibilidade dentro das corporações, despontando como uma tendência de futuro. Percebemos isso dando um rápido passeio pelo Linked­In. Há COS em empresas como QuintoAndar, Dasa, Loft, Accor, Avenue, BNDES, BRF e a lista segue crescendo…
Por ser um cargo recente, as atribuições dos COS variam de uma para outra empresa, mas há quem resuma assim: o COS é um “sombra” do executivo sênior a quem está ligado. Em geral, alinha sua comunicação, está em todas as reuniões, representa-o em algumas, e mais. Isso descentraliza poder e fortalece conceitos como “liderança compartilhada”. [Veja quadro à direita.]

Trata-se também de um cargo-chave para acelerar carreiras de profissionais promissores – sob medida para uma época em que se busca uma liderança mais diversa, por alavancar pessoas que, por questões como gênero, raça e idade, ainda não avançaram tanto quanto poderiam. Há uma tendência clara de mulheres ocuparem o cargo.

HSM Management procurou Debora Mattos para falar sobre esse perfil gerencial de futuro. Ela acaba de assumir como chief of staff do presidente para a América Latina da The Coca-Cola Company, Henrique Braun. Mattos é mulher, negra e mais jovem que os demais vice-presidentes – tem 38 anos. A seguir, ela fala com exclusividade sobre esse cargo do futuro.

## Quando você virou chief of staff?
Assumi como chief of staff no início de janeiro de 2021, quando foi finalizado o processo de fundir as 27 unidades de negócios da companhia no mundo em nove unidades operativas, sendo a América Latina uma delas. Henrique Braun, que presidia a Coca-Cola do Brasil, foi promovido a presidente para a América Latina. E me chamou para lhe dar esse suporte.
No Brasil e em algumas das demais unidades operacionais da Coca-Cola, o cargo é novo, mas na companhia já existia. Por exemplo, o CEO global, James Quincey, tem um chief of staff, assim como o COO, Brian Smith.

## O que é exatamente esse cargo?
Posso dizer que sou a pessoa de confiança do Henrique Braun. E o meu sucesso está muito ligado ao sucesso dele. Minha responsabilidade, basicamente, é garantir o dia a dia do gabinete. Para isso, filtro os assuntos e temas que têm realmente de chegar a ele, a fim de que possa tomar decisões com maior precisão, seja mais eficiente e tenha tempo para pensar na visão estratégica do negócio. É parte da minha função, inclusive, fazer mediações, principalmente com os meus pares, que são os VPs, e assim garantir o que é prioritário.
Além disso, tenho de estar atenta e transmitir a ele o que acontece de importante, o clima da organização etc. Por isso, é posição de confiança.

## Quais são suas atribuições no dia a dia? Quais os maiores desafios?
Não tem um job description, mas digo que está sendo uma experiência incrível. Literalmente, o olhar é como um general manager mesmo, um generalista, atuando em rede, para garantir os resultados. A atuação é em todas as frentes: RH, comunicação, pontos de negócio… Além disso, há as demandas do executivo. O COS precisa ter a sensibilidade para entrar em tudo o que puder agregar. Ou seja, você faz o cargo do tamanho que quer.
O grande desafio é contribuir para que o negócio continue com crescimento sustentável, mantendo o portfólio superforte no mercado, e impactando positivamente a sociedade. Neste momento de Covid-19, por exemplo, precisamos entender o que precisamos e o que podemos fazer como empresa. O desafio é orquestrar tudo, no timing da Coca-Cola.

## Quais as skills mais importantes para um COS?
Estou há seis anos na empresa e passei pelas áreas de finanças e de operações (que lida com as chamadas franquias, que são nove fabricantes no Brasil). Porém, muito mais do que a experiência profissional em si, eu destacaria a curiosidade, o querer aprender. Minha carreira é holística e me considero uma desbravadora – sempre busquei aprender mais e mais sobre o negócio, entender como tudo se conecta.
O segundo ponto é o relacionamento. O COS precisa trabalhar bem em equipe, de modo colaborativo, ter ótimo relacionamento com as pessoas. Destaco ainda a vulnerabilidade, que é a base para bons relacionamentos, e a humildade, porque a pessoa tem o mandato do presidente. Quando você fala numa reunião, os outros sabem que traz a palavra dele. Precisa saber usar isso, com humildade na fala.

Fortalecendo o Ecossistema

Liderança compartilhada é o conceito essencial por trás do “chief of staff”, e isso tem tudo a ver com a necessidade de atuar em rede, que é própria dos ecossistemas – a Coca-Cola e suas franquias são um ecossistema.
“A atuação em rede já está tão estabelecida na Coca-Cola que adotamos os collective genius, conceito segundo o qual a melhor pessoa em cada área, independentemente de hierarquia, tem que estar na sala na hora de tomar uma decisão”, explica Debora Mattos, que, em sua carreira na empresa, atuou com as franquias da marca.
A maior horizontalização da gestão promovida pelo chief of staff também favorece o ecossistema e a inovação. (S.R.S.)

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