Diversidade

Há cura para o machismo que o câncer de mama escancara

A campanha #OutubroRosa não pode ser só de fachada nas empresas e nem direcionada apenas às mulheres. Os líderes homens precisam estar atentos à essa doença tanto quanto às mulheres, cuidando de suas companheiras e colaboradoras na organização o ano todo
Fundadora da #JustaCausa, do programa #lídercomneivia e dos movimentos #ondeestãoasmulheres e #aquiestãoasmulheres

Compartilhar:

Você sabia que 70% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama são abandonadas por seus maridos ou companheiros, independente da classe social?

Há um ano me deparei com esse dado, quando decidi fazer um #OutubroRosa no #LíderComNeivia, meu programa de duas conversas ao vivo com líderes C-Level, membros de conselhos e empreendedores, representantes de todas as diversidades humanas, em total igualdade de gênero, toda semana no LinkedIn, Youtube e Facebook, desde junho de 2020.

Em 2021, eu já havia feito um #JunhoLGBTI+ e um #OutubroNegro e, em 2022, resolvi convidar para o programa homens e mulheres líderes que tivessem vivido a experiência de enfrentar um câncer de mama.

Toda e qualquer mulher pode vir a ter um câncer de mama. Quando eu tinha 30 anos, descobri num exame de rotina um nódulo sólido na minha mama esquerda. Felizmente era um fibroadenoma, um nódulo benigno que continua lá, inalterado, passados 24 anos. Todavia, a forma nada empática como o radiologista me deu o diagnóstico do ultrassom, no laboratório, em pleno sábado, me deixou apavorada: “você tem um nódulo e eu recomendo que você procure um mastologista.” Não sosseguei até ter certeza de que não se tratava de um câncer de mama. E, passei a ser ainda mais rigorosa com meus exames periódicos.

Entre 2011 e 2013, quando liderei a área de comunicação corporativa da GE no Brasil, tínhamos uma parceria com a Américas Amigas e patrocinávamos o projeto que a ONG tinha com a Marinha brasileira, levando acesso à mamografia para as comunidades ribeirinhas da Amazônia. Nessa época, uma colega na empresa foi diagnosticada com câncer de mama e escolheu não contar para o seu chefe. Aquela decisão me impactou profundamente, pela constatação de que ainda não tínhamos um ambiente verdadeiramente inclusivo e psicologicamente seguro para acolher uma gerente sênior de RH que começava a enfrentar um câncer de mama.

De lá para cá, acompanhei de perto e de longe as histórias de diagnóstico e tratamento de amigas, colegas e conhecidas, das mais variadas gerações, idades e classes sociais. A maioria delas já está em remissão. Mas uma coisa é certa: quanto mais precoce o diagnóstico, maiores as chances de cura. Além disso, a forma como a família e a empresa acolhem e apoiam a pessoa, após o diagnóstico, faz toda a diferença no tratamento e no restabelecimento da saúde.

Quando decidi fazer um #OutubroRosa no #LíderComNeivia, eu já sabia que, embora 99% dos casos sejam diagnosticados em mulheres, existe 1% de casos em homens. Como o programa costuma ter uma média de oito edições por mês, eu precisava convidar quatro mulheres e quatro homens. Fiz um post no LinkedIn com dois meses de antecedência e, quase que imediatamente, tive várias indicações de mulheres que logo aceitaram meu convite. Encontrar homens que tivessem vivido a experiência de enfrentar um câncer de mama em si mesmos ou nas mulheres da sua família – fossem elas sua esposa, mãe, irmã, namorada ou filha – foi algo extremamente difícil.

Além do dado estarrecedor de homens que abandonam suas esposas e companheiras, ficou evidente para mim o quanto eles não se reconhecem como cuidadores das mulheres ou não se sentem responsáveis por essa função. E isso é desalentador. Quantos homens líderes de empresas devem ter alguma mulher próxima em tratamento de câncer de mama? Por que eles não falam sobre isso?

Entrevistei cinco mulheres que tiveram experiências e tratamentos distintos. Cada uma delas foi impactada, sofreu e reagiu à sua maneira. E aprendi uma coisa: quando você se deparar com alguém enfrentando um câncer de mama, não se atreva a dar conselhos, muito menos minimize o que a pessoa está sentindo, por maior que seja sua boa intenção. Só ela sabe os desertos que está atravessando, o medo que a consome e a dor física e emocional que a assola. Quer ajudar? Simplesmente pergunte: “o que você precisa?”.

Conversei com três homens: o primeiro deles estava em pleno tratamento, o segundo tinha o componente genético familiar e o câncer de mama já havia sido diagnosticado em seu irmão e em sua filha. O terceiro era CEO de uma empresa farmacêutica que estava lançando um tratamento inovador no combate à doença. Com eles, aprendi o quanto homens diagnosticados com câncer de mama se envergonham e, muitas vezes, não buscam tratamento por receio de serem considerados “menos homens”. Além disso, como o percentual é baixo, não existe literatura médica nem protocolo de atendimento para eles. Como se faz uma mamografia numa mama de homem? Quantos pacientes homens as médicas e médicos mastologistas e oncologistas já trataram? Uma coisa é certa: se um homem for diagnosticado com câncer de mama, a origem é genética e é fundamental uma investigação em toda a família.

Outras coisas que aprendi: cada vez mais, mulheres jovens têm sido diagnosticadas com câncer de mama de origem hormonal. Mulheres que amamentaram seus filhos também podem ter câncer de mama. Embora raro, uma mulher mastectomizada pode ter uma recidiva. Mulheres de baixa renda costumam ser obrigadas a esperar entre seis a nove meses para começar o tratamento no SUS, tempo esse que pode ser mortal para elas. Toda a família é afetada pela doença e deveria buscar ajuda psicológica profissional pois nada será como antes depois de sobreviver a um câncer de mama.

Há uns quatro meses, li um artigo do André Felicíssimo, CEO da P&G no Brasil, contando sobre o que ele aprendeu no dia mais difícil da sua vida, quando sua esposa foi diagnosticada com câncer de mama: “criei a regra das 48 horas que aplico em todas as situações de crise que enfrento, seja pessoal ou profissional. Permito-me sentir o que for necessário nas primeiras 48 horas, entender os sentimentos dos outros e, a partir desse momento, começo a aprender tudo que for possível para embasar minhas decisões, e foco no que posso controlar. Empatia. Aprendizado. Ação.”

Espero que mais homens sigam o exemplo do André no enfrentamento ao câncer de mama: que aprendam, cresçam e se tornem seres humanos melhores, ao invés de negar ou fugir da situação.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

8 minutos min de leitura
Liderança
18 de setembro de 2026 14H00
A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de setembro de 2026 08H00
Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Marcus Granadeiro - Membro do RICS - Royal Institution of Chartered Surveyors (MRICS) e sócio-diretor do Construtivo

3 minutos min de leitura
Vendas, Liderança
17 de setembro de 2026 15H00
Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

7 minutos min de leitura
Marketing
17 de setembro de 2026 13H00
As principais lições para quem está entrando no mundo das buscas generativas e quer entender como marcas passam a ser encontradas, citadas e recomendadas pelas IAs

Clayton Melo - Jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT Professional Education) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR.

Direito, Regulação & Compliance
17 de setembro de 2026 08H00
Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

João Alberto Graça - Advogado, consultor em Direito Tributário, Societário e Governança Corporativa, membro do Conselho de Contribuintes e Recursos Fiscais do Estado do Paraná

5 minutos min de leitura
Liderança
16 de setembro de 2026 18H00
Ao observar a comunicação constante de um pequeno grupo de galinhas-d’angola, o autor encontrou uma metáfora surpreendente para um dos maiores desafios dos líderes: perceber, interpretar e responder aos sinais que as pessoas emitem antes que o silêncio, a desmotivação ou a ruptura se tornem irreversíveis.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

12 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de setembro de 2026 14H00
A área branca se tornou um ativo estratégico! Energia, refrigeração, distribuição elétrica e gestão térmica passaram a determinar quais infraestruturas conseguirão acompanhar a próxima geração da transformação digital.

Felipe Vasco da Silva - Diretor de Aplicações Tecnológicas para a América Latina da Vertiv

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
16 de setembro de 2026 08H00
Em tempos de exposição digital permanente, o compartilhamento de fotos e informações de crianças nas redes sociais exige uma reflexão cada vez mais necessária: até que ponto registrar memórias é diferente de tornar a infância pública? O fenômeno do sharenting convida pais e responsáveis a repensarem os limites entre afeto, privacidade e responsabilidade no ambiente online.

Ana Bia Medeiros - Líder em Educação na Kiddle Pass

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução