Estratégia e Execução

Histórias de analytics que você não conhecia

Gestores privados e públicos do Brasil recorrem cada vez mais ao big data analytics para melhorar os negócios e a qualidade de vida da população

Compartilhar:

O O uso do big data analytics avança rapidamente na gestão privada e pública em vários países, incluindo o Brasil. Enquanto, na iniciativa privada, os setores industrial, financeiro, de logística e de energia são alguns dos que se destacam no uso com o objetivo de reduzir custos e aumentar lucros, na gestão pública, as principais aplicações da análise de dados vêm concentrando-se em aumentar a eficiência dos serviços públicos em áreas como transporte e mobilidade urbana, saúde e segurança pública. Às vezes, lucro e serviços públicos se combinam. Em Singapura, por exemplo, a autoridade pública responsável pelo trânsito utilizou a análise de dados preditivos para resolver congestionamentos que geravam à econo

mia privada e à sociedade como um todo prejuízos estimados em algo entre US$ 2 bilhões e 

 US$ 3 bilhões anuais. A solução, encontrada graças aos dados revelados pelo trabalho de analytics, foi a criação de um cartão com créditos que podem ser utilizados no transporte público, em táxis, no aluguel de carros e no pagamento do pedágio urbano. Tal flexibilidade possibilita a cada cidadão optar pela melhor forma de transporte no momento de seu deslocamento.

**TRÊS CASOS AQUI**

A seguir, você conhece três casos brasileiros de uso do big data analytics, protagonizados tanto pela gestão pública como pela iniciativa privada, com consultoria da FGV-Rio.

**1. PREFEITURA CARIOCA MELHORA MOBILIDADE  E COMBATE DENGUE**

Faz dois anos que a Prefeitura do Rio de Janeiro criou o Pensa – Sala de Ideias. Esse projeto busca elaborar propostas de melhorias de serviços públicos baseadas na análise de big data. São mais de 1 milhão de dados gerados diariamente, vindos das fontes mais diversas: secretarias e órgãos públicos, câmeras de controle e radares instalados nas ruas da cidade, centrais de atendimento ao público e redes sociais. 

Pablo Cerdeira, coordenador do Pensa, explica que se trata de um grupo de pessoas com atuação transversal, que perpassa várias áreas da gestão pública. Por exemplo, um dos projetos atuais é o de coleta de dados do Twitter para entender como as pessoas circulam pela cidade. 

Por meio de uma combinação de informações, que incluem, além do Twitter, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é possível identificar por quais caminhos as pessoas de diferentes faixas de renda se locomovem. Que diferença isso faz para o governo municipal? Segundo Cerdeira, habilita os gestores a pensar melhores soluções para a mobilidade urbana, como a definição dos lugares mais adequados para implantação de ciclovias e a interligação com outros modais. Em outro projeto, o Pensa analisa mais de 1,2 bilhão de registros de GPS de ônibus para identificar o desempenho de cada linha. 

Os resultados servem para apontar onde devem ser implantados futuros corredores de ônibus e para avaliar o desempenho dos atuais. Mais um exemplo de atuação do Pensa é a análise de dados e desenvolvimento de propostas para o combate à dengue no município. 

Flávio Coelho, coordenador do projeto InfoDengue do continuamente e analisasse as diferentes regiões da cidade de maneira específica. O cálculo do risco exigiu a captura de dados de forma contínua e robusta de fontes heterogêneas, como dados meteorológicos (temperatura, umidade, pluviosidade), menções à doença no Twitter, estatísticas de sua incidência e dados sobre a população do mosquito transmissor.

Rio e professor da FGV, conta que o que norteou o projeto foi a necessidade de mapear locais onde uma pessoa tinha risco imediato de contrair dengue na metrópole. Para fazer isso, agregaram-se todas as fontes de informações relevantes sobre a transmissão da doença e foi desenvolvido um modelo de risco que pudesse ser atualiza Uma equipe de estatísticos e epidemiólogos concebeu o modelo de risco, capacitado a prever o número de casos esperados da doença. Um bom primeiro resultado do projeto foi, segundo Coelho, conseguir, em menos de um ano, conceber, desenvolver e implantar uma plataforma de análise de risco para uma doença transmissível.

**2. LIGHT REDUZ OS PROCESSOS JUDICIAIS**

Isso já se sabe: as empresas que operam com grandes bases de clientes, como bancos, seguradoras e prestadoras de serviços públicos, são as que enfrentam o maior número de problemas relacionados com o direito do consumidor. No entanto, a Light, grupo de empresas que atua na geração, comercialização e distribuição de energia elétrica, buscou ajuda no uso do big data analytics para reduzir essa incidência. Segundo Flávio Coelho, da FGV-Rio, que participou do desenvolvimento e implementação da solução para a Light, a metodologia focou três eixos:

**GEOGRAFIA DO CONFLITO:** com o georreferenciamento de milhões de processos judiciais, de suas partes e dos escritórios de advocacia envolvidos, revelaram-se diversos determinantes geográficos do comportamento de litígio específicos de cada região da área de concessão da Light. Isso possibilitou identificar estratégias dos escritórios que atuavam contra a concessionária, mostrando as comarcas preferidas para a distribuição de processos e vários outros aspectos que não eram detectáveis até então. 

**GENEALOGIA DO CONFLITO:** foram analisados os perfis dos consumidores de energia na área de concessão da Light, o que permitiu entender como se desencadeava o conflito entre consumidor e empresa que culminava em processo judicial. Nessa etapa, foram analisados anos de relação entre milhões de consumidores e a empresa, e praticamente todo os estoque de processos do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro envolvendo a Light.

**SIMULAÇÃO PREDITIVA:** uma vez determinados os fatores locais e pessoais na construção do litígio de consumo, foi desenvolvido um modelo preditivo, por meio do qual a empresa poderia prever as consequências judiciais de seus atos junto aos clientes e com isso gerenciar melhor seu contencioso.

Na avaliação de Coelho, o projeto ofereceu à empresa um olhar único para dentro de seus processos de gestão de serviços, permitindo-lhe construir uma relação melhor com seus consumidores e minimizar seus problemas com litigância de consumo.

**3. OS NÚMEROS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL**

Uma base de dados com 1,5 milhão de processos judiciais, cerca de 14 milhões de andamentos processuais e  2,6 milhões de partes envolvidas está sendo utilizada para extrair conhecimentos sobre o desempenho do Supremo Tribunal Federal (STF). O projeto, denominado Supremo em Números, recorre a big data analytics e é desenvolvido pela Fundação Getulio Vargas, por meio da Escola de Direito do Rio de Janeiro (FGV Direito Rio), com o apoio da Escola de Matemática Aplicada (EMAp). 

O Supremo em Números tem fornecido informações relevantes para a sociedade civil, para o meio acadêmico e até mesmo para os próprios integrantes do STF a respeito da atuação do órgão, que não são detalhadas. Para Ivar Hartmann, professor da FGV Direito Rio e o coordenador responsável, o projeto confirma a utilidade e a importância de analisar os megadados, uma vez que eles, devidamente tratados, costumam trazer à tona descobertas inesperadas. Alguns desses achados estão contrariando o senso comum e chegam a surpreender até mesmo quem atua no STF há muitos anos.

**DOIS CASOS  LÁ FORA**

Pode-se dizer que o uso de big data analytics vai de leste a oeste dos Estados Unidos. Na Carolina do Norte, a prefeitura de Durnham conseguiu uma redução dos crimes violentos em cerca de 50% como resultado de seu esforço de análise de dados. Isso aconteceu graças a achados como o que mostrou que 20% desses crimes violentos estavam concentrados em apenas 2% do território urbano, o que tornava muito mais simples seu controle. 

Já no Texas, a fabricante de estruturas de metal pré-fabricadas Mueller recorreu ao big data analytics para desenvolver um modelo de atuação direta no varejo, aproximando-se mais dos consumidores finais, em vez de se limitar às vendas B2B para empresas de construção civil. 

Quando passou a focar essa área de negócios quase nova para ela, a empresa tratou de entender melhor as necessidades dos clientes com a ajuda de um conjunto de tecnologias de analytics. Feitas as mudanças culturais necessárias, o processo não só melhorou as vendas B2C da Mueller, como gerou ideias para a fábrica e identificou anomalias nas transações, ajudando a combater fraudes.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que lavar as mãos ainda é uma das maiores armas da medicina?

Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Vamos falar sobre vendas?

Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo