Uncategorized

Inovação ao Estilo Mayo Clinic

Lorna Ross, diretora de design do centro de inovação da Mayo Clinic, dos EUA, conta como é possível uma empresa ter foco no cliente mesmo quando o setor não tem
Karen Christensen é editora-chefe da Rotman Management Magazine.

Compartilhar:

**SAIBA MAIS SOBRE LORNA ROSS**

**Quem é:** Diretora de design do centro de inovação da Mayo Clinic. Formação: Graduada pelo Royal College of Art, de Londres, Reino Unido.

**Carreira:** Em cerca de 25 anos de carreira, dirigiu o grupo de bem-estar humano do MIT Media Lab Europe, trabalhou no Departamento de Defesa dos EUA e na Motorola, e já deu aulas na Rhode Island School of Design.

Com uma visão crítica do modelo tradicional de assistência à saúde, que mais parece “uma linha de montagem”, Lorna Ross encabeça uma equipe encarregada de pensar a inovação na norte-americana Mayo Clinic, uma das maiores organizações de atendimento à saúde do mundo.

Nesta entrevista, ela relata as mudanças que tem conduzido da perspectiva do design thinking, que servem de inspiração a qualquer empresa.

**QUAL É O PROBLEMA-CHAVE DO SISTEMA DE SAÚDE?**

Por mais irônico que soe, seu maior problema é não ser suficientemente focado no paciente. O modelo tradicional parece uma linha de montagem, na qual um paciente passa de um especialista a outro, sendo o único responsável por preservar sua “história” durante as consultas. O sistema é feito para reduzir riscos, não para criar valor, mas começa a mudar. 

Na Mayo Clinic, o diferencial é o modelo de prática integrada, no qual todos os serviços de que um paciente pode precisar – consultas, exames, cirurgias, cuidado hospitalar – são integrados. O planejamento é feito de maneira coordenada e eficiente, e o que levaria meses para ser concluído demora dias. 

**E A PRÁTICA DE SÓ FAZER MAIS DO MESMO?**

Ao expandir-se – sobretudo em um setor muito regulamentado como o de saúde –, toda empresa naturalmente concentra a energia em estabilizar o modelo existente. 

Na Mayo, para isso não ocorrer, temos um centro de inovação muito dedicado, cujo lema é: “Pense grande, comece pequeno e movimente-se rápido”. Aderimos ao design thinking para alimentar a inovação. Nossa equipe une princípios do modelo a métodos científicos para descobrir necessidades humanas no ambiente de saúde, usando foco no ser humano, empatia, criatividade e lógica de sistemas. 

Trabalhar diretamente com pacientes e fornecedores permite uma prototipagem rápida, que leva a novos insights e aborda problemas do sistema atual. 

A Mayo, localizada no meio dos campos de trigo de Rochester, Minnesota, possui a vantagem de ter vários concorrentes perto. Isso nos exige muito esforço para manter a liderança. Melhoramos sempre. 

**E COMO OS COLABORADORES SÃO INCLUÍDOS NESSE ESFORÇO DE INOVAÇÃO?**

Uma das fontes mais eficazes de grandes ideias é justamente permitir que os colaboradores explorem sua criatividade. Organizações inovadoras oferecem um “tempo de reflexão” a eles, motivando-os a trabalhar em projetos com os quais têm afinidade, para além de suas funções tradicionais. 

A inovação no sistema de saúde nunca foi tão importante, mas ela é um enorme desafio. Em um setor em que os dias são divididos em períodos com pacientes, é difícil arranjar tempo “livre”. É por isso que, em 2009, nosso centro de inovação criou um programa interno de subsídios que dá a todos os colaboradores da Mayo a oportunidade de solicitar recursos para inovar. 

Estamos vendo os dólares desse financiamento se tornarem novos modelos de cuidados médicos. 

**VOCÊ FALA QUE O SISTEMA DE SAÚDE PARECE O MÁGICO DE OZ. POR QUÊ?**

Como para a Dorothy da história, para a maioria dos pacientes, o que se passa em uma clínica é um mundo desconhecido; eles não compreendem o processo. 

Recentemente uma de nossas designers observou uma interação entre um paciente, sua esposa e uma médica. Esta saiu do quarto e se ausentou por 45 minutos. Marido e esposa ficaram imaginando o que estava acontecendo e criaram uma história completa. Como os médicos não compartilham informações, os pacientes se acostumaram a deduzi-las. 

Escondemos coisas demais dos pacientes. Por algum motivo, decidimos que é muito complicado ou estressante mostrar- -lhes como o sistema realmente funciona. No entanto, eles querem ver a máquina funcionando. Com a telemedicina e outras tecnologias, não seremos mais capazes de continuar a esconder tanto. 

Outros setores adotaram a transparência de várias formas. Por exemplo, muitos restaurantes têm cozinhas abertas, que mostram os chefs em ação apesar da bagunça – e as pessoas adoram; há interesse pela autenticidade da lida manual. 

Iniciativas que visam melhorar a experiência do paciente deveriam se concentrar menos em pôr quadros nas paredes e mais em envolver os pacientes no processo. 

**OS 5 PRINCÍPIOS DA CULTURA MAYO**

**O paciente em primeiro lugar.** O dr. William J. Mayo articulou esse conceito em 1910: “O interesse do paciente é o único a ser considerado”. Isso tende a simplificar a tomada de decisão: quando não há consenso sobre um assunto complicado, alguém pergunta “O que é melhor para o paciente?”, e é isso que orienta a discussão e leva à decisão. 

**Medicina em equipe.** A cultura da Mayo prevê trabalho em equipe: de acordo com a necessidade, formam-se grupos de pessoas com múltiplos conhecimentos a serviço dos pacientes. 

**A equipe certa.** Novas contratações devem ser aprovadas em várias entrevistas, incluindo um grupo que faça perguntas “comportamentais” voltadas para revelar os valores pessoais do candidato. 

**O poder da motivação intrínseca.** Toda a equipe recebe um salário fixo, independentemente do número de procedimentos realizados. O bom desempenho é resultado de razões internas baseadas na cultura palpável do trabalho em equipe. 

**Governança compartilhada.** Do topo até os departamentos clínicos específicos, todas as funções médicas têm um parceiro administrativo que lida com tarefas operacionais cotidianas. 

_(Leonard L. Berry e Kent D. Seltman, “The enduring culture of Mayo Clinic”, Mayo Clinic Proceedings)_

Compartilhar:

Artigos relacionados

Tudo que aprendi sobre a gestão da nova hotelaria nos últimos cinco anos

Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

O SaaSpocalypse chegou? Talvez a pergunta esteja errada.

A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

O cérebro é um velcro para críticas e um teflon para elogios

Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

O líder como jardineiro: a vantagem competitiva que cresce como um jardim

Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

O prêmio do julgamento na era da inteligência abundante

Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Inovação & estratégia
21 de agosto de 2026 14H00
À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
21 de agosto de 2026 08H00
Por que a metáfora mais repetida do momento também é a mais mal compreendida pelas lideranças

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

8 minutos min de leitura
Cultura organizacional
20 de agosto de 2026 18H00
Há um problema crescente nas organizações que não aparece nos dashboards nem nos relatórios: a desconexão humana. Ela se manifesta em relações fragilizadas, conversas evitadas e culturas que existem no discurso, mas encontram dificuldade para ganhar vida no cotidiano.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
20 de agosto de 2026 14H00
Ao reduzir distorções tributárias que incentivavam a internalização de atividades, o novo sistema tende a estimular terceirizações, fortalecer o mercado B2B e abrir espaço para novos modelos de negócio, criando oportunidades para empresas capazes de se posicionar como parceiras estratégicas de seus clientes.

Frederico Turolla - Sócio Fundador da Pezco Economics, Presidente do PSP Hub e Coordenador do Comitê de Economia e Infraestrutura da SWISSCAM - Câmara de Comércio Suíço Brasileira.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
20 de agosto de 2026 08H00
Embora as máquinas assumam atividades repetitivas e analíticas, competências como liderança, criatividade, pensamento crítico, negociação e julgamento continuam sendo essencialmente humanas. O desafio das empresas será criar ambientes em que essas capacidades atuem de forma integrada para impulsionar inovação e crescimento.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA no Brasil

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de agosto de 2026 14H00
Consumidores estão mais exigentes, mais conectados e menos tolerantes a experiências frustrantes. Ao mesmo tempo, os avanços em inteligência artificial estão permitindo que startups evoluam da simples automação para modelos capazes de interpretar contexto, tomar decisões e resolver demandas de forma autônoma. O resultado é uma nova lógica de crescimento baseada na qualidade da resolução, e não apenas na velocidade do atendimento.

Alan Schulte - Vice-presidente de Vendas para Startups e PMEs da Zendesk na América Latina.

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução