Uncategorized

Já fez sua Reunião Waigaya hoje?

Um encontro bem mais caótico que um brainstorming, marcado pelo “zum-zum-zum”, é a arma da Honda para resolver os mínimos problemas
O artigo é de Jeffrey Rothfeder, colaborador da strategy+business.

Compartilhar:

Como nenhuma das salas está disponível, a reu nião é feita no quartinho da limpeza: um cômodo de 2,5 m x 2,5 m com esfregões, vassouras e cheiro de detergente. Dez homens e mulheres se apertam em um espaço minúsculo. Todos usam calça e camiseta brancas com seu primeiro nome bordado em vermelho do lado direito. É o uniforme que todo funcionário da Honda Motor Company usa no trabalho, em toda fábrica ou escritório. 

O objetivo é diminuir a influência da hierarquia, mostrando que todos os pontos de vista e sugestões são iguais. Espremidos na sala estão gerentes industriais, associados da linha de montagem (associado é o operário Honda) e controladores de qualidade da fábrica de Anna, Ohio, onde a Honda produz motores e componentes de caixas de câmbio desde 1985. A planta produz cerca de 1,2 milhão de motores por ano, o que faz dela uma das maiores fábricas de motores do mundo. Uma crise séria provocou essa reunião espontânea. Um fornecedor entregara dezenas de eixos de válvula com um defeito do tamanho de um fio de cabelo, que produzia um ruído agudo ritmado, bem fraco, no motor. 

Esse barulho, praticamente inaudível, tinha sido descoberto na fábrica de Marysville no fim da linha de montagem do Honda Accord, quando os associados revisam os motores pela primeira vez. Devido ao espaço restrito sob o capô, parecia impossível remover os eixos de válvula defeituosos sem retirar o motor dos carros. Os responsáveis pelas duas fábricas tinham traçado um plano preliminar para levar os Accords afetados de Marysville até Anna, onde os motores seriam reparados e reinstalados. Parecia a única opção viável, apesar de claramente não ser a desejável. O processo todo, sem contar o transporte, poderia levar mais de três horas por carro. Quando o plano foi comunicado à equipe de Anna, uma especialista em controle de qualidade balançou a cabeça, dizendo: “Vamos conversar”.

> **O WAIGAYA SÓ TEM 4 PRINCÍPIOS**
>
> 1. Todos são iguais na reunião e podem expressar seus pensamentos livremente.
>
> 2. Todas as ideias devem ser debatidas até que sejam comprovadas ou rejeitadas.
>
> 3. Quando alguém compartilha uma ideia, esta passa a pertencer à empresa, e o grupo pode fazer o que bem quiser com ela.
>
> 4. No fim da reunião, são estabelecidas as decisões e responsabilidades –uma lista precisa de quem faz o que  e quando.

A lendA do waigaya 

Esse tipo de encontro não planejado é a marca registrada da Honda. Chama-se waigaya, que não é uma palavra em japonês ou em qualquer outra língua, mas um nome dado por Takeo Fujisawa, o sócio do fundador Soichiro Honda (pelo menos segundo a lenda da empresa). Ele a escolheu por achar que as três sílabas soam como a confusão de várias pessoas falando ao mesmo tempo –wai-ga-ya, wai-ga-ya, wai-ga-ya; em português, poderia ser zum-zum-zum. 

É o barulho das discussões acaloradas e do livre fluir de ideias; representa um campo de batalha de fatos e opiniões. Guarda alguma semelhança com os brainstormings, mas estes, que tiveram origem nas agências de publicidade, são mais ligados à criação, mais bem estruturados e se prendem  de algum modo à hierarquia. 

A maioria dos waigayas não começa de maneira tão dramática. Naquele dia em Anna, um gerente diz para os presentes: “Prefiro não entrar em detalhes porque vamos ter muito trabalho para colocar esse projeto em andamento. E, já que o conserto será uma perda de tempo enorme, não vamos piorar perdendo mais tempo discutindo”. Apesar de a maioria concordar com o gerente, um dos associados observa que algo deve estar muito errado para que isso tenha acontecido. 

O responsável pela fábrica começa a se impacientar. Reclamar sobre o que não deveria ter saído errado é inútil, e, se o caminho for esse –uma sessão de frustrações–, ele prefere que acabe logo. Mesmo assim, ele sabe que não é conveniente encerrar a discussão cedo demais; não se faz isso na Honda. A discussão continua por mais 20 minutos e parece estar indo ladeira abaixo quando um montador sugere uma forma de substituir os eixos de válvula sem ter de retirar totalmente o motor: com um sistema de roldanas que levante o motor apenas o suficiente para dar espaço para os associados do Accord agirem. “É mais trabalhoso; vamos fazer do jeito óbvio”, responde um colega. No entanto, a sugestão acende uma luz na cabeça da responsável pela qualidade. 

Ela se lembra de algo que viu um mês antes. “Em Marysville, eu estava observando como os motores se encaixam e percebi que há um espaço em volta que parecia maior do que o normal”, diz ela à equipe. “Isso não significou nada para mim até agora, mas acho que nos dá espaço suficiente para inclinar o motor a ponto de chegar ao eixo de válvula. Podemos fazer um teste.” Ela está certa. 

**DUALIDADE**

O waigaya assume várias formas. Pode durar meia hora, sobre um problema específico que precisa ser abordado imediatamente, ou semanas (ou meses), para tratar de uma nova fábrica ou da atualização de um modelo de veículo. Praticam waigaya os departamentos de vendas, marketing, produção, manutenção, e nele se envolvem entre três e vinte pessoas. No coração do waigaya está um conceito simples: paradoxos e discordâncias são a essência da melhoria contínua. A maioria das empresas tem medo de tanta dualidade, mas, como a história mostra, são os conceitos opostos que costumam alterar a equação de negócios: centralização versus descentralização, empowerment versus produtividade, controle multinacional versus autonomia local, e assim por diante.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Os rumos da agenda de diversidade, equidade e inclusão nas empresas brasileiras em 2026

Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência – com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.

Quando tudo vira conteúdo, o que ainda forma pensamento?

A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo – e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

Fornecedores, riscos e resultados: a nova equação da competitividade

Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência – e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de março de 2026 13H00
Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência - com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
29 de março de 2026 07H00
Este artigo revela por que entender o nível real de complexidade do próprio negócio deixou de ser escolha estratégica e virou condição de sobrevivência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
28 de março de 2026 11H00
A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo - e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

Poliana Abreu - Chief Knowledge Officer da Singularity Brazil, HSM e Learning Village

2 minutos min de leitura
Estratégia
28 de março de 2026 06H00
Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência - e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

André Veneziani - VP Comercial Brasil e Latam da C-MORE

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de março de 2026 13H00
Investir em centros de P&D deixou de ser opcional: tornou‑se uma decisão estratégica para competir em mercados cada vez mais tecnológicos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Estratégia
27 de março de 2026 07H00
Medir saúde organizacional deveria estar no mesmo painel que receita, margem e eficiência. Quando empresas tratam bem-estar como benefício e não como gestão, elas não só ignoram dados alarmantes - elas comprometem produtividade, engajamento e resultado.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
ESG
26 de março de 2026 15H00
A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Marceli Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de março de 2026 09H00
À medida que desafios logísticos se tornam complexos demais para a computação tradicional, este artigo mostra por que a computação quântica pode inaugurar uma nova era de eficiência para o setor de mobilidade e entregas - e como empresas que começarem a aprender agora sairão anos à frente quando essa revolução enfim ganhar escala.

Pâmela Bezerra - Pesquisadora do CESAR e professora de pós-graduação da CESAR School e Everton Dias - Gerente de Projetos

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
25 de março de 2026 15H00
IA executa, analisa e recomenda. Cabe ao líder humano decidir, inspirar e construir cultura.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
ESG
25 de março de 2026 09H00
Quando propósito vira vantagem competitiva, manter impacto e lucro separados é mais que atraso - é miopia estratégica.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...