Liderança

Jeffrey Pfeffer: como conquistar poder

Em entrevista exclusiva, o pesquisador Jeffrey Pfeffer mergulha no universo atual do poder, apresentando uma visão “maquiavélica” das habilidades que conduzem ao cargo de chefia

Compartilhar:

Para Jeffrey Pfeffer, poder não é para todos. Exige que a pessoa, além de habilidades como flexibilidade, tenacidade e capacidade de “ler” o outro, também tenha grande ambição e o impulso de se tornar bem-sucedida. Uma vez decidida a conquistar o poder, sua presença física é fundamental para se impor em reuniões ou diante do chefe.
Nesta entrevista exclusiva, Pfeffer mostra que não teme controvérsia e que, embora cite o italiano Maquiavel apenas de passagem em seu livro, é um dos pensadores a reabilitá-lo. Quantas pessoas o leitor conhece que admitem publicamente que, para chegar ao topo, adular o chefe pesa mais que bom desempenho? Afirmá-lo em plena era colaborativa, de redes horizontais, pode parecer até uma heresia.

__Qual é sua definição de poder?__
Basicamente, é a capacidade de fazer com que as coisas sejam realizadas da maneira como se deseja.

__Que obstáculos uma pessoa enfrenta para ganhar poder?__
É preciso ser capaz de superar a oposição, porque nem todos concordarão com você o tempo todo, e isso representa um grande obstáculo. O maior obstáculo, porém, costuma estar no próprio indivíduo, quando não está disposto a fazer o que é exigido para sustentar o poder. Entretanto, creio que as pessoas realmente são maleáveis e podem, mesmo quando adultas, transformar-se, aprender novas habilidades e desenvolver atributos pessoais que as tornem mais bem-sucedidas.

__Se, como o sr. diz, há requisitos para se tornar alguém poderoso, o que se deve fazer para obter o poder?__
É necessário reconhecer as qualidades pessoais que conduzem ao poder e desenvolvê-las. Refiro-me à energia, à flexibilidade, à tenacidade e à capacidade de “ler” o outro, além da ambição e do impulso de ser bem-sucedido. Quero dizer que é possível trabalhar as qualidades pessoais, aprender a agir e falar de um modo que sugira poder, assim como ter presença diferente nas reuniões.

__Jack Welch (CEO da GE no século 20) ainda é o melhor representante do líder com poder?__
Para muitos executivos, parece que tudo se resume a como fazer para se parecer com Jack Welch. Só que existe apenas um Jack Welch. Muitas vezes, em meus trabalhos, damos exemplos de pessoas que são tão excepcionais e atípicas que é até difícil vê-las como modelos de liderança. Pensemos em outro líder, Ross Walker, graduado pela Harvard Business School, que, em apenas nove anos e sem histórico algum chegou a estar entre as sete pessoas de maior hierarquia na SAP. (Ele era o CEO da SAP em 2011.) Creio que as qualidades e estratégias que demonstrou são realmente exemplares.

__Há algo bem provocativo em seu livro. O sr. diz que, quando a pessoa consegue manter o chefe feliz, o desempenho não importa muito; que, ao contrário, se ela lhe desagrada, um bom desempenho não a salvará. É isso?__
É isso mesmo.

__Mas até onde é preciso chegar para manter o chefe feliz? É preciso adulá-lo?__
Sinceramente? Sim, adulá-lo. Temos de descobrir quais são seus interesses e lhe mostrar o que temos em comum, além de tratá-lo com o devido respeito e recorrer a ele em busca de ajuda.

__É essa a autopromoção que o sr. menciona no livro ou há outros componentes?__
A autopromoção tem a ver com estar sempre visível e fazer com que a outra pessoa saiba que você está realizando um trabalho de qualidade.

__O sr. diz que é importante construir redes para obter poder. Quais são suas recomendações para isso?__
Fazer uma lista daqueles com quem é preciso estar de acordo e avançar nessa direção. As pessoas subestimam o poder dos laços fracos –laços com pessoas que conhecemos muito bem– e preferem passar a maior parte do tempo com familiares e amigos próximos, que realmente são parecidos com elas e lidam com o mesmo tipo de informação.
Construir uma rede de relacionamentos implica abandonar essa zona de conforto e estar disposto a alternar o contato com pessoas que não conhecemos bem mas precisamos conhecer.

__Como se faz isso? Participando de reuniões sociais, por exemplo?__
Apenas aproximando-se e pedindo ajuda, fazendo perguntas, estando em contato com as pessoas, reunindo-se. Não acredito que participar de reu-niões sociais seja necessariamente a melhor opção.

__As reuniões online também não são eficazes? O que dizer das redes sociais?__
Não muito. (Talvez ele mudasse essa resposta pós-pandemia.) O conveniente é reunir-se em grupos pequenos, para que as pessoas se lembrem umas das outras e para que haja alguma conversa significativa.

__No livro o sr. diz que o lugar onde uma pessoa começa a carreira é condicionante de aonde ela chegará. Então, qual seria um bom lugar para começar?__
Um bom lugar é aquele em que há menos concorrência, menos pessoas talentosas exigindo atenção. Deve-se tentar também estar num lugar em que ainda não há ação, mas logo haverá.
Na SAP, por exemplo, o lugar ideal é o grupo de estratégia, porque a estratégia se tornará importante para reposicionar a companhia no mercado das pequenas e médias empresas. Como hoje eles estão fazendo negócios com uma base de clientes muito ampla, saturada com os produtos da SAP e da concorrência, terão de decidir como agregar novas funcionalidades e conseguir novas fontes de receita. Trata-se, então, de desenvolver um conjunto de relações para obter um produto final mais fácil de instalar e de utilizar. É o caso de entender quais serão as necessidades da organização e estar nesse lugar para ter a oportunidade de influir.

__É preciso começar a fazer isso no momento em que se ingressa na empresa?__
Sim! E até mesmo antes de entrar ali.

__Como se constrói a reputação? As aparências pesam mais do que os fatos?__
A reputação é construída adquirindo visibilidade, tornando-se uma pessoa conhecida, escrevendo nas diferentes mídias, blogando, publicando artigos e concedendo entrevistas. Ou seja, fazendo o necessário para estar exposto ao público. Importam tanto as aparências como os fatos.

__O sr. também diz que, uma vez obtidos os recursos, a sustentação do poder é um processo que se autorreforça. Como são gerados os recursos iniciais?__
Pode-se reunir informação, como fez Lyndon Johnson quando ainda era assistente do líder da minoria no Congresso, ou colaborar em pequenos projetos que não interessem a ninguém, aos quais será destinado um orçamento mínimo –projetos que o porão em contato com pessoas de hierarquia mais alta. Assim se estará no caminho.

__Um elemento-chave, segundo o sr., é demonstrar autoridade. Como?__
Tem a ver com a postura corporal: ficar em pé ereto, inclinar-se para a frente, nunca para trás, mover-se com firmeza, empregar gestos seguros.

__Gritar e bater na mesa não estão na lista, não combinam com gestos seguros…E ter um escritório grande?__
Exato. Sobre o escritório grande, embora ele obviamente transmita poder, muito da percepção dos outros em relação a seu poder se desenvolve fora do escritório, e ali o poder se expressa por meio de presença física, postura e modo de falar.

__Ter muitos seguidores no Twitter é uma nova forma de poder?__
É uma forma de poder, mas na verdade reflete principalmente popularidade. O ator Charlie Sheen, com seus recentes problemas, é um bom exemplo. Ele tem milhões de seguidores no Twitter, porém não tenho certeza de que possua algum poder. Popularidade e poder são coisas diferentes.

__Quando alguém pratica a autopromoção, não fere os sentimentos de seus pares ou colaboradores?__
Não se preocupem tanto com o que pensam os pares –eles são, afinal, os que competem conosco por promoção. Muitos se preocupam demais com seus pares e não o suficiente com chefes e subordinados. Quando alguém é muito bem-sucedido, vários a sua volta terão ciúme e inveja, mas não é preciso se importar com isso. Quem se esforça o tempo todo para agradar aos outros não faz mais nada.

__Como se administra o tempo nas relações com o chefe, os pares e os subordinados? Quanto dedicar a cada um?__
Há tarefas nas quais a relação com os pares é muito importante, mas eu diria que se deve dedicar a maior parte do tempo ao chefe, boa parte aos subordinados e bem pouco aos pares.

__Há algum risco de se transformar em líder autoritário quando se tem poder demais?__
Acredito que nunca se tem poder demais. É como o dinheiro: nunca se tem demais.

__O que o levou a estudar o poder?__
Estudo o poder da mesma forma que outras coisas. Observo o mundo, a literatura, as ciências sociais e o comportamento organizacional e começo a estudar. Já dediquei mais de 40 anos a isso. Constato que há assuntos importantes que não foram desenvolvidos e me ocupo deles. Se você for às escolas de negócios nos Estados Unidos e na Europa e perguntar por cursos sobre o tema do poder, verá que em muitas ele não é estudado.

__No livro *Poder – Por que uns têm e outros não*, o sr. fala da importância de ser o centro de uma rede de comunicação…__
Isso exige esforço, razão pela qual muitos evitam o assunto. Para ser o centro de uma rede de comunicação, você deve garantir que tudo que for comunicação flua através de você.
Uma coisa que vejo em grupos de estudo ou de empreendedores é que alguém se oferece para assumir a responsabilidade de coordenar as reu-niões com pessoas do exterior, com investidores ou com quem quer que seja, e também se propõe organizar os contatos. Só porque está disposta a tomar para si tarefas que escapam a outros, essa pessoa já fica no centro da rede; é quem se ocupa de falar com as pessoas, coordenar as reuniões, determinar as datas e elaborar as minutas.

__Outro aspecto que o sr. menciona como muito importante é dar uma boa primeira impressão, certo?__
Isso está relacionado a tudo o que conversamos sobre agir e falar exibindo poder, ou seja, mostrar-se seguro de si e expressar-se de maneira convincente. O oposto é sentar-se e esperar que, em algum momento, mais cedo ou mais tarde, os demais reconheçam suas habilidades naturais. É uma questão de autopromoção e de atuação para que notem que você está presente na sala.

__A literatura especializada em liderança analisa diferentes tipos de líder: calmos, heroicos, carismáticos. É melhor ser calmo, heroico, ter poder, ou essa é uma discussão diferente?__
É uma discussão diferente. Ninguém ocupa uma posição de liderança sem poder. Muitas pessoas possuem um poder enorme sem necessariamente ser carismáticas. Isso tem a ver com o controle dos recursos e com o lugar em que se encontram em sua rede social, e também com qualidades como energia, tenacidade, inteireza, tolerância ao conflito e outras do gênero.

__O sr. recomendaria a uma pessoa interessada em construir poder que abordasse todas essas coisas simultaneamente?__
Sim, apesar de ser óbvio que não se pode fazer tudo de uma vez. A recomendação utópica se justifica para que se tenha em mente que tudo isso é necessário para quem quer conquistar poder, mas…

__Mas trata-se de um processo com etapas definidas conforme as condições de cada um? Começa-se por onde?__
Cada um de nós é melhor ou pior em algo; então, a primeira coisa que se deve fazer é uma avaliação razoavelmente objetiva dos próprios atos e trabalhar as fraquezas. Antes, porém, é uma boa ideia ler meu livro *(risos)*.

A entrevista é de Viviana Alonso, colaboradora de __HSM Management__.

Compartilhar:

Artigos relacionados

“Strategy Washing”: quando a estratégia é apenas uma fachada

Estamos entrando na temporada dos planos estratégicos – mas será que o que chamamos de “estratégia” não é só mais uma embalagem bonita para táticas antigas? Entenda o risco do “strategy washing” e por que repensar a forma como construímos estratégia é essencial para navegar futuros possíveis com mais consciência e adaptabilidade.

Como a inteligência artificial impulsiona as power skills

Em um universo do trabalho regido pela tecnologia de ponta, gestores e colaboradores vão obrigatoriamente colocar na dianteira das avaliações as habilidades humanas, uma vez que as tarefas técnicas estarão cada vez mais automatizadas; portanto, comunicação, criatividade, pensamento crítico, persuasão, escuta ativa e curiosidade são exemplos desse rol de conceitos considerados essenciais nesse início de século.

iF Design Awards, Brasil e criação de riqueza

A importância de entender como o design estratégico, apoiado por políticas públicas e gestão moderna, impulsiona o valor real das empresas e a competitividade de nações como China e Brasil.

Transformando complexidade em terreno navegável com o framework AIMS

Em tempos de alta complexidade, líderes precisam de mais do que planos lineares – precisam de mapas adaptativos. Conheça o framework AIMS, ferramenta prática para navegar ambientes incertos e promover mudanças sustentáveis sem sufocar a emergência dos sistemas humanos.

Transformação Digital, Inteligência artificial e gestão
Foco no resultado na era da IA: agilidade como alavanca para a estratégia do negócio acelerada pelo uso da inteligência artificial.

Rafael Ferrari

12 min de leitura
Negociação
Em tempos de transformação acelerada, onde cenários mudam mais rápido do que as estratégias conseguem acompanhar, a negociação se tornou muito mais do que uma habilidade tática. Negociar, hoje, é um ato de consciência.

Angelina Bejgrowicz

6 min de leitura
Inclusão
Imagine estar ao lado de fora de uma casa com dezenas de portas, mas todas trancadas. Você tem as chaves certas — seu talento, sua formação, sua vontade de crescer — mas do outro lado, ninguém gira a maçaneta. É assim que muitas pessoas com deficiência se sentem ao tentar acessar o mercado de trabalho.

Carolina Ignarra

4 min de leitura
Saúde Mental
Desenvolver lideranças e ter ferramentas de suporte são dois dos melhores para caminhos para as empresas lidarem com o desafio que, agora, é também uma obrigação legal

Natalia Ubilla

4 min min de leitura
Carreira, Cultura organizacional, Gestão de pessoas
Cris Sabbag, COO da Talento Sênior, e Marcos Inocêncio, então vice-presidente da epharma, discutem o modelo de contratação “talent as a service”, que permite às empresas aproveitar as habilidades de gestores experientes

Coluna Talento Sênior

4 min de leitura
Uncategorized, Inteligência Artificial

Coluna GEP

5 min de leitura
Cobertura de evento
Cobertura HSM Management do “evento de eventos” mostra como o tempo de conexão pode ser mais bem investido para alavancar o aprendizado

Redação HSM Management

2 min de leitura
Empreendedorismo
Embora talvez estejamos longe de ver essa habilidade presente nos currículos formais, é ela que faz líderes conscientes e empreendedores inquietos

Lilian Cruz

3 min de leitura
Marketing Business Driven
Leia esta crônica e se conscientize do espaço cada vez maior que as big techs ocupam em nossas vidas

Rafael Mayrink

3 min de leitura
Empreendedorismo
Falta de governança, nepotismo e desvios: como as empresas familiares repetem os erros da vilã de 'Vale Tudo'

Sergio Simões

7 min de leitura