Liderança, Comunidades: CEOs do Amanhã

Liderando na indústria 4.0

Como gerenciar o ambiente fabril entre máquinas, pessoas e a tão falada transformação digital
Coordenador de total production management nas Cervejarias Heineken e um completo apaixonado por pessoas e os impactos da transformação digital no trabalho. Parte da comunidade Young Leaders.

Compartilhar:

O ambiente fabril, seja qual for o segmento da indústria, é mais ou menos o mesmo: máquinas pesadas, empilhadeiras, armazéns, métodos, padrões, critérios rigorosos de segurança e qualidade, tablets e celulares chegando aos poucos para dar uma pitada de adrenalina. E no meio de tudo isso, os seres humanos que ali trabalham e fazem a sua rotina. É sobre eles que falaremos hoje e como liderar em um ambiente que foge – e muito – do dia a dia do escritório.

O termo “chão de fábrica” (ou shopfloor) surgiu quase ao mesmo tempo em que a própria indústria, lá na revolução industrial. É o termo que se refere ao local da operação, às linhas de produção, onde entra o insumo e sai o produto direto para a venda. Lá estão as máquinas e empilhadeiras, não há sofás floridos ou videogames – muito menos frigobar.

Nem sempre é um ambiente confortável de se estar, às vezes com bastante barulho e calor, e a cada segundo de um equipamento parado significa recurso sendo perdido. Em resumo, é um lugar tenso e que trava uma batalha diária contra o tempo…

Somado a isso, o “novo tempero” para essa tensão chegou após 2010, com a [avalanche de tecnologias da indústria 4.0](https://www.revistahsm.com.br/post/transformacao-ou-disrupcao-digital). O que antes era feito no papel passou a ser feito no tablet ou no celular. Parece ótimo, mas nem sempre o é. Com os novos gadgets nas linhas, o estresse aumentou e a produtividade não apresentou ganhos significativos inicialmente, como anuncia o [report de 2017 da Deloitte](https://www2.deloitte.com/content/dam/Deloitte/global/Documents/HumanCapital/hc-2017-global-human-capital-trends-gx.pdf) sobre produtividade no trabalho versus crescimento de tecnologias no mesmo período.

![graphdeloitte](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/DXgGqOM01wgFf67mJIRYa/dda58b6ea2cc6c1f34d8e3ece391023c/graphdeloitte.png)

Ou seja, o ambiente, que já era desgastante, acabou se tornando ainda mais. A máquina quebrou? Mande WhatsApp para o técnico vir correndo, se possível, na mesma velocidade da mensagem. Ou então, você está na rotina da operação, seu celular vibra e lá vem a mensagem: “já fez o relatório?” Essa é uma rotina cansativa não só física, devido às atividades em si, mas também mentalmente.

## Digitalização da fábrica
Foi com essa percepção que, em 2018, as cervejarias Heineken iniciaram um movimento de digitalização do processo fabril, a fim de reduzir toda essa carga de trabalho, unificar plataformas (evitando fontes de informação variadas que geram inúmeros pop-ups por minuto) e, claro, melhorar a nossa eficiência.

Como responsável pela implantação do projeto digital na quinta maior cervejaria do grupo no mundo em volume produzido, aprendi algumas lições sobre pessoas e sobre o mundo digital que gostaria de compartilhar:

### O Gemba
No pós-Segunda Guerra Mundial, quando as metodologias de gestão japonesas, como o lean e o TPM (total production maintenance, que posteriormente se tornou total production management), começaram a surgir nas montadoras, o termo “gemba” foi originado. Entendido como “o verdadeiro local” em japonês, o gemba refere-se ao local de produção. Portanto, “ir ao gemba” é a ação de ir até o chão de fábrica.

Vamos esclarecer: trabalhadores das áreas administrativas, que não faziam parte da linha de produção, eram incentivados a visitar onde o “negócio” acontecia, isto é, eles deveriam ouvir a operação e entender a real situação do que ali acontece, seja pra entender a causa de um problema ou para agregar com algo que melhorasse o dia a dia dos colaboradores no “shopfloor”. Logo, o gemba seria um local rico para se obter soluções valiosas a problemas de fabricação – podemos até chamá-lo de “o avô da UX” e da compreensão da necessidade das pessoas.

Acima de tudo, o gemba nos ensina uma lição valiosa: ter a empatia necessária praticando a escuta ativa. [Entender a cultura](https://www.revistahsm.com.br/post/como-a-cultura-corporativa-e-criada) (foco nessa palavra!) e a rotina das pessoas que ali estão diariamente é fundamental para implantar todo e qualquer projeto. Sem essa compreensão humana, real e profunda, as chances de falhar são imensas.

### A tecnologia é sexy
Eu fico imaginando a pessoa que inventou o papiro, lá no Egito antigo, como ela convenceu as pessoas que, a partir de um determinado momento, era preciso registrar tudo com a escrita. “Para quê? É muito mais fácil falar”, devem ter dito. A resistência à implantação digital, ao novo, é imensa. Toda mudança gera incômodo, porém, a tecnologia tem um aliado, pois ela leva a nossa imaginação do Egito antigo aos *Jetsons*, é extremamente atraente por aflorar nosso “Star-Wars interior” e desperta a curiosidade, por isso, a use a seu favor. Ao invés de impor, mostre o mundo de possibilidades que aquela tecnologia soluciona.

### Explique o porquê
Como diria Simon Sinek no livro *Starts with why* (sou fã desse livro, fica aqui a minha recomendação), é necessário dar significado às coisas e atividades, assim, a clareza do que se faz e o grau de maturidade para analisar uma situação são muito maiores. Dar um celular ou tablet para uma pessoa e dizer que aquela é sua nova ferramenta de trabalho, não traz sentido e não surtirá efeito. Mostrar de onde vem, para onde que vai e o que a tecnologia agrega, por sua vez, aumenta muito a chance de sucesso da implementação.

### Valorize as pessoas que compram a sua ideia
Tendemos a gastar muita energia com as pessoas que não foram convencidas com o novo projeto. Aprendi que gastar mais tempo com elas do que com aquelas que estão empolgadas é um erro mortal. Além de não as convencer, você também perde a empolgação dos que estão contigo, uma energia que não pode ser desperdiçada em grandes implantações. Aqueles que apresentam resistência extrema, mantenha-os no radar; valorize os que estão iniciando o movimento com você! São eles que, quase em um efeito manada, trarão mais pessoas para seu lado.

A partir do momento que o meu grupo de aliados cresceu, a [implantação da solução digital](https://www.revistahsm.com.br/post/organizacoes-buscam-a-maturidade-digital-para-sobrevivencia) foi orgânica. A aceitação foi tão exponencial quanto a própria tecnologia, em apenas oito semanas já tínhamos 100% da cervejaria coberta pelo aplicativo e mais de 500 desvios de rotina registrados pela plataforma por parte da operação no mesmo período. Assim sendo, o reconhecimento de quem está na mesma vibração que você é muito importante na conquista de novos parceiros e fundamental para a expansão do projeto.

Não importa quão digital sejamos, quão “quatro ponto alguma coisa” a indústria seja ou quão tecnológico seu processo for, se não entendermos profundamente a cultura e ouvir as pessoas que fazem isso acontecer, dificilmente sua estratégia de implantação será seguida. É muito mais sobre pessoas do que linhas de código de fato. E como diria o já citado Simon Sinek: “100% dos clientes são pessoas, 100% dos funcionários são pessoas. Se você não entende de pessoas, não entende de negócios”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O benefício existe. Mas as pessoas têm tempo para usá-lo?

Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Mobilidade interna: Por que quando o tema é talentos estamos sempre olhando para a grama do vizinho?

A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Cultura organizacional
21 de julho de 2026 14H00
A desconexão entre pessoas custa bilhões às empresas todos os dias. Ainda assim, muitas organizações seguem tratando cultura como documento, engajamento como métrica e comunicação como ferramenta. Talvez o problema esteja justamente aí.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de julho de 2026 09H00
A construção civil está deixando para trás práticas marcadas por desperdícios e retrabalhos. O avanço de soluções industrializadas, novas tecnologias e modelos de gestão mais eficientes aponta para um novo cenário: construir com mais qualidade, menor impacto e maior previsibilidade.

Rafael Brizot - Diretor da Max Mohr

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de julho de 2026 14H00
Sem maturidade informacional, a IA não elimina problemas, apenas os torna mais rápidos e mais difíceis de controlar.

Bergson Lopes - Fundador e sócio-diretor da BLR DATA, Vice-presidente da DAMA Brasil

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
20 de julho de 2026 07H00
Quase 80% dos trabalhadores sentem culpa ao tirar férias e muitos continuam respondendo mensagens durante o período de descanso. O artigo discute como essa cultura afeta pessoas e organizações e por que líderes precisam dar o exemplo para transformar a relação com o descanso.

Tatiana Pimenta - Fundadora e CEO da Vittude e autora do livro “Saúde mental é inegociável”

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 14H00
WhatsApp, redes sociais, chats e inteligência artificial mudaram a forma como as empresas se relacionam com seus clientes. O desafio agora não é apenas responder mais rápido, mas transformar cada interação em uma oportunidade de fortalecer confiança, reputação e valor de marca.

Edson Alves - CEO da Ikatec

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 08H00
Pensamento estratégico, julgamento humano, curadoria de ferramentas digitais, desaprendizagem contínua e construção de significado despontam como as competências que diferenciarão profissionais em uma era em que inteligência e execução estão cada vez mais distribuídas entre pessoas e máquinas.

Denis Caldeira - CEO da Caldeira Growth e autor de "Cresça ou Desapareça"

8 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Cultura organizacional, User Experience, UX
18 de julho de 2026 14H00
À medida que os eventos se consolidam como ferramentas de cultura, engajamento e construção de relacionamentos, a escolha dos destinos deixa de ser uma decisão operacional. Este artigo explora como experiências, conexões humanas e identidade local estão redefinindo o papel dos encontros corporativos e transformando cidades em plataformas de desenvolvimento econômico e cultural.

Aziz Camali Constantino - Idealizador e cofundador do Oxigênio Ilhabela

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de julho de 2026 07H00
Enquanto a maioria das empresas não pode se dar ao luxo de substituir sistemas críticos da noite para o dia, startups vêm assumindo um papel estratégico na construção de uma transformação tecnológica mais rápida, modular e segura.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI e líder do TQI Ventures

3 minutos min de leitura
Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de julho de 2026 13H00
Ferramentas de IA já produzem textos, avaliações, vídeos e conteúdos em segundos. Mas a transformação mais importante talvez não esteja na velocidade da produção, e sim na capacidade de redesenhar experiências de aprendizagem que desenvolvam pensamento crítico, prática, feedback e autonomia humana.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de julho de 2026 08H00
A sensação constante de apagar incêndios não é apenas um problema de produtividade. Este artigo mostra por que organização, gestão da agenda e definição de limites são competências essenciais para preservar desempenho, reduzir o esgotamento e recuperar o controle sobre a própria rotina profissional.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo