Melhores para o Brasil 2022

Mais mulheres para criar futuros mais humanos

O futurismo sempre foi masculino e ocidental, baseado na tecnologia e no crescimento econômico. As crises atuais, porém, mostram que um futuro mais inclusivo pode ser o único possível
Lília Porto é economista e fundadora do hub O Futuro das Coisas, e busca contribuir para acelerar as mudanças rumo a uma sociedade mais justa e inclusiva. É cofundadora da empresa Saúde na Era Pós-Digital.

Compartilhar:

Alguns anos atrás, dois proeminentes futuristas americanos (um homem e uma mulher), Joseph Coates e Jennifer Jarratt, enviaram para dez grandes empresas uma lista de 125 futuristas. Eles pediam que os executivos selecionassem quais deles teriam algo relevante a dizer sobre o futuro.

A seleção foi publicada em 1989, no livro What Futurists Believe. Os 17 futuristas selecionados eram homens, todos brancos e de meia-idade. Nenhum fora do Ocidente e nenhuma mulher. Na época, houve críticas não tanto pelo conteúdo e pelas conclusões, mas pelo viés da amostragem.

Em 1972, Alvin Toffler publicou The Futurists. Na época, ele explicou que o objetivo era “tornar acessíveis algumas obras dos mais renomados e influentes futuristas”. Para garantir a diversidade, selecionou não apenas nos Estados Unidos, mas em países como Japão, França, Holanda, URSS, Índia, Alemanha e Canadá. De fato, das 23 pessoas citadas no livro, 12 eram norte-americanos. Ainda assim, só havia uma mulher, Margaret Mead.

Em 1989, Hugues de Jouvenel, head de futuros da Association Internationale Futuribles, em Paris, conduziu uma pesquisa com oito pessoas que ele descreveu como “futuristas notáveis”, pedindo-lhes que identificassem os principais estudos de futuros globais publicados a partir de 1980. No rol, apenas uma mulher, Eleonora Masini.

Mas vamos voltar um pouco mais no tempo. Em 1909, Filippo Tommaso Marinetti fundava o Futurismo, movimento artístico que buscava romper com as tradições do passado, numa verdadeira adoração ao futuro. No “Manifesto Futurista”, Marinetti elogiava a modernidade, celebrava a guerra e professava o desprezo pelas mulheres.

Rosa Rosà fazia parte do pequeno grupo de mulheres que contribuiu para esse movimento. Ela tentou firmar uma agenda feminista dentro do que foi, sem dúvida, a ideologia mais patriarcal do século 20. Os desenhos de Rosà celebravam a modernidade, o cosmopolitismo e, principalmente, as mulheres. Futurismo e modernidade, nesse sentido, foram além do tecnológico para noções ideológicas de igualdade. Em 1912, Valentine de Saint-Point deu uma resposta ao manifesto misógino de Marinetti, escrevendo o “Manifesto das Mulheres Futuristas”, pró-igualdade.

Nos anos que se seguiram, o Futurismo contou com um crescente número de mulheres que fizeram de suas próprias vidas pouco convencionais o modelo da mulher moderna: livre, ativa e capaz de participar sem complexos da sociedade futura.
Diante do domínio masculino em pensar futuros, o que podemos dizer da contribuição das mulheres? Embora em menor número, as futuristas mulheres são notáveis. Margaret Mead, Gro Harlem Brundtland, Eleonora Masini e Hazel Henderson estão entre as mais destacadas no mundo. Outras pioneiras são Barbara Marx Hubbard, Magda McHale e Renee-Marie Croose Parry.

Rosa Menasanch, Pepita Majoral, Conxita Bargalló e Antonia Guix estiveram entre os fundadores, em 1973, do Centre Català de Prospectiva. Eva Gabor, Mária Kalas Kőszegi, Erzsébet Gidai e Erzsébet Nováky desempenharam papéis cruciais na pesquisa de futuros na Hungria na década de 1970, assim como Ana Maria Sandi e Viorica Ramba Varga, na Romênia; Danuta Markowska, na Polônia; Radmila Nakarada, na Iugoslávia; Anna Coen, na Itália; Erika Landau e Rachel Dror, em Israel, e, mais tarde, Margarita Kaisheva, na Bulgária, e Rosa Alegria, no Brasil.

Na vanguarda dos primeiros trabalhos de futuros estão Donella Meadows (responsável pela impactante publicação Os limites do crescimento, nos anos 1970) e Edith Weiner (uma das responsáveis pela invenção do “environmental scanning”, um dos métodos mais úteis na pesquisa de futuros). Hoje temos muitas mais.

## Visões de futuro das mulheres
E quais são as visões das mulheres para o futuro? Em Women’s Visions of the Future, Elise Boulding diz: “As visões das mulheres têm um caráter fortemente comensalista. A metáfora da família humana vem naturalmente para elas, e frequentemente se valem dela ao imaginar uma sociedade futura mais pacífica, justa e humana do que a atual. Além disso, como as mulheres estão acostumadas a atuar em espaços privados da sociedade, embora suas responsabilidades sejam públicas no sentido mais amplo da palavra, elas são muito engenhosas em visualizar mudanças que podem ser feitas ‘dentro’ das fendas das microestruturas da sociedade”.

Segundo Boulding, as mulheres conseguem imaginar mais facilmente uma sociedade plural “com oportunidades de vida e de participação iguais para cada mulher, homem e criança, e inúmeras redes entrelaçadas de pessoas compartilhando interesses comuns como indivíduos preocupados com o bem-estar público”.
E o feminismo? Embora a maioria das feministas não se identifique ativamente com estudos de futuros, há uma visão implícita do futuro nas declarações feministas. E, é claro, há muitas abordagens ao feminismo e, portanto, muitas visões feministas do futuro. “O futuro não é feminino, mas o feminismo, um feminismo que busca transformar o socialismo e acabar com o poder dos homens sobre as mulheres, tem um papel crucial a desempenhar em sua construção”, diz Lynne Segal, no capítulo final de seu livro Is the Future Female?

## Visões mais realistas do mundo
Hoje, os mais celebrados futuristas são homens: Aubrey de Grey, Elon Musk, Sergey Brin e Ray Kurzweil. Mesmo que não se identifiquem assim, são eles que estão conduzindo as conversas sobre futuros – muitas vezes em grandes palcos (antes da Covid-19), apoiados por empresas.

Isso significa que mídia, líderes, gestores e pessoas interessadas no tema acabam se voltando a esses nomes para entender o que pode acontecer e, em última análise, se tudo vai ficar bem. A questão é: futuros imaginados dependem em grande parte da pessoa ou das pessoas que estão os imaginando.

Quando o campo de estudos de futuro começou, nos anos 1960, precisou demonstrar que era científico para ser levado a sério, e foi codificado como masculino. Questões tidas como “mais brandas”, como mudanças sociais, estruturas familiares e impactos culturais, foram deixadas de lado em favor da modelagem matemática e da tecnologia.

Madeline Ashby, futurista que trabalhou para organizações como Intel Labs, Institute for the Future e SciFutures, acredita que grande parte do desequilíbrio de gênero tem a ver com o otimismo. Para ela, os homens brancos conseguem oferecer uma visão mais otimista do futuro. Eles podem dizer que o mundo ficará bem, que a tecnologia resolverá todos os nossos problemas, que viveremos para sempre. Mark Stevenson, por exemplo, é autor do livro An Optimist’s Tour of the Future.

Ashby diz que sempre que ela passa uma visão sombria do futuro, alguém (quase sempre um homem) pergunta por que ela não é mais positiva. E ela argumenta: “porque quando você fala sobre o futuro, você não recebe ameaças de estupro. Por muito tempo, o futuro pertenceu a pessoas que não tiveram que lutar. Mas, à medida que mais e mais sistemas entram em colapso, o futuro pertencerá cada vez mais àqueles que sabem lutar, e essas pessoas não são as que estão criando esses futuros otimistas”.

Da mesma forma que a diversidade impulsiona a inovação e o crescimento, quando apenas um grupo homogêneo de pessoas está empenhado em especular o futuro perde-se toda uma estrutura que poderia identificar melhor os problemas e ampliar a proposição de soluções.

Vamos considerar a longevidade. A ideia de que podemos prolongar ao máximo a expectativa de vida é defendida por Aubrey de Grey. Mas esse é um futuro desejável apenas se você estiver em uma posição tão privilegiada quanto a dele. Viver mil anos só funciona se você for rico. Outro exemplo são as viagens no tempo – para grupos marginalizados, voltar ao passado pode significar abrir mão de direitos já conquistados. O livro Kindred, da escritora negra Octavia Butler, por exemplo, mostra uma mulher negra atual voltando no tempo para a época da escravidão no Sul dos Estados Unidos. É uma história de terror.

Talvez seja por isso que os futuristas muitas vezes não falam sobre certas questões e problemas que muitas pessoas enfrentam todos os dias – assédio, creche, equilíbrio entre vida profissional e pessoal, direito à água, imigração, brutalidade policial. “Quando você perde vozes femininas, perde as questões com que elas têm de lidar”, diz Ashby.

Monica Byrne, autora de ficção científica, diz que, quando pensa no termo “futurista”, lembra de luta pelo poder. “O que vejo é uma aposta pelo controle sobre como será o futuro. E é um futuro que, para mim, não parece muito diferente das capas de ficção científica de Isaac Asimov. Não é um futuro no qual estou interessada. Quando penso no tipo de futuro que quero construir, é muito suave e humano. Como a tecnologia nos permite continuar amando uns aos outros?”, ela ri.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A IA vai pelo mesmo caminho do ERP e da transformação digital?

O entusiasmo com inteligência artificial segue um ciclo já visto antes. Este artigo mostra por que o próximo desafio das empresas não é implementar a tecnologia – mas transformar uso em resultado, superando velhos erros de gestão que já limitaram outras ondas de inovação.

Estamos aprendendo mais (e entendendo menos)

Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de junho de 2026 15H00
O entusiasmo com inteligência artificial segue um ciclo já visto antes. Este artigo mostra por que o próximo desafio das empresas não é implementar a tecnologia - mas transformar uso em resultado, superando velhos erros de gestão que já limitaram outras ondas de inovação.

Marcus Garcia - Diretor Comercial da Konia Tecnologia

3 minutos min de leitura
Lifelong learning
17 de junho de 2026 09H00
Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.

Daniel Luzzi - CEO Cognita Learning Lab

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
16 de junho de 2026 15H00
O mercado discute o futuro - mas continua ignorando quem já está pronto para trabalhar. Este artigo chama atenção para um movimento ignorado: a crescente presença da geração 60+, e o custo de continuar excluindo um dos recursos mais experientes e disponíveis da força de trabalho.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de junho de 2026 09H00
Na estreia da coluna, as autoras, Cecília Seabra e Thais Giuliani, propõem uma mudança de paradigma na liderança: sair das explicações rápidas e dos julgamentos para construir relações mais consistentes por meio da escuta, da curiosidade e da integração de diferenças.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
15 de junho de 2026 15H00
Colesterol, cardiologista, academia. Tudo certo. Só falta mencionar o que, de fato, está tirando as pessoas de campo.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
15 de junho de 2026 08H00
A liderança não cabe mais em rótulos e quem ainda pensa assim pode estar ficando para trás. Este artigo mostra como a valorização de perfis não lineares e a capacidade de integrar múltiplas experiências redefinem o conceito de talento nas organizações.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de junho de 2026 15H00
Mais do que falta de talento ou tecnologia, este artigo revela o verdadeiro risco das organizações modernas: pessoas que deixam de dizer o que pensam. Este artigo demonstra como isso compromete decisões, inovação e resultados sem que ninguém perceba.

Valter Bahia Filho – Autor e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
14 de junho de 2026 08H00
Ao revisitar o colapso e a reinvenção da Japan Airlines, este artigo revela, à luz dos princípios do Aikido, que a verdadeira transformação organizacional não começa na estratégia, mas na superação do ego - quando liderança, propósito e consciência coletiva entram em fluxo.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
13 de junho de 2026 15H00
Inspirado por um colapso histórico no esporte, este artigo revela um dos riscos mais silenciosos das organizações: equipes talentosas deixam de performar quando a confiança desaparece - e a liderança não cria um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar, participar e contribuir de verdade.

Dr. Cristiano Nabuco - Reitor da Artmed School of Psychology (APSY)

6 minutos min de leitura
Marketing & growth
13 de junho de 2026 08H00
Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Natalia Coca - Fundadora da FunFlow, estrategista de vendas e palestrante

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão