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Mais mulheres para criar futuros mais humanos

O futurismo sempre foi masculino e ocidental, baseado na tecnologia e no crescimento econômico. As crises atuais, porém, mostram que um futuro mais inclusivo pode ser o único possível
Lília Porto é economista e fundadora do hub O Futuro das Coisas, e busca contribuir para acelerar as mudanças rumo a uma sociedade mais justa e inclusiva. É cofundadora da empresa Saúde na Era Pós-Digital.

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Alguns anos atrás, dois proeminentes futuristas americanos (um homem e uma mulher), Joseph Coates e Jennifer Jarratt, enviaram para dez grandes empresas uma lista de 125 futuristas. Eles pediam que os executivos selecionassem quais deles teriam algo relevante a dizer sobre o futuro.

A seleção foi publicada em 1989, no livro What Futurists Believe. Os 17 futuristas selecionados eram homens, todos brancos e de meia-idade. Nenhum fora do Ocidente e nenhuma mulher. Na época, houve críticas não tanto pelo conteúdo e pelas conclusões, mas pelo viés da amostragem.

Em 1972, Alvin Toffler publicou The Futurists. Na época, ele explicou que o objetivo era “tornar acessíveis algumas obras dos mais renomados e influentes futuristas”. Para garantir a diversidade, selecionou não apenas nos Estados Unidos, mas em países como Japão, França, Holanda, URSS, Índia, Alemanha e Canadá. De fato, das 23 pessoas citadas no livro, 12 eram norte-americanos. Ainda assim, só havia uma mulher, Margaret Mead.

Em 1989, Hugues de Jouvenel, head de futuros da Association Internationale Futuribles, em Paris, conduziu uma pesquisa com oito pessoas que ele descreveu como “futuristas notáveis”, pedindo-lhes que identificassem os principais estudos de futuros globais publicados a partir de 1980. No rol, apenas uma mulher, Eleonora Masini.

Mas vamos voltar um pouco mais no tempo. Em 1909, Filippo Tommaso Marinetti fundava o Futurismo, movimento artístico que buscava romper com as tradições do passado, numa verdadeira adoração ao futuro. No “Manifesto Futurista”, Marinetti elogiava a modernidade, celebrava a guerra e professava o desprezo pelas mulheres.

Rosa Rosà fazia parte do pequeno grupo de mulheres que contribuiu para esse movimento. Ela tentou firmar uma agenda feminista dentro do que foi, sem dúvida, a ideologia mais patriarcal do século 20. Os desenhos de Rosà celebravam a modernidade, o cosmopolitismo e, principalmente, as mulheres. Futurismo e modernidade, nesse sentido, foram além do tecnológico para noções ideológicas de igualdade. Em 1912, Valentine de Saint-Point deu uma resposta ao manifesto misógino de Marinetti, escrevendo o “Manifesto das Mulheres Futuristas”, pró-igualdade.

Nos anos que se seguiram, o Futurismo contou com um crescente número de mulheres que fizeram de suas próprias vidas pouco convencionais o modelo da mulher moderna: livre, ativa e capaz de participar sem complexos da sociedade futura.
Diante do domínio masculino em pensar futuros, o que podemos dizer da contribuição das mulheres? Embora em menor número, as futuristas mulheres são notáveis. Margaret Mead, Gro Harlem Brundtland, Eleonora Masini e Hazel Henderson estão entre as mais destacadas no mundo. Outras pioneiras são Barbara Marx Hubbard, Magda McHale e Renee-Marie Croose Parry.

Rosa Menasanch, Pepita Majoral, Conxita Bargalló e Antonia Guix estiveram entre os fundadores, em 1973, do Centre Català de Prospectiva. Eva Gabor, Mária Kalas Kőszegi, Erzsébet Gidai e Erzsébet Nováky desempenharam papéis cruciais na pesquisa de futuros na Hungria na década de 1970, assim como Ana Maria Sandi e Viorica Ramba Varga, na Romênia; Danuta Markowska, na Polônia; Radmila Nakarada, na Iugoslávia; Anna Coen, na Itália; Erika Landau e Rachel Dror, em Israel, e, mais tarde, Margarita Kaisheva, na Bulgária, e Rosa Alegria, no Brasil.

Na vanguarda dos primeiros trabalhos de futuros estão Donella Meadows (responsável pela impactante publicação Os limites do crescimento, nos anos 1970) e Edith Weiner (uma das responsáveis pela invenção do “environmental scanning”, um dos métodos mais úteis na pesquisa de futuros). Hoje temos muitas mais.

## Visões de futuro das mulheres
E quais são as visões das mulheres para o futuro? Em Women’s Visions of the Future, Elise Boulding diz: “As visões das mulheres têm um caráter fortemente comensalista. A metáfora da família humana vem naturalmente para elas, e frequentemente se valem dela ao imaginar uma sociedade futura mais pacífica, justa e humana do que a atual. Além disso, como as mulheres estão acostumadas a atuar em espaços privados da sociedade, embora suas responsabilidades sejam públicas no sentido mais amplo da palavra, elas são muito engenhosas em visualizar mudanças que podem ser feitas ‘dentro’ das fendas das microestruturas da sociedade”.

Segundo Boulding, as mulheres conseguem imaginar mais facilmente uma sociedade plural “com oportunidades de vida e de participação iguais para cada mulher, homem e criança, e inúmeras redes entrelaçadas de pessoas compartilhando interesses comuns como indivíduos preocupados com o bem-estar público”.
E o feminismo? Embora a maioria das feministas não se identifique ativamente com estudos de futuros, há uma visão implícita do futuro nas declarações feministas. E, é claro, há muitas abordagens ao feminismo e, portanto, muitas visões feministas do futuro. “O futuro não é feminino, mas o feminismo, um feminismo que busca transformar o socialismo e acabar com o poder dos homens sobre as mulheres, tem um papel crucial a desempenhar em sua construção”, diz Lynne Segal, no capítulo final de seu livro Is the Future Female?

## Visões mais realistas do mundo
Hoje, os mais celebrados futuristas são homens: Aubrey de Grey, Elon Musk, Sergey Brin e Ray Kurzweil. Mesmo que não se identifiquem assim, são eles que estão conduzindo as conversas sobre futuros – muitas vezes em grandes palcos (antes da Covid-19), apoiados por empresas.

Isso significa que mídia, líderes, gestores e pessoas interessadas no tema acabam se voltando a esses nomes para entender o que pode acontecer e, em última análise, se tudo vai ficar bem. A questão é: futuros imaginados dependem em grande parte da pessoa ou das pessoas que estão os imaginando.

Quando o campo de estudos de futuro começou, nos anos 1960, precisou demonstrar que era científico para ser levado a sério, e foi codificado como masculino. Questões tidas como “mais brandas”, como mudanças sociais, estruturas familiares e impactos culturais, foram deixadas de lado em favor da modelagem matemática e da tecnologia.

Madeline Ashby, futurista que trabalhou para organizações como Intel Labs, Institute for the Future e SciFutures, acredita que grande parte do desequilíbrio de gênero tem a ver com o otimismo. Para ela, os homens brancos conseguem oferecer uma visão mais otimista do futuro. Eles podem dizer que o mundo ficará bem, que a tecnologia resolverá todos os nossos problemas, que viveremos para sempre. Mark Stevenson, por exemplo, é autor do livro An Optimist’s Tour of the Future.

Ashby diz que sempre que ela passa uma visão sombria do futuro, alguém (quase sempre um homem) pergunta por que ela não é mais positiva. E ela argumenta: “porque quando você fala sobre o futuro, você não recebe ameaças de estupro. Por muito tempo, o futuro pertenceu a pessoas que não tiveram que lutar. Mas, à medida que mais e mais sistemas entram em colapso, o futuro pertencerá cada vez mais àqueles que sabem lutar, e essas pessoas não são as que estão criando esses futuros otimistas”.

Da mesma forma que a diversidade impulsiona a inovação e o crescimento, quando apenas um grupo homogêneo de pessoas está empenhado em especular o futuro perde-se toda uma estrutura que poderia identificar melhor os problemas e ampliar a proposição de soluções.

Vamos considerar a longevidade. A ideia de que podemos prolongar ao máximo a expectativa de vida é defendida por Aubrey de Grey. Mas esse é um futuro desejável apenas se você estiver em uma posição tão privilegiada quanto a dele. Viver mil anos só funciona se você for rico. Outro exemplo são as viagens no tempo – para grupos marginalizados, voltar ao passado pode significar abrir mão de direitos já conquistados. O livro Kindred, da escritora negra Octavia Butler, por exemplo, mostra uma mulher negra atual voltando no tempo para a época da escravidão no Sul dos Estados Unidos. É uma história de terror.

Talvez seja por isso que os futuristas muitas vezes não falam sobre certas questões e problemas que muitas pessoas enfrentam todos os dias – assédio, creche, equilíbrio entre vida profissional e pessoal, direito à água, imigração, brutalidade policial. “Quando você perde vozes femininas, perde as questões com que elas têm de lidar”, diz Ashby.

Monica Byrne, autora de ficção científica, diz que, quando pensa no termo “futurista”, lembra de luta pelo poder. “O que vejo é uma aposta pelo controle sobre como será o futuro. E é um futuro que, para mim, não parece muito diferente das capas de ficção científica de Isaac Asimov. Não é um futuro no qual estou interessada. Quando penso no tipo de futuro que quero construir, é muito suave e humano. Como a tecnologia nos permite continuar amando uns aos outros?”, ela ri.

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