Gestão de Pessoas

Mas tem o outro lado, viu?

Empresas começam a dar os primeiros passos rumo a marcas empregadoras que reconhecem luz e sombra
Atua como consultora em projetos de comunicação, employer branding e gestão da mudança pela Smart Comms, empresa que fundou em 2016. Pós-graduada em marketing (FGV), graduada em comunicação (Cásper Líbero) e mestranda em psicologia organizacional (University of London), atuou por 13 anos nas áreas de comunicação e marca em empresas como Johnson&Johnson, Unilever, Touch Branding e Votorantim Cimentos. É professora do curso livre de employer branding da Faculdade Cásper Líbero, um dos primeiros do Brasil, autora de artigos sobre o tema em publicações brasileiras e internacionais e co-autora do livro Employer Branding: conceitos, modelos e prática.

Compartilhar:

Dia desses, o iFood divulgou nas redes o seu “[deck de cultura](https://empresas.ifood.com.br/cultura-do-ifood)”, uma apresentação bem detalhada (são 48 páginas!) sobre a cultura da empresa, compartilhada com o intuito de ajudar talentos a entenderem se dão ou não dão match com a empresa.

Ainda não tinha visto um material assim no mercado brasileiro – pelo menos não nesse nível de detalhe – e escrevo sobre ele para destacar um ponto em especial: o conteúdo sobre “o outro lado da moeda” de se trabalhar ali.

## De onde saiu essa história de “deck de cultura”?

O “deck de cultura” que deu origem a todos os outros foi o da Netflix*, lançado em [2009](https://www.slideshare.net/reed2001/culture-2009) e atualizado algumas vezes depois (hoje ele é uma [página](https://jobs.netflix.com/culture) dentro do site de carreiras da empresa).

Escrito em 2009 pelos executivos da organização como um direcionador para a estratégia de gestão de talentos, o documento viralizou. Na época, duas coisas chamaram a atenção em especial:

– O fato de a empresa disponibilizar, de forma pública, um documento até então considerado estritamente interno pelas empresas;
– O próprio conteúdo, que detalha como a famosa cultura de “liberdade e responsabilidade” é vivida na empresa e, mais importante: o que isso significa em termos de ganhos e demandas (o famosos give-get) para quem está lá.

Uma das partes do documento da Netflix que mais chama a atenção – e que permanece ali desde 2009 – é a diferenciação entre time e família como base para a cultura de alto desempenho da empresa e suas consequências quanto ao que se exige das pessoas. Está escrito claramente que performance adequada não é suficiente para prosperar; a expectativa é por performance excepcional e quem tem performance adequada recebe pacotes de demissão generosos no momento da saída. E eis que entra a explicação sobre time e família (reproduzo como está no material deles):

> “Uma família é sobre amor incondicional, mesmo diante de, por exemplo, mau comportamento. Um time dos sonhos é sobre se esforçar para ser o melhor membro do time que você pode ser, importando-se intensamente com seus companheiros de equipe e ciente de que talvez você não fique no time para sempre”.

E vale para empresa e empregado:

> “Pessoas com histórico de desempenho excepcional não são punidas se a performance cai temporariamente, da mesma forma que pedimos que as pessoas fiquem na Netflix em momentos ruins. Mas lealdade incondicional a uma empresa estagnada ou a um empregado com performance simplesmente adequada não é nosso jeito de ser”.

Gostemos ou não, o jogo é claro – e o fato de todo o material da página tornar perfeitamente possíveis as reações de gostar ou não gostar é indício de uma marca empregadora bem resolvida e estruturada sobre uma cultura igualmente bem resolvida (não pronta, afinal, até essa marca empregadora icônica tem seus desafios).

## O tal “outro lado”: todo mundo esconde, todo mundo sabe que existe

Em entrevista ao autor James Ellis no livro *Talent Chooses You*, Chalru Malhotra, que liderou employer branding em empresas como Ferrero e McKinsey, conta que, entre suas muitas experiências com marcas empregadoras, uma das coisas que mais deu certo e surpreendeu foi criar uma série de conteúdos com empregados reais contando sobre suas atividades, respondendo também sobre o lado ruim dos seus empregos e porque, ainda assim, gostavam do que faziam.

Bem no tom de “a vida como ela é”, Malhotra reconhece que foi um grande risco e que demorou seis meses para conseguir aprovação para essa ação, pois a liderança tinha medo de que os candidatos seriam repelidos pelas mensagens. No fim, esses vídeos acabaram sendo usados amplamente, inclusive em feiras de recrutamento.

Algumas poucas empresas começam a navegar esse terreno do “outro lado da moeda” de forma intencional, como o próprio iFood no deck de cultura: cada um dos quatro pilares de cultura é descrito a partir dos seus aspectos de luz – o lado bom – e de sombra – o lado desconfortável, chato e exigente. Além da transparência, que é louvável, falar sobre as sombras de forma clara é colocar na mesa, logo de início, aquilo que normalmente é decisivo para uma pessoa dar certo e ser feliz numa organização: ser capaz de lidar com a parte ruim que, inevitavelmente, vem junto com a parte boa.

Outras empresas fazem isso sem querer, como nas situações em que um empregado sem papas na língua fala sobre os dois lados da moeda. Às vezes, dá muito certo. Um exemplo? [Este vídeo do influenciador Phellyx](https://www.youtube.com/watch?v=BKaGzPbGkk0) sobre sua experiência como atendente do McDonald’s viralizou em 2017 e hoje já tem mais de 1 milhão de visualizações. Em “Fatos de um funcionário do McDonald’s”, ele faz o que todo vídeo de marca empregadora deveria: entreter, informar e ser verdadeiro. Ao mesmo tempo em que fala do lado perrengue do trabalho, reforça atributos necessários para quem dá certo na função, enaltece o emprego como uma oportunidade quando ele mais precisou.

Já usei este espaço para falar de [marca empregadora para adultos](https://www.revistahsm.com.br/post/employer-branding-para-adultos). Se estamos entre adultos, todos sabemos que tudo que parece bom demais para ser verdade geralmente é exatamente bom demais para ser verdade. Quando perguntam sobre o que eu espero para o futuro do employer branding, gosto de colocar como um ponto central justamente a clareza de que estamos entre adultos.

*Gostou do artigo da Bruna Gomes Mascarenhas? Confira conteúdos semelhantes [assinando nossas newsletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que sustenta uma indústria ao longo do tempo

Em um setor marcado por desafios constantes, este artigo revela por que a verdadeira vantagem competitiva está na capacidade de evoluir com consistência, fortalecer relações e entregar valor sustentável no longo prazo.

Conselhos homogêneos falham em silêncio

Em um mundo de incerteza crescente, manter conselhos homogêneos deixou de ser conforto – passou a ser risco. Este artigo deixa claro que atingir massa crítica de diversidade não é agenda social, é condição para decisões mais robustas e resultados superiores no longo prazo.

A maleabilidade mental como nova vantagem competitiva

Neste artigo, a capacidade de discordar surge como um ativo estratégico: ao ativar a neuroplasticidade, líderes e organizações deixam de apenas reagir ao novo e passam a construir transformação real, sustentada por pensamento crítico, consistência e integridade cognitiva.

Gestão empresarial entra em uma nova era com Reforma Tributária e IA

Ao colocar lado a lado a Reforma Tributária e o avanço da inteligência artificial, este artigo mostra por que a gestão empresarial no Brasil entrou em um novo patamar – no qual decisões em tempo real, dados integrados e precisão operacional deixam de ser vantagem e passam a ser condição de sobrevivência.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela como contratações executivas mal calibradas - ou decisões adiadas - geram custos invisíveis que travam crescimento, atrasam decisões e comprometem resultados no longo prazo.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
9 de maio de 2026 15H00
Em um setor marcado por desafios constantes, este artigo revela por que a verdadeira vantagem competitiva está na capacidade de evoluir com consistência, fortalecer relações e entregar valor sustentável no longo prazo.

Rodrigo M. Bortolini - Diretor-presidente da Selgron

5 minutos min de leitura
ESG, Liderança
9 de maio de 2026 09H00
Em um mundo de incerteza crescente, manter conselhos homogêneos deixou de ser conforto - passou a ser risco. Este artigo deixa claro que atingir massa crítica de diversidade não é agenda social, é condição para decisões mais robustas e resultados superiores no longo prazo.

Anna Guimarães - Presidente do Conselho Consultivo do 30% Club Brasil, conselheira e ex-CEO.

5 minutos min de leitura
Lifelong learning
8 de maio de 2026 08H00
Neste artigo, a capacidade de discordar surge como um ativo estratégico: ao ativar a neuroplasticidade, líderes e organizações deixam de apenas reagir ao novo e passam a construir transformação real, sustentada por pensamento crítico, consistência e integridade cognitiva.

Andre Cruz - Founder da Neura.cx

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
8 de maio de 2026 07H00
Ao colocar lado a lado a Reforma Tributária e o avanço da inteligência artificial, este artigo mostra por que a gestão empresarial no Brasil entrou em um novo patamar - no qual decisões em tempo real, dados integrados e precisão operacional deixam de ser vantagem e passam a ser condição de sobrevivência.

Odair Benke - Gestor de operações com o mercado na WK.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de maio de 2026 15H00
Este artigo mostra por que a inteligência artificial está deslocando o foco da gestão do tempo para o desenho inteligente do trabalho - e como simplificar processos, em vez de acelerá‑los, se tornou a nova vantagem competitiva.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de maio de 2026 08H00
Em vez de acelerar a inovação, o excesso de opções em inteligência artificial está paralisando líderes. Este artigo mostra por que a indecisão virou risco estratégico - e apresenta um caminho prático para escolher, implementar e capturar valor antes que seja tarde.

Osvaldo Aranha - Empresário, palestrante e mentor em Inteligência Artificial, Inovação e Futuro do Trabalho

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
6 de maio de 2026 15H00
Depois de organizar clientes, operações e dados, falta às empresas organizar a si mesmas. Este artigo apresenta o One Corporate Center como a próxima fronteira competitiva.

Edson Alves - CEO da Ikatec

3 minutos min de leitura
Liderança
6 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra que quando cinco gerações convivem nas empresas e nas famílias, a liderança deixa de ser apenas um papel corporativo e passa a exigir coerência, empatia e presença em todos os espaços da vida.

Ale Carreiro - Empresário, Fundador e Diretor Comercial da EBEC - Empresa Brasileira de Educação Corporativa

13 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de maio de 2026 14H00
Com crescimento acelerado na contratação internacional e um fluxo cada vez mais bidirecional de talentos, o Brasil deixa de ser apenas exportador de profissionais e passa a se consolidar como um hub global de inteligência artificial - conectado às principais redes de inovação do mundo.

Michelle Cascardo - Gerente de vendas para América Latina da Deel

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão