Uncategorized

Melhore processos brincando com LEGO

Conheça a metodologia LSP, que pode aumentar o engajamento e a busca de soluções fora da caixa pelas empresas
fundador da Think Market e facilitador certificado do Lego Serious Play no Brasil.

Compartilhar:

Cada vez mais empresas estão experimentando a metodologia Lego Serious Play (LSP) em todo o mundo. Organizações como Coca-Cola, Harvard University e a agência espacial norte-americana, Nasa, já utilizam a ferramenta para resolver seus problemas de maneiras inovadoras e criativas, levando seus colaboradores a pensar fora da caixa – é uma alternativa lúdica ao design thinking e às metodologias ágeis. O Brasil tem poucos facilitadores de LSP certificados, mas também está começando a descobri-lo. 

Para entender o LSP, no entanto, é preciso entender antes o que é, realmente, pensar fora da caixa. Nós pensamos dentro da caixa? Sim, na medida em que pensamos de modo linear, partindo do princípio de que toda ação gera uma reação. Nossa educação básica nos preparou para atuar nas grandes fábricas de produção em massa, onde cada pessoa trabalha em uma etapa do processo de fabricação, sem ter uma visão do todo – e, muitas vezes, sem nem saber qual é o produto que surge no final da linha de montagem. 

No sistema de educação dominante, os alunos sentam- -se em cadeiras e mesas enfileiradas, cumprem horários rigorosos e não são estimulados a ser curiosos sobre os temas expostos – em uma clara alusão e simulação das rotinas enfrentadas nas fábricas. O pensamento cartesiano é apresentado como a única e mais importante forma de pensar e de resolver problemas. 

Acontece que o ambiente estável da produção em massa tem ficado para trás. A concorrência é mundial e o cliente é quem dita as regras. A internet permite que uma pessoa no Brasil compre um produto na Europa ou na Ásia e receba esse produto rapidamente, com preço competitivo e, melhor de tudo, exatamente como ele queria. A decisão da compra leva em consideração também fatores como sustentabilidade e ações sociais. 

Nesse novo contexto, pensar fora da caixa (e não como reação a uma ação) tornou-se algo de fato necessário e, por isso, as organizações começam a rever seus horários, planos de carreira e até a política de remuneração. Empresas de tecnologia e startups já mudaram: têm ambientes descontraídos e incentivam seus colaboradores a levar seus pets, fi lhos e pertences pessoais para o escritório. Fazem de tudo para que eles não sintam o peso de uma rotina monótona e chata, que facilmente pode podar a criatividade. 

Também surgem, nesse novo contexto, instituições de ensino que alteram os padrões vigentes. Essas escolas acreditam que mais importante do que o aluno receber um diploma é ele acumular conhecimento de verdade e desenvolver espírito crítico sobre os mais diversos temas. Exemplos dessas instituições são a Singularity University, nos Estados Unidos [no Brasil, abre em 2018], e a Echos e a Perestroika, aqui. 

No novo ambiente, mudam as metodologias de aprendizado e de solução de problemas. Uma das mais utilizadas é o design thinking, que preconiza que, após um período dedicado ao reconhecimento do problema, deve-se já pensar em possíveis soluções e criar protótipos para testá-las. Esses protótipos têm de ser rápidos, feios, até sujos e baratos, para que rapidamente se busquem os possíveis ajustes, em um processo de iteração. 

Outras metodologias bastante usadas são as ágeis. Elas trazem uma nova visão para o gerenciamento de projetos, fazendo com que o tempo de desenvolvimento de um produto, serviço e/ou a solução de problemas e sua entrega ao cliente/consumidor seja cada vez menor. Os ciclos de planejamento, execução e testes encurtam, com entregas constantes aos clientes, para que estes experimentem as soluções e forneçam feedbacks. 

A mais lúdica das metodologias de aprendizado e solução de problemas, no entanto, é o Lego Serious Play. Ele surgiu nos anos 1990 em um momento crítico da empresa dinamarquesa Lego – a fabricante dos famosos blocos de montar passava por um período de declínio de vendas devido ao surgimento dos jogos eletrônicos. Depois de tentar soluções tradicionais, inclusive trabalhando com consultorias renomadas, o então presidente da Lego decidiu criar uma solução dentro de casa: agrupou alguns profissionais de educação e criatividade e lhes encomendou o desenvolvimento de uma nova metodologia para resolver problemas. 

**O LEGO SERIOUS PLAY FOI DESENVOLVIDO PELA LEGO NOS ANOS 1990, PARA CONSEGUIR RESOLVER SUA QUEDA DE VENDAS**

Estava nascendo o Lego Serious Play. Seu primeiro diferencial diz respeito ao engajamento. Durante suas pesquisas, o grupo percebeu que as reuniões da empresa eram improdutivas porque, entre dez pessoas participantes, apenas duas estavam realmente engajadas no assunto. As demais não se sentiam parte do processo. Consequentemente, as ações combinadas não eram cumpridas. Essas reuniões foram chamadas de 20/80, demonstrando que 80% dos participantes não estavam de fato presentes na discussão. 

O LSP aumenta o engajamento nas reuniões, fazendo com que cada participante conte sua história. A técnica, conhecida como storytelling, remonta à pré- -história, já que desde o início da humanidade o ser humano desenvolveu o hábito de contar histórias. 

O grupo também descobriu uma forte ligação entre as mãos e o cérebro, o que facilita a memorização daquilo que é tocado. Assim, os participantes das reuniões de solução de problemas foram convidados a montar cenários e ideias com blocos e ferramentas Lego para poder tocá- -los com as mãos. O processo está muito alinhado com alguns princípios da andragogia, a ciência que orienta o adulto a aprender. Ela ensina que o adulto aprende fazendo e que precisa entender o que ganha ao aprender, e o protótipo com blocos Lego permite as duas coisas. A metodologia ainda serve de pretexto para a maior interação entre as pessoas, e os feedbacks geram melhorias. 

Para que o uso do LSP seja completo, os participantes devem se sentir brincando. Trabalhar de modo lúdico oxigena o cérebro e não só ajuda a gerar soluções criativas e únicas, como também envolve as pessoas muito mais profundamente no processo – elas se percebem corresponsáveis pelas decisões. 

Há vários usos para o LSP no ambiente corporativo: 

**Relacionamento com o cliente.** É possível simular a experiência do cliente, partindo do ponto de vista dele em relação à empresa e, assim, transformando o que é suposição em algo concreto por meio da observação de seu comportamento. 

**Construção de mercado.** Pode-se analisar como um mercado se desenvolve em torno de um protótipo. É quase como um teste de mercado antes do teste de mercado real, o que pode excluir diversas falhas de projeto antes mesmo da existência de um produto. A prototipagem começa com ideias compartilhadas. 

**Construção da cadeia de consumo.** Aqui se aplica o ponto de vista do cliente ao protótipo, mas se acrescentam a empresa e toda a cadeia de produção. Por exemplo, com o LSP, é possível enxergar o processo de venda inteiro, o que joga luz sobre os pontos sensíveis. 

**Análise de custos e benefícios.** Usando tudo o que foi observado, é possível mensurar custos e verificar se a ideia é válida em termos de benefícios. 

**Recursos humanos.** O objetivo máximo do LSP é a relação interpessoal dentro da organização. 

**Inovação.** É possível ter uma noção de como uma medida de inovação vai afetar a empresa ou mesmo onde ela se faz necessária. 

**Operação.** O LSP permite que se monte um layout industrial, de depósitos ou lojas, alterando-o até encontrar uma configuração otimizada.   

**CASO REAL**

Uma empresa de 18 funcionários que fabrica e distribui parafusos e arruelas precisava melhorar seu estoque. Nem fluxos de entrada e saída de material havia. Perdia-se muito tempo para separar os produtos e entregá-los aos clientes. 

O dono da companhia queria melhorar o desempenho dessa área, considerada essencial para seu negócio. A proposta foi aplicar os conceitos da manufatura lean, que visam eliminar desperdícios na operação. Uma das ferramentas utilizadas foi o 5S, que corresponde a cinco ações: seiri (organização), seiton (ordenação), seisoh (limpeza), seiketsu (higiene) e shitsuke (autodisciplina). 

Na fabricante de parafusos, os colaboradores entenderam que o primeiro S (seiri) se referia a identificar e separar todos os materiais pouco usados no estoque e destiná-los a descarte. Após o entendimento do primeiro S, entrou em ação o Lego Serious Play. Os colaboradores foram desafiados a reproduzir, com blocos Lego, as áreas em que trabalhavam, destacando pontos de desperdício. No final, falaram sobre os desperdícios explicitados e sobre a experiência como um todo. Primeira surpresa: alguns descobriram que causavam problemas a outros sem querer, pois não sabiam disso. 

Na segunda etapa do processo, os participantes tiveram de montar, também com blocos Lego, as soluções para os desperdícios ligados ao primeiro S e apontar seus benefícios. Nesse momento, a interação foi enorme. 

Os cincos conceitos lean apresentados seguiram a mesma sequência: primeiro apresentação, depois simulação/ prototipagem com os blocos Lego. Conforme o segundo S (seiton), a ordem dos materiais seria tal que os mais usados fi cassem facilmente ao alcance das pessoas, e os menos usados, mais distantes, para reduzir esforços de movimentação. Os demais S remeteram à necessidade de manter o ambiente e os materiais limpos e de disciplinadamente evitar sujá-los. Os modelos LSP resultantes foram fotografados, e as soluções, priorizadas de acordo com sua importância para o negócio e o investimento requerido. 

A filosofia lean teria funcionado sozinha para resolver o problema de estoque da empresa de parafusos? Talvez parcialmente. Com o LSP, o engajamento dos colaboradores foi significativo. A experiência mostra que as pessoas não adotam uma nova atitude se não forem estimuladas a pensar fora da caixa. As escolas nos prepararam muito bem, mas para um mundo que já não existe. Precisamos desaprender e reaprender, enxergando isso como uma “brincadeira séria”.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O sucesso de ontem pode ser o maior risco do seu negócio

Da Kodak aos desafios da economia digital, a história dos negócios mostra que organizações raramente fracassam por um único erro. Elas perdem relevância quando insistem em estratégias, processos e crenças que deixaram de responder às transformações do mercado.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de julho de 2026 08H00
Enquanto o sonho do hexa mobilizou milhões de brasileiros, outro fenômeno também ganhou força fora dos gramados. Este artigo discute como o avanço das apostas online está influenciando a relação dos jovens com dinheiro, educação e carreira, e por que empresas e líderes não podem ignorar seus efeitos sobre o futuro do trabalho.

Rodrigo Santos - Psicólogo e tutor educacional na Leapy

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
10 de julho de 2026 14h00
O futuro dos caminhões no Brasil será multienergético, e a engenharia nacional terá papel decisivo nessa transformação. Este artigo mostra por que a transição energética do transporte de cargas dependerá da combinação entre múltiplas fontes de energia, inovação tecnológica e soluções adaptadas à realidade do país.

Eduardo Oliveira - Diretor de Engenharia da IVECO para a América Latina

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Liderança
10 de julho de 2026 08H00
Da Kodak aos desafios da economia digital, a história dos negócios mostra que organizações raramente fracassam por um único erro. Elas perdem relevância quando insistem em estratégias, processos e crenças que deixaram de responder às transformações do mercado.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Inovação & estratégia, Liderança
9 de julho de 2026 15H00
O maior risco da sucessão não é a troca de comando. É deixar para depois. Este artigo mostra por que a continuidade dos negócios depende menos dos herdeiros e mais da preparação, da governança e da capacidade de construir o próximo ciclo de crescimento.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio da FC Partners

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
9 de julho de 2026 08H00
A inteligência artificial já consegue executar boa parte do trabalho operacional. O que ela ainda não faz é dar sentido, construir confiança e imaginar futuros. Este artigo mostra por que o verdadeiro gargalo das empresas deixou de ser tecnológico e passou a ser a forma como lideram, colaboram e tomam decisões.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de julho de 2026 15H00
A inteligência artificial deixou de ser um projeto da área de tecnologia e passou a fazer parte da rotina de todas as áreas da empresa. O problema é que, em muitos casos, sua adoção avança mais rápido do que os mecanismos de segurança, compliance e governança capazes de sustentá-la.

Rodrigo Hülsenbeck - CEO da Premiersoft

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
8 de julho de 2026 08H00
A maior vulnerabilidade da era da IA pode não estar nos profissionais juniores, mas nos cargos criados para coordenar fluxos e transmitir informações. O que acontece quando a tecnologia passa a fazer isso melhor, mais rápido e mais barato?

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

4 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
7 de julho de 2026 14H00
Entre Polônia e Brasil, teatro e negócios, cultura e estratégia, a autora propõe uma reflexão instigante sobre pertencimento, inteligência cultural e a capacidade, cada vez mais rara, de pensar com independência em um mundo saturado de narrativas.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

15 minutos min de leitura
Liderança
7 de julho de 2026 08H00
As mulheres brasileiras nunca estudaram tanto nem estiveram tão qualificadas para ocupar posições de decisão. Este artigo discute por que a desigualdade de representação persiste e como educação, networking e visibilidade continuam sendo fundamentais para transformar preparo em oportunidade.

Luiza Helena Trajano - Presidente do Conselho do Magazine Luiza e Presidente do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
6 de julho de 2026 16H00
Enquanto o networking superficial busca visibilidade, as conexões que realmente transformam carreiras nascem da credibilidade construída em projetos, desafios e relações pautadas pela confiança.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo