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Muito além do “pretinho básico”

O novo normal, uma chance de nos reinventarmos em coletivo ou um novo labirinto social?
Empreendedor Social reconhecido como da Ashoka na categoria Tecnologia e Humanidades. Co-fundador e Head de Futuros Inclusivos do FA.VELA, plataforma de inovação social no campo de pesquisa e design de projetos nas áreas de educação, transformação digital inclusiva, impacto social, diversidade e futuros.

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Nos últimos meses… Nossa! Falando assim assusta, nem parece que foi quase ontem que decidimos adotar o home office, correr para o supermercado para abastecer nossas geladeiras, criar um novo nicho de mercado de máscaras e “álcoois gels” (vocês já viram aquele com cheiro de alecrim? Bom demais, viu. Recomendo porque acalma e higieniza).  Enfim, este breve resumo do como viramos “quarenteners” é semelhante entre muitos; mas será para todos? 

No dia 26 de fevereiro de 2020, o Brasil redescobriu as desigualdades, esquecidas, empurradas para baixo do tapete da normalização… Normalização! E esse tal de novo normal, hein, gente?

Como uma roupa nova, um sapato novo ou um novo hobby que é normal, o que é normal ou normalizado? Porque se existe um novo normal, teoricamente existiu um bom e velho normal, um status quo que foi estremecido por uma gripezinha, um vírus, uma pandemia de tudo e um _lockdown_. A quem serve o novo normal?

Voltando aos “últimos meses” venho observando, lendo, ouvindo e refletindo muito sobre o tal “novo normal”. Vocês também?

A reflexão que tenho feito é sobre como criamos o normal, por meio do processo de “normalização”, baseado em um padrão de conforto e status quo. Tipo os físicos com seu Bóson de Higgs, somos nós com o tal “normal”. Desde que o mundo é mundo, e nos reconhecemos como seres pensantes, o ser humano, individual e coletivamente, vem buscando padrões, parâmetros e zonas de conforto para relativizar, aceitar ou construir narrativas.

Uma das coisas que bateu forte pra mim na pesquisa e nas reflexões sobre a questão da normalidade foi a perspectiva da normalização. Normalizar é um ato humano; eu, você, a moça da padaria e até o gari que carrega o lixo fedorento que geramos todo dia, normalizamos elementos do cotidiano e suas rotinas. 

_Mas para quem era este velho normal? O que comiam? Como viviam? E por que querem um novo normal?_

### Qual a cor deste novo normal?

Eu estava terminando de escrever este texto quando estouraram as manifestações nos EUA referentes ao agravamento da violência contra pessoas negras e as últimas mortes. Foi impossível não me deixar levar pelo momento e trazer um olhar racial sobre o “antigo normal”, “novo normal” e a normalização da precarização de vidas negras.

Muitas telas pretas… Muitas marcas e empresas “blackfriendly”… Uma supervalorização das amizades negras nos círculos brancos… Marcações em postagens… Visibilidade instantânea para tudo que já fazemos há uma vida… E claro, um contínuo amontoar de corpos negros aqui, sim, aqui mesmo no Brasil! E tudo isso enquanto olhávamos atentamente o cenário norte-americano.

Mas e aí? O cenário do Covid-19 escancarou para nós um grande abismo da exclusão e desigualdades, e muitos deles vinculados ao consumo, que por conseguinte é um pilar de inclusão social e econômica. E claro, deu cor a tudo isso, mostrando o quanto o racismo crônico perdura no Brasil em dados. 

Isso nos remete ao “tempo” versus “ações”; não no espectro do marketing institucional, mas ações efetivas de combate ao racismo estrutural, que vai das equipes internas e ao longo de toda a cadeia dos produtos e serviços ofertados por uma organização. Para não cair no _“Black Washing”_, das telas pretas, das lives patrocinadas e do #VidasNegrasImportam!

**Vidas negras sempre importaram, gente!** Para quem, isso é outra história.

Eu acredito que o processo, antes de ser para fora, deve começar internamente. Lembro de uma época em que todo mundo falava do “teste do pescoço”, no olhar ao entorno e ver quantas pessoas negras estão servindo ou sendo servidas. Lembro mais recentemente ainda, do viral “jogo do privilégio” que muitas empresas fizeram pela demanda do mercado de se posicionarem. Mas o que ficou de tudo isso? Quais mudanças realmente estruturais foram conquistadas? Por isso cabe aos gestores, lideranças e pessoas brancas em geral, que ocupam cargos de poder e privilégio combater o racismo nos seus micro universos. Assim acredito numa mudança cultural, construída a muitas mãos e não com caráter de campanha.

A pauta da diversidade teve seu momento pandêmico também dentro das empresas e organizações, ela fez seus caminhos se adaptando para caber ou se aceitar. Estranho, né? Estamos falando de diversidade, que vem de diverso e em que cabe tudo e todos. Ou seja, diversidade é liberdade e aceitação em sua plenitude.

**_“João, então como faz? Não posso colocar minha telinha preta, minha bandeira do arco-íris e ser empático?”_**

Calma, gente, nós pessoas negras e LGBT não vamos conseguir sem vocês não! Principalmente nas perspectivas de vocês cederem vez, espaços e privilégios. E hoje temos caminhos de construir isso juntos. Existem hoje (ainda bem) diversas consultorias especializadas na temática de diversidade e inclusão. Muitas delas – como é o caso da Futuros Inclusivos do FA.VELA – nas quais na equipe há  a diversidade impressa pela presença de pessoas negras, LGBTQ+, mulheres e outros grupos. Equipes assim permitem abordagens sistêmicas dentro das empresas e organizações, com olhares cuidadosos e técnicos sobre pessoas, processos e impacto positivo.

**Voltando ao Novo Normal, vestidos do “pretinho básico” …**

Por que então a gente quer tanto um normal? Ou normalizar pessoas, grupos e realidades e a morte violenta ou social de alguns grupos só para ficar tudo “cool”?

Sabe aquela pandemia que falei lá em cima? Ela foi o iceberg do nosso Titanic da normalidade, das nossas vidas com rotinas, sucessos, conquistas, boletos pagos e, claro, geladeira cheia, né, gente? Mas ela também escancarou um Brasil de desigualdades analógicas e abismais, até então desconhecido por uma grande parcela dos brasileiros. 

Imagine estarmos em uma mesa discutindo as perspectivas de data driven para inovação, criação de negócios, tomada de decisões e por aí vai, e descobrir que não podemos confiar nos dados?

Se fizermos um resgate histórico sobre como as vidas negras chegaram, sobreviveram e sobrevivem até hoje no Brasil não fica fácil, mas ajuda a entender onde estamos hoje. 

Vamos fazer um exercício sobre a escalada da precarização que se deu num processo abolicionista que não contemplou direitos, acessos e garantias na perspectiva mais simples de cidadania, até constitucional. Direito de ir e vir, propriedade privada, empreender e por aí vai… 

Ah, o “empreender”! No olhar sobre vidas negras na relação raça e dinheiro é que o fenômeno da precarização das vidas negras se torna mais evidente, contundente, recorrente… E mais um tanto de palavra que reforça que:

**“Preto e dinheiro são palavras rivais”**, como canta Mano Brown em sua Vida Loka Part II. 

Bom, pelo menos no que se trata de ganhar dinheiro, porque consumidor negro todo mundo quer. Mas na hora de ganhar, essa maioria dos indivíduos, em grande parte mulheres negras, estão hoje contempladas pelo conceito do nanoempreendedorismo – que é basicamente e resumidamente, caracterizado pela escala, seja ela produtiva ou renda que geram. Essa reflexão é importante, pois nela existem fatores históricos que nos remetem a direitos negados e à não garantia também da conquista deles que está hoje no presente. Uma mulher que produz 20-30 refeições por dia, com processos precários e/ou adaptados para garantir a subsistência de um lar, não pode ser chamada de microempreendedora para compor uma demanda de dados, e a não projeção do real desenvolvimento dela.

Analisando friamente este cenário em que estamos vivendo – aqui falando do combo Covid-19 + desigualdades + ausência de políticas públicas etc –, a perplexidade nos toma e paralisa num loop infinito de um resgate perverso e histórico do racismo estrutural no Brasil. Podemos pegar como exemplo o fenômeno da “pandemia de cestas básicas”: toneladas e mais toneladas de alimentos foram mobilizadas num período recorde, seja por doações diretas de empresas, lives de celebridades da música, campanhas de crowdfunding. Sandy & Junior, amo vocês! (é real)

**Mas onde estava toda essa comida** quando o Diretor do Programa Mundial de Alimentos da ONU (WPF) mostrou, em entrevista, dados alarmantes de como estamos caminhando para voltar para o Mapa da Fome? Segundo os dados do último relatório, mais de 5 milhões de pessoas podem voltar (ou continuar) na extrema pobreza com os impactos sociais e econômicos da pandemia. Até o final do ano a estimativa, segundo o estudo, é que quase 15 milhões estejam sob estes impactos.

A história da população negra no Brasil é marcada por muita resistência, necessária ontem, hoje e no “novo normal”. Mas que se torna uma forma de vulnerabilidade também, quando se olha o contexto das favelas e periferias frente à Covid-19, onde a vida segue normal (ou normalizada). Comércios abertos, pracinhas, portas de casa ocupadas por crianças brincando e nossos mais velhos “quentando sol”.

Só para lembrar, na região Sudeste mais de 70% dos moradores de vilas, favelas e aglomerados são pessoas negras. 

**Uma pandemia com cor e CEP definidos.** Podemos estar sim todos num mesmo barco, mas como no Titanic, em classes diferentes. Até arrepiei aqui lembrando do filme com os pobres morrendo afogados no porão do navio.

Em resumo: fome, miséria, falta do acesso a crédito, ausência de políticas públicas, saúde e educação precária, marginalização, genocídio e desigualdades têm cor no Brasil. E todos estes elementos caracterizam a Normalização da Precarização de Vidas Negras.

Sou muito fã de história, principalmente antiga. Um conto mitológico (ou não) da antiga Grécia é um dos meus favoritos! 

Ele traz a história de uma fera chamada Minotauro (ou Touro de Minos), metade homem, metade touro, que habita um labirinto e os que se perdem por lá são devorados por ele. Essa fome por devorar homens, nos lembra tanto um vírus, um racismo estrutural ou uma pandemia de desigualdades, não é mesmo? 

Talvez não tão antigo quanto a própria fera, mas já rondando o nosso labirinto social, talvez transvestido em “novo normal”. Alguns historiadores falam que a ilha de Minos só aparecia de tempos em tempos, outros dizem que era imaginária, uma ilusão.

O que conforta da “lenda” do Minotauro é que ele foi morto pelo herói ateniense Teseu.

Onde estará o nosso “Novo Normal”? E será ele Teseu ou um “Novo Minotauro”? Não sei, mas tô com vocês no caminho de descobrir. 

Uma dica? Não usem seu pretinho básico por impulso.

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