Uncategorized

Negros, empoderamento e o mercado de trabalho

Ainda que o título seja sugestivo, preciso começar com um alerta. O tema e o texto não devem interessar apenas ao negro e, inclusive, não se resumem ao negro, mas a todo o cidadão brasileiro, pois todos nós somos, direta ou indiretamente, afetados pelos mecanismos de reprodução do racismo.
Sócio de Vicente & Vicente Advogados; Mestre e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC-SP e Coordenador da Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial.

Compartilhar:

Sim, é uma constatação difícil de absorver, mas você é afetado pelo racismo! Querendo ou não. Mas essa conversa é para um outro dia. 

Você teria uma boa resposta a seguinte pergunta: Como o término da escravidão e os índices atuais de negros em cargo de chefia no mercado de trabalho se relacionam? Uma possível resposta seria que: com o término da escravidão os negros não tiveram acesso ao mercado de trabalho.

Essa resposta é simples, não está errada, mas não nos ajuda muito. E por quê? Por um lado, os negros não tiveram acesso ao mercado de trabalho, mas, por outro, também não tiveram acesso à educação. Então, qual das conclusões estariam corretas? A falta de acesso ao mercado de trabalho ou a educação seria o principal motivo a justificar a baixa representatividade de negros nos cargos de liderança no mercado de trabalho?

Há também outras questões que surgem imediatamente: existia um sistema de ensino que atende a todos, como temos hoje? Como era o mercado de trabalho? Lembrem-se, a abolição da escravatura ocorreu formalmente em 1888, mas seus contornos começam em 1850. 

A ideia dessa conversa realmente não é trazer todas as respostas, mas as perguntas que em regra não nos ocorrem. Não é possível entender claramente a questão racial no Brasil e seus efeitos no mercado de trabalho sem minimamente atentar-se ao seu contexto histórico.

Empoderar-se, palavra largamente utilizada, refere-se a adquirir poder ou mais poder. No caso, libertar-se da narrativa que nos foi imposta, das condições que moldam, constituem e aprisionam o indivíduo, no caso, o indivíduo negro. 

Pausa, nesse ponto a questão ficou intrincada, complexa e até um tanto subjetiva. Acontece quem em regra, em toda nossa vida de estudante, ensino fundamental, médio, etc, nunca nos foram apresentados os complexos sistemas que envolvem o ser humano e o seu comportamento. 

Por exemplo, toda a ideologia racial, ao menos quanto ao negro no Brasil, está baseada em cinco fatores essenciais: cor da pele, formato da boca, nariz, olhos e cabelo. Nada mais. Toda a tragédia humana que decorreu a partir daí, sustentou-se e sustenta-se até hoje, através destes elementos de distinção que determinam a percepção do outro em relação ao negro.

Está amplamente difundido e arraigado no imaginário do brasileiro, negro e não-negro, que o negro é o pobre, o bandido, o preguiçoso, malcheiroso, inapto para cargos de liderança, chefia, direção, entre outros. 

Continuando, em 1999, o Mapa da População Negra no mercado de trabalho, apontou que em São Paulo, apenas 6% dos trabalhadores negros ocupavam postos de trabalho de direção e de planejamento, sendo que nos postos de trabalho de execução está a maioria dos ocupados de etnia negra, sendo 60%.

Hoje, 21 anos depois, o percentual de negros mantém-se o mesmo, dependendo do recorte da análise, até recuou. Mulheres negras, literalmente contam-se nos dedos.  

Vamos nos empoderar, ou seja, entender ou analisar resumidamente o sistema que opera até os nossos dias. 

Uma forma de entendermos o presente é analisar o passado e observarmos como chegamos até aqui. No nosso caso, observar a formação do mercado de trabalho em São Paulo. 

Uma das consequências mais importantes da escravidão, segundo Karl Monsma (2016) e dos seus desdobramentos racistas nas primeiras décadas após a abolição é o que denomina de “mercado de trabalho cindido”.

A sociedade racista admitia o negro como escravo; para o trabalho livre trouxe o europeu, alegando que os negros não tinham mentalidade para se integrarem aos modos de produção modernos. 

Ironicamente o negro perdeu importância ao se transformar em homem livre: não conseguiu a emancipação nem atingiu o estágio de trabalhador engajado nas novas formas de produção que surgiram no país. 

A imigração ganhou força no final da década de 1870, sendo que em 1886, por sugestão do governador da província e com apoio de fundos do Estado, a Sociedade Promotora da imigração, de cunho privado, foi estabelecida para coordenar a campanha de São Paulo para atrair trabalhadores europeus. Em 1895, tais funções foram assumidas pelo Departamento de Agricultura do Estado de São Paulo. 

Quando os imigrantes chegaram, os sociólogos e cientistas brasileiros ocuparam-se com pesquisas e escritos que demonstrassem a eles próprios a ao mundo como o Brasil estava rapidamente se transformando – de um lugar atrasado e miscigenado que parecia mais um canto da África que uma nação do Novo mundo em uma república progressista povoada por europeus e seus descendentes.   

Entretanto, em sua grande maioria os imigrantes europeus que vinham para o Brasil também era analfabeta ou lia muito pouco. 

Na cidade e no campo, os imigrantes desfrutavam da mesma preferência na contratação. O censo de 1893 da Cidade de São Paulo mostrou que 72% dos empregados do comércio, 79% dos trabalhadores das fabricas, 81% dos trabalhadores do setor de transportes e 86% dos artesão eram estrangeiros; o Correio Paulistano estimou que 80% dos trabalhadores do setor de construções eram italianos; e um estudo de 1912 sobre a força de trabalho em 33 indústrias têxteis do Estado  descobriu que 80% dos trabalhadores têxteis eram estrangeiros, a grande maioria italianos.

No começo do século XX, 92% dos trabalhadores industriais na cidade de São Paulo eram estrangeiros, sobretudo de origem italiana. 

Os negros estavam quase que totalmente barrados do trabalho nas fabricas, e os artesão negros desapareceram por completo da cidade. Os negros pobres e pertencentes a classe trabalhadora, encontraram suas oportunidades de trabalho restritas ao sérvio doméstico e ao que hoje poderia ser denominado de setor informal. 

Agora empoderado, talvez tenha ficado um pouco mais claro, na atualidade, a questão racial e o mercado de trabalho e como ele ainda reproduz muito do seu pensamento desde as suas origens. 

Obviamente, além do papel do Estado, a sociedade civil tem um importante papel a desempenhar. 

Um exemplo de intervenção é o movimento o qual coordeno, chamado **Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial**, lançado em 2016,  com o objetivo de engajar um dos maiores agentes de transformação social, ou seja,  o empresariado, o qual, através da redefinição das suas práticas e da sua cultura organizacional, pode protagonizar, com impressionante velocidade, desde que sensível e atento a tais demandas, a promoção do respeito a todas as pessoas, considerando os segmentos da população que se encontra em situação de vulnerabilidade, desigualdade e exclusão, como a população negra.

Por tudo isso, fica evidente que são necessárias ações transversais, multidisciplinares, complexas, no esforço de levar o conhecimento da nossa formação histórica, e, a partir da constatação de erros, redefinir nossas práticas, conceitos, cultura e hábitos, no ambiente corporativo, pessoal e social.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Antes de encantar, tente não atrapalhar o cliente!

Quando a experiência falha, o problema raramente é tecnologia – é decisão estratégica. Este artigo mostra que no fim das contas o cliente não quer encantamento, ele quer previsibilidade, simplicidade e pouco esforço.

Liderança
11 de abril de 2026 08H00
Quando a empresa cresce, o modelo mental do fundador precisa crescer junto - ou vira obstáculo. Este artigo demonstra que criar uma empresa exige um tipo de liderança. Escalá‑la exige outro.

Gustavo Mota - CEO do Lance

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de abril de 2026 15H00
Enquanto o Brasil envelhece, muitas empresas seguem desenhando experiências para um usuário que já não existe. Este artigo mostra que quando a tecnologia exige adaptação do usuário, ela deixa de servir e passa a excluir.

Vitor Perez - Co-fundador da Kyvo

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
10 de abril de 2026 08H00
Este artigo mostra que o problema nunca foi a geração. Mas sim a incapacidade da liderança de sustentar a complexidade humana no trabalho.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
9 de abril de 2026 14H00
À medida que a tecnologia se democratiza, a vantagem competitiva migra para a forma de operar. Este artigo demonstra que como q inteligência artificial já é comum, o diferencial agora está em quem sabe transformá‑la em sistema de crescimento.

Renan Caixeiro - Co-fundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
9 de abril de 2026 07H00
O mercado não mudou as pessoas. Mudou o jeito de trabalhar. Este artigo mostra que a verdadeira vantagem competitiva agora não está no que você faz, mas no que você sabe delegar - e no que não delega.

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
8 de abril de 2026 16H00
Quando a experiência falha, o problema raramente é tecnologia - é decisão estratégica. Este artigo mostra que no fim das contas o cliente não quer encantamento, ele quer previsibilidade, simplicidade e pouco esforço.

Ana Flávia Martins - CMO da Algar

4 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
8 de abril de 2026 08H00
O bar já entendeu que o mundo virou parte do jogo corporativo. Conflitos, tarifas e decisões políticas estão impactando negócios em tempo real. A pergunta é: o CEO entendeu ou ainda acha que isso é “assunto de diplomata”?

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

10 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
7 de abril de 2026 16H00
Executivos não falham no cenário internacional por falta de competência, mas por aplicar decisões no código cultural errado. Este artigo mostra que no ambiente global, liderar deixa de ser comportamento e passa a ser tradução

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
7 de abril de 2026 08H00
Se a IA decide quem indicar, um dado se impõe: a reputação já é lida por máquinas - e o LinkedIn emergiu como sua principal fonte.

Bruna Lopes de Barros

5 minutos min de leitura
Liderança, ESG
6 de abril de 2026 18H00
Da excelência paralímpica à estratégia corporativa: por que inclusão precisa sair da admiração e virar decisão? Quando a percepção muda, a inclusão deixa de ser discurso.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

13 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...