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NFTs: a fronteira tecnológica para a confiança

Embora todo o foco sobre consciência em tecnologia se volte para a inteligência artificial responsável, a web3 é um dos campos mais férteis para virar esse jogo nas organizações e nos mercados. O fake eventualmente gerado por inteligência artificial será descoberto pos mecanismos da web3
Yugri Gubert é engenheiro mecânico graduado na primeira turma pela Universidade Federal da Grande Dourados (MS). Fundou a Ghost, que cria soluções tokenizadas para pessoas e empresas, democratizando o acesso às NFTs no Brasil. Valter Ferreira é pesquisador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás e do fab lab da Unesp no campus Guaratinguetá (SP).

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Você conhece Moisés Estevan, o menino surfista da Rocinha, que é uma das maiores favelas do Brasil? Estamos criando uma coleção de NFTs com ele para ajudar a estruturar sua carreira financeiramente, estabelecendo uma base para que ele possa participar de campeonatos internacionais e crescer profissionalmente. A captação também beneficiará a ONG que descobriu Moisés para que possa descobrir outros talentos, e é um pedaço de um projeto maior de fomentar o uso de NFTs e a web3 nas comunidades, e mostrar para as pessoas que esta pode ser uma fonte de renda complementar.

Todo brasileiro está familiarizado com o bioma Pantanal, mas talvez não conheça o projeto Pantanal de NFTs, realizado em conjunto com o cantor, ator e violeiro Renato Teixeira. A intenção? Vender NFTs com imagens da fauna, da flora e do povo pantaneiros a fim de arrecadar fundos para a preservação do bioma. Com esses fundos, diversos programas devem ser encaminhados, entre os quais um de brigada anti-incêndio.

E que tal um projeto de coleção de NFTs com uma empresa que quer financiar a construção de dois satélites e prestar serviços ao agronegócio, direcionando parte do valor para o fomento científico de mulheres no ambiente aeroespacial? Nesse caso, os compradores dos tokens ainda poderão concorrer a itens exclusivos, como o recebimento de um satélite reserva, totalmente funcional, igual ao que vai subir ao espaço, e modelos de satélites educativos.

O mundo da web3, que tem nas NFTs sua representante mais conhecida talvez, vem surgindo com força desde 2020 e com a promessa de mudar como muitas coisas funcionam. Pouco se sabe dele no meio do hype ocorrido por conta de aquisições milionárias de artes gráficas colecionáveis, mas o fato é que sua tecnologia vem ficando cada vez mais importante para a economia criativa e para o mundo dos negócios em geral, tendo movimentado mais de US$ 17 bilhões em 2021.Neste artigo, buscamos mostrar que, pela transparência radical promovida, a web3 pode gerar mais negócios conscientes, que é justamente o que estamos fazendo com os projetos aqui citados.

Os NFTs são o registro da identidade digital de um ativo. O blockchain, a tecnologia sobre a qual esse registro é feito, garante a não fungibilidade do ativo, ou seja, garante que ele é único. Essa exclusividade o associou a leilões e plataformas de arte digital. Assim como a tecnologia os associou ao mundo das startups. Mas não é nada disso: esses tokens não são apenas artes colecionáveis; podem ser acompanhados de uma série de agregadores de valor do mundo real (tangível) e as aplicações dessa tecnologia conseguem estar a serviço de muitas modalidades de negócios. Mesmo negócios estabelecidos, maduros, já os estão usando.

Eis exemplos de aplicações práticas nos NFTs em mercados tradicionais: mecanismos antifraude em ingressos de eventos (e eliminação de cambistas), desenvolvimentos de projetos imobiliários (alternativa aos fundos imobiliários), captação de recursos de terceiros (alternativa à emissão de debêntures ou até a ofertas públicas iniciais de ações, os IPOs), comércio de direitos autorais e diretos conexos (para obras literárias e audiovisual), empreendimentos envolvendo CCS (captura e armazenamento de carbono) em projetos de ESG etc.

Surpreso? A seguir, detalhamos possibilidades.

## NFTs na economia criativa
Esse é o campo mais óbvio de aplicação dos NFTs, mas ainda não é uma realidade em todo o setor. A economia criativa abrange quatro grandes dimensões: patrimônio (artesanato, festivais, museus, bibliotecas e exposições); artes (pinturas, fotografia, esculturas, música etc.); mídia (livros, cinema, rádio etc.); e criação funcional (design gráfico, moda, joias, software, games, arquitetura e entretenimento). Estas são algumas das aplicações do NFTs nesses setores da indústria criativa:

– __Tokenização de direitos (autorais e/ou conexos):__ a fusão de tecnologias de web2 (assinatura e certificado digital que possuem reconhecimento legal, por exemplo) e de web3 (blockchain) permite converter o direito de uma pessoa ser remunerada por execuções, adaptações e outras aplicações de obras (gráficas, audiovisual ou literárias) em um token que pode ser vendido de forma fragmentada, tal qual uma ação de uma empresa. Seu detentor possui o direito de ser remunerado conforme estabelecido no contrato de compra (smart contracts, ou contratos inteligentes) e possuem uma programação de autoexecução (quando as condições estabelecidas na origem ocorrem, o contrato se executa automaticamente, seja por meio de uma transação de transferência de um bem/direito, remuneração financeira ou outros ativos/remuneração).
– __Agregadores de valor:__ são benefícios indexados a um determinado token por meio de contratos inteligentes. Ou seja, no momento em que se adquire o NFT, também se adquire um agregador de valor – um ingresso para uma experiência, como um show, jantar, viagens ou souvenir, por exemplo – ou agregadores relacionados ao financiamento de uma causa (ambiental, social ou étnica). Esses agregadores trazem valor explícito e físico ao token digital, o que alguns especialistas chamam figital (fusão de físico e digital).

## Mercado imobiliário
O que pode ser mais tangível e não fungível que um imóvel? E quais operações podem ser mais burocráticas que as imobiliárias? É justamente no mercado imobiliário que os NFTs representam oportunidades exponenciais, desde simples operações de locação de imóveis até o financiamento de complexos processos de incorporação imobiliária, ou ainda como alternativa aos fundos imobiliários para a viabilização de grandes empreendimentos comerciais, residenciais ou rurais.

Com o advento dos cartórios digitais, todas as operações podem ser realizadas de forma remota, sem qualquer necessidade de presença física, e é justamente nesse ambiente que surge uma nova fronteira a ser explorada pelo setor. Os contratos inteligentes abrem a possibilidade de criação de tokens indexados aos direitos de exploração ou posse de imóveis (aluguel, compra, venda ou permuta), incluindo formas de pagamento com prazos e valores distintos, de acordo com o modelo de negócio.

Esses contratos inteligentes podem prever as condições de execução dos tokens, considerando condições diversas, como de inadimplência, pagamento antecipado, cobrança de taxas e toda a sorte de condicionantes acordadas entre as partes, que com os cartórios digitais podem ser executadas automaticamente. Isso torna o processo mais dinâmico e, em grandes volumes, há redução do custo transacional.

Outra aplicação dos NFTs está no processo de incorporação e aos fundos imobiliários. Os processos convencionais de incorporação, sobretudo quando envolvem múltiplos imóveis, podem ser longos e dispendiosos, com grandes impactos para o fluxo de caixa das incorporadoras até a autorização para o início das vendas. Os NFTs mudam essa dinâmica, pois permitem a venda antecipada de tokens com contratos inteligentes que preveem direitos sobre cotas do empreendimento, seja como proprietário de imóveis, seja como investidor cotista. Para cada caso, um perfil específico de contrato precisa ser elaborado, prevendo modelo de remuneração para cotistas, condições para as mesmas, encerramento e modelo de quitação, no caso de aquisição de imóvel.

## Mercado financeiro
Esse é o mercado que mais se aproxima do universo dos NFTs, pelo amplo uso de protocolos de segurança, de tecnologias antifraude e redundâncias. É, no entanto, o mercado mais cético quando se trata de inovações radicais nos modelos de negócio tradicionais. Porém o surgimento dos bancos digitais expandiu as fronteiras desses negócios, sobretudo com alternativas para pequenas e médias empresas captarem recursos no mercado, assim como o fomento de pequenos investidores.

O processo de tokenização de ativos não fungíveis e de digitalização dos cartórios abre um oceano de oportunidades, como a possibilidade de comercializar frações de empresas por meio de NFTs em um formato de direito sobre lucros, obrigação de pagar ou ainda um modelo de opção de compra, sem necessariamente comprometer a estrutura social da emissora dos tokens no curto prazo. Cria-se com isso uma alternativa ao crowdfunding.

## Mercado ESG
De fomento à descarbonização e preservação de áreas verdes (excedentes de reservas legais ou particulares de patrimônio natural) a projetos de agroflorestal com alto impacto social, os NFTs são uma ferramenta para capitalização desses empreendimentos, monetização de investidores e proprietários de terra, além de uma facilidade para o cumprimento de metas ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança corporativa) de empresas.

Com os NFTs é possível indexar uma área de preservação, reflorestamento ou agroflorestal a um direito de recompensa regido por um contrato inteligente, o que pode acelerar o processo de descarbonização e impulsionar o mercado crescente de soluções ESG.

Além disso possuímos ações que podem ser realizadas com impacto ambiental direto na indústria. Hoje, carros e demais veículos e produtos que precisam de revisão esporádica possuem o manual físico apenas se obter o registro de revisões (já que a revisão em uma rede especializada aumenta o valor do bem por sua confiabilidade). Os manuais físicos podem ser extintos, e os carimbos da revisão podem se transformar em NFTs atrelados ao produto. Como todo veículo possui um número de chassi único e exclusivo dele, basta atrelarmos o registro de NFTs do veículo ao seu número de chassi. É possível, inclusive, que traga mais confiabilidade ao processo do que o meio físico, pois o blockchain é imutável, sendo um ótimo aliado contra fraudes de revisão. Para a indústria, somente a troca dos manuais físicos por NFTs teria um impacto positivo tanto no custo de produção quanto na agenda ambiental. Vale lembrar que temos estabelecidas redes de blockchain com baixas taxas e baixíssimo consumo de energia.

## Aplicações hospitalares
O uso de NFTs para gerar certificação e envio de exames para os pacientes resolverá inúmeros problemas de acesso. A ideia de posse e centralização de seus dados e documentos é primordial quando tratamos do acesso a exames. Isso facilitará a realização de uma consulta médica.

Hoje, para se realizar o pedido de um exame, é necessário pedir ao hospital ou clínica de origem (onde foi realizado o exame) e esperar algum tempo que muitas vezes pode ser decisivo para o diagnóstico e tratamento do paciente. Com o exame em mãos, o paciente pode estar em uma região afastada, como o interior do Brasil ou em uma região ribeirinha por exemplo, e ser atendido por um profissional que, com conexão à internet, pode acessar todos os exames e histórico da pessoa, através dos registros de NFT que estarão vinculados à wallet do paciente.

Graças ao blockchain, esses arquivos NFT e outras transferências do hospital para o paciente cumprem com as normas de LGPD, visto que ao se analisar a transferência dos arquivos em metadados, eles se mostram criptografados com o blockchain.

O MERCADO DE NFTS POSSUI UMA INFINIDADE DE APLICAÇÕES que transbordam, e muito, o que a mídia tem divulgado. Com essa tecnologia, estamos convencidos de que é possível revolucionar a forma como as pessoas vivem, como se tratam, como se divertem, e como consomem produtos. Com consciência.

O RAIO-X DO NFT, O TOKEN NÃO fungÍVEL
o NFT é o que mais materializa hoje a web3, nova geração da web que se baseia em três conceitos: descentralização, abertura com confiança e maior atuação do usuário. veja quatro características

01 – Um token é um criptoativo. Ou seja, é um ativo digital comercializável ou permutável registrado em um blockchain. É importante não o confundir com dispositivos geradores de senhas aleatórias, também chamados de tokens e amplamente utilizados como camada extra de segurança nas plataformas de internet banking.

02 – O blockchain é como um livro-razão de dados descentralizados. Ele permite que um grupo com participantes selecionados compartilhe dados divididos em blocos e encadeados com identificadores exclusivos (hashes criptográficos) na nuvem, onde é possível coletar os dados transacionais de várias fontes, fornecendo integridade de dados com uma única fonte de verdade. Fraudes podem ser evitadas porque os dados não podem ser alterados sem a permissão de um percentual das partes. Se alguém tentar alterar os dados do livro-razão, todos os participantes serão alertados e saberão quem fez a tentativa.

03 – Hashe criptográfico é uma função de dispersão criptográfica considerada praticamente impossível de inverter. Isto é, não dá para recriar o valor de entrada utilizando somente o valor de dispersão. É o que torna o blockchain confiável.

04 – O princípio da fungibilidade assegura que a troca de um bem se dará por outro que seja equivalente.

__Leia também: [Laços, uma organização consciente na prática](https://www.revistahsm.com.br/post/lacos-uma-organizacao-consciente-na-pratica)__

Artigo publicado na HSM Management nº 156.

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