CONTAGEM REGRESSIVA COM CARLOS PIAZZA

Nossos futuros precisam ser regenerativos

Carlos Piazza, professor, consultor e sobretudo pensador da gestão no Brasil, não tem dúvidas de que nosso planeta corre risco de morte. Para evitá-lo, não basta as organizações deixarem de fazer as coisas erradas; elas precisam fazer cenários de reconstrução
Sandra Regina da Silva é colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

### 5 – “Futurismo regenerativo, dessincronização e ressonância”. O que significa o título de seu painel no HSM+? Parece complexo…
Vivemos num mundo que perdeu completamente a sincronização. Para começar, o meio ambiente está ficando dessincronizado. Como, por muito tempo, só tiramos do planeta, era de se esperar que ele começasse a agir contra nós. Mas fomos além; perdemos o sincronismo de absolutamente tudo: do viver, do trabalhar e do aprender. Viver, trabalhar e aprender eram – e são – uma coisa só. As pessoas ao longo do tempo dividiram isso em três personas apartadas, com códigos de conduta e de vestimenta diferentes. Veio a pandemia de covid-19 e mostrou que não fazia sentido, mas continuam tentando dessincronizar.

Nesse movimento, perde o planeta, perdem as pessoas, perdem as relações. Por que o volume de suicídios só aumenta? No ano passado, esse número na América Latina foi de 775 mil pessoas. É mais que a cidade de Ribeirão Preto inteira, em um ano.

### 4 – Qual é o impacto da dessincronização nas empresas?
O desengajamento das pessoas, e seu consequente baixo desempenho, é o maior dos impactos. As pessoas estão tentando buscar equilíbrio, mas não conseguem tê-lo. Falam de procrastinação, porque não sabem por onde começar. Estão perdidas. Não dá para falar em regeneração sem entender que o planeta perdeu o sincronismo.

### 3 – E ainda dá para regenerar?
Sim, temos o poder de transformar tudo a nossa volta. Desde que os hominídeos desceram das árvores 7 milhões de anos atrás, modificamos nosso entorno, trazendo inovações, mesmo que sejam as biológicas como andar com as patas de trás. No chão, era uma nova realidade, com outros animais, pequenos e imensos, até os que faziam você de refeição. Fomos aprendendo e inovando em tudo. É essa capacidade de transformação de tudo a nosso redor que, agora, está nos levando ao risco real da extinção da vida no planeta.

A meu ver, quando a gente se encontra nesse nível de dessincronização, só existe uma única maneira: ressincronizar o futuro, usando a própria capacidade transformadora do homem sobre ele mesmo. Como? Usando tecnologia de um lado e filosofia do outro. Por isso, ao falar sobre regeneração, eu falo sobre futurismo regenerativo, com muita tecnologia e filosofia.

Tecnologias destroem civilizações inteiras, e tecnologias criam a humanidade. A filosofia é o que pode fazer o pêndulo balançar da destruição para a criação nesses casos. Se não agirmos assim, não será possível a vida no planeta. Temos de enfrentar a realidade: não conseguimos mais ter um planeta responsivo.

### 2 – Então, a saída é…
Colocar o ser humano no centro, praticando o human-centered design para todas as decisões, que significa colocar as pessoas e o planeta que as acolhe em primeiro lugar. Todo o resto tem de vir depois.

Do lado da filosofia, já vemos as duas próximas gerações, a Z e a alfa, dizendo que não querem ter coisas, voltando-se mais para uma economia circular, compartilhada, para um consumo consciente. Ela estão alinhadas, mesmo sem saber, com o braço da filosofia que olha os fenômenos subjetivos da vida humana, a noética.

Do lado das tecnologias, elas são todas regenerativas. O relatório da ONU {Organização das Nações Unidas} coloca que a agricultura terá de produzir nos próximos 40 anos tudo o que ela produziu nos últimos 8 mil anos, para suprir a necessidade de comida da população. Teremos tecnologia para ir substituindo a capacidade que nós perdemos da produção natural? Sim. Vamos ter carne feita de célula-tronco, impressão de comida com pastas proteicas e todo tipo de coisa. Na Finlândia, por exemplo, a Solar Foods está fazendo comida de gás de efeito estufa.

## 1 – Isso significa que a sociedade inteira vai ter de reaprender as coisas. Mas como, quando tem gente que nem acredita que temos uma crise climática, até no comando de empresas?
É assustador. Me parece que, para muitas empresas, isso não existe, porque para elas ainda conta o foco na produção em massa. Essas vão começar a enxergar o que está acontecendo só quando vier o ciclo de escassez – no cenário de não retorno, no qual já estamos em muitos aspectos.

Eu não sei responder a sua pergunta sobre conscientização, a não ser fazendo outra pergunta: será que o aprendizado só será possível pela dor? Hoje a dedução é que argumentos racionais e dados não bastam. Mas o fato de o mundo inteiro estar passando por coisas que não conseguem compreender deveria nos colocar em estado de dúvida e humildade para aprender. O consolo é que ciência e tecnologia podem nos regenerar.

__Leia também: [Floresta abundante de oportunidades de negócios](https://www.revistahsm.com.br/post/floresta-abundante-de-oportunidades-de-negocios)__

Artigo publicado na HSM Management nº 160.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Do ego ao fluxo: A jornada interior de um líder

Ao revisitar o colapso e a reinvenção da Japan Airlines, este artigo revela, à luz dos princípios do Aikido, que a verdadeira transformação organizacional não começa na estratégia, mas na superação do ego – quando liderança, propósito e consciência coletiva entram em fluxo.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
16 de junho de 2026 15H00
O mercado discute o futuro - mas continua ignorando quem já está pronto para trabalhar. Este artigo chama atenção para um movimento ignorado: a crescente presença da geração 60+, e o custo de continuar excluindo um dos recursos mais experientes e disponíveis da força de trabalho.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de junho de 2026 09H00
Na estreia da coluna, as autoras, Cecília Seabra e Thais Giuliani, propõem uma mudança de paradigma na liderança: sair das explicações rápidas e dos julgamentos para construir relações mais consistentes por meio da escuta, da curiosidade e da integração de diferenças.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
15 de junho de 2026 15H00
Colesterol, cardiologista, academia. Tudo certo. Só falta mencionar o que, de fato, está tirando as pessoas de campo.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
15 de junho de 2026 08H00
A liderança não cabe mais em rótulos e quem ainda pensa assim pode estar ficando para trás. Este artigo mostra como a valorização de perfis não lineares e a capacidade de integrar múltiplas experiências redefinem o conceito de talento nas organizações.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de junho de 2026 15H00
Mais do que falta de talento ou tecnologia, este artigo revela o verdadeiro risco das organizações modernas: pessoas que deixam de dizer o que pensam. Este artigo demonstra como isso compromete decisões, inovação e resultados sem que ninguém perceba.

Valter Bahia Filho – Autor e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
14 de junho de 2026 08H00
Ao revisitar o colapso e a reinvenção da Japan Airlines, este artigo revela, à luz dos princípios do Aikido, que a verdadeira transformação organizacional não começa na estratégia, mas na superação do ego - quando liderança, propósito e consciência coletiva entram em fluxo.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
13 de junho de 2026 15H00
Inspirado por um colapso histórico no esporte, este artigo revela um dos riscos mais silenciosos das organizações: equipes talentosas deixam de performar quando a confiança desaparece - e a liderança não cria um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar, participar e contribuir de verdade.

Dr. Cristiano Nabuco - Reitor da Artmed School of Psychology (APSY)

6 minutos min de leitura
Marketing & growth
13 de junho de 2026 08H00
Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Natalia Coca - Fundadora da FunFlow, estrategista de vendas e palestrante

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
12 de junho de 2026 14H00
Entre piscinas, quadras e salas de conselho, este artigo mostra por que a performance sustentável não nasce do excesso de esforço, mas da capacidade de alinhar foco, descanso, decisão e leitura de contexto na liderança.

Thierry Marcondes

0 min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
12 de junho de 2026 09H00
O preço do aparelho é só o começo - o custo real aparece no uso. Este artigo revela como custos ocultos e recorrentes redefinem a lógica de consumo de smartphones e impulsionam novos modelos de uso.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão