Gestão de Pessoas

Novas tribos do mercado de trabalho e desafios da gestão de pessoas

Com pandemia de Covid-19, um novo modelo de trabalho – remoto, com carga horária flexível, automatização e substituição de funções – ganhou força e vem ampliando a discussão sobre as modalidades de vínculo de empregatício
Diretora executiva de RH, comunicação e marketing do Grupo Travelex Confidence Brasil e membro dos conselhos consultivos para temas de gestão de pessoas na DMCard, 99Jobs e AIESEC Brasil. É psicóloga, pós-graduada em gestão de recursos humanos pela FGV-SP, com MBA em administração pela Fundação Dom Cabral e formação como conselheira de administração pelo IBGC.

Compartilhar:

No artigo “Build, Buy, Borrow or Bot” (Construir, Comprar, Emprestar ou Robotizar), de 2019, a consultoria Accenture apresentou uma reflexão sobre como as mudanças tecnológicas e a contínua “guerra por talentos” tem criado novas oportunidades para a implementação de uma gestão flexível dos recursos humanos, muito mais aderente ao momento atual de transformação que a maioria das empresas tem vivenciado.

Este conceito de força de trabalho adaptativa possibilita a quebra de alguns paradigmas e limitações do processo de “manpower planning” – processo sistemático de planejamento para prever a oferta e demanda futura dos recursos humanos e das competências necessárias para [atender a estratégia](https://www.revistahsm.com.br/post/e-preciso-ir-alem-da-estrategia) e objetivos de crescimento do negócio no âmbito local ou global – como o controle do aumento do número de headcount e a garantia da aquisição do know how necessário através de altos investimentos na capacitação interna ou na contratação de novos profissionais “prontos” do mercado, em regime CLT.

![Novas tribos do mercado de trabalho e desafios da gestão de pessoas 01](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/3sCLEbJiWXGrWvlhMZef7j/077be927f9559064043060b5b43b1ecf/Picture1.jpg) *Fonte: Potencial Utilização da Força de Trabalho Adaptativa, Accenture, 2019*

## Novas formatos de trabalho e contratação
Principalmente na área de tecnologia, onde se concentram atualmente o maior número de posições para contratação, a modalidade de freelancers e consultores (dentro e fora do próprio país) vem se intensificando e comprovando que o capital intelectual pode estar disponível em qualquer lugar do planeta.

Em outra pesquisa, também de 2019, realizada pela Deloitte, ficou clara uma tendência de migração entre as modalidades de contratos de trabalho não apenas para os profissionais de TI. Modelos de vínculos empregatícios até então menos valorizados pelos profissionais estão aumentando e, aparentemente, atendem melhor aos anseios de [independência e autonomia](https://www.revistahsm.com.br/post/experiencia-do-colaborador-autonomia-e-inteligencia-de-dados) das novas gerações de profissionais que ingressam no mercado de trabalho.

![Novas tribos do mercado de trabalho e desafios da gestão de pessoas 02](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/15tc10YtDZnE3iA3DhvEHb/4528886641208ae06cfe2de1bd638f2c/Picture2.jpg)

Mas não são somente os [jovens](https://www.revistahsm.com.br/post/a-angustia-dos-jovens-na-escolha-profissional) que veem com bons olhos estas mudanças. Para muitas empresas, as novas tecnologias e os novos modelos de trabalho são uma grande oportunidade, e podem trazer benefícios ao permitir a contratação de profissionais qualificados do mundo inteiro sem os altos custos, burocracia e problemas de adaptação cultural enfrentados nos processos tradicionais de expatriação de profissionais.

![Novas tribos do mercado de trabalho e desafios da gestão de pessoas 03](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/2KuRd4fMFmP94XdQtzUSO3/0d6c7784e2f8f0e1cdfe511feeafe561/Picture3.jpg)

De acordo com Mariana Barros, interculturalista e fundadora da Differance Intercultural Consultants, apenas 25% dos processos de expatriação realizados são “bem-sucedidos”. Entre os principais motivos pelos quais os processos de expatriação fracassam estão: as dificuldades com a adaptação intercultural; o profissional expatriado não conseguir responder às responsabilidades assumidas por falta de habilidades técnicas para a tarefa e para gestão de pessoas em um outro país; problemas de ordem familiar: adaptabilidade da família ao novo contexto.

Se a expatriação apresenta tantos desafios para os profissionais e organizações, a combinação de tecnologia e modelos alternativos de trabalho deu espaço para os denominados os nômades digitais. “Um nômade digital é alguém que deseja a liberdade de viver e trabalhar de qualquer lugar do mundo e usa a tecnologia para tornar esse desejo uma realidade”, define Keith, empresário e autor do blog Nomad Flag.

O trabalho de um nômade digital é totalmente online e ocorre em qualquer lugar em que ele esteja, e este novo modelo de atuação vem se definindo como parte de um estilo de vida que tem ganhado cada vez mais adeptos. O nomadismo digital ganhou bastante notoriedade nos últimos anos e se intensificou ainda mais com a pandemia de Covid-19 e a nova realidade do trabalho híbrido. Algumas pesquisas indicam que, até 2025, haverá 1 bilhão de nômades digitais no planeta.

Olhando para o cenário brasileiro, a adoção do modelo de trabalho remoto ganhou escala desde o início da pandemia. De acordo com a Pesquisa de Gestão de Pessoas na Crise Covid-19, elaborada pela Fundação Instituto de Administração (FIA), 46% das empresas no Brasil adotaram a estratégia de trabalho remoto durante a pandemia. No setor de comércio e serviços, 57,5% dos trabalhadores adotaram o teletrabalho; em pequenas empresas, esse percentual ficou em 52%.

## Oportunidades e desafios do “anywhere office”
Ter uma carreira internacional e trabalhar em times multiculturais, sempre fez parte das ambições de boa parte dos profissionais, e agora o [sonho está muito mais próximo da realidade](https://www.mitsloanreview.com.br/post/o-que-esperar-do-futuro-do-trabalho). Alguns países europeus, mais avançados no quesito acessibilidade e adoção de tecnologia, estão incentivando a realização de negócios em seus países e, consequentemente, aquecendo seus mercados de trabalho internos.

A Estônia, por exemplo, criou, em 2014, um programa que permite que qualquer pessoa abra uma empresa de forma 100% online no país, com um investimento de € 100. Recentemente, o país anunciou a emissão de uma modalidade de visto para “cidadania digital” criando o e-Residency. Na América do Sul, o Brasil é o país com maior número de aplicações ao e-Residency.

A República Tcheca, também criou o “zivno”, uma espécie de visto comercial de longo prazo. O principal objetivo destas novas modalidades de visto é a desburocratização de processos com foco, principalmente, em nômades digitais, empresários e freelancers.

Na esteira das as mudanças, as evoluções tecnológicas são sempre as primeiras em um processo evolutivo e fazem com que os indivíduos adotem novos hábitos e comportamentos. As empresas acompanham estas mudanças, ajustando seu modelo de negócio e processos de contratação para manter a sua competitividade no mercado. No entanto, a revisão ou criação de políticas e leis para orientar e regular todas estas mudanças são sempre as últimas a ocorrer, como demonstra o gráfico abaixo:

![Novas tribos do mercado de trabalho e desafios da gestão de pessoas 04](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/3Om7pwyHrtUw7iwt1GSgEG/7289c5fee357bd7de395ff038dbc1748/Picture4.jpg)*Fonte: Tendências Globais de Capital Humano 2017, Deloitte*

E este é um ponto importante no que se refere ao mundo do trabalho pois, embora vários países já tenham criado políticas e vistos de trabalhos exclusivos para esta nova modalidade, os principais pontos de dúvidas e discussões existentes estão relacionados a aspectos das legislações trabalhista e tributária.

## “Trocando o pneu do carro em movimento”!
Diante de tudo isto, como profissional de RH estou feliz em viver este momento! Principalmente pela oportunidade de discutir e criar políticas e regras que garantam flexibilidade e autonomia para os profissionais, além de segurança para as relações trabalhistas. Essas transformações, hoje aceleradas pela pandemia, estimulam a criatividade e nos levam a experimentar novas ferramentas e processos de “RH” para gerir e engajar pessoas em um contexto de trabalho remoto.

Agora os desafios estão maiores! Como será a remuneração desses profissionais nômades que se deslocam com frequência? Como trabalhar com equipes multiculturais em [ambientes exclusivamente digitais](https://www.revistahsm.com.br/post/transformacao-digital-nas-empresas-por-uma-atualizacao-tecnologica)? Qual a regra para estabelecer um horário “default” com pessoas em diferentes países e com fusos horários diferenciados? As tabelas salariais vão cair em desuso? Como estimular o funcionário para que ele atenda com sucesso as expectativas e tenha entregas consistentes com um modelo de trabalho 100% virtual? Qual o destino das leis trabalhistas e como adaptá-las na velocidade necessária para atender uma crescente demanda do trabalho sem fronteiras?

O mundo globalizado está derrubando barreiras com a velocidade da luz e nós, que lideramos as práticas de gestão de pessoas, temos um desafio gigantesco de estabelecer novas regras, [muito mais flexíveis](https://www.revistahsm.com.br/post/organizacoes-buscam-a-maturidade-digital-para-sobrevivencia), para nos adaptarmos à essa nova realidade que se impõe. Cuidar do ser humano em sua essência, apostar em suas potencialidades, capacitá-lo e enxergá-lo como um ser livre, que não está mais dentro das quatro paredes de um escritório, é quebrar os paradigmas e apostar no novo que está se apresentando como um futuro que já está logo ali.

Eu quero fazer parte desse novo movimento para atender às necessidades das empresas que dependem dessa mão de obra para prosperar e se reinventar. Se essa inquietude também é sua, estou pronta para uma boa xícara de café (e muitas histórias para contar). Vamos conversar?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que equipes entendem a estratégia e ainda assim não executam?

Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

8 minutos min de leitura
Liderança
18 de setembro de 2026 14H00
A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de setembro de 2026 08H00
Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Marcus Granadeiro - Membro do RICS - Royal Institution of Chartered Surveyors (MRICS) e sócio-diretor do Construtivo

3 minutos min de leitura
Vendas, Liderança
17 de setembro de 2026 15H00
Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

7 minutos min de leitura
Marketing
17 de setembro de 2026 13H00
As principais lições para quem está entrando no mundo das buscas generativas e quer entender como marcas passam a ser encontradas, citadas e recomendadas pelas IAs

Clayton Melo - Jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT Professional Education) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR.

Direito, Regulação & Compliance
17 de setembro de 2026 08H00
Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

João Alberto Graça - Advogado, consultor em Direito Tributário, Societário e Governança Corporativa, membro do Conselho de Contribuintes e Recursos Fiscais do Estado do Paraná

5 minutos min de leitura
Liderança
16 de setembro de 2026 18H00
Ao observar a comunicação constante de um pequeno grupo de galinhas-d’angola, o autor encontrou uma metáfora surpreendente para um dos maiores desafios dos líderes: perceber, interpretar e responder aos sinais que as pessoas emitem antes que o silêncio, a desmotivação ou a ruptura se tornem irreversíveis.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

12 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução