Uncategorized

O CEO PENSADOR e por que a reflexão compensa

O estado “sempre ocupado” traz um custo cognitivo; três fatores podem ajudar quem quer começar a se dedicar mais ao pensar e colher os benefícios dessa mudança
O estudo foi conduzido por Philip Evans, com a colaboração de Lionel Aré, Patrick Forth, Nicolas Harlé e Massimo Portincaso. Aqui publicamos os highlights.

Compartilhar:

Muitos presidentes de empresas vivem como se estivessem em uma esteira ergométrica permanentemente ligada. Em constante pressão por desempenho, estão no foco das mídias sociais 24 horas por dia, sete dias por semana, e precisam lidar com uma enorme quantidade de informações. 

Além disso, as organizações se tornaram mais complexas do que nunca. O índice de “complicação” das principais companhias do mundo vem aumentando cerca de 7% ao ano nos últimos 50 anos, conforme mensuração do Boston Consulting Group (BCG). 

Nesse cenário de pressão e risco, as primeiras vítimas são os pensamentos profundos e a reflexão, principalmente quando os CEOs pulam de um evento para outro, de uma reunião para outra e, portanto, de uma decisão para outra. Qualquer parada no meio do caminho é vista como perda de tempo. 

No entanto, os presidentes que reservam algum tempo para a reflexão dizem que esse investimento dá retorno, e nosso estudo sobre o sucesso da liderança valida essa visão. A reflexão leva a uma visão melhor sobre inovação, estratégia e execução. Também contribui para entregas melhores e para maior nível de credibilidade do conselho de administração da empresa, assim como do corpo executivo, dos colaboradores em geral e até mesmo de outras partes interessadas. 

Um dos executivos que mais se destacam quando se trata de pensamento reflexivo é Warren Buffett, que diz reservar cerca de seis horas por dia para leituras – o que se mistura com reflexão. “Ele dedica muito tempo a pensar”, confirma seu sócio Charlie Munger. “Além disso, quando aparece na agenda dele ‘terça, dia de cortar o cabelo’, significa que terça é dia de pensar.” 

A maioria dos CEOs não consegue reservar um dia na agenda semanal para se dedicar à reflexão. Porém, com disciplina, prática e estrutura, talvez possam dedicar mais tempo a essa atividade do que fazem hoje. 

**PENSAMENTO REFLEXIVO VS. PENSAMENTO CRÍTICO**

Por definição, o pensamento reflexivo é voltado para dentro. Nele, a pessoa examina suas premissas, suas crenças e seu conhecimento sobre determinado assunto. Por tanto, diferentemente do pensamento crítico, que busca resolver um problema e alcançar certo resultado, o pensamento reflexivo envolve delimitação do problema, busca de sentido e identificação de padrões. Pode-se dizer que o pensamento reflexivo e o pensamento crítico são como os lados opostos de um interruptor: quando um está ligado, o outro fica desligado. 

Mary Helen Immordino-Yang, especialista das áreas de educação, psicologia e neurociência da University of Southern California, observa que o papel da “reflexão interna construtiva” é “construir significado com base em novas informações e gerar associações criativas e emocionalmente relevantes entre ideias complexas”. 

Em termos fisiológicos, o pensamento reflexivo utiliza o córtex médio pré-frontal, a parte do cérebro envolvida em atividades mentais relacionadas com a gestão dos processos cognitivos, incluindo o raciocínio e a resolução de problemas. 

As lideranças empresariais precisam se dedicar aos dois tipos de pensamento. À medida que a complexidade nas organizações e o ritmo das mudanças aumentam, os CEOs devem utilizar o pensamento crítico para resolver os desafios imediatos e o pensamento reflexivo para ter clareza sobre o cenário e vislumbrar novas oportunidades. 

**O CAMINHO PARA REFLETIR**

O mundo dos negócios é geralmente visto como o lugar da ação. Os líderes estão voltados sempre para o desempenho e para a entrega de resultados. 

Inegavelmente, as ações fazem o mundo seguir em frente. É importante, porém, não confundir movimento com efetividade. O cientista da computação Cal Newport costuma dizer que muitas pessoas têm a visão equivocada de que estar ocupado equivale a ser produtivo. 

Um estudo de 2011 da Harvard Business School mostrou que os CEOs gastam 60% de seu tempo em reuniões e 25% ao telefone ou em eventos públicos, deixando 15% para todo o restante, incluindo viagens, e-mails, leituras e reflexões. 

O estado “sempre ocupado” traz um custo cognitivo. O cérebro humano possui limites naturais em sua capacidade de prestar atenção, lembrar e processar informação. O comportamento “multitarefas” pressiona esses limites mais rapidamente. 

Um dos maiores desafios para os CEOs é conseguir escapar de suas muitas tarefas para que possam refletir. Eles não vão levar uma vida monástica, é claro, mas são capazes de aprender a se organizar e se disciplinar para cultivar o pensamento reflexivo, mais profundo. A boa notícia é que, para quem a pratica, a reflexão tende a se tornar uma rotina. 

**AS TRÊS REGRAS**

Como as pessoas ocupadas encontram tempo para refletir e obter o máximo benefício desse investimento?
Nosso trabalho de consultoria com lideranças tem indicado que três fatores facilitam esse processo: 

**Estrutura e programação.** O pensamento crítico – desestruturado e aleatório – tende a se concentrar nas preocupações mais imediatas e não nas questões fundamentais; serve para resolver os problemas prementes. O pensamento reflexivo cria o cenário para o sucesso de longo prazo. 

O tempo para reflexão deve ser algo regular, e protegido, na agenda do CEO. Com disciplina, é possível aprender a refletir sozinho. Para ajudar o CEO a estabelecer as fundações desse processo, algumas questões sobre estratégia, organização, liderança e visão pessoal podem direcioná-lo. Apresentamos a seguir alguns exemplos:

• Há padrões em sua empresa ou em seu setor de atividade que raramente vêm à tona?
• Quais são seus palpites sobre potenciais fontes de criação de valor?
• Quais novos modelos de negócio, de fora de seu setor de atividade, mais o intrigam?
• Se pudesse começar do zero, como descreveria a cultura ideal para sua organização? Como você a compararia à cultura atual?
• Qual a concepção de sucesso e o estilo de liderança que gostaria de transmitir?
• Que ambições e sonhos ainda não bem definidos, tanto no campo pessoal como no profissional, você gostaria de realizar? 

**Interlocutor-chave confiável.** Um presidente de empresa precisa manter um “personagem”. Na frente das pessoas, deve projetar confiança, otimismo e comando. Em público, e mesmo com quem se reporta a ele diretamente, raras vezes pode apresentar sinais de dúvida, admitir a incerteza ou questionar crenças. Hoje, o olhar das mídias sociais só amplifica essa tendência. 

A reflexão, em contrapartida, requer a introspecção e a sinceridade, algo difícil para os CEOs em suas atividades cotidianas. Por terem passado a carreira batendo metas e exibindo outros sinais exteriores de sucesso, muitos deles podem se sentir desconfortáveis com a ideia da reflexão. 

Nesse sentido, o presidente pode se beneficiar de conversas com um parceiro confiável que tenha um conhecimento profundo no setor de atividade da empresa e com quem fique confortável para um diálogo aberto e franco. 

Se a relação deles é forte, esse parceiro pode levar ao CEO questões, observações e desafios. Um companheiro de diálogo eficaz precisa, ao mesmo tempo, ter a habilidade de um conselheiro e o conhecimento do setor e do contexto organizacional. Em outras palavras, seus conselhos devem ter base na situação específica vivida pelo líder. 

A combinação de conteúdo e aconselhamento é o que faz com que a reflexão gere valor no final do dia. Um CEO definiu bem o interlocutor-chave ideal: “Ele deve saber reunir empatia e orientação descompromissada. Sua experiência no setor tem de aparecer, de fato, em nossas discussões”. 

**Conversa catalítica.** Muitos executivos e outros stakeholders que se reúnem com o presidente da empresa querem manter o foco em uma pauta definida – a própria ou a do CEO. Essas conversas são parte essencial da vida corporativa, mas raramente levam a um pensamento reflexivo. 

O CEO precisa de conversas sem pauta, que tragam um novo conjunto de conteúdos – informações novas e sem viés –, capazes de catalisar seu pensamento reflexivo. Podem incluir estudos de caso sobre inovações disruptivas, cenários e conceitos que desafiam o pensamento convencional, entre outros exemplos. 

Por sua postura independente, os interlocutores-chave podem oferecer esses conteúdos, assim como novas perspectivas que, de outra maneira, dificilmente seriam aventadas. 

**MAIS AÇÃO, MAIS SOLIDEZ, MAIS TEMPO**

Ao contrário do que muitos acreditam, a reflexão não é nada passiva. Leva a percepções concretas, à ação, ao engajamento e ao compromisso emocional. Os CEOs que ouvimos confirmam que o tempo que passam refletindo sobre seu negócio e sua organização produz resultados positivos. Especificamente, em nosso trabalho com essas lideranças, observamos que as ideias que surgem do pensamento reflexivo formam as bases para o planejamento anual. 

Os CEOs também afirmam que reflexões estruturadas os ajudam a dar passos mais sólidos, evitam crises e estabelecem a sequência e o ritmo da geração de mais valor. “Eu me sinto confortável com o caminho seguido pela companhia porque, de verdade, pensei muito sobre ele”, observa o presidente de uma empresa. 

Os CEOs relatam que a reflexão estruturada ainda contribui para a gestão eficaz das demandas da posição, uma vez que eles aprendem a alocar o tempo e a energia de modo mais inteligente. “No passado, eu era mais focado no operacional. O papel de CEO me deu a oportunidade de ser mais estratégico e visionário, mas, para promover as mudanças necessárias, entendi que preciso pensar de modo diferente”, diz um de nossos entrevistados. 

Para onde quer que se olhe, o CEO pensador é uma liderança mais produtiva do que a média – capaz de imaginar e de executar estratégias mais recompensadoras.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Como promptar a realidade

Este é o primeiro artigo de uma série em quatro partes que propõe uma microtese sobre futuros que disputam processamento – e investiga o papel insuspeito de memes, programação preditiva, hyperstition, cura de traumas, strategic foresight e soberania imaginal no ciclo de inovação que já começou.

Na era da AI, o melhor talento pode ser o maior risco

Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais- introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.

Por que os melhores líderes não lutam para vencer

Este é o primeiro artigo da nova coluna “Liderança & Aikidô” e neste texto inaugural, Kei Izawa mostra por que os líderes mais eficazes deixam de operar pela lógica do confronto e passam a construir vantagem estratégica por meio da harmonia, da não resistência, da gestão de conflitos e de decisões sem ego em ambientes de alta complexidade.

Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de março de 2026 08H00
Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade - estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.

Marilia Rocca - CEO da Funcional

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de março de 2026 15H00
Números não executam estratégia sozinhos - pessoas mal posicionadas também a sabotam. O verdadeiro ganho de eficiência nasce quando estrutura, dados e pessoas operam como um único sistema.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de março de 2026 06H00
No auge do seu próprio hype, a inovação virou palavra‑de‑ordem antes de virar prática - e este artigo desmonta mitos, expõe exageros e mostra por que só ao realinhar expectativas conseguimos devolver à inovação o que ela realmente é: ferramenta estratégica, não mágica.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
29 de março de 2026 18H00
Do SXSW 2026 à realidade brasileira: O luto deixa o silêncio e começa a ocupar o centro do cuidado humano. A morte entrou na agenda do bem-estar e desafia indivíduos, empresas e sociedades a reaprenderem a cuidar.

Dilma Campos - CEO da Nossa Praia e CSO da Biosphera.ntwk

3 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de março de 2026 13H00
Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência - com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
29 de março de 2026 07H00
Este artigo revela por que entender o nível real de complexidade do próprio negócio deixou de ser escolha estratégica e virou condição de sobrevivência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
28 de março de 2026 11H00
A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo - e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

Poliana Abreu - Chief Knowledge Officer da Singularity Brazil, HSM e Learning Village

2 minutos min de leitura
Estratégia
28 de março de 2026 06H00
Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência - e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

André Veneziani - VP Comercial Brasil e Latam da C-MORE

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de março de 2026 13H00
Investir em centros de P&D deixou de ser opcional: tornou‑se uma decisão estratégica para competir em mercados cada vez mais tecnológicos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Estratégia
27 de março de 2026 07H00
Medir saúde organizacional deveria estar no mesmo painel que receita, margem e eficiência. Quando empresas tratam bem-estar como benefício e não como gestão, elas não só ignoram dados alarmantes - elas comprometem produtividade, engajamento e resultado.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...