Uncategorized
Oferecido por:

O consenso nem sempre é o melhor caminho

Resultados estatísticos desautorizam a prática dos conselhos de administração (e de muitas equipes gerenciais) de buscar alto nível de consenso para as decisões importantes. É preciso decidir como decidir
Felipe A. Csaszar é professor-assistente de estratégia na Ross School of Business, da University of Michigan, em Ann Arbor, Michigan, EUA. Alfredo Enrione é professor de governança corporativa na ESE Business School, da Universidad de los Andes, em Santiago, Chile.

Compartilhar:

> **Vale a leitura porque…**
>
> … derruba mitos em relação à tomada de decisão no mundo empresarial, como o de que uma decisão sempre deve ser tomada de maneira consensual. … explicita as peculiaridades dos três tipos principais de decisão em grupo: por unanimidade, por maioria e por delegação. … as ideias expostas são aplicáveis a qualquer instância organizacional de decisão, embora este artigo use como unidade de raciocínio as decisões tomadas em conselhos de administração.

Suponha que você seja o presidente do conselho de administração e que, depois de horas de conversações sobre adquirir ou não um concorrente, três membros se oponham fortemente à compra, enquanto você, quatro membros e o ceo a aprovam. o conselho tem de tomar uma decisão já, porque, se não comprarem a empresa logo, um concorrente o fará. como você pode combinar as opiniões dos nove membros para chegar à melhor decisão? há, ao menos, três opções:

**1.  Você argumenta:** “esta é uma decisão crucial; só seguiremos adiante se houver unanimidade”. como não há, vocês não compram. 

**2.  Afirma:** “Temos uma maioria clara; então, ela prevalecerá”. com seis membros a favor da compra, do total de nove, vocês compram. 

**3. Delega a decisão ao CEo, dizendo:** “o CEO e seu time trabalharam meses em cima dessa decisão; eles são os especialistas no assunto e não devemos interferir”. e vocês compram.

As três opções correspondem a três regras de como uma decisão deve ser tomada: por unanimidade, por maioria ou por delegação. o que você talvez não saiba é que, ao definir essa regra, você pode influenciar significativamente se a decisão será um acerto ou um erro. hoje, um dos traços mais importantes de um líder empresarial é saber combinar opiniões de decisores variados em uma equipe – não só um conselho de administração. em outras palavras, todo líder tem de ser um gestor de decisões, sabendo “decidir como decidir”. 

**DOIS TIPOS DE ERRO**

Seja por unanimidade, por maio ria ou por delegação, existem argumentos a favor das três regras e todas fazem sentido. Qual deve valer? Você pode beneficiar-se de resultados estatísticos – muito importantes, embora pouco conhecidos – que dizem qual regra decisória induz as melhores escolhas. antes, porém, você precisa entender os dois tipos de erro normalmente cometidos em tomadas de decisão: de comissionamento e de omissão. 

Na prática dos negócios, um erro de omissão significa perder um projeto bom, e um erro de comissionamento, levar adiante um projeto ruim. Por que é preciso compreender os erros de comissionamento e de omissão? Porque a probabilidade de cometer erros de comissionamento e de omissão em uma decisão depende do nível de consenso necessário para aprovar essa decisão, e isso é algo que o líder pode influenciar – diminuindo a probabilidade de a companhia cometer erros caros. 

Um exemplo numérico torna isso claro. imagine um conselho em que cinco pessoas tenham de tomar decisões de aquisição de dez empresas. apenas cinco das dez companhias provarão ser bons negócios, mas os decisores não podem afirmar com certeza quais compras darão certo. Suponha, ainda, que cada conselheiro tenha 60% de probabilidade de escolher corretamente. 

Se o conselho apenas aprovar decisões por unanimidade, então a probabilidade de comprar cada companhia é de cerca de 8% (60% x 60% x 60% x 60% x 60%). cada empresa terá 92% de probabilidade de não ser comprada. Portanto, em um caso assim, a unanimidade produziria muitos erros de omissão (no pior cenário, cinco boas empresas não seriam adquiridas), mas bem poucos erros de comissionamento. 

Se, de outro lado, em vez de aplicar a unanimidade, o conselho comprar uma empresa por delegação – porque alguns de seus membros gostam dela –, as probabilidades são o oposto: 92% de probabilidade de serem compradas e 8% de probabilidade de não serem. 

Poucos erros de omissão seriam cometidos dessa maneira, já que a maioria das empresas seria comprada, mas haveria vários erros de comissionamento, uma vez que muitas empresas ruins seriam adquiridas. 

Em suma, a exigência de consenso pleno minimiza erros de comissionamento, enquanto a exigência de menor consenso minimiza a incidência de erros de omissão. Já as decisões por maioria, intermediárias entre a regra da unanimidade e a da delegação, produzem níveis de omissão e comissionamento também intermediários.

**NA VIDA REAL**

Testamos nossa suposição sobre a relação entre nível de consenso e erros de decisão estudando mais de 100 mil decisões de escolha de ações por fundos mútuos ao longo de 30 meses. É tudo explícito nessa indústria: alguns fundos usam a unanimidade, outros delegam as decisões para gestores de fundos individuais. Um erro de omissão faz perder um bom investimento por não realizá-lo e um erro de comissionamento é realizar um investimento que depois gera maus resultados. 

Além disso, nos fundos, é possível testar exaustivamente a relação entre a maneira de tomar decisões e o erro. o estudo de fundos mútuos de investimento confirmou a lógica intuída: 

• Fundos cujos gestores aplicaram a unanimidade tenderam ao erro de omissão, perdendo boas oportunidades de investimento. 

• Fundos cujos gestores agiram independentemente tenderam ao erro de comissionamento, ao comprar ações que depois foram mal. 

**CONTRA O SENSO**

Creem os sensatos que o maior consenso é sempre melhor. não é verdade. como o nível de consenso influi na probabilidade de determinados erros serem cometidos – de comissionamento ou de omissão – de modo previsível, o melhor nível de consenso depende do custo relativo desses erros. Por exemplo, no caso de empresas para as quais perder a próxima onda tecnológica é fatal, como o Google ou a Samsung, o baixo nível de consenso é indicado, uma vez que minimiza erros de omissão. Já em companhias como a P&G ou a coca-cola, para as quais tentar uma nova fórmula pode ser arriscado, adotar alto nível de consenso é o mais apropriado, pois minimiza erros de comissionamento. Sua empresa precisa adotar níveis de consenso diferentes para decisões diversas:

• Decisões que tipicamente têm custo de omissão mais alto são, por exemplo, as de investimento em pesquisa e desenvolvimento, em compliance e em canais de denúncias. 

• Decisões que têm custo de comissionamento mais alto incluem contratação de ceo, aprovação de empréstimo vultoso ou fusão.

Se o tamanho e a composição da equipe que decide forem fixos, seu líder deve entender que reduzir um tipo de erro tende a aumentar o outro. cabe-lhe, então, decidir que tipo de erro causará o maior dano e promover a regra decisória que o minimize.

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/f3850627-9250-420d-a156-0a220a64bbf9.jpeg)

**COMO INFLUENCIAR**

Como o líder influencia o nível de consenso na prática? Para levar o conselho a tomar uma decisão com base em unanimidade, evitando erros de comissionamento, ele pode:

1.  estimular os membros que estão em desacordo a expressar completamente suas opiniões. 

2.  Propor a criação de um comitê para estudar os argumentos contrários em mais profundidade. 

3.  Sugerir adiar a decisão, o que dará aos membros tempo suficiente para argumentar melhor a respeito de sua posição contrária à decisão.

Já para ajudar a prevalecer um nível menor de consenso, evitando erros de omissão, esse líder pode:

1.  Debater sobre onde se deve situar a fronteira entre decisões do conselho e do ceo e analisar se essa decisão em especial poderia ser delegada ao ceo. 

2.  Identificar as preocupações antes da reunião com o conselho e dar a apoiadores bem preparados a oportunidade de falar antes dos demais e por mais tempo. 

3.  Sugerir delegar a decisão a um comitê que inclua os apoiadores mais fortes.

Quando, porém, erros de comissionamento e de omissão parecem ser igualmente onerosos, o presidente do conselho talvez deva adotar a regra da maioria. nesse caso, o menos difícil dos três, o líder pode:

1.  Frisar que tempo é fundamental e que desperdiçá-lo tentando chegar ao consenso pleno pode resultar em alto custo de oportunidade. 

2.  Explorar posições individuais e, então, assinalar que, se a questão for votada, haverá vencedores e perdedores. essa atitude pode levar a minoria a ceder para manter o status.

Nosso método não garante que uma decisão em particular seja ótima, mas aperfeiçoa a capacidade de decidir do grupo – o que não é pouco. 

> **Você aplica quando…**
>
> … identifica e passa a evitar os dois erros básicos quando se trata de tomar decisões: o de comissionamento e o de omissão. o conselho erra no comissionamento quando encarrega alguém de tomar uma decisão e essa pessoa tem desempenho ruim. Erros de omissão, de outro lado, envolvem oportunidades perdidas. … passa a minimizar o custo de potenciais erros gerados pela decisão ao influenciar o modo pelo qual a decisão será tomada, exigindo unanimidade quando for preciso minimizar erros de comissionamento e requerendo menor consenso quando o maior perigo for o dos erros de omissão. … previne erros de omissão nas decisões de investimento em pesquisa e desenvolvimento, em compliance e em canais de denúncias; antecipa erros de comissionamento em casos de contratação de líderes, aprovação de empréstimo vultoso ou fusões.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Preservar a empresa ou a aparência? Recuperação Judicial não é atestado de fracasso

Enquanto grupos como Casas Bahia, Americanas e Braskem recorrem abertamente a processos de reestruturação para preservar suas operações, muitos empresários de médio porte ainda enxergam a Recuperação Judicial como um sinal de fracasso. O artigo questiona essa percepção e mostra por que, em muitos casos, o verdadeiro risco não está na recuperação em si, mas em esperar tempo demais para enfrentar a crise.

Nunca soubemos tanto sobre o cliente. Nunca foi tão difícil compreendê-lo.

As empresas acumulam volumes crescentes de dados, tecnologias e ferramentas para entender o consumidor. Ainda assim, muitos clientes continuam sentindo que não são realmente compreendidos. Nesse cenário, o papel do marketing evolui: deixa de ser apenas uma função de comunicação para se tornar um elo estratégico comportamento, experiência e crescimento do negócio.

A longevidade está criando o próximo grande mercado

O crescimento da população acima dos 60 anos está alterando padrões de consumo, comportamento e bem-estar em velocidade crescente. Para as empresas, o desafio não é criar soluções para idosos, mas compreender como a própria noção de envelhecimento está mudando e quais oportunidades surgem a partir dessa nova realidade.

Compliance virou estratégia no agronegócio

A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

O que muda na cadeia do cobre com o fim da Substituição Tributária

Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Bem-estar & saúde
24 de setembro de 2026 19H00
Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Jorge Inafuco - Sócio-diretor da empresa LEADERS LAB Treinamento e Consultoria, Professor e Consultor HSM

7 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
24 de setembro de 2026 14H00
Enquanto grupos como Casas Bahia, Americanas e Braskem recorrem abertamente a processos de reestruturação para preservar suas operações, muitos empresários de médio porte ainda enxergam a Recuperação Judicial como um sinal de fracasso. O artigo questiona essa percepção e mostra por que, em muitos casos, o verdadeiro risco não está na recuperação em si, mas em esperar tempo demais para enfrentar a crise.

Aislan Campos Rocco - Advogado, Sócio na Barroso Advogados Associados

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
24 de setembro de 2026 08H00
As empresas acumulam volumes crescentes de dados, tecnologias e ferramentas para entender o consumidor. Ainda assim, muitos clientes continuam sentindo que não são realmente compreendidos. Nesse cenário, o papel do marketing evolui: deixa de ser apenas uma função de comunicação para se tornar um elo estratégico comportamento, experiência e crescimento do negócio.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de setembro de 2026 13H00
O crescimento da população acima dos 60 anos está alterando padrões de consumo, comportamento e bem-estar em velocidade crescente. Para as empresas, o desafio não é criar soluções para idosos, mas compreender como a própria noção de envelhecimento está mudando e quais oportunidades surgem a partir dessa nova realidade.

Felipe Calbucci - CEO LATAM da TotalPass

Oferecido por: TotalPass
2 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
23 de setembro de 2026 08H00
A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

Antonio Sousa - Gerente corporativo de HSE da Bravo Serviços Logísticos

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de setembro de 2026 14H00
Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Alexandro Ferreira de Souza - Superintendente de Planejamento Econômico e Financeiro da Termomecanica

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de setembro de 2026 08H00
Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

Fulvio Mascara - Head global de inovação da Foursys

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

Oferecido por:
5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução