Empreendedorismo

O empréstimo coletivo e a visão de futuro

Compartilhar:

Entenda por que mais empreendedores devem desenvolver negócios que apoiam clientes em mercados emergentes como o Brasil, que é o terceiro maior mercado de empréstimos do mundo | _por Victor Santos_
—————————————————————————————————————————————————————————————————–

O Banco Central do Brasil, um país com taxas de juros notoriamente altas, autorizou empréstimos peer-to-peer (P2P), também chamado de empréstimo coletivo, este ano em um esforço para aumentar a competição no pagamento de empréstimos. Empréstimos peer-to-peer, que envolvem empréstimos entre pessoas or meio de serviços online, não tinham reconhecimento formal, regras ou regulamentação no país até o anúncio de abril. Para a Airfox, uma empresa de serviços financeiros móveis, essa foi a notícia que esperávamos. Contamos com um grupo cada vez maior de inovadores de crédito on-line e fintech em uma missão para corrigir um desequilíbrio global grave. No mundo, o objetivo é capacitar as mais de dois bilhões de pessoas sem banco nos mercados emergentes com acesso a serviços financeiros de alta qualidade e baixo custo. Na Airfox, a solução é apresentada por meio de empréstimos peer-to-peer facilitados digitalmente em uma plataforma móvel, já disponível no Brasil. Embora isso possa soar superficialmente como nada mais do que mais um aplicativo, a realidade é que essas plataformas irão revolucionar o setor bancário para as gerações futuras – e apresentam um modelo que os empreendedores com visão de futuro fariam bem em imitar. Quando comecei a empresa, eu me fiz as mesmas questões que estimulam incontáveis startups: que problema posso resolver e que tipo de impacto quero fazer? Para mim, as respostas foram intensamente pessoais. Eu cresci no Brasil, onde a disparidade de renda é profunda e altamente visível. Eu sabia em primeira mão as dificuldades que as pessoas enfrentam quando se trata de ganhar acesso ao capital. Vastas faixas da população não podem superar antigos obstáculos à mobilidade econômica: pode haver muitas oportunidades, mas se você não puder pagar por um lugar na mesa, você não poderá jogar. O Brasil também é uma fonte quase inesgotável de engenhosidade humana, bem como o terceiro maior mercado de empréstimos do mundo. Em um mercado tão dinâmico, a disparidade de renda pode ser mitigada pela quebra de barreiras à entrada de consumidores de baixa renda. Esse é o problema que escolhi para atacar e aproveitei a experiência da minha família para descobrir como fazer isso.

##### **A LEMBRANÇA DA LOJA DE PENHORES**

Quando eu era pequeno, meus pais estavam começando seu próprio negócio e o dinheiro estava curto. Lembro-me claramente de três ocasiões em que minha mãe levou todas as suas joias, bem como o colar de ouro do time Cruzeiro que ela tinha me dado, até uma loja de penhores local para que pudesse conseguir um empréstimo. Ela sempre prometia que devolveria no ano seguinte, e sempre fazia isso. Também me lembro dos meus pais não pagando o cheque especial por causa da incrivelmente alta taxa anual efetiva global (TAEG), de mais de 300%. Na verdade, a loja de penhores oferecia empréstimos mais acessíveis e de melhor qualidade do que os bancos convencionais, e é por isso que minha mãe acabou preferindo isso. Esse tipo de experiência não se limita ao Brasil. Há mais de quatro bilhões de pessoas vivendo na pobreza que não podem escapar da rotina diária de subsistência. Aqueles que estão na base da pirâmide econômica estão constantemente se esforçando para resolver suas necessidades fisiológicas e de segurança mais básicas. Não é que eles não trabalhem duro ou que queiram uma melhor qualidade de vida para si ou para seus filhos, é que +300% de TAEG é uma marca insuperável para tais ambições – e a maioria não tem acesso a um colar do Cruzeiro ou a uma loja de penhores local respeitável. Como os pobres podem investir em educação ou inovação para melhorar suas vidas ou comunidades se a sociedade impossibilitar os esforços mais enriquecedores que possibilitem tal avanço? Para permitir que mais pessoas saiam do ciclo da pobreza e entrem em mercados dinâmicos como o do Brasil, os serviços financeiros devem ser direcionados para funcionar com as realidades enfrentadas por essas populações. Na esperança de construir uma entidade que agregue valor à sociedade e tenha um impacto positivo, colaborei com uma equipe excepcional e criei uma plataforma que aborda esse enigma digitalmente. Ela apoia indivíduos que lutam para acessar os recursos de que necessitam de bancos institucionais com exigências impossíveis, e fornece acesso aos tipos de serviços financeiros que são primordiais para pessoas que se esforçam para avançar em economias emergentes.

##### **ADEQUANDO-SE AO ESTILO DE VIDA**

As novas soluções bancárias devem se adequar ao estilo de vida desses consumidores de baixa renda e a Airfox foi criada para preencher esse vazio. Muitas pessoas nos mercados emergentes dependem muito de seus smartphones. Elas costumam trabalhar em muitos empregos em vários locais, administrar pequenos negócios somente em dinheiro ou com escambo e não têm endereços fixos ou sancionados. Elas raramente têm acesso a históricos de crédito. À medida que mais pessoas acessam on-line por meio de celulares cada vez mais baratos, a oportunidade de usar a tecnologia de telefonia para solucionar problemas bancários e financeiros de baixa renda torna-se aparente. Em fevereiro de 2018, trouxemos com sucesso a milhares de brasileiros desbancarizados acesso inédito às soluções de financiamento móvel tão necessárias por meio de seus telefones. Criar uma conta da Airfox é fácil (leva apenas alguns minutos) e a maioria das pessoas que pedem empréstimos recebe uma decisão sobre solicitações de crédito em poucos dias. O aplicativo concede aos usuários uma grande mobilidade econômica e maior controle sobre suas finanças. A Airfox oferece serviços financeiros, como empréstimos bem abaixo da média do país, e os brasileiros podem facilmente depositar dinheiro no aplicativo da Airfox em mais de 40.000 locais em todo o país. O aplicativo permite uma infinidade de transações, permitindo que os usuários comprem crédito para celular, recarreguem seus bilhetes únicos, paguem contas e impostos, comprem bens e serviços digitais e físicos, e façam transações entre pessoas. Eu estou obviamente orgulhoso da nossa plataforma, mas quero concorrentes. Acho que é um modelo que os outros fariam bem em adotar. Introduz uma oportunidade significativa para os empresários mudarem o mundo para o melhor e lucrar razoavelmente ao fazê-lo – não apenas para fornecer valor aos seus acionistas, mas para revelar o valor da tecnologia para os 99% que merecem uma chance de acessar a economia digital e ter sucesso. ![VictorSantos_Airfox](https://s3.amazonaws.com/paco-dev/2018/10/VictorSantos_Airfox-380×380.jpg) VICTOR SANTOS, AIRFOX Resolver a questão da pobreza não deve ser responsabilidade exclusiva dos governos, organizações sem fins lucrativos e esforços filantrópicos. As populações que se esforçam para subir a escada econômica não querem doações, elas querem acesso. Empresas inovadoras podem usar a tecnologia para atender a esse mercado amplamente inexplorado. Pensando puramente em termos de volume, mais empreendedores devem se comprometer a criar serviços para aqueles que estão na base da pirâmide econômica, porque há uma enorme oportunidade negligenciada. Para ter certeza, a construção de um negócio voltado diretamente para clientes de baixa renda acarreta riscos e pode inicialmente produzir margens menores. Mas, com prudência, alavancar a tecnologia para introduzir amenidades financeiras a enormes populações acabará por se mostrar ao mesmo tempo rentável e eminentemente sustentável. Capacitar comunidades carentes e construir empresas de sucesso não são desafios excludentes. A pobreza é um grande problema, mas grandes problemas apresentam grandes oportunidades para empreendedores revolucionários. Uma missão de salvar o mundo pode ser uma base sólida para que as empresas tenham um impacto positivo e gerem valor econômico por meio de inovação e tecnologia. Quero proporcionar a milhões de outras pessoas a mesma oportunidade que meus pais conquistaram para melhorar nossa situação familiar, capacitando uma nova onda de empreendedores a saírem da pobreza. E enquanto a Airfox e algumas empresas com ideias semelhantes já começaram a trabalhar nessa missão, o mundo dará as boas-vindas a muito mais.

* * *

  **Victor Santos** é CEO e cofundador da Airfox, startup de serviços financeiros por aplicativo que recentemente anunciou parceria com a Via Varejo para permitir, entre outras coisas, o pagamento dos carnês via o aplicativo móvel. Escreveu este artigo com exclusividade para HSM Publishing.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Villain Era: a oportunidade das marcas para escutar quem cansa de agradar

Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Executivo, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança.

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo