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O fim dos unicórnios brasileiros?

O que muda no cenário de investimentos no ecossistema de startups e as boas oportunidades trazidas pela crise

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Março de 2020. A pandemia causada pela Covid-19 assola o mundo, e o Brasil começa a entrar em quarentena. Bolsas caem, negócios que faturavam bilhões, como empresas de aviação e a indústria de entretenimento, veem seus clientes desaparecerem de uma hora para outra. No ecossistema de startups, investimentos se retraem e algumas empresas tomam atitudes drásticas para se adaptar ao novo patamar de baixa liquidez do mercado. Seria o fim dos unicórnios?

“Em meados de março houve uma queda impressionante porque ninguém sabia o que iria acontecer”, diz João Kepler, sócio da Bossa Nova Investimentos. “Muitos investidores foram cuidar de seu portfólio. Mas isso ocorreu naquele momento e durou até o início de abril. Depois disso, voltamos ao estágio normal. Em abril, os investimentos em startups no Brasil cresceram 118% em relação a abril de 2019. A parada foi principalmente de investidores não profissionais, que ficaram assustados ao perderem dinheiro na Bolsa.”

“Hoje estamos em um momento bem mais próximo do que estávamos antes da pandemia”, diz Maria Rita Spina Bueno, diretora executiva da Anjos do Brasil. “No final de março vimos uma parada completa e os investidores-anjos voltando a olhar para as startups em que já investiam, o que é um movimento saudável, pois investimento-anjo não é só dinheiro, é valor agregado também. Em maio percebemos os investidores voltando a conversar com as empresas que já estavam em processo de captação. Finalmente, em junho, retomamos a apresentação de novas startups.”

## __IMPACTOS DA CRISE__
Levando em conta os impactos da crise nas empresas, as startups puderam ser classificadas em três grupos: as que sofreram com a pandemia, as neutras e as que se beneficiaram dela. Março e abril foi o momento em que os fundos de investimento sentaram com seus empreendedores e perguntaram duas coisas: em que grupo você está e quanto tempo você tem de vida?

“Investidores exigiram dos empreendedores em processo de aporte que fizessem um plano claro para combater os efeitos do novo coronavírus. Dessa ação vieram as demais (como demissões, reajuste de áreas internas e home office)”, afirma Yuri Gitahy, da Aceleradora. “Algumas startups têm produtos que sobreviveram intocados pela pandemia, outras tiveram sua receita reduzida em mais de 50%. Estas últimas criaram novos produtos ou adaptaram o que tinham para serem mais competitivas. Startups precisam repensar seus modelos constantemente, não só nas crises.”

A Gympass, uma empresa que acompanhamos desde o começo, foi uma das que tiveram impacto negativo”, diz Romero Rodrigues, sócio da Red­point. Segundo ele, em um primeiro momento, a Gympass sofreu com o fechamento das academias, como todas as empresas que necessitavam de espaços físicos compartilhados. Mas, por ter um DNA de startup – de viver de inovação, de testar hipóteses e de se adaptar rapidamente – ela trouxe em seguida vários serviços online – de saúde mental a personal trainers dando aulas em estúdio. “A Gympass se digitalizou muito mais rápido que grandes redes de academias ou pequenas academias de bairro, estúdios de yoga ou crossfit. Quando sairmos dessa situação tenho certeza que a Gympass vai ganhar mercado.”

## __FIM DO CASH BURN__
Seria o fim do modelo de cash burn, de dar prejuízos durante anos seguidos, gastar o dinheiro captado em aquisição de novos clientes, de crescer a qualquer custo? “Esse modelo de financiamento nasceu na indústria baleeira dos Estados Unidos no final do século 19”, diz Daniel Chalfon, sócio da Astella Investimentos. “Não é de hoje que existe um modelo que financia o prejuízo de uma atividade enquanto ela ganha escala e musculatura até criar uma vantagem competitiva. Unicórnio é só um nome da moda para uma prática que existe há mais de 120 anos. A indústria aeronáutica e a indústria de carros foram construídas com venture capital.”

O ciclo de nascimento de unicórnios é conhecido. Grandes fundos internacionais fazem aportes em startups promissoras, servindo de lastro para outros fundos investirem a um valuation maior, repetindo o processo até a empresa chegar ao almejado bilhão de dólares.

“Grandes empresas crescem devagar, mas têm estabilidade e crédito. Startups são totalmente instáveis e sem garantia para empréstimos”, diz Gitahy. “Mesmo assim, startups não se negam a fazer reajustes críticos, enquanto grandes empresas têm muito a perder com isso. A crise vai liquidar muitas startups, mas porque a premissa já existe: a maior parte delas não sobrevive a seus primeiros anos.”
“Esse modelo de investir em negócios que dão prejuízos funciona mais nos Estados Unidos”, diz Kepler. “No Brasil não temos essa cultura. Aqui, enquanto cresce, a startup precisa de investimento e pode não gerar caixa suficiente, mas isso tem um ciclo definido e combinado. Não é para sempre ou de forma dependente de novos investidores e investimentos.”

Chalfon acredita que em 2020 não veremos empresas se tornando unicórnios. “Os unicórnios devem desaparecer este ano porque a empresa só conquista esse marco em uma rodada late stage, e o Brasil não tem investidores late stages locais, ele depende do capital internacional”, diz ele. “Embora tenhamos fundos internacionais instalados aqui, o dinheiro e a decisão vem lá de fora. Esse investidor global pensava em crescer na América Latina, mas agora essas oportunidades podem aparecer no mercado americano. A disputa por esse dinheiro é global. Este ano, muito provavelmente, ninguém vai atingir esse valuation de unicórnio. A quantidade e o ritmo deles vão diminuir. Mas as empresas estão crescendo e evoluindo. Se elas não estão tendo rodada de captação é porque não estão precisando. Temos orientado os empreendedores a adiar possíveis rodadas late stage.”

Venture capital (VC) é por natureza um mercado anticíclico. São investimentos de longo prazo que raramente sofrem impacto do dia a dia e costumam ter bons resultados nas crises. “Se você olhar 2001, o pós-crash de 2008, verá que o VC é uma classe de ativos que performa muito bem nesses momentos porque é capaz de capturar o valor das empresas novas que vão dominar o mercado nos próximos dez anos”, diz Chalfon. “Temos falado com os nossos pares, e todo mundo está trabalhando muito. A perspectiva é boa, apesar da tristeza do ponto de vista de saúde das pessoas.”

“Ninguém aguenta mais ouvir falar em novo normal, mas a verdade é que ele representa uma aceleração de tendências que já existiam na sociedade”, diz Bueno. “Temos de entender que existem dois agentes bem diferentes na indústria de capital empreendedor. O investidor-anjo investe o seu próprio dinheiro. Eles estão sofrendo mais, seja por questões de liquidez ou impacto nos ativos que possuem. Já os fundos de VC pegaram a crise em um momento em que estavam bem capitalizados e estão enfrentando riscos menores.”

“Acredito que os investimentos devam se concentrar no seed e pré-seed neste e no próximo ano”, afirma Eduardo Fuentes, da Distrito. “Tem muita gente boa sendo demitida por causa da crise. Essas pessoas devem gerar uma nova onda de boas startups que devem se aproveitar desse movimento do mercado.”

## __ACELERAÇÃO DIGITAL__
Existem também startups que se beneficiaram da pandemia, como as que trabalham com teletrabalho, educação a distância, entregas etc. “Teve startup nossa que triplicou o faturamento na pandemia”, diz Kepler. Ele cita como exemplos a Trakto, que faz material de marketing para empresas tradicionais; a Supermenu, que entrega site e aplicativo para restaurantes; a Its4you e a Nvoip. “Nossas startups em ascensão atuam basicamente em três frentes: relacionamento com clientes, comunicação e comercialização. Quem não investiu nesse tipo de empresas perdeu oportunidades.”

Para Rodrigues, a crise é o maior gatilho para mudança de comportamento que existe. Ele relaciona a crise atual com sua experiência anterior no site de comparação de preços Buscapé. “O que catapultou a audiência e as receitas do Buscapé foram as inúmeras crises brasileiras. Quando a economia está bombando, o pai de família vai ao shopping e compra uma TV. Mas, se estamos em crise, ele para, pensa, pesquisa preço antes de decidir. Nos momentos de crise a curva financeira do Buscapé fazia um J, caía um pouquinho e depois subia muito. São momentos muito oportunos para causar mudanças de comportamento.”

Ele afirma, ainda, que mesmo empresas “neutras”, que não tiveram seu desempenho afetado pela pandemia, também se beneficiarão. “Startups de sistemas corporativos, por exemplo. Com a parada do mercado, as empresas têm mais tempo para procurar soluções mais baratas e eficientes.”

“Nosso plano estratégico não mudou”, diz Eric Santos, CEO da Resultados Digitais, startup que desenvolve ferramentas de marketing digital e vendas. “No início da crise percebemos uma dificuldade um pouco maior de clientes começando projetos novos e pedidos de negociação ou postergação de pagamento de empresas que foram afetadas pela quarentena. Aos poucos isso foi diminuindo e hoje trabalhamos em níveis normais de operação, com uma série de novas empresas querendo acelerar esse processo de adoção e transformação digital, algo que pode nos beneficiar no médio e longo prazo também.”

## __MUDANÇA DE PARADIGMA__
“Empresas faziam gambiarra digital, não tinham cabeça na nova economia”, diz Kepler. “Agora elas estão se relacionando muito mais com startups. Prevemos uma retomada muito maior daqui para frente. Na área de educação temos um fundo ao qual não param de chegar aportes.”

“O mundão corporativo vai abraçar a economia digital de uma maneira nunca vista antes”, diz Chalfon. “As grandes corporações falam muito de transformação digital, mas elas adotam pouca tecnologia de nuvem e compram pouco das startups, por terem muitas exigências e processos lentos. Acho que isso vai cair, porque as empresas precisam flexibilizar, o que deve impactar a demanda por produtos das startups.”

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## __O ZOOM DE 2030__
“Logística, teletrabalho, last mile delivery – todos os investidores já estavam apostando nessas tecnologias para o futuro, acreditando que elas iriam ter larga penetração em três ou cinco anos. O que impedia a adoção era a cultura, não era a maturidade da tecnologia. A pandemia as trouxe para os dias de hoje”, diz Igor Piquet, diretor de aceleração de negócios da Endeavor Brasil. “Meu avô que nunca pediu no iFood aprendeu a mexer com o aplicativo. Muita gente passou a fazer supermercado por aplicativo. Um percentual grande dessas novas atividades não vai voltar ao que era antes.”

Os investidores citam como áreas promissoras o trabalho remoto, o ensino a distância, a telemedicina, a logística de última milha, o entretenimento em casa, os serviços financeiros digitais. “Em momentos de crise há um processo de adoção em larga escala de novas tecnologias. Não vamos investir no Zoom. Estamos procurando as pessoas que estão fazendo o Zoom de 2030”, diz Chalfon. “Tecnologias capazes de gerar forte redução de custos são uma tendência. Teremos uma queda de renda e de rendimentos muito grande. Então, tudo aquilo que possa ajudar a racionalizar gastos e gerar economia vai fazer sentido.”

Para Victor Harano, da Distrito, o setor público também é uma área de oportunidade. “É cada vez mais difícil gerir documentos físicos. Startups que criarem plataformas para digitalização de documentos, desburocratização e gestão de recursos a distância vão ter muita aceitação. Quem conseguir inovar utilizando blockchain e inteligência artificial para tratar grandes volumes de dados vai ter grandes chances de emplacar.” Harano aponta também o setor de saúde como uma área promissora para startups, uma vez que a pandemia escancarou as fragilidades do segmento.

Uma outra área com grande potencial de atração de investimento é a de mobilidade. Na lógica antiaglomeração desencadeada pela pandemia, alternativas ao transporte público, que sejam eficientes e tenham um preço acessível, trariam a disrupção de que esse setor tanto precisa.

“Os investidores continuam olhando os segmentos que sempre os interessaram, mas fazendo uma adequação com as questões que estão sendo resolvidas, como o caso da regulamentação da telemedicina”, diz Bueno. “Todos os segmentos que trazem eficiência para os negócios – indústria 4.0, gestão de negócios, gestão de pessoas – estão experimentando um resultado extremamente positivo.”

Um setor muito impactado pela crise mas que, segundo os especialistas, ainda são poucas as boas soluções é o de EdTech. Apesar do aumento de demanda por conta do distanciamento social, esse é um mercado difícil, em que produtos e ofertas ainda precisam ser aprimoradas. Já as Agritechs sofreram pouco com a pandemia e seguem atraindo olhares e precisando de soluções cada vez mais tecnológicas.

Para Rodrigues, uma área promissora é a economia circular. “Vamos reconfigurar as relações que a gente tem, entre nós, e entre nós e o planeta”, diz ele. “No médio e longo prazo, a economia circular é uma área que deve crescer. Reutilização de roupas, reciclagem, plataformas de mobilidade que não impactem o meio ambiente, tudo isso está no nosso radar, apesar de não sermos um fundo de impacto.” O sócio da Redpoint acrescenta que não vai ser possível ganhar dinheiro no futuro sem causar impacto. “As pessoas vão cada vez mais buscar soluções de impacto positivo e mais inteligentes”, avalia Rodrigues.

## __NOVO NORMAL?__
Quais estratégias as startups que atravessam a atual crise devem adotar para garantir que chegarão competitivas ao final dela? “A primeira coisa é estender a pista”, diz Chalfon. “Garantir que você tenha o maior tempo possível de caixa não só para sobreviver ao momento mas para conseguir fazer uma boa captação lá na frente quando precisar, e não no calor da confusão atual. A segunda coisa é o produto. Realmente criar produtos superiores. O Brasil tem uma tendência a criar clones de coisas que estão lá fora que não atacam o mercado brasileiro. Acho que esse modelo se esgotou. As novas startups precisam criar produtos com qualidade mundial para aproveitar essa mudança no mindset das grandes corporações em adotar a tecnologia de nuvem.”

“Hoje o mercado está mais enxuto, só as empresas realmente boas conseguem levantar boas rodadas no meio da crise”, diz Rodrigues. “As medianas não terão sucesso. Isso pode mudar se a liquidez aumentar. Ainda estamos em um nível abaixo de novembro e dezembro de 2019. Temos rodadas relevantes acontecendo, tem atividade, mas ainda não chegamos naquele nível. As startups precisam melhorar sua eficiência de capital. Felizmente, as brasileiras são melhores nisso que as americanas. Como somos um país cheio de incertezas, as empresas têm sempre um plano B. Num momento incerto como o atual, salvar o caixa é fundamental, mesmo que isso signifique mudar de escritório e renegociar pagamentos.”

Cultura interna também deve ser uma preocupação, diz Gitahy. “Algumas startups em crescimento contratam muito rápido, recebendo centenas de novos colaboradores ao longo de um ano (quando executam planos de expansão ou recebem grandes aportes). As mais maduras definem metas e processos muito claros, esperando o cumprimento desses requisitos pelos novos colaboradores. Elas têm processos bem definidos de onboarding (adaptação do novo funcionário) e códigos de cultura facilmente assimiláveis. As demissões em massa causam uma má impressão, mas são decididas de acordo com o cumprimento desses critérios. Apesar do grande impacto percebido por quem está de fora, várias startups estão anunciando novas vagas simultaneamente às demissões, e com isso estão aproveitando para redimensionar a operação, reduzir o custo de payroll e aumentar a eficiência per capita.”

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