Artigo

O futuro do reporting

Relato integrado, digitalização, transparência radical. O capitalismo de stakeholders mudará a forma como as empresas prestam contas de seus resultados e de seu impacto na sociedade
Sócia líder de ESG na KPMG Brasil e professora no Boston College Center for Corporate Citizenship.

Compartilhar:

Nunca houve tanto interesse por informações sobre os compromissos éticos e os impactos sociais e ambientais das empresas. Nunca houve, também, tanta informação disponível. Mesmo assim, os relatórios corporativos – sejam eles de sustentabilidade, sejam financeiros ou híbridos – ainda são percebidos pelo público em geral como documentos burocráticos e estáticos, publicações que servem apenas para o trabalho de auditores e investidores.

Mas, em breve, esses relatórios não serão mais os mesmos. Nas últimas décadas, os relatórios corporativos vêm evoluindo para expressar não apenas os resultados financeiros, mas também o posicionamento das companhias sobre temas críticos para a sociedade e seu impacto no mundo. Quando bem elaborados, refletem a qualidade da gestão e da liderança, assim como os riscos e os dilemas do negócio.

Nos últimos anos, diversas iniciativas internacionais – envolvendo empresas, investidores, reguladores, organizações da sociedade civil e outros stakeholders – vêm discutindo a forma como as companhias prestam contas de suas atividades. Com o avanço da agenda ESG, mais mudanças devem ocorrer nos relatórios. Elas estão relacionadas a uma transformação dramática no contexto em que as empresas operam e a uma pressão crescente por consistência e transparência.

## O contexto mudou
O contexto geral em que vivemos será moldado por desafios de proporções inéditas, como a desigualdade social, a regeneração dos ecossistemas, a gestão de resíduos e as mudanças climáticas. As próximas décadas serão de dificuldades também na garantia dos diretos humanos, no direito ao trabalho e à justiça, no combate à discriminação, entre muitas outras.
Estudos mostram que já existe um certo consenso de que as empresas têm um papel determinante a desempenhar na implementação de soluções em todas essas áreas. Seja na proteção dos ecossistemas, seja no fortalecimento do tecido social e na transformação da economia, precisamos de líderes empresariais dispostos a se posicionar e a agir de uma forma muito clara, muito mais concreta do que vimos até hoje.

As companhias serão solicitadas a se engajar de forma pública e concreta em relação a tópicos específicos da agenda ESG – como ocorre neste momento com a temática do racismo e da discriminação, por exemplo – e a usar suas operações e ativos para ajudar a sociedade a resolver problemas complexos – como a pandemia e a redução das emissões. Na era da reputação, precisarão demonstrar cada vez mais coerência e consistência entre suas ações e sua comunicação.
Esse contexto exigirá muito mais dos líderes empresariais, independentemente do setor em que atuam. Eles precisarão compreender com muito mais profundidade as correlações entre os desafios do contexto atual – com seus temas ambientais, sociais e éticos – e os impactos do negócio. Serão pressionados a estabelecer metas ambiciosas e a provar que suas companhias criam – e não destroem – valor, tanto no curto quanto no longo prazo. Os relatórios terão que refletir esse compromentimento.

MAIS CONVERGÊNCIA
Os esforços das últimas décadas resultaram em diferentes diretrizes e modelos para o reporting das empresas. Informações financeiras e não financeiras vêm convergindo e busca-se cada vez mais uma linguagem comum. Nesse cenário de fragmentação, o alinhamento entre os diversos standards – sejam eles obrigatórios, como os do International Financial Reporting Standards (IFRS) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), sejam voluntários, como Global Reporting Initiative (GRI) – está se tornando uma prioridade.

Esse alinhamento é importante tanto para facilitar o trabalho das empresas (quem já elaborou relatórios de sustentabilidade sabe o esforço que isso envolve) quanto para garantir a comparabilidade das informações. O futuro ideal consistiria num padrão único, globalmente aceito e preferencialmente mandatório que fosse aplicável para todo setor ou região – mas ainda não é possível saber quando, e se, isso será possível para qualquer tema da agenda ESG.

Um passo importante foi dado em setembro de 2020, quando o Fórum Econômico Mundial, o International Business Council e as chamadas Big Four (as quatro maiores empresas de auditoria do mundo, entre elas a KPMG) lançaram as Stakeholder Capitalism Metrics (SCM). Trata-se de um conjunto de 21 métricas que representam desafios universais da agenda ESG e podem ser reportadas por companhias de qualquer setor (veja no box acima). Elas foram resultado de um processo de curadoria de padrões já existentes – como Global Reporting Initiative, SASB Standards e Task Force on Climate-related Financial Disclosures – que durou um ano e envolveu mais de 200 organizações.

As SCM ilustram como a ligação entre os desafios de sustentabilidade e a performance das empresas se tornará mais forte e mudará o entendimento atual das questões estrategicamente relevantes (conhecidas como questões materiais). Elas também tentam reforçar algumas características dos relatórios do futuro, que foram identificadas em um estudo elaborado há alguns anos com formadores de opinião globais. São elas:

__Objetividade__ – O tempo dos relatórios longos e das narrativas prolixas vai acabar. Eles tendem a se tornar mais curtos e focados no que realmente importa em termos financeiros, sociais, ambientais, éticos e de governança. As empresas precisarão encontrar o equilíbrio certo entre informações diretas e objetivas, com base em dados que possam ser facilmente verificados, e em descrições contextuais que permitam às partes interessadas compreender as ações empreendidas. Quanto mais focada a comunicação, menos chances as companhias têm de desinformar.

__Integração__ – A convergência entre informações financeiras e de ESG vai se aprofundar. O chamado relato integrado, promovido pela International Integrate Reporting Council (IIRC) e apoiado por diversas organizações, expressa essa tendência. Atualmente já vemos os reguladores dos relatórios financeiros – como a International Financial Reporting Standards e a Comissão de Valores americana (SEC, na sigla em inglês) fazerem movimentos na direção de inserção de dados antigamente considerados não financeiros em seus padrões. A integração do futuro não dirá respeito apenas ao relatório de uma única empresa. Nos próximos anos, veremos o surgimento de relatórios feitos por cadeias de fornecedores, parceiros de negócios ou mesmo setores inteiros. Isso dará clareza e aumentará a compreensão sobre os impactos de ecossistemas de negócios em regiões específicas, por exemplo.

__Digitalização__ – O avanço da tecnologia de dados e da comunicação digital também influencia a evolução dos relatórios e é importante tanto para o levantamento quanto para a divulgação das informações. No futuro, eles poderão deixar de ser documentos anuais ou trimestrais para se tornar peças dinâmicas de comunicação, disponíveis em vários formatos e acessíveis em tempo real. Ferramentas de inteligência artificial e data analytics permitirão levantar e agrupar informações a partir de diversos recortes. Veremos também avanços na taxonomia digital, com padrões que facilitarão muito a análise dos dados.

__Controle público__ – Na era digital, as empresas terão menos controle sobre as informações a respeito de seu desempenho. Elas deixarão, de certa forma, de ser as donas de seus relatórios. Ferramentas digitais poderosas permitirão que consumidores, imprensa e outros stakeholders acessem com mais facilidade as informações que lhes interessam sobre uma companhia. Será mais rápido analisar dados, comparar informações, correlacionar contextos e identificar responsabilidades. Em outras palavras, as companhias deverão se preparar para ter seus dados acessados e usados de forma muito diferente do que acontece atualmente.

MAIS DO QUE PRESTAR CONTAS do desempenho e dos impactos positivos e negativos das empresas, os relatórios poderão se tornar instrumentos que ofereçam as informações para narrativas que ajudem a inspirar a sociedade na construção de um mundo mais sustentável e mais justo. Seria uma contribuição e tanto para nosso futuro comum.

![Imagens-11](//images.contentful.com/ucp6tw9r5u7d/3eGszRoKKCzNqTEBS3E0Bk/35b45f6ed147181b2c1fa62661809da8/Imagens-11.png)

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quanto vale uma franquia da Omie?

Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Como a inteligência artificial pode destravar R$ 2,5 trilhões em crédito

Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Nem toda empresa precisa de um C-level

Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Hiperconectados, solitários e irrelevantes?

Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

A próxima revolução será humana?

Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Direito, Regulação & Compliance
2 de agosto de 2026 13H00
Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Sthefano Scalon Cruvinel - Doutrinador do Direito, Auditor Judicial com atuação no STJ e CEO da EvidJuri

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de agosto de 2026 08H00
Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Fernando Wosniak Steler - Co-Fundador e CEO da Delend

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
1º de agosto de 2026 14H00
Impulsionadas pelas exigências de investidores, certificações ambientais e adaptação climática, as edificações sustentáveis consolidam-se como ativos estratégicos para empresas que buscam eficiência, resiliência e geração de valor de longo prazo.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor e responsável técnico da HotFloor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de agosto de 2026 08H00
Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante 

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo