Desenvolvimento pessoal

O impacto das diferenças e da autossuficiência na (des)confiança

Essencial para os relacionamentos, e ao mesmo tempo intangível, frágil e dependente de inúmeros fatores pessoais, culturais e emocionais. Refletir sobre confiança é uma tarefa desafiadora, que vai além de receitas e fórmulas prontas.
Especialista em Inteligência Emocional e Saúde Mental para o Desenvolvimento de Equipes de Alta Performance. Com mais de 20 anos de atuação, desenvolve soluções estratégicas em liderança, educação corporativa e gestão emocional. Atua na formação de consultores, mentores e líderes conscientes por meio de projetos como People Shaper, Skill Flow e PODeSENTIR, promovendo engajamento e culturas mais humanas, com foco em conteúdo, posicionamento e inteligência emocional.

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Podemos pensar sobre a complexidade desse processo, por exemplo, relacionando a etimologia da palavra com o contexto atual.

Confiança vem do latim Confidere, e significa acreditar com firmeza em algo ou alguém. A questão é: em um contexto tão volátil, incerto, dinâmico, repleto de informações que circulam a cada segundo, as dificuldades de confiar (e os impactos dessa decisão) tornam-se cada vez maiores, e alguns dados mostram isso.

[De acordo com o Jornal Nexo](https://www.nexojornal.com.br/externo/2019/11/18/Por-que-devemos-ter-mais-confian%C3%A7a-nos-outros), levantamentos sobre o tema realizados nos Estados Unidos mostram que o nível de confiança interpessoal está no nível mais baixo em quase 50 anos.

O estudo “Wellcome Global Monitor 2018”, feito com 140 mil pessoas de 144 países destacou que 35% dos brasileiros desconfiam da ciência, e um em cada quatro acredita que a produção científica não contribui para o país.

Uma pesquisa produzida em 2019 pelo Instituto Ipsos e por uma organização francesa demonstrou que o brasileiro vê com profunda desconfiança suas principais instituições, tais como governo, mídia, poder legislativo, poder judiciário e polícia.

Se essas instituições sofrem com a baixa confiança, o Relatório Especial Trust Barometer 2020 feito pela Agência de Comunicação Edelman em 10 países no contexto da pandemia do coronavírus, incluindo o Brasil, ressalta que, ao mesmo tempo que as pessoas duvidam da veracidade das informações disponíveis nessas instâncias, elas consideram que as organizações que as empregam são fontes mais críveis para trazer atualizações importantes – por exemplo, a categoria “meu empregador” encontra-se 18 pontos à frente no índice de confiança em relação às empresas em geral e ONGs, e 27 pontos à frente do governo e da mídia.

Quer mais? Em 8 dos 10 países sondados a referida categoria “meu empregador” é vista como mais bem preparada para enfrentar o vírus do que a categoria “meu país”. Porém, essa crença das pessoas nas empresas que as mantêm está integrada a grandes expectativas e cobranças: 78% dos entrevistados no estudo esperam que as empresas tomem medidas efetivas para proteger os empregados e a comunidade local, 79% esperam a adaptação das operações nas rotinas do dia a dia, 73% desejam adaptações nas políticas de RH, e 53% das pessoas querem ter informações concisas e constantes sobre o impacto do vírus na capacidade de funcionamento da organização.

Em 2019, o relatório Trust Barometer da Edelman já sinalizava essa mesma tendência de conectar-se e confiar em marcas que estão preocupadas em fazer o que é certo e em deixar um impacto positivo na sociedade. Contudo, o mesmo levantamento deixou claro que as pessoas estão atentas às organizações que defendem uma causa por meio de discursos e anúncios, mas não protagonizam ações compatíveis – tanto é que 65% dos brasileiros afirmaram que as marcas usam questões sociais como manobra de marketing para vender mais.

Diante desse contexto, é urgente que os líderes das empresas se organizem de forma consciente, comprometida e estratégica para atuarem a fim de minimizar as lacunas e demandas que envolvem a temática da confiança no cotidiano.
Uma vez apresentado o cenário, a proposta desse artigo não é simplesmente destacar um passo a passo para que você potencialize esse processo no ambiente do seu negócio com uma “receita mágica infalível”. Ao invés disso, seguirei pelo caminho oposto: pensaremos juntos em dois pontos que costumam levar à DESCONFIANÇA no nosso dia a dia para que, a partir deles, você reflita sobre os desafios, os benefícios e as possíveis atitudes para desconstruir algumas lógicas excludentes e contraproducentes. Vamos lá?

## Tendemos a desconfiar de quem é diferente de nós (e perdemos muito com isso)

Você já deve ter passado pela situação de conhecer uma pessoa e, quase que instantaneamente, ter a sensação de que ela parece ser confiável ou não. Tem gente que chama isso de “intuição”, mas de acordo com estudos essa sensação ocorre em função do sistema de aprendizado do nosso cérebro, que utiliza experiências passadas para orientar escolhas futuras.

Esse sistema é tão forte que especialistas indicam que, em um processo de contratação ou na análise de uma proposta por exemplo, apesar do senso comum dizer que as competências costumam ser o principal ponto avaliado, elas apenas são analisadas a fundo uma vez que a confiança é minimamente estabelecida.

Assim, a percepção sobre a reputação de alguém, mesmo que não tenhamos muitas informações sobre esse indivíduo, se baseia na semelhança e familiaridade da pessoa com outros seres humanos que conhecemos, bem como no modelo que construímos das prováveis ações e motivações que essa pessoa pode ter em função dos estereótipos que carregamos e do carisma que ela parece ter. Assim, a gente tende a desconfiar daqueles que nos remetem a quem achamos desonestos ou que não nos parecem simpáticos em um primeiro momento; em contrapartida, costumamos confiar mais em quem se assemelha às pessoas nas quais acreditamos, e, de alguma forma, remetem à mesma cultura ou “tribo” à qual pertencemos.

Valorizar de maneira exacerbada quem é muito parecido conosco pode turvar a nossa capacidade de julgamento. O psicólogo canadense Paul Bloom destaca que o conceito de empatia, que costuma ser exaltado como a capacidade universalmente benéfica de colocar-se no lugar de alguém, sentindo o que o outro sente, pode ter inclusive um lado obscuro por conta dessa tendência em nos aproximarmos de pessoas semelhantes.

O autor afirma que muitas propagandas acabam destacando casos particulares que nos são familiares para nos mover através da emoção, ao invés de nos fazer buscar por dados, estudos, embasamentos científicos e soluções de forma mais séria e criteriosa.

Ainda segundo Paul Bloom, por conta de uma visão parcial, acabamos nos preocupando mais por algumas pessoas, mas ficamos insensíveis às consequências dessa decisão e ao sofrimento daqueles que vivem em uma realidade distinta da nossa.

Em outras palavras, muitas vezes favorecemos um sobre muitos.
Existem vários problemas em agir deixando-nos levar apenas pelas aparências e pelas emoções: podemos desconfiar de pessoas honestas que não se encaixam nos critérios e estereótipos que achamos válidos, e, da mesma forma, ter empatia e confiar em quem se enquadra nos critérios, mas é desonesto.

É muito comum usarmos o chamado “viés de confirmação” em nossos primeiros encontros, ou seja, interpretamos o contexto, os estímulos e as informações de maneira a confirmar crenças originais. Qualquer semelhança com a tendência que temos em acreditar em notícias falsas ligadas às nossas crenças não é mera coincidência.

![Cartoon de Daniel Paz](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/LkSbrpAhcoe8nnfbsMBOW/eb469742a5f20b9d6598afde76eee84f/artigohsm.JPG)

O viés de confirmação pode nos colocar em situações bastante desagradáveis, parciais e improdutivas, e precisamos tomar consciência dele, pois perdemos grandes oportunidades de aprendizado, convivência, evolução e inovação mantendo-se sensível e próximo apenas de pessoas semelhantes a nós em relação às características e às ideias.

Além disso, aprendemos mais quando confiamos do que quando não o fazemos, pois, com o tempo, descobrimos se nossa confiança é justificada ou não, conhecemos melhor os indivíduos, adquirimos informações diferentes, potencializamos nosso repertório, e entendemos em que tipos de situações devemos ou não acreditar.

Tendemos a exaltar muito mais os riscos e os custos de uma “confiança traída” do que os aprendizados que são inerentes à convivência com pessoas diferentes, e são esses aprendizados que nos tornam pessoas melhores.

Os erros, os conflitos e as decepções, apesar de serem execrados pela maioria das pessoas e instituições, são essenciais para o fortalecimento de descobertas e de laços sociais, e precisam ser valorizados.

O sociólogo Richard Sennett destaca que existe uma tendência de as organizações pregarem a confiança, o compromisso e a união como se esses valores estivessem ligados a um padrão de consenso, harmonia, motivação e concordância em todos os momentos. Porém, em meio aos conflitos, às inseguranças, às desconfianças e às distinções, as pessoas têm que se esforçar mais para comunicarem-se e, assim, quando elas sentem de maneira mais aguda suas diferenças, elas aprendem melhor a ouvir e a responder umas às outras, e é dessa forma que se estabelece o sentido de coletividade.

## A resistência em ser vulnerável leva à desconfiança

Historicamente, a maioria de nós foi educada para ser, ou ao menos parecer, forte, inatingível, independente, com ações que almejem a perfeição, que não deixem dúvidas, e que demonstrem opiniões fortes e dominadoras.

rém, a confiança possui uma forte relação com a vulnerabilidade em uma interação social. Em outras palavras, temos mais facilidade em criar identificação, admiração e em confiar em um líder que é humilde para reconhecer que possui uma natureza imperfeita, incompleta, passível de equívocos, e, assim, é capaz de sentir-se genuinamente culpado e arrependido quando comete um erro, assumindo a responsabilidade pelo que fez, demonstrando-se sensível às expectativas das outras pessoas e aprendendo com o fato, ao invés de tentar maquiar ou ocultar as falhas.

A aceitação da vulnerabilidade tem relação direta com a autenticidade e o conhecimento de si mesmo. Muitas vezes buscamos imitar modelos, seguir padrões inalcançáveis, e deixamos de ser verdadeiros em relação ao que acreditamos, aos conhecimentos que possuímos, aos valores humanos, e aos pontos nos quais precisamos evoluir interagindo com os demais.

É importante lembrar que a segurança e a arrogância não precisam andar juntas. Especialistas indicam que existe um viés cognitivo conhecido como “efeito Dunning-Kruger”, no qual os indivíduos, apesar de possuírem habilidades limitadas em um determinado tema, veem outras pessoas realizando certo trabalho ligado a esse tema e criam uma “ilusão de capacidade”, como se elas fossem superiores ou mais inteligentes a quem está, de fato, mais preparado do que elas. Em outras palavras, há uma sobrevalorização de competências em determinado aspecto.

Saber o quanto você ignora de um assunto e o quão vulnerável você é, permitindo-se construir relações mútuas de responsabilidade, apoio e crescimento, é essencial para gerar e manter confiança com sua equipe, bem como para desconstruir atitudes extremistas, egoístas e individualizantes.

O filósofo Clóvis Vitor Gedrat destaca que confiar em alguém pressupõe estar lado a lado, pactuando uma construção coletiva que precisa ser alimentada e realimentada dia após dia. Inclusive, em francês e em inglês, a palavra para noivo é “fiancé”, ou seja, ao estabelecer esse relacionamento assume-se o compromisso de que a outra pessoa vai te defender e te ajudar.

No campo das finanças, por sua vez, pagar a fiança de alguém é amparar em uma situação difícil. Assim, a colaboração e o amparo fazem parte da manutenção da vida.

## Alguns caminhos para desconstruir lógicas de desconfiança

Agora que refletimos um pouco sobre dois mecanismos que impactam diretamente na confiança, deixo aqui pontos de atenção que podem te auxiliar no dia a dia para que você (re)veja algumas de suas atitudes de uma maneira sistêmica, embasada e estratégica:

__Costumamos ter uma sensação de maior ou menor confiança em relação a alguém com base na primeira impressão__, nos estereótipos e no viés de confirmação, mas é fundamental que tenhamos consciência desse mecanismo para buscar dados e informações concretas que embasem nossas decisões de maneira justa e analítica. Tenha predisposição genuína para conceder o espaço, o tempo e a oportunidade para confiar nas pessoas.

Em outras palavras, busque agregar o máximo de informações e percepções para adotar uma lógica de inclusão, oportunizando, sempre que for possível e sensato, novas experiências aos demais, ao invés de excluir aqueles que você conhece pouco em função de julgamentos e referências anteriores.

Apesar da tendência que possuímos em nos relacionar e em formar equipes com quem é parecido conosco, é importante zelar pela diversidade. Vale ressaltar que o compartilhamento de conhecimentos entre pessoas bastante diferentes entre si não é automático, e os conflitos fazem parte desse processo. Saiba diferenciar os embates saudáveis entre ideias distintas das posturas dominadoras e silenciadoras, criando um ambiente inclusivo de escuta, respeito, compartilhamento e multiplicidade de perspectivas.

__Uma vez estabelecida uma relação de confiança, lembre-se que ela precisa ser alimentada__, ou seja, ela pressupõe um cuidado contínuo. Como somos seres essencialmente imperfeitos, em constante evolução, não é possível estabelecer todas as expectativas e antever todos os cenários, mas uma forma de minimizar as decepções envolve estabelecer alguns parâmetros e objetivos comuns, definindo projetos, desejos, papéis e responsabilidades entre os envolvidos.

Por mais dinâmico que o contexto seja, __procure definir certa ordem__, garantindo que cada pessoa saiba de que maneira contribui para o todo. Dee Hock, fundador da Visa, destaca que as organizações precisam estabelecer sistemas “caórdicos”, ou seja, é necessário que elas deem vazão à espontaneidade, ao improviso e à imprevisibilidade, mas, ao mesmo tempo, precisam ter certa sistematização para concretizar ações e planos, zelando pela continuidade dos processos.

__Valorize os aprendizados e o repertório construído não apenas nas relações em que as expectativas são majoritariamente mantidas__, mas também naquelas em que sua confiança foi traída. Essas situações são essenciais para que você se mantenha mais atento e consciente em suas próximas interações e saiba fazer alguns questionamentos pertinentes para conhecer melhor cada indivíduo, sem deixar que o medo de se decepcionar novamente e a tendência à generalização sejam maiores do que a potencialidade de evoluir junto às outras pessoas.

Busque manter um __equilíbrio__ coerente entre dar votos de confiança em nome das análises que você fez e dos aprendizados que pode obter, e receber a confiança daqueles que interagem contigo.

Vou adorar saber sobre suas reflexões, experiências e dificuldades em relação ao tema que tratamos. Mantenha contato comigo pelas mídias sociais. Seguimos juntos!

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