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O lado obscuro da TI

Por causa do uso excessivo, as tecnologias digitais estressam 65% das pessoas no ambiente de trabalho, segundo uma pesquisa, levando a um terrível paradoxo: quanto maior o uso de TI, menor a eficiência na empresa

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> Vale a leitura porque… 
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> … relata vários estudos segundo os quais as mesmas qualidades que tornam a TI útil (confiabilidade, portabilidade, facilidade de uso e processamento rápido) estão afetando a produtividade e o bem-estar das pessoas. … mostra que algumas empresas estão atentas a isso e começam a tomar medidas para evitá-lo.

Um estudo realizado em unidades de tratamento intensivo de dois grandes hospitais dos Estados Unidos mostrou que os médicos têm de fazer verdadeiros malabarismos entre monitores diversos para conseguir acessar todos os dados de um paciente e que a maioria deles se ressente disso. O que esses médicos sofrem pode ser chamado de “estresse tecnológico”, causado pelo uso intenso e quase contínuo dos sistemas de TI. Trata-se de um fenômeno generalizado, que vem apresentando a conta para profissionais de todos os tipos e para todas as formas de organizações. Entre as várias razões que levam a essa sobrecarga, quatro parecem destacar-se:

•  A pressão para executar múltiplas tarefas em fluxos de informações simultâneos e de diferentes dispositivos. 

•  A permanente conexão com os sistemas de TI e com o ambiente de trabalho, por conta da atuação a distância e em horários flexíveis. 

•  Os curtos ciclos das tecnologias, ocorridos mediante pressões dos fornecedores para modificar as interfaces, telas e funcionalidades, muitas vezes sem o apoio adequado. 

•  A existência de interfaces complexas que não se encaixam naturalmente nos fluxos de tarefas. 

À primeira vista, a tecnologia aumenta a eficiência desses profissionais e até lhes permite desfrutar atividades de lazer em pleno ambiente de trabalho, como o uso do Facebook – ainda que muitas empresas limitem o acesso a redes sociais, é possível conectar-se com dispositivos móveis. No entanto, a TI parece “viciar” esses mesmos profissionais. Um estudo com usuários de e-mail de empresas apontou que 46% apresentam sintomas compatíveis com dependência, em graus médio e elevado. 

Com a TI, as pessoas acabam levando trabalho para casa e respondendo a e-mails profissionais em períodos que seriam destinados ao descanso, durante a semana à noite (em média 23 minutos por dia), no trânsito (12 minutos), no fim de semana (42 minutos) e nas férias (43 minutos) Como acontece com outras formas de “vício”, o desejo pelo estímulo da TI torna-se cada vez mais difícil de ser satisfeito e as pessoas buscam novas maneiras de “turbinar” a dose. 

> **NO BRASIL POR HED FERRI**
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> A geração Y parece estar radicalizando o estresse com a TI no Brasil. Isso porque, embora os nascidos de 1980 para cá sejam mais preocupados com qualidade de vida, eles são mais viciados na vida digital. Os dados brasileiros da pesquisa mundial Consumerização de TI, realizada pela Wakefield Research a pedido da Avanade, provedora de soluções de TI, mostram que o uso de tecnologias de computação pessoal no trabalho é maior no Brasil do que em muitos países, chegando a 97% – nos EUA, por exemplo, é de 89%. 
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> Há um combinado implícito que é perverso: as empresas deixam que as pessoas usem redes sociais e sejam menos produtivas, porque elas compensam isso estendendo o horário de trabalho para entregar sua tarefa. E aí mora o problema, na opinião do consultor de RH Felipe Cortoni, líder da consultoria LCZ. “Isso está por trás de muitos transtornos mentais relativos ao trabalho. Não é só pelo overuse dos dispositivos de TI, mas pela ansiedade de ter de dar respostas tão velozes quanto a TI – e o tempo todo.” Para Irene Azevedo, diretora da consultoria LHH, os profissionais têm de limitar esse círculo vicioso, mais do que as empresas, seja selecionando seus empregadores, seja desligando o celular no fim de semana. Já Cortoni acha que as companhias devem agir: estresse com TI gera custos de saúde e segurança.

**POR QUE OS LÍDERES  PRECISAM FICAR ATENTOS** 

O fato é que o estresse tecnológico e o vício em TI representam sérios riscos para a produtividade e a inovação das empresas. Quanto mais tempo e esforço os colaboradores dedicam a se manter atualizados, a tentar compreender e utilizar os recursos tecnológicos, menos tempo têm para o trabalho que essas ferramentas deveriam apoiar. Um estudo envolvendo gestores seniores e de nível médio apontou que, quanto maior o uso de TI, menor a eficiência. Por exemplo, a pressa em responder às informações leva a processar, em geral de maneira ineficiente, apenas o que está disponível de imediato. 

Essa abordagem pode travar a inovação, processo que costuma exigir a avaliação lenta e pensada de dados variados e, se possível, completos. Outro problema é que a distração criada pelo uso da TI parece interferir na construção dos relacionamentos, comprometendo o desempenho das equipes. Além disso, o uso excessivo pode afetar o bem-estar dos colaboradores, aumentando o custo com recursos humanos. Há relatos de funcionários que deixaram o emprego por causa do estresse de ter de aprender aplicativos e fluxos de trabalho em alteração constante, e o estresse é motivo para licenças médicas. Também vale ressaltar os riscos monetários e de reputação, lembrando que o uso descontrolado da TI – seja com comentários indesejáveis nas redes sociais, seja com a revelação de informações confidenciais – pode gerar publicidade negativa e desvantagem competitiva para a empresa. 

É possível, ainda, que funcionários dependentes de sites de mídia social postem informações confidenciais que não têm autorização para compartilhar fora da organização. Medidas aparentemente inócuas, como comentários sobre um novo produto ou patente, potencialmente ajudam hackers a atentar contra a propriedade intelectual. Mais um perigo é o que envolve a integridade técnica e a viabilidade operacional do próprio sistema de TI, acarretando custos indesejáveis. 

Algumas práticas viciantes, como a visita a sites com jogos online ou pornografia, são ímãs para contrair malwares. Até iniciativas aparentemente pouco graves, como o uso de programas sem licença, o download de anexos de e-mail ou o compartilhamento de senhas com colegas de trabalho, podem colocar os dados e os sistemas em risco. A adoção de programas não licenciados pode levar a períodos de inatividade; o envio ou o recebimento de vírus apresentam o risco de tornar o sistema indisponível; e o compartilhamento de senhas compromete a eficácia das medidas de controle, além de dificultar as possibilidades de auditoria e a prestação de contas. 

**O QUE FAZER?**

As atitudes dos líderes das empresas são essenciais para promover comportamentos que revertam esse quadro. Cabe a eles capacitar os colaboradores para a atuação prudente e consciente em relação à TI e aos possíveis impactos positivos e negativos. Isso significa, sobretudo, mudar a postura em vez de apenas se concentrar nos benefícios gerados pela TI, o líder passa a enxergar o quadro inteiro. As lideranças devem:

•  Estimular os colaboradores a refletir não só sobre a forma de uso da TI em seu trabalho, mas de modo geral. 

•  Organizar e promover “usos conscientes da tecnologia”. 

•  Criar um ambiente capaz de fazer com que as pessoas compreendam realmente os recursos que utilizam no trabalho – as aplicações de TI não devem ter mais funcionalidades do que o necessário; os colaboradores precisam se apropriar dos dispositivos e aplicativos.

Não são iniciativas tão complexas assim. Os líderes podem orientar os profissionais do departamento de TI a intensivamente instruir os profissionais sobre os aspectos importantes dos sistemas e aplicativos, tanto para que as funcionalidades não sejam percebidas como desperdício pelos colaboradores quanto para que a segurança geral aumente. A propensão dos profissionais a fazer uso inadequado de recursos revelou-se cerca de 40% menor nos locais onde os líderes de TI se esforçaram para oferecer treinamento e orientação de segurança. 

Também é possível valer-se de um vídeo sobre os riscos do uso excessivo da tecnologia – um estudo mostrou que, em uma organização, um simples vídeo sobre o uso excessivo da internet elevou consideravelmente a disposição dos colaboradores em controlar sua presença na rede. Outra medida dos líderes pode ser promover fóruns para que os funcionários troquem experiências sobre TI: empresas cujos colaboradores foram estimulados a compartilhar seu aprendizado com novos aplicativos registram níveis de estresse 20% inferiores aos das demais. 

> **RH É RESPONSÁVEL**
>
> Cabe ao RH avaliar as consequências do estresse tecnológico na empresa? Segundo os autores deste artigo, sim. Os gestores de pessoas precisam atuar em conjunto com os responsáveis pela tecnologia da informação para desenvolver métricas capazes de aferir esse estresse regularmente e um sistema de monitoramento de quando os colaboradores são negativamente afetados – com prejuízo à produtividade e à inovação. Também devem criar programas de combate ao estresse.

**TREINAMENTO E GUARDRAILS  NÃO BASTAM**

É preciso entender, por fim, que as medidas protocolares da maioria das organizações na área de TI são insuficientes para lidar com o desafio atual – sejam os programas de treinamento tradicionais, sejam os guardrails técnicos.

Os treinamentos em geral são apresentados em “dose única”, solucionando apenas parte das necessidades de formação. Para a maior parte dos aplicativos, os funcionários precisam entender como combinar e usar recursos e funções de maneiras diferentes do padrão, a fim de acomodar suas tarefas e atividades específicas. E aprender a usar o sistema fora do padrão usual implica um processo de ajustes para encontrar recursos, soluções alternativas e atalhos. 

A adoção de guardrails técnicos também desempenha um papel importante na redução do uso indevido dos recursos, e os líderes de TI podem criar um ambiente no qual a organização se mantenha vigilante para o problema. No entanto, nossa experiência mostra que o maior conhecimento dos colaboradores nesses guardrails – envolvendo-os na concepção e implementação de medidas preventivas – é crucial. Está mais do que na hora de as empresas enfrentarem o lado obscuro da tecnologia.

> **Você aplica quando…**
>
> … entende que isso pode representar sérios riscos para a produtividade e a inovação. …. toma medidas pessoais, como definir momentos de desconectar-se. … toma medidas organizacionais, como proibir que certos colaboradores respondam a e-mails fora do horário de trabalho.

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