Vale Ocidental

O mito da única aposta

A coragem de investir em projetos ousados faz parte da capacidade de inovação dos negócios – e das lideranças – no Vale do Silício
__Ellen Kiss__ é empreendedora e consultora de inovação especializada em design thinking e transformação digital, com larga experiência no setor financeiro. Em agosto de 2022. após um período sabático, assumiu o posto de diretora do centro de excelência em design do Nubank.

Compartilhar:

O Silicon Valley está cheio de empreendedores bem-sucedidos. Steve Jobs da Apple, Jack Dorsey do Twitter, Anne Wojcicki do 23andMe, Brian Chesky do Airbnb, Mark Zuckerberg do Facebook/Meta, Larry Page do Google e tantos outros menos conhecidos, mas igualmente geniais. Tornaram-se referências por serem visionários e lançarem produtos e serviços de grande impacto e em escala global. Suas criações mudaram o mundo para sempre. Além disso, o compromisso deles com excelência em tecnologia e inovação foi determinante para a abordagem de muitas outras startups que surgiram na sequência. São admirados mundialmente por terem criado “A” ideia certa.

O que muita gente não percebe é que o sucesso desses empreendedores não é resultado apenas da criação de uma única ideia. A jornada para chegar aonde chegaram incluiu uma série de decisões – grandes e pequenas –, em cenários que apresentavam tanto alternativas conservadoras quanto caminhos mais ousados. As possibilidades conservadoras preservavam o status quo, enquanto as outras abriam oportunidades para espaços até então inexistentes e, portanto, exigiam rotas mais incertas e obscuras com a presença do desconforto e do medo. Pense na última vez que você dirigiu em uma rodovia com neblina. Não conseguir enxergar mais que alguns metros adiante é angustiante. Exige muito mais concentração e foco.

Apesar do desconforto, esses empreendedores não tiveram medo de errar e optaram pela inovação. Optaram pelo risco, não somente uma única vez, mas em múltiplas situações. O resultado disso é que, ao assumir vários riscos, pequenos ou grandes, são geradas novas oportunidades que antes eram imprevistas. Cada risco revela uma nova alternativa que, por sua vez, desvenda a próxima.

Ao contrário do que muita gente pensa, o caminho percorrido por eles não estava totalmente planejado desde o início. Foi sendo construído à medida que cada nova oportunidade era descoberta. Muito antes de cofundar o Twitter, Evan Williams havia cofundado a plataforma de podcasting Odeo, fechada mais tarde ao perder seus negócios para o iTunes da Apple, recém-lançado na época. E antes de cofundar a Odeo, ele havia fundado outra empresa, a Pyra Labs, que também faliu e fechou. A parte interessante é que duas de suas empresas bem-sucedidas hoje foram projetos paralelos de projetos principais que falharam. O Blogger foi um projeto paralelo da Pyra Labs, assim como o Twitter foi da Odeo. Mesmo com a falência de duas empresas, o empresário tem plataformas online de muito sucesso: além do Blogger e do Twitter, seu mais recente projeto é o Medium.

Precisamos desconstruir o mito da resposta certa, de acharmos que temos uma única chance e que nossa escolha vai definir o sucesso ou o fracasso de nossas empresas, de nossas carreiras ou de nossas vidas. Esse pensamento nos coloca uma pressão enorme para tomarmos a decisão certa e, ao invés de nos movimentar, nos paralisa. O processo de escolher, assumindo risco ou não, é incerto por natureza, e qualquer escolha que fizermos pode funcionar ou não de acordo com nossa expectativa. Como disse Harriet Lerner, “reconhecer nossa própria incerteza e ficar com ela por um tempo é um ato de coragem”.

Em vez de ficarmos paralisados e angustiados para fazer as grandes escolhas, temos de nos focar em escolher quais são os pequenos riscos que estamos dispostos a assumir em busca de nossos objetivos. Não podemos nos enganar achando que iremos alcançar todas as nossas ambições por meio de uma única tacada, com um golpe de mestre. Devemos simplesmente ter a coragem para começar a assumir os pequenos riscos. Ao fazer isso, ao assumir pequenos riscos, começamos a construir nossa musculatura emocional e aprender que arriscar não é apostar “tudo ou nada”.

Cada risco assumido gera aprendizado, impacto e insights que determinarão nossas escolhas futuras. Em vez de pensar que cada escolha nos possibilita ganhar ou perder, se pensarmos que cada escolha nos oferece a oportunidade de ganhar ou de aprender com os resultados, deixamos de lado o medo de que uma única situação vai nos empoderar ou nos destruir. Brian Acton, cofundador do WhatsApp, era VP de tecnologia do Yahoo. Depois de deixar o emprego, foi rejeitado na entrevista para um cargo no Facebook e depois no Twitter. Alguns anos depois, ele lançou o WhatsApp, que se tornou uma das maiores plataformas de mensagens do mundo, vendido para o Facebook por US$ 19 bilhões.

Assumir riscos é um processo contínuo que temos de abraçar humildemente. Sabemos que temos grandes chances de falhar, mas a probabilidade de sucesso no final aumentará à medida que experimentarmos, pois, a cada falha, crescemos, evoluímos e nos tornamos mais assertivos nas escolhas. Como Ralph Waldo Emerson escreveu certa vez: “Toda a vida é um experimento. Quanto mais experimentos você fizer, melhor”.

Assumir riscos não é apenas para irresponsáveis em busca de adrenalina. Deve ser para todos nós. Faça uma autoavaliação do modo como você analisa e aceita o risco em sua vida. Caso perceba que está posicionado no espectro conservador, tente simplesmente se colocar em movimento, ao invés de aguardar o momento certo para tomar uma única, grande e arriscada decisão. E não tenha a expectativa de ser perfeito em suas escolhas, simplesmente continue escolhendo. Talvez essa atitude o leve a acumular mais falhas que outras pessoas a seu redor que assumem menos riscos, mas no longo prazo você descobrirá um número muito maior de possibilidades do que imaginava.

Ao se tornar mais adepto do risco, você construirá uma temporada vencedora, não somente alcançar um bom resultado em um único jogo. Mesmo perdendo algumas partidas, receberá benefícios importantes e acabará vencendo no longo prazo. Subestimar nosso medo e assumir riscos em cada uma de nossas escolhas é uma habilidade não apenas essencial para acelerar nosso crescimento e sucesso pessoal, mas também para encontrar uma maneira de prosperar em tempos cada vez mais dinâmicos e incertos.

Lembre-se: você não precisa ter muita confiança. Você só precisa de um pouco de coragem.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz um compilado dos principais insights que emergiram da edição do ATD Summit 2026. Realizada em Los Angeles, entre os dias 17 e 20 de maio, as reflexões desse evento global precisam entrar, com urgência, na agenda de líderes e organizações.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de maio de 2026 14H00
Ao propor o conceito PACE, este artigo argumenta que a inteligência artificial não apenas intensificou o caos, mas criou uma nova infraestrutura de ação - deslocando o foco da sobrevivência para a capacidade de operar, decidir e criar valor em um mundo reprogramável.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT e membro do Conselho de Administração da IMA

13 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
27 de maio de 2026 08H00
A crise do trabalho não é de esforço - é de estrutura. Este artigo mostra que nunca se investiu tanto em produtividade, e nunca o trabalho pareceu tão insustentável.

Tiago Amor - CEO na Lecom

3 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.

Luiz Costa - Gerente de Inovação da Dome Ventures e Lincoln Ferdinand - Gerente de Marketing da Dome Ventures

3 minutos min de leitura
Estratégia, Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de maio de 2026 07H00
Ao criticar abordagens superficiais e reativas, este artigo mostra por que cumprir a norma não basta - e como organizações precisam ir além do diagnóstico de risco para construir, de fato, ambientes que sustentem o florescimento humano.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

11 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
25 de maio de 2026 17H00
Diante da crescente complexidade dos negócios, este artigo propõe uma mudança estrutural: sair de modelos organizacionais fragmentados para desenvolver a nexialidade - a capacidade de conectar inteligências, integrar decisões e operar como um sistema coletivo em rede.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

7 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
Quando a inteligência deixa de ser centralizada, a criatividade deixa de ser limitada - e a organização inteira passa a responder melhor ao mundo real.

Marcos Brabo - Chief Strategy Officer (CSO) e sócio da Agência Ginga

4 minutos min de leitura
Estratégia
25 de maio de 2026 08H00
Ao olhar para o fitness como laboratório de comportamento, este artigo revela por que engajamento real não nasce da atração inicial, mas da capacidade de transformar intenção em rotina por meio de conveniência, personalização e pertencimento.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de Pessoas
24 de maio de 2026 12H00
Quando a energia do Mundial entra no cotidiano corporativo, o humor, empatia e pertencimento se modificam; e quem ganha é a corporação, com o incremento do comprometimento de colaboradores e impactados

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

0 min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de maio de 2026 08H00
Este artigo propõe uma nova lógica de liderança: menos controle, mais calibração - onde a inteligência artificial não reduz a agência humana, mas redefine a forma como decidimos, pensamos e lideramos em contextos de incerteza.

Carlos Cruz - Pesquisador, Escritor e Consulting Partner Executive na IBM

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão