Inovação

O oba-oba das startups chegou ao fim?

Juros altos, guerra, pandemia, gestões falhas, baixa performance. As startups estão lidando com uma nova realidade – e vão precisar se adequar para sobreviver
Sandra Regina da Silva é colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

Tem quem diga que o grande “auê” das startups, marcado pelo crescimento acelerado graças a aportes polpudos de capital de investidores, passou. Terá sido uma bolha? Ou apenas uma certa acomodação para se ajustar às realidades do mercado?

“Vivemos um momento de alta de juros, o que esfria a atividade econômica. Nesse cenário, os investidores ficam menos propensos a ativos de maior risco, buscando uma alocação mais criteriosa do dinheiro”, analisa Gustavo Gierun, CEO da plataforma de inovação Distrito.

Por conta disso, “as captações tendem a ser mais longas e rigorosas, o que pode impactar as operações financeiras das startups”, diz o executivo. O Distrito mapeia os dados de venture capital no Brasil, todo mês, atualizando número de investimentos, rodadas, M&As, principais transações e setores de destaque, entre outras análises.

Bruno Rondani, CEO e fundador da 100 Open Startups, plataforma de open innovation, não vê que fatores como alta de juros, guerra na Ucrânia, crise das commodities ou o preço do petróleo foram responsáveis por descortinar o atual cenário das startups. “A taxa de juros influencia quando se tem um mercado consolidado, tomando decisões nacionais”, afirma.

Entretanto, Rondani conta que o que surpreende um pouco é a fase de não matriculação – ou seja, várias startups não terem captado a próxima rodada de investimentos no momento esperado. Não que esteja faltando dinheiro, garante.
“Os fundos que atuam no mercado brasileiro já estavam captados, num ciclo que dura de cinco a seis anos. Eles têm que investir nesse período, porque são pagos para isso.”

A questão pode não ser a falta de dinheiro, mas o excesso. Para ele, o atraso nas alocações de recursos é, provavelmente, por baixa performance das startups, o que está relacionado ao excesso de dinheiro num negócio que não estava maduro o suficiente. “Os fundos vão pôr mais, mas estão dando um puxão de orelha nas startups, querem que elas façam ajustes de gestão”, diz.

## Reajuste de rota
Para uma startup atrair a atenção de investidores, portanto, seu empreendedor terá que mostrar capacidade em ser um bom gestor de recursos, substituindo o que vinha sendo até então valorizado, que era o crescimento acelerado a todo custo. “Modelos de negócio que preveem uma queima de caixa para escalar rapidamente serão preteridos em relação aos resilientes, que conseguem uma operação sustentável”, avalia Gierun.

É por isso que os empreendedores, sem a entrada de novos recursos como esperavam, agora estão tendo de reequilibrar as contas, com o objetivo de criar sustentabilidade financeira, em detrimento do crescimento. “As startups estão ajustando suas operações, prevendo um crescimento menos acelerado, mas o mais rentável possível”, diz.

O que se espera é que os empreendedores sejam hábeis em adaptar os modelos de negócio para o cenário em que se encontram: queimar menos caixa e aproveitar o máximo possível dos recursos de que já dispõem, segundo o CEO do Distrito.
Por causa da situação atual, Gierun prevê ainda que o “smart money” também deva ganhar espaço nessa seara. Isso porque os fundos de venture capital serão cobrados pelo desempenho de seu portfólio.

“As gestoras mais presentes no dia a dia podem ajudar a organizar as startups, aumentando as chances de sobrevivência nesse cenário desafiador. Já investidores menos ativos podem passar por mais dificuldades, reduzindo o retorno desses aportes.”

Esse redirecionamento do foco é o que está levando, como um dos reflexos, à onda de demissões a que temos assistido. Isso até era esperado, na opinião de Gierun, quando há transição de ciclos como agora.

Rondani concorda. “Faz parte da lógica. A cada nova captação, uma startup contrata pessoas, mas quando não entra o investimento seguinte, tem que demitir”. Ele completa, ainda, que “são startups do mesmo ‘rebanho’, do mesmo lote. Com a travada das portas do venture capital, vieram 2 mil ou 3 mil demissões, o que assusta todo mundo”. Mas faz parte do jogo.

## Cautela à vista
Fato é que as apostas de risco, características do venture capital, não estão vivendo uma crise. Um exemplo são 12 mil investidores brasileiros qualificados (que têm mais de R$ 1 milhão aplicados) que recentemente colocaram dinheiro no fundo de investimento em participações Headline XP (parceria entre a XP Asset e a Headline Venture). O fundo captou R$ 915 milhões, acima dos R$ 834 milhões inicialmente estimados.

Isso apesar da perda na valoração até das carteiras internacionais mais avançadas, o que ocorreu em todo o mercado de tecnologia, como Apple, Zoom e Magalu, entre tantas outras.

É no valuation das startups que está um grande desconforto. “O mercado de capitais é uma coisa linda do capitalismo, que é distribuir a riqueza pelo mercado, o que dá liquidez para a jornada investidora. Mas agora tem quem esteja jogando o valuation para 20 anos na frente, prejudicando o mercado de capitais. Muitas startups entraram com esse, digamos, problema”, avalia Rondani.

Ele cita, como exemplo, o caso do Nubank, cujo IPO foi postergado enquanto o banco buscava investidores privados. Quando a fintech finalmente estreou na Bolsa de Nova York, em dezembro de 2021, quem entrou “quebrou a cara”, nas palavras de Rondani. “O Nubank deixou para o mercado de capitais só o osso. Agora, vem dizer que daqui a dez anos se recupera o dinheiro, só que isso não foi dito no IPO”. Seis meses depois, as ações do banco caíram mais de 50%.

Isso, segundo Rondani, é um fenômeno que tem acontecido com certa frequência, o que leva à perda de confiança no mercado. “Eu sustento que vai cair depois dos IPOs de tech. Então, fuja deles.”

A realidade do mercado, porém, não vai impedir o surgimento de novas startups. Mas pode ser mais difícil escalar o negócio daqui para frente, na opinião de Gierun.

Uma alternativa é partir para spin-offs (startup que nasce dentro de uma empresa tradicional, mas como um negócio secundário). Para o CEO do Distrito, “são uma maneira inteligente de blindar novos projetos das dificuldades do mundo corporativo. Com isso, é possível criar budget e time dedicados com um nível de ruído e distrações menor, aumentando a chance de sucesso”.

Já Rondani, que não vê o venture capital como uma mola propulsora sustentável, acredita em promover startups num ecossistema envolvendo empresas, executivos, cientistas e governo de forma colaborativa, inserindo o empreendedorismo de novas ideias num modelo em rede. Isso alavancaria negócios que impactam desafios reais vividos pela sociedade e pelo mercado.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A IA vai pelo mesmo caminho do ERP e da transformação digital?

O entusiasmo com inteligência artificial segue um ciclo já visto antes. Este artigo mostra por que o próximo desafio das empresas não é implementar a tecnologia – mas transformar uso em resultado, superando velhos erros de gestão que já limitaram outras ondas de inovação.

Estamos aprendendo mais (e entendendo menos)

Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de junho de 2026 15H00
O entusiasmo com inteligência artificial segue um ciclo já visto antes. Este artigo mostra por que o próximo desafio das empresas não é implementar a tecnologia - mas transformar uso em resultado, superando velhos erros de gestão que já limitaram outras ondas de inovação.

Marcus Garcia - Diretor Comercial da Konia Tecnologia

3 minutos min de leitura
Lifelong learning
17 de junho de 2026 09H00
Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.

Daniel Luzzi - CEO Cognita Learning Lab

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
16 de junho de 2026 15H00
O mercado discute o futuro - mas continua ignorando quem já está pronto para trabalhar. Este artigo chama atenção para um movimento ignorado: a crescente presença da geração 60+, e o custo de continuar excluindo um dos recursos mais experientes e disponíveis da força de trabalho.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de junho de 2026 09H00
Na estreia da coluna, as autoras, Cecília Seabra e Thais Giuliani, propõem uma mudança de paradigma na liderança: sair das explicações rápidas e dos julgamentos para construir relações mais consistentes por meio da escuta, da curiosidade e da integração de diferenças.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
15 de junho de 2026 15H00
Colesterol, cardiologista, academia. Tudo certo. Só falta mencionar o que, de fato, está tirando as pessoas de campo.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
15 de junho de 2026 08H00
A liderança não cabe mais em rótulos e quem ainda pensa assim pode estar ficando para trás. Este artigo mostra como a valorização de perfis não lineares e a capacidade de integrar múltiplas experiências redefinem o conceito de talento nas organizações.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
14 de junho de 2026 15H00
Mais do que falta de talento ou tecnologia, este artigo revela o verdadeiro risco das organizações modernas: pessoas que deixam de dizer o que pensam. Este artigo demonstra como isso compromete decisões, inovação e resultados sem que ninguém perceba.

Valter Bahia Filho – Autor e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
14 de junho de 2026 08H00
Ao revisitar o colapso e a reinvenção da Japan Airlines, este artigo revela, à luz dos princípios do Aikido, que a verdadeira transformação organizacional não começa na estratégia, mas na superação do ego - quando liderança, propósito e consciência coletiva entram em fluxo.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
13 de junho de 2026 15H00
Inspirado por um colapso histórico no esporte, este artigo revela um dos riscos mais silenciosos das organizações: equipes talentosas deixam de performar quando a confiança desaparece - e a liderança não cria um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar, participar e contribuir de verdade.

Dr. Cristiano Nabuco - Reitor da Artmed School of Psychology (APSY)

6 minutos min de leitura
Marketing & growth
13 de junho de 2026 08H00
Em um cenário de mercado mais seletivo e volátil, este artigo mostra por que resultados consistentes não dependem de talento individual, mas da capacidade da liderança comercial de estruturar processos, diagnosticar com precisão e transformar vendas em uma operação científica.

Natalia Coca - Fundadora da FunFlow, estrategista de vendas e palestrante

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão