Inovação

O oba-oba das startups chegou ao fim?

Juros altos, guerra, pandemia, gestões falhas, baixa performance. As startups estão lidando com uma nova realidade – e vão precisar se adequar para sobreviver
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

Compartilhar:

Tem quem diga que o grande “auê” das startups, marcado pelo crescimento acelerado graças a aportes polpudos de capital de investidores, passou. Terá sido uma bolha? Ou apenas uma certa acomodação para se ajustar às realidades do mercado?

“Vivemos um momento de alta de juros, o que esfria a atividade econômica. Nesse cenário, os investidores ficam menos propensos a ativos de maior risco, buscando uma alocação mais criteriosa do dinheiro”, analisa Gustavo Gierun, CEO da plataforma de inovação Distrito.

Por conta disso, “as captações tendem a ser mais longas e rigorosas, o que pode impactar as operações financeiras das startups”, diz o executivo. O Distrito mapeia os dados de venture capital no Brasil, todo mês, atualizando número de investimentos, rodadas, M&As, principais transações e setores de destaque, entre outras análises.

Bruno Rondani, CEO e fundador da 100 Open Startups, plataforma de open innovation, não vê que fatores como alta de juros, guerra na Ucrânia, crise das commodities ou o preço do petróleo foram responsáveis por descortinar o atual cenário das startups. “A taxa de juros influencia quando se tem um mercado consolidado, tomando decisões nacionais”, afirma.

Entretanto, Rondani conta que o que surpreende um pouco é a fase de não matriculação – ou seja, várias startups não terem captado a próxima rodada de investimentos no momento esperado. Não que esteja faltando dinheiro, garante.
“Os fundos que atuam no mercado brasileiro já estavam captados, num ciclo que dura de cinco a seis anos. Eles têm que investir nesse período, porque são pagos para isso.”

A questão pode não ser a falta de dinheiro, mas o excesso. Para ele, o atraso nas alocações de recursos é, provavelmente, por baixa performance das startups, o que está relacionado ao excesso de dinheiro num negócio que não estava maduro o suficiente. “Os fundos vão pôr mais, mas estão dando um puxão de orelha nas startups, querem que elas façam ajustes de gestão”, diz.

## Reajuste de rota
Para uma startup atrair a atenção de investidores, portanto, seu empreendedor terá que mostrar capacidade em ser um bom gestor de recursos, substituindo o que vinha sendo até então valorizado, que era o crescimento acelerado a todo custo. “Modelos de negócio que preveem uma queima de caixa para escalar rapidamente serão preteridos em relação aos resilientes, que conseguem uma operação sustentável”, avalia Gierun.

É por isso que os empreendedores, sem a entrada de novos recursos como esperavam, agora estão tendo de reequilibrar as contas, com o objetivo de criar sustentabilidade financeira, em detrimento do crescimento. “As startups estão ajustando suas operações, prevendo um crescimento menos acelerado, mas o mais rentável possível”, diz.

O que se espera é que os empreendedores sejam hábeis em adaptar os modelos de negócio para o cenário em que se encontram: queimar menos caixa e aproveitar o máximo possível dos recursos de que já dispõem, segundo o CEO do Distrito.
Por causa da situação atual, Gierun prevê ainda que o “smart money” também deva ganhar espaço nessa seara. Isso porque os fundos de venture capital serão cobrados pelo desempenho de seu portfólio.

“As gestoras mais presentes no dia a dia podem ajudar a organizar as startups, aumentando as chances de sobrevivência nesse cenário desafiador. Já investidores menos ativos podem passar por mais dificuldades, reduzindo o retorno desses aportes.”

Esse redirecionamento do foco é o que está levando, como um dos reflexos, à onda de demissões a que temos assistido. Isso até era esperado, na opinião de Gierun, quando há transição de ciclos como agora.

Rondani concorda. “Faz parte da lógica. A cada nova captação, uma startup contrata pessoas, mas quando não entra o investimento seguinte, tem que demitir”. Ele completa, ainda, que “são startups do mesmo ‘rebanho’, do mesmo lote. Com a travada das portas do venture capital, vieram 2 mil ou 3 mil demissões, o que assusta todo mundo”. Mas faz parte do jogo.

## Cautela à vista
Fato é que as apostas de risco, características do venture capital, não estão vivendo uma crise. Um exemplo são 12 mil investidores brasileiros qualificados (que têm mais de R$ 1 milhão aplicados) que recentemente colocaram dinheiro no fundo de investimento em participações Headline XP (parceria entre a XP Asset e a Headline Venture). O fundo captou R$ 915 milhões, acima dos R$ 834 milhões inicialmente estimados.

Isso apesar da perda na valoração até das carteiras internacionais mais avançadas, o que ocorreu em todo o mercado de tecnologia, como Apple, Zoom e Magalu, entre tantas outras.

É no valuation das startups que está um grande desconforto. “O mercado de capitais é uma coisa linda do capitalismo, que é distribuir a riqueza pelo mercado, o que dá liquidez para a jornada investidora. Mas agora tem quem esteja jogando o valuation para 20 anos na frente, prejudicando o mercado de capitais. Muitas startups entraram com esse, digamos, problema”, avalia Rondani.

Ele cita, como exemplo, o caso do Nubank, cujo IPO foi postergado enquanto o banco buscava investidores privados. Quando a fintech finalmente estreou na Bolsa de Nova York, em dezembro de 2021, quem entrou “quebrou a cara”, nas palavras de Rondani. “O Nubank deixou para o mercado de capitais só o osso. Agora, vem dizer que daqui a dez anos se recupera o dinheiro, só que isso não foi dito no IPO”. Seis meses depois, as ações do banco caíram mais de 50%.

Isso, segundo Rondani, é um fenômeno que tem acontecido com certa frequência, o que leva à perda de confiança no mercado. “Eu sustento que vai cair depois dos IPOs de tech. Então, fuja deles.”

A realidade do mercado, porém, não vai impedir o surgimento de novas startups. Mas pode ser mais difícil escalar o negócio daqui para frente, na opinião de Gierun.

Uma alternativa é partir para spin-offs (startup que nasce dentro de uma empresa tradicional, mas como um negócio secundário). Para o CEO do Distrito, “são uma maneira inteligente de blindar novos projetos das dificuldades do mundo corporativo. Com isso, é possível criar budget e time dedicados com um nível de ruído e distrações menor, aumentando a chance de sucesso”.

Já Rondani, que não vê o venture capital como uma mola propulsora sustentável, acredita em promover startups num ecossistema envolvendo empresas, executivos, cientistas e governo de forma colaborativa, inserindo o empreendedorismo de novas ideias num modelo em rede. Isso alavancaria negócios que impactam desafios reais vividos pela sociedade e pelo mercado.

Compartilhar:

Artigos relacionados

E se envelhecer não fosse apenas uma consequência do tempo?

Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Por que a IA se tornou membro essencial em equipes de manutenção preditiva?

A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Smart Sampa: vazamento de senhas expõe o desafio de proteger uma cidade monitorada por milhares de câmeras

O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Bem-estar & saúde
29 de outubro de 2026 15H00
Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Natalia Gonçalves - Superintendente Pesquisa & Desenvolvimento e Diretora Instituto de Ensino e Pesquisa (IEPD) da Dasa

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
29 de outubro de 2026 08H00
A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Bernardo Murta - Principal Engineer da Dynamox

3 minutos min de leitura
Estratégia
28 de outubro de 2026 15H00
Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

Alexandre Farias Benjamim, - Sociólogo e membro do Conselho Fiscal da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de outubro de 2026 08H00
A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Marcelo Martini - Gerente de Vendas do Aftermarket da FUCHS

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de outubro de 2026 15H00
O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Afonso Morais - Fundador do escritório Pardi e Morais Consultores Jurídicos e Criador e apresentador do podcast Falando de Fraudes

6 minutos min de leitura
Estratégia
27 de outubro de 2026 08H00
Na teoria, cada contato acontece no momento certo e segue o fluxo previsto. Na prática, volume, prioridades e limitações operacionais exigem adaptações constantes. O desafio das empresas não é criar estratégias perfeitas, mas garantir que elas resistam às pressões do dia a dia sem perder seu propósito original.

Guilherme Busch - VP da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de outubro de 2026 15H00
Quando a visibilidade se transforma em critério implícito de reconhecimento, profissionais podem passar a priorizar projetos que geram exposição em detrimento daqueles que realmente precisam ser feitos. O artigo explora como o loud working pode afetar a colaboração e a dinâmica das equipes.

João Paulo Batistella - Fundador e CEO da Eleva Technologies,

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de outubro de 2026 08H00
De onde vem o termo, o que existe ao redor de um agente e por que transformar capacidade de raciocínio em trabalho confiável é uma decisão de gestão, não apenas de tecnologia.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
25 de outubro de 2026 14H00
À medida que a inteligência artificial transforma funções, processos e competências, cresce a pressão sobre as áreas de Recursos Humanos para encontrar profissionais preparados para um cenário de constante transformação. O desafio não é apenas contratar talentos, mas desenvolver a capacidade de adaptação dentro das organizações.

Daniela Camargo - Head of People & Culture da VOLL

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de outubro de 2026 08H00
Os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em diferentes regiões do planeta e tendem a se intensificar nas próximas décadas. Mais do que reagir aos desastres quando eles acontecem, o texto defende uma abordagem baseada em prevenção, planejamento e uso estratégico da tecnologia para reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade de adaptação.

Álvaro Trilho - Diretor de Riscos da WTW Brasil

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução