Uncategorized

O pensamento do Design no Brasil

Os especialistas Reinhold Steinbeck e Edgard Stuber trazem à tona obstáculos e vantagens que o Brasil oferece à adoção do design thinking e apostam no futuro da metodologia
são sócios da firma de consultoria em inovação IntoActions. O artigo foi escrito com exclusividade para HSM Management.

Compartilhar:

> **Saiba mais sobre  os autores**
>
> **Reinhold Steinbeck**
>
> Alemão e com cidadania norte-americana, trabalhou com tecnologia, inovação e educação por 17 anos na Stanford University e por dois anos na Apple.  Professor-visitante de inovação da USP em 2010 e 2011, é sócio da firma de consultoria IntoActions e atua como embaixador do programa global de inovação pelo design de Stanford.
>
> **Edgard Charles Stuber**
>
> Brasileiro, trabalhou durante 30 anos como executivo de empresas multinacionais do setor de autopeças e máquinas, em áreas como pesquisa e desenvolvimento, marketing, vendas, planejamento e inovação. Doutorando de filosofia, ciência que serve de base a suas pesquisas em inovação e criatividade, é sócio da IntoActions e pesquisador de inovação.

Experimente formular uma pergunta que desafie o status quo e procure potencializar a incerteza e a ambiguidade. Embora contrariar hábitos e padrões seja essencial à inovação, você perceberá que o exercício é difícil; vai contra a natureza humana. Entende-se, assim, por que o design thinking vem se tornando uma contribuição tão valiosa para as empresas. A metodologia, relativamente recente, facilita a geração de insights e estimula a criatividade mais naturalmente, com protótipos de baixa resolução e tudo feito de forma colaborativa e com boa comunicação no trabalho em grupos. 

O que o design thinking faz é viabilizar o que mais de  1,7 mil CEOs de diferentes países estão esperando neste exato momento de suas equipes, segundo estudo recente da IBM: criatividade, colaboração e comunicação. Apesar de o design thinking gerar excelentes resultados justamente no que as organizações mais querem, ainda é pouco adotado no Brasil, onde o método gerencial mais aplicado para todas as circunstâncias continua a ser o de reduzir desperdícios e aumentar a eficiência operacional, tentando manter a qualidade de produtos e serviços. O que nos afasta da metodologia do design thinking?

**PROBLEMAS-CHAVE**

Trabalhando com equipes de diversas companhias de diferentes setores da economia, percebemos alguns obstáculos à introdução do design thinking nas empresas brasileiras. Um primeiro problema recorrente diz respeito a conciliar as rotinas diárias dos colaboradores com a abor dagem de projetos, algo fundamental para o design thinking e mais difícil em sistemas hierarquizados ou que ainda seguem uma lógica de comando e controle. O segundo empecilho-chave só seria resolvido com a mudança de modelos mentais. As pessoas têm de sair do pensamento no “modo automático”, justamente o que lhes garante eficiência nas tarefas diárias, para usar o pensamento no “modo manual”, que dá flexibilidade.

**4 PRINCÍPIOS**

O programa de pesquisa de design thinking de stanford, escola pioneira na adoção do método, aponta a relevância de quatro princípios: redesign, ambiguidade, fenômeno social e comunicação. A aplicação de cada um desses princípios no Brasil sofre a interferência de aspectos culturais –da cultura profissional, da organizacional e da nacional.

**Redesign**

Muitas das inovações de sucesso que temos atualmente no mercado surgiram de soluções de problemas que se apresentaram no passado. É por isso que, na fase inicial do projeto, a pesquisa é tão importante: ela disponibiliza informações que geram insights, e estes, por sua vez, levam a novas soluções. A capacidade de agirmos com base em observações e conhecimento adquirido é fundamental para a inovação. Assim, é necessária a realização de muitas pesquisas de produtos e serviços encontrados atualmente no mercado. 

Pesquisas quantitativas devem ser levadas em conta e somadas às pesquisas qualitativas, que são compostas por observações e entrevistas. Essa fase demanda custos e tempo, o que muitas vezes acaba inibindo os gestores brasileiros, mas, como abordamos a inovação pelo processo de aprendizado, o profundo entendimento do problema e do espaço que ele ocupa é a base das grandes soluções que o grupo alcançará. Outro obstáculo está no fato de o design thinking trabalhar com o pensamento integrativo, que combina o uso da tradicional lógica racional, tão utilizada pelas empresas, com o raciocínio intuitivo. Como constatamos em repetidas ocasiões, o raciocínio intuitivo é de aceitação mais difícil pelos executivos das organizações. Uma terceira constatação é que existe, no Brasil, uma predisposição inicial por apresentações mais tradicionais e expositivas. no entanto, à medida que as pessoas vão trabalhando em protótipos e fazendo exercícios mais dinâmicos, elas passam a aceitar melhor o aprendizado experiencial.

**Ambiguidade**

A educação em geral, e a brasileira em especial, não permite erros. A maioria dos participantes de workshops e projetos tem muita dificuldade em lidar com eles. 

Ocorre que erros são de suma importância no processo de inovação. não estamos pregando que o fracasso seja incentivado, mas, no contexto do aprendizado, é crucial que se erre rápido e se aprenda com o erro, a fim de dar continuidade ao processo. revisitamos as fases diversas vezes ao longo do processo, o que chamamos de “iteração”. 

Escolhemos um caminho entre várias alternativas e, caso este não ajude, iteramos, o que não pode ser visto como desperdício de tempo e recursos. Outra dificuldade que observamos nas empresas brasileiras diz respeito ao desconforto com a incerteza, ampliado pela abordagem sistêmica, e não linear, do design thinking. A incerteza vem do fato de que, quando estamos resolvendo um problema, ele está inserido no presente e sua solução estará no futuro. Como a cultura brasileira tem um pouco mais de dificuldade em aceitar isso, além das restrições de recursos inerentes a um projeto, os participantes acabam se sentindo particularmente inseguros e desconfiados. 

O antídoto usual é confiar no processo, sabendo que faz parte da solução passar pela ambiguidade, mas, aqui, às vezes há uma expectativa de que a solução venha de um nível hierárquico superior. Outro momento em que os integrantes apresentam dificuldade é na redefinição do problema. É um grande desafio para a maioria das pessoas, não só brasileiros. O design thinking investe muito tempo na definição do real problema a ser resolvido –abrindo possibilidades de inovação de ruptura– e as pessoas tendem a querer pular imediatamente para a solução.

> **Saiba mais sobre a IntoActions**
>
> A IntoActions, firma de consultoria empresarial em inovação fundada por Reinhold Steinbeck e Edgard Charles Stuber em 2013, vem utilizando a metodologia do design thinking em empresas como 3M, Sabesp, Fundação Telefônica, Centro Ruth Cardoso, Social Good Brasil, Receita Federal, Sesi SC, Fundação Vanzolini, FEA-USP e HSM Educação Executiva. Os dois sócios se conheceram em Stanford em 2011 por intermédio do professor Larry Leifer, do curso de engenharia mecânica, considerado um dos “pais” do design thinking. Eles compartilham a crença de que é necessária uma metodologia centrada em pessoas para resolver problemas complexos.

**Fenômeno social**

Peter drucker tinha razão quando dizia que a inovação é um fenômeno social, não tecnológico; por isso, o design thinking coloca as pessoas no centro de todas as atividades e trabalha com grupos multidisciplinares. No Brasil, temos vantagem nisso: trabalhamos bem no quesito da cooperação e conseguimos nos conectar com as pessoas de maneira empática. Então, não há obstáculos culturais nesse caso? não é bem assim. 

Quando pedimos que executivos observem e abordem as pessoas em suas tarefas diárias, porque a inovação depende do contexto e pede que se vá a campo, eles sentem desconforto. Estão acostumados demais com estatísticas e pesquisas quantitativas. Outro problema, de organizações daqui e de fora, é o espaço físico. Os layouts tradicionais dos escritórios não estimulam a criatividade. A boa notícia é que ambientes mais flexíveis e despojados estão surgindo.

> **SAIBA MAIS SOBRE O DESIGN THINKING**
>
> Adotada por grandes empresas, essa metodologia de inovação consegue gerar valor por meio de um profundo entendimento do real problema a ser resolvido e da compreensão das necessidades de todos os públicos de interesse envolvidos. Há muitas maneiras de aplicar o design thinking, mas os especialistas Reinhold Steinbeck e Edgard Stuber, autores deste artigo, sugerem a abordagem como um processo de aprendizado que se desenrola em quatro fases, não sucessivas e não lineares:
>
> **fase 1:**  entendimento do problema
>
> **fase 2:** redefinição do problema 
>
> **fase 3:** geração de alternativas 
>
> **fase 4:**  testes das possíveis soluções

**Comunicação**

A utilização de protótipos de baixa resolução é muito poderosa para materializar ideias, melhorando a comunicação entre os membros do grupo e auxiliando-os a transmitir seu pensamento aos prováveis usuários do produto ou serviço. 

Prototipar com materiais simples é uma prática ainda pouco difundida nas organizações em geral, mas já vemos os participantes dos projetos compreenderem seu poder de comunicação. Um aspecto que inspira cuidado, no entanto, é o recebimento de feedback à ideia prototipada, quando se trata de uma crítica. Todos temos dificuldade em ouvir críticas e, na cultura brasileira, isso é particularmente acentuado. O remédio é encorajar os participantes dos projetos a não se apaixonar por suas ideias e a aprender a descartá-las com facilidade. 

Outro problema está no medo que as corporações brasileiras geralmente têm de envolver, nos eventos de ideação do design thinking, pessoas de fora das fronteiras organizacionais, tanto clientes como outros atores da cadeia de valor. Esse é um paradigma a ser vencido em prol da cocriação, tão poderosa na geração de novas alternativas para a solução dos problemas mais complexos. A ideação em si também sofre limitações em nossa cultura. Alguns participantes se sentem intimidados pela presença de superiores nos brainstormings, o que inibe a geração de ideias menos ortodoxas. Outros dedicam-se a vender as próprias ideias, ou as de colegas próximos, em vez de focar a geração de muitas ideias. Protótipos podem ajudar a reduzir esse efeito “nós contra eles”.

**FAZENDO VIRAR ROTINA** 

Não podemos inovar o tempo todo; são fundamentais para o ser humano intervalos de estabilidade, a fim de melhorar sua eficiência e ter uma sensação de conforto. Em outras palavras, as empresas não têm de utilizar o design thinking para tudo o que fazem; o que devem fazer é deixá-lo ser um dos processos que compõem o portfólio organizacional para realizarem seus propósitos, o que pode ser aplicado quando houver um problema complexo na mesa. Isso entendido, vemos grandes oportunidades para o design thinking no Brasil, na medida em que o mercado se tornar mais exigente e os clientes demandarem melhores experiências. 

Uma porta de entrada para a metodologia em nossas organizações é a da capacitação dos colaboradores para resolverem problemas cada vez mais complexos, que exigem mais criatividade –principalmente a capacitação dos que têm contato direto com os clientes: o pessoal de vendas, marketing e assistência técnica. ventos sopram a favor do design thinking no País: um deles é o malfadado “jeitinho brasileiro”, que nos flexibiliza em relação a outras culturas nacionais. O histórico custo Brasil também é uma espécie de vantagem nossa nesse campo; talvez nos tenha predisposto a desenvolver habilidades importantes para o enfrentamento de problemas complexos. Por essas razões, o design thinking pode vir a ganhar, no Brasil, a força que os movimentos da produção enxuta e da qualidade tiveram aqui na década de 1980.

Compartilhar:

Artigos relacionados

E se envelhecer não fosse apenas uma consequência do tempo?

Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Por que a IA se tornou membro essencial em equipes de manutenção preditiva?

A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Smart Sampa: vazamento de senhas expõe o desafio de proteger uma cidade monitorada por milhares de câmeras

O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
24 de outubro de 2026 14H00
A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.

Juliana Marinelli - Pesquisadora pHd de bem-estar digital

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de outubro de 2026 08H00
Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

Andrea Kohlrausch,- Presidente da Calçados Bibi

2 minutos min de leitura
Educação
23 de outubro de 2026 15H00
O artigo discute por que a personalização da aprendizagem exige ir além dos indicadores tradicionais e apresenta o conceito de Learner 360, uma proposta para construir uma visão mais integrada, dinâmica e significativa do aprendiz, capaz de apoiar decisões educacionais mais precisas e trajetórias de desenvolvimento verdadeiramente centradas no indivíduo.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de outubro de 2026 08H00
A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing & growth
22 de outubro de 2026 15H00
O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

Thais Lima - Diretora da MarkUp

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de outubro de 2026 08H00
O artigo explora como a colaboração entre montadoras, startups, centros de pesquisa e programas de fomento está acelerando a criação de soluções centradas na experiência humana, mostrando que o futuro da mobilidade será construído pela capacidade de conectar tecnologia, ecossistemas de inovação e necessidades reais da sociedade.

Ana Claudia Didier -

4 minutos min de leitura
Marketing, Estratégia
21 de outubro de 2026 12H00
Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Caio Esteves

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de outubro de 2026 08H00
Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por POK Brasil
8 minutos min de leitura
ESG, Liderança
20 de outubro de 2026 08H00
Ao celebrar 13 anos de atuação, o Grupo Mulheres do Brasil reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa. Mas sua trajetória revela um impacto que vai além das causas e dos projetos: a força de uma rede capaz de conectar mulheres, criar oportunidades, fortalecer vínculos e promover desenvolvimento pessoal e coletivo.

Alexandra Segantin - CEO do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução