Liderança

O primeiro romântico dos negócios

Em entrevista exclusiva, o consultor de marketing alemão Tim Leberecht explica por que o romantismo é necessário às empresas e como sua proposta difere da do propósito

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> Vale a leitura porque… 
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> … é crescente o questionamento sobre se o trabalho, que consome 70% do tempo de vida médio de uma pessoa, tem de ser rotineiro e tedioso. Tem mesmo?  … muito se fala sobre a necessidade de  as empresas terem um propósito social para engajar seus colaboradores, mas o  especialista Tim Leberecht discorda: o resultado (o propósito) é menos importante do que o processo (a jornada). … é possível encontrar romance nos negócios por meio da humanização do ambiente de trabalho, o que é comprovado por empresas como Chobani, Naked Wines e Cirque du Soleil.

Como posso viver sem minha vida? Como posso viver sem minha alma?” Essa pergunta, que a autora de O Morro dos Ventos Uivantes, Emily Brontë (1818-1848), pôs na boca do personagem Heathcliff, referindo-se à amada Catherine, talvez virasse um “meme do romantismo” se o livro fosse escrito hoje. A pergunta é: Brontë existiria nos dias atuais? E mais: ainda é possível ser romântico na era dos memes? O especialista em marketing alemão Tim Leberecht responde não só que sim, como diz que essa é a solução para o frio mundo dos negócios. A seu ver, o romantismo é a melhor chance de os gestores escaparem do círculo vicioso de falta de encantamento, sensação de isolamento e excesso de padronização que molda a maior parte das empresas do mundo e que, além de desmotivar as pessoas, desumaniza as organizações, tendendo a ser uma receita de fracasso no longo prazo. Em entrevista exclusiva a HSM Management, Leberecht, autor do best-seller Romantize Seus Negócios, define romantismo como “momentos inesperados de beleza e encantamento” e critica empresas e gestores por deliberadamente evitá-los e reprimi-los. Seres humanos sentem necessidade de paixão, beleza, emoção, surpresa, aventura, e o bloqueio de tais sentimentos parece até patologia mental – afinal, segundo o executivo, “a gente age como se fosse uma pessoa no trabalho e outra fora dele”

> **SAIBA MAIS SOBRE  TIM LEBERECHT**
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> Quem é: Nascido e criado na Alemanha e morador de San Francisco, Califórnia, tem uma consultoria de marketing com seu nome, participa de um coletivo de agentes de mudanças sociais e é um “romântico incurável”. 
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> Carreira em design: Atuou nas empresas de design FrogDesign, que deu forma a produtos Apple,  e NBBJ, com clientes  como Samsung, Starbucks  e Amazon. 
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> Livro: Romantize Seus Negócios: Dê o Máximo e Crie Algo Maior do que Você É. No Brasil: Fará palestra na HSM ExpoManagement 2016, em novembro.

Leberecht argumenta que o mundo gerencial deveria levar em conta a racionalidade que tanto preza e lembrar que o trabalho é só um pedaço da vida. E precisaria medi-lo em números também. “Passamos 70% da vida no trabalho; não podemos nos divorciar de aspectos importantes de nossa humanidade por 70% do tempo. 

A exigência desse divórcio é que explica por que, cada vez mais, há falta de engajamento com o trabalho; fica tudo tedioso”, diz ele. Em sua visão, qualidades associadas ao romantismo – como intimidade, naturalidade, mistério, vulnerabilidade e certa perda de controle – são importantes para humanizar as relações de trabalho, distanciando-nos de uma cultura tirânica, desenhada para maximizar e otimizar e para tornar tudo previsível, e aproximando-nos da criatividade, da motivação e da conexão entre líderes e equipes. 

“Quando se lembra de um dia de trabalho, o que você guarda com carinho? O negócio que fechou? Não, o carinho vai para a comemoração com a equipe, o prazo impossível cumprido, a apresentação impressionante. É como em uma relação amorosa”, completa o consultor. “Precisamos nos libertar da tirania da rotina e ter romance no trabalho.”

A tirania em números? Pesquisas de institutos como o Gallup, em diferentes países, indicam que apenas 13% dos trabalhadores estão entusiasmados com seus empregos, mais de 60% não encontram qualquer motivação na carreira e cerca de 24% se descrevem como infelizes e improdutivos. 

**COMO “IMPLEMENTAR” O ROMANCE**

“É óbvio que as pessoas se sentem assim porque deixam seu coração e seus sonhos na porta do escritório”, diz Leberecht. Como uma empresa faz para tornar o trabalho mais humano, autorizando a perda de controle ou o mistério? 

Segundo o autor best-seller, a ignição está em uma decisão simples: deixar as personalidades se expressarem no ambiente de trabalho com a mesma diversidade de formas e as mesmas nuances da vida pessoal, explicitando que não precisam agir segundo padrões preestabelecidos. Empresas como o Virgin Group fazem isso, permitindo que seus colaboradores se mostrem como seres autênticos, sem medo de serem percebidos como fracos ou inadequados. “Eles sabem que não têm de ser eficientes e coerentes a toda hora e que continuarão sendo considerados valiosos pela equipe”, conta o executivo. Na prática, contudo, como se transmite essa mensagem? 

**ATITUDE DOS LÍDERES**

O início da mudança cabe aos líderes. “Se eles tomarem atitudes românticas, atuando de maneira não alinhada com a racionalidade e a lógica esperadas no mercado executivo, o espaço para conexões mais genuínas entre as pessoas começará a surgir.” 

Tomar atitudes significa criar momentos belos, segundo Leberecht. “Um romântico nos negócios não tem de mostrar paixão pelo que faz, ao contrário do que se pode pensar; ele deve é ter a habilidade de criar e reconhecer momentos de beleza no que faz.” Exemplos de líderes que agiram assim não faltam ao alemão. O CEO da Chobani, fabricante de iogurtes norte-americana, conseguiu isso, inesperadamente, ao presentear os funcionários com 10% das ações da empresa. Diga-se que os acionistas estão entre os líderes mencionados por Leberecht. No caso da Chobani, foi dada ao CEO a liberdade de agir segundo seu coração, e o resultado romântico foi muitos funcionários emocionando-se com a atitude. 

O CEO da Naked Wines, de vinhos, quebrou o padrão dos e-mails comerciais repetitivos. Primeiro, removeu menções como “novo”, “único”, “oferta especial” e outros jargões de marketing e passou a escrever aos clientes como se estivesse conversando com um amigo de maneira casual e espirituosa. A taxa de resposta foi muito maior que a do e-mail tradicional. “Não é surpreendente como ser você mesmo é a melhor proposição de valor?”, confidenciou ele a Leberecht. Já o CEO do Cirque du Soleil contratou um palhaço pessoal para acompanhá-lo nas reuniões da empresa e imitar suas apresentações em pé a sua esquerda. “São gestos que nos lembram a beleza do mundo e fazem o coração bater mais forte”, diz o consultor.

> OS ROBÔS LEVARÃO AO ROMANCE 
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> Indagado por HSM Management, Tim Leberecht demonstrou otimismo em relação à tendência de substituição do homem pela máquina no trabalho. Segundo ele, o fenômeno da “tecnologia, com seus robôs, big data, soluções preditivas e inteligência artificial, nos obrigará a ressignificar o trabalho”. Sua conclusão? “Passaremos a valorizar outros tipos de tarefas e haverá maior desejo por humanidade no trabalho, por romantismo, por aspectos que nenhuma máquina é capaz de simular.” Para o especialista, paixão, intuição, imaginação, beleza e criatividade serão cada vez mais importantes no trabalho.

Mudança de rotina Driblar a rotina de trabalho também é algo que abre espaço para o romantismo acontecer. Por exemplo, algumas empresas mudam os lugares em que os colaboradores se sentam, ou juntam em uma imensa mesa profissionais de diferentes áreas, ou ainda promovem almoços entre pessoas que não se conhecem. “Tudo isso aumenta as conexões, a perda de controle e o mistério e leva a momentos de prazer, que elevam a alegria de viver”, afirma Leberecht. Uma estrutura que garante especialmente a mudança de rotina é a descentralização das decisões – dificulta padronizar e controlar.

Aprendendo sempre e de bem com imprevistos Dois comportamentos devem ser valorizados na cultura da empresa romântica: o de ver tudo como oportunidade de aprendizado e o de lidar bem com imprevistos – estes acontecem a todo instante, como se sabe, porém a maioria das organizações responde muito mal a eles. “Deixar-se levar pelos imprevistos, perdendo o controle sobre os processos de trabalho convencionais e abrindo espaço para novas atividades, é fundamental para o romantismo; isso tende a fomentar a criatividade e, em última instância, trazer satisfação e felicidade”, acredita Leberecht.

**OS PAPÉIS DE CADA UM**

Como foi dito, os líderes têm de se comprometer com o romantismo, criando, com suas atitudes, um ambiente no qual as diversas personalidades se expressem. No entanto, os colaboradores também devem fazer sua parte. “Os funcionários precisam lembrar que também eles influenciam o ambiente; ao se apresentarem com leveza e interagirem bem, contribuem para o romance”, observa o especialista. Ele só faz uma ressalva importante: ninguém pode cometer o erro de esperar que o ambiente de negócios seja romântico a todo momento. Simplesmente não funciona assim.

**E O PROPÓSITO?**

O pensamento gerencial mais recente associa engajamento com propósito. Será este crucial também para o romantismo de Leberecht? O consultor responde com um enfático “não”. “A existência de um propósito na empresa até pode ajudar, mas aprendizado, excitação e aventura pesam muito mais”, afirma. Os românticos nos negócios buscam maior significado no trabalho e veem valor no processo tanto quanto ou mais que no produto final. “A pessoa pode trabalhar em uma empresa dedicada a uma causa, mas sentir falta de romance, porque não tem um chamado – ela quer é curtir a jornada.” Um romântico dos negócios que se preze busca evoluir, viver novas experiências, conhecer pessoas no trabalho, ou seja, viver com vida e alma, como Heathcliff com Catherine.

> Você aplica quando…
>
> … começa, no papel de um líder da empresa, a tomar atitudes românticas e surpreendentes, como despadronizar os e-mails comerciais. … muda propositalmente a rotina das pessoas – trocando os lugares em que se sentam no escritório, por exemplo. … cria um ambiente de aprendizado e sem medo de imprevistos.

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