Conteúdo exclusivo Singularity University

O que as crenças não veem

Especialistas costumam ter dificuldade para notar o potencial das inovações em seus mercados porque agem pelo viés da confirmação
Guilherme Horn é expert da SU Brazil em blockchain e inovação. Empreendedor serial, fundou seis startups nos últimos 25 anos. É diretor de estratégia digital e inovação do Banco Votorantim. Tem mestrado pela PUC-RJ, doutorado pela UMSA e especialização pelo MIT.

Compartilhar:

Há alguns meses, participava de um painel num evento sobre inovação, como mediador, tendo como debatedores dois especialistas em energias renováveis. Abri a discussão com um report da Singularity University que questiona o que acontecerá se a energia atingir um custo de geração zero por volta de 2035. Ambos reagiram imediatamente, dizendo que acreditavam que isso até poderia ser possível em alguns países mais desenvolvidos, como Alemanha e Israel, mas dificilmente se tornaria realidade no Brasil.

A reação dos especialistas não me surpreendeu. Tenho estudado nos últimos anos o efeito das crenças dos experts em diversos assuntos em sua capacidade de enxergar a inovação que está acontecendo no ecossistema ao seu redor. É incrível como o potencial das inovações mais radicais dificilmente é percebido pelos especialistas, porque simplesmente não se encaixam em suas crenças.

Vejamos um outro exemplo, o mercado das criptomoedas. Os argumentos mais comuns para a sua rejeição estão relacionados à ausência de lastro e à volatilidade desses ativos. Porém, a necessidade de um lastro para uma moeda é uma crença – a crença de que o lastro garante o seu valor. Mas, e se houver uma tecnologia capaz de garantir o limite de emissão dessa moeda – o que garantirá o controle da inflação, a impossibilidade do gasto duplo e/ou de sua falsificação, além de possibilitar uma completa rastreabilidade num banco de dados imutável? Pois essa tecnologia existe e chama-se blockchain. E talvez ela levante dúvidas sobre a validade das crenças mais comuns entre economistas. Por isso, para compreendermos o potencial das criptomoedas, precisamos questionar as nossas crenças sobre o que gera valor para uma moeda.

Com outras tecnologias, vemos o mesmo tipo de reação: computação quântica, realidade virtual, realidade aumentada, inteligência artificial, veículos autônomos, e muitas outras. Quanto mais conhecemos do nosso segmento, mais acreditamos que estamos distantes do impacto dessas inovações.
O problema é que as nossas crenças são formadas a priori, sem evidências científicas. Simplesmente elas vão se constituindo em nossas mentes e, a partir delas, moldamos as nossas expectativas, as nossas percepções e as nossas conclusões sobre diferentes temas. E todo o conteúdo que consumimos, seja por artigos, vídeos, cursos, lives, webinars, vão na direção de confirmar as nossas crenças. É o que chamamos de viés de confirmação.

## Quem é seu concorrente?
Outra crença muito presente em empresas mais tradicionais é que elas competem com os seus pares. Ou seja, seus concorrentes são empresas que vendem os mesmos produtos ou serviços, são de tamanho similar e atuam no mesmo mercado. Porém, isso não é mais verdade nos dias de hoje. Dois movimentos aconteceram: (1) caíram as barreiras entre os setores econômicos e (2) pequenas startups passaram a competir em pé de igualdade com grandes organizações.

No primeiro movimento, a era digital misturou as cadeias de valores. Indústrias desintermediaram seus mercados. Por exemplo, companhias aéreas passaram a vender passagens diretamente a seus clientes, ajudando a eliminar as agências de viagens. Segmentos invadiram os serviços de outros segmentos. Por exemplo, varejistas entraram no setor financeiro, fazendo pagamentos e dando crédito a seus clientes. Em outros movimentos, vimos indústrias se verticalizando e ampliando sua gama de serviços, de forma a garantir a experiência final ao cliente. Vemos diariamente as cadeias de valor sendo redesenhadas.

No segundo movimento, temos milhares de startups competindo com poucas grandes empresas. Enquanto essas grandes empresas atuam normalmente com uma grande gama de produtos ou serviços, muitas vezes para diferentes segmentos, vemos pequenas startups atuando em nichos de mercado, com públicos específicos, muitas vezes com apenas um produto. Assim, conseguem ser muito eficientes, praticam preços mais baixos e oferecem uma experiência de uso normalmente muito superior, com processos mais simples e amigáveis. Isso faz dessas startups concorrentes de peso para as empresas mais tradicionais, que têm dificuldade para mexer em seus sistemas e processos.

Apesar disso parecer até óbvio para alguns, a maioria das grandes empresas ainda olha para essas pequenas startups com desconfiança (e até desprezo), pois ainda possuem indicadores de desempenho muito distantes dos seus. Esquecem-se que as startups em geral estão olhando para KPIs diferentes. Em vez de perseguirem receita e lucratividade, como as grandes empresas, estão atrás de satisfação do usuário e crescimento da base.

Em resumo, as crenças são importantes limitadores de nossa capacidade de inovação. Se queremos criar um mindset que torne a empresa inovadora, o primeiro passo é identificar as crenças que nos cercam. Não se trata de um exercício trivial; requer reflexão, humildade e honestidade intelectual. É necessário ter a mente aberta para se educar sobre isso sem preconceitos.

E em seguida vem o momento de desconstruí-las, num exercício de desaprender o que é conhecido e incorporar os novos aprendizados, que nos levarão a alçar novos voos. Bem-vindo à sua nova jornada inovadora.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que sua lista de tarefas explode

Organizações não estão falhando por falta de esforço, estão falhando por fazer coisas demais ao mesmo tempo. Este artigo reforça que o verdadeiro papel da liderança não é multiplicar tarefas, mas definir o problema certo e simplificar a execução.

Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de junho de 2026 13H00
Quando bem interpretados, os sinais do comportamento das equipes deixam de ser rotina e passam a revelar o que realmente sustenta performance, engajamento e resultado.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

4 minutos min de leitura
ESG
6 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra por que a inclusão de pessoas com deficiência ainda não evoluiu de obrigação legal para estratégia de negócio nas organizações brasileiras.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

6 minutos min de leitura
Liderança
5 de junho de 2026 16H00
Organizações não estão falhando por falta de esforço, estão falhando por fazer coisas demais ao mesmo tempo. Este artigo reforça que o verdadeiro papel da liderança não é multiplicar tarefas, mas definir o problema certo e simplificar a execução.

François Bazini - CMO e Consultor

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Liderança
5 de junho de 2026 08H00
Como o Brasil chegou à NR1 e por que esta pode ser nossa última chance de acertar?

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
4 de junho de 2026 14H00
Ao refletir sobre a evolução da indústria têxtil, o autor propõe uma mudança de lógica: mais do que investir em máquinas, a competitividade passa a depender do valor real que a tecnologia entrega ao longo do tempo.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
4 de junho de 2026 08H00
O próximo desafio da liderança não é tecnológico - é aprender a liderar humanos e máquinas na mesma mesa.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
3 de junho de 2026 15H00
Quando a IA vira solução antes de existir o problema, o resultado tende a ser irrelevante. Este artigo mostra por que o erro das empresas não está na tecnologia, mas na ordem das decisões

Osvaldo Aranha - Chief AI Strategist, Palestrante, Mentor e Conselheiro

5 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança, Marketing & growth
3 de junho de 2026 08H00
Em meio à obsessão por crescimento, este artigo propõe uma mudança de perspectiva: não é o quanto a empresa cresce que define seu sucesso, mas sua capacidade de transformar expansão em valor real e sustentável ao longo do tempo.

Alexandre Costa - Gerente de Estratégia Financeira, Pricing e Revenue Management

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de junho de 2026 13H00
Este artigo mostra como o agronegócio brasileiro precisa evoluir para uma arquitetura integrada de dados e gestão - transformando tecnologia em vantagem competitiva, governança robusta e valor sustentável no longo prazo.

AAdilson Martins - Sócio líder para o setor de agronegócio da Deloitte; André Ferreira - VP Global de Agronegócios da SAP; Lígia Penna - Sócia de Enterprise Technology & Performance da Deloitte e Rafael Okuda - Vice-presidente de Agribusiness & Food da SAP Brasil.

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Empreendedorismo, Inovação & estratégia
2 de junho de 2026 08H00
Por que uma sociedade que partiu de uma base agrária se tornou referência global em execução ágil, iteração contínua e adaptação sistêmica? A resposta não está apenas em políticas industriais ou acesso a capital. Está em um código cultural que transforma simplicidade, memória organizacional e julgamento contextual em vantagem competitiva - e que cabe perfeitamente no radar da gestão brasileira. Este artigo apresenta cinco lições operacionais da China, com cases empresariais, dados de 2025-2026 e reflexões aplicáveis a conselheiros e executivos latino-americanos.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Rael Mairesse - Cofundador e diretor da Luming

13 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão