Estratégia e Execução

O que dá para aprender com a onda de demissões nas big techs

Colocar como meta principal a lucratividade da empresa – e não o crescimento a qualquer custo – é a maior das lições para sobreviver às mudanças, mas também é preciso ser resiliente e ter uma gestão financeira eficiente
Hugo Rebelo é diretor de tecnologia (CTO) da Bluy - HR Tech, com 1,7 milhão de talentos em sua base, que já nasce com o que existe de mais moderno em tecnologia. É cofundador e sócio da Intelligenti, Waybee e Indigoway. Acumula mais de 20 anos de experiência em tecnologia, atuando nas áreas do direito, educação e recursos humanos.

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As informações que circulam diariamente sobre tecnologia apontam para um mercado em crescimento exponencial, sobretudo com a popularização de ferramentas de inteligência artificial (IA), como ChatGPT, Bard, entre outras. Paradoxalmente, não faltam notícias de demissões em massa nas big techs. Parece ambíguo, não? Twitter, Facebook, Uber, Microsoft, Amazon e SAP são algumas das gigantes que não escaparam de ondas maciças de desligamentos. Nada acontece por acaso. Há razões importantes para essa situação, e nós podemos tirar algumas lições delas.

## O fator macroeconômico
Antes da pandemia, entre 2018 e 2020, o Brasil e boa parte do mundo vivia um período de vigor econômico. Havia muita liquidez no mercado e os juros estavam baixos. Neste cenário, os investidores procuraram formas de conseguir um retorno maior sobre o investimento e miraram nas startups. A tecnologia absorveu muito desses aportes.

Com o baque da covid-19 e quase todos os negócios se vendo obrigados a funcionar de forma remota, diversos setores precisaram intensificar investimentos em tecnologia. Contratar centenas ou até milhares de profissionais se tornou comum e, com o aumento da demanda, os salários também aumentaram, inflando a folha de pagamento das empresas. Assim se formou uma bolha.

Com o aumento da inflação e da taxa de juros, os investidores que buscavam maiores retornos no segmento de tecnologia, migraram para renda fixa. A torneira que antes jorrava dinheiro no setor foi fechada. E então restou a questão: como manter tantos funcionários sem os aportes que os sustentaram até aqui?

## O fator (falta de) lucro
Difícil de acreditar, mas é verdadeira a afirmação de que a Uber nunca deu lucro, ou que o Twitter poucas vezes teve seu balanço anual positivo. Mesmo não sendo lucrativas, visando resultados futuros, essas big techs buscam crescer, investindo em tecnologias de ponta e novas contratações. Os grandes investimentos, somados a um contexto de alta competição por talentos e salários inflados no setor, fazem com que grande parte delas operem no vermelho.

Com investidores mais cautelosos e aportes menores, as grandes empresas — que não lucram, mas cresceram demais — viram-se em aperto financeiro e equipes inchadas. Não tiveram opção a não ser demitir.

## O exemplo a ser seguido
Dentre as big techs mais conhecidas, até o momento, apenas a Apple não teve ondas de demissões. Por ser muito lucrativa e eficiente na alocação de capital, ela não depende tanto das condições macroeconômicas ou do humor de investidores para ter dinheiro em caixa. Além da eficiente gestão financeira, a Apple não entrou na moda de contratar profissionais de tecnologia aos milhares. Ao contrário, sempre investiu em profissionais específicos e de excelência.

O boom nas contratações durante a pandemia também atraiu muitas pessoas de outras áreas, que buscaram qualificação rápida para surfar essa onda de tech, que parecia não ter limite. Aqui, vale destacar que, justamente por conta da pouca experiência e da qualificação superficial, boa parte desses profissionais recém-chegados ao mercado foram os primeiros a sair, quando a crise se intensificou.

A conclusão desse pensamento é que o modelo de crescimento empregado por grandes empresas do setor de tecnologia, de crescer primeiro e monetizar depois, encontra seu limite na constante necessidade de recursos adicionais de investidores, o que se provou escasso em cenário de aperto econômico. Assim, colocar como meta principal a lucratividade da empresa – e não o crescimento a qualquer custo – é a maior das lições que podemos tirar das demissões em massa. É o que hoje no mundo das startups ficou conhecido por “startups camelos”, expressão que não tem o glamour de “unicórnio”, mas que com um crescimento mais lento através da própria atividade operacional dá a essas empresas resiliência em momentos de crise.

Com essas ondas de demissões, aprendemos de um jeito doloroso que as coisas podem mudar ao longo do caminho, e sobreviver a essas mudanças depende de uma gestão financeira eficiente, que contemple, entre diversos fatores, a contratação criteriosa de profissionais, visando selecionar os mais qualificados para cada função.

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