Sustentabilidade

O que nutre as disputas entre agro, cidades e meio ambiente?

Embora sem solução evidente, há muitos pontos convergentes entre produtores rurais, ambientalistas e os grandes centros urbanos. Contudo, notícias falsas aumentam embates nutrindo a ideia de interesses escusos e de inimigos sempre à espreita
Técnico Agrícola e administrador, especialista em cafeicultura sustentável, trabalhou na Prefeitura Municipal de Poços de Caldas (MG) e foi coordenador do Movimento Poços de Caldas Cidade de Comércio Justo e Solidário. Ulisses é consultor de associações e cooperativas e certificações agrícolas.

Compartilhar:

Atualmente, uma das principais discussões que assistimos no Brasil é o constante (e cada vez mais acalorado) debate entre ambientalistas e ruralistas. Debate que traz muito mais desgaste à imagem do nosso País do que realmente apresenta soluções para um futuro mais sustentável e próspero para a nossa população.

Esse talvez seja o melhor exemplo do quão é importante contar com lideranças que exercem poder da empatia e que sejam agregadores. Escrevo sobre líderes que não se incomodam em conhecer os dois lados, que procuram conhecer inúmeras visões e distorções. Nesse sentido, entendendo as diversas verdades possíveis, falo de líderes que buscam pontos que possam ser convergentes e que não focam apenas no que nos separa.

Algumas poucas vozes no Brasil do agronegócio e do meio ambiente têm se dedicado a discutir com responsabilidade o nosso papel enquanto a nação produtora de alimentos, e sobre a importância de aumentar a produção conservando nossas florestas, águas e mares.

O diálogo deve ser constante e precisamos urgentemente de um amplo, dinâmico e representativo pacto nacional pela conservação e produção. Para isso é preciso uma reflexão sobre os principais pontos de discórdia, e principalmente sobre os pontos que são consensos. É preciso, ainda, eliminar as fake news da pauta desse debate.

Quando representantes do agronegócio espalham notícias falsas, mesmo que em sua defesa, é como dar um tiro no próprio pé, pois o mercado vê como uma tentativa de legitimar práticas que já não são mais aceitas.

## Pontos de consenso

Do lado consensual, compartilhamos da ideia de que somos uma nação com vocação para o agronegócio. Além disso, por um País de dimensões continentais, o Brasil tem uma diversidade gigantesca de culturas, modelos produtivos, condições sociais e níveis tecnológicos. Desse modo, generalizar o agronegócio brasileiro não é uma boa forma de se iniciar o debate.

Outro consenso: existe muita área improdutiva e áreas agricultáveis concentradas nas mãos de poucas famílias que apresentam uma baixa produtividade. Assim, é unanime a noção de que essas áreas poderiam ser exploradas evitando, desse modo, a pressão sobre nossas florestas.

É uma verdade também que somos o País com maior índice de preservação ambiental, com legislação ambiental severa e que ainda tem investido sistematicamente na recuperação ambiental de áreas degradadas. Verdade também que produtores e grandes empresas estão cada vez mais preocupados com o tema. Muito embora o desmatamento (não só em região amazônica) ainda persista, e que tenhamos baixa fiscalização alinhada com a morosidade da nossa Justiça ao contribuir com a impunidade.

É fato que o brasileiro vê nas suas florestas um patrimônio não só ambiental, mas cultural, sendo que a maioria esmagadora dos brasileiros querem o desenvolvimento do país mantendo as florestas em pé.

Da mesma forma, a ampla maioria das propriedades rurais não contribuem com o desmatamento; e sim, o produtor é um grande parceiro da preservação ambiental. Não podemos considerar como produtor aquele que desmata e faz grilagem em áreas amazônicas. Esses são criminosos.

Aliás, hoje contamos com diversos programas de rastreabilidade e tecnologias sofisticadas que possibilitam à população urbana combater o desmatamento da forma mais eficaz, como, por exemplo, não comprando produtos de origem duvidosa. Porém, a própria população faz pouco uso dessas ferramentas.

Finalmente é consenso que o Brasil pode crescer sua área plantada sem derrubar mais nenhuma árvore, e que o País precisará fazer esse salto de produção para atender boa parte da necessidade de desenvolvimento econômico, aumento ainda a demanda mundial por alimentos. Para isso é preciso acesso ao crédito, acesso à terra e diminuição de burocracias, inclusive dos entraves gerados ou ligados aos órgãos ambientais.

## Pontos de discordância

Talvez o mais importante ponto de discórdia envolve as florestas. Muitos ainda veem as florestas como terra improdutiva, que deve ser explorada. Isso é totalmente errado. No entanto, aqui do Sul de Minas Gerais, não me sinto realmente capacitado para dizer se é possível levar a qualidade de vida para os povos amazônicos e, ao mesmo tempo, manter a mata em pé.

Nos estudos que pude acompanhar de diversos projetos consagrados, como as pesquisas do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e do Instituto Socioambiental ISA, pude verificar que há diversos projetos que conseguem contemplar um manejo racional das riquezas de nossas florestas.

Assim, acredito que precisamos ouvir as partes mais interessadas, que são os povos das florestas, que hoje são muitos e diversos: índios, ribeirinhos, produtores, pescadores, moradores de grandes centros, e até mesmo pessoas que na década de 1970 foram “recrutados” pelo estado brasileiro para desbravar a Amazônia em busca de riquezas na famosa transamazônica.

Em suma, acredito que o que essa população quer é muito mais importante do que qualquer outro mecanismo de avaliação. Cabe à população urbana e de centros mais desenvolvidos valorizar produtos certificados que possuem origem em projetos de manejo socioambiental das florestas.

Outra grande discussão é a visão das pessoas da cidade para com o produtor rural, sendo que o setor rural acredita ser mal visto pela população urbana, mesmo garantindo alimentação e desenvolvimento econômico.

No entanto, para a grande surpresa de alguns, o produtor rural é também uma das riquezas do Brasil, pois o brasileiro reconhece o valor do produtor rural. Se nas décadas de 1970, 1980 e 1990 o produtor rural chegou a representar sinônimo de atraso de um País que precisava se industrializar, hoje muitos veem o campo como um forte setor da economia, e já buscam aproveitar as diversas oportunidades proporcionadas pelo agronegócio.

Um exemplo claro dessa valorização é o “Selo Aqui Tem Agricultura Familiar”, que rapidamente ganhou espaço nas gôndolas de supermercados nos grandes centros, o que representa uma busca do brasileiro pela valorização do produtor, porém mostra também a dificuldade do consumidor de acessar sua própria produção nacional de forma direta.

Por fim, é preciso entender o que é o agronegócio e o que ele representa para o país. Agronegócio é muito mais do que a simplificação de chamar de agro o grande produtor, o empresário rural, a grande agroindústria ou o setor agroindustrial. O agronegócio deve ser entendido por todos os críticos como uma cadeia produtiva, como definem Ray Goldberg e John Davis.

Nesse sentido, o agronegócio envolve também a agricultura familiar, o ribeirinho e até mesmo o trabalhador sem terra. Estamos todos no mesmo sistema e um plano comum, embora muito distante da realidade, deve ser um norteador para nossas políticas de desenvolvimento do setor.

## Fake news

A desinformação dos setores muitas vezes esta vinculada à ideia de sempre há um inimigo à espreita, pronto para atacar. No caso do agro, os inimigos são as pessoas da cidade e os ambientalistas. Por sua vez, para parte dos ambientalistas, os inimigos podem ser resumidos em pessoas e empresas que não seguem uma cartilha sustentável.

Ocorre que muitas vezes as regras são inviáveis para o produtor rural, pois não é todo produtor que conta com as informações necessárias e seguranças para desenvolver o seu trabalho em consonância com as práticas de preservação ambiental.

Essas notícias fazem crescer pautas que muitas vezes não são de interesse daqueles que produzem alimentos ou defendem o meio ambiente. A disseminação dessas notícias falsas faz com que as pessoas, empresas e negócios que criminosamente estão destruindo nossas florestas saiam na frente e obtenham mais e mais vantagens. Ou seja, as fake news ajudam a alimentar um grupo heterogêneo que irresponsavelmente vem ameaçando nosso futuro e que está se aproveitando politicamente não só da disformarão, mas também da discórdia, seja real ou inserida em narrativas.

Por mais distante que possa parecer, a união do agronegócio eficiente com o ambientalíssimo pragmático é possível, e mais do que isso, essa união é vital. Enquanto não temos esse discurso comum, todos no Brasil perdem.

*Gostou do artigo do Ulisses Ferreira de Olveira? Saiba mais sobre agronegócio e sustentabilidade assinando gratuitamente [nossas newsletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

O benefício existe. Mas as pessoas têm tempo para usá-lo?

Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Mobilidade interna: Por que quando o tema é talentos estamos sempre olhando para a grama do vizinho?

A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo