Uncategorized

O que o PODER É e o que NÃO É

E mais: como empoderar mais pessoas na organização sem enfraquecer outras | por YVES MORIEUX e PETER TOLLMAN
Yves Morieux e Peter Tollman são sócios seniores da consultoria Boston Consulting Group (BCG) e escreveram Seis Regras Simples (ed. HSM). Morieux fica sediado em Washington, e Tollman, em Boston, ambos nos EUA.

Compartilhar:

A maioria dos gestores compreende que o poder é parte importante da vida organizacional, é claro. O que não percebem é que essa compreensão costuma ser corrompida pelas duas abordagens usuais sobre o tema.

Há a abordagem rígida, para a qual o poder é consequência automática da autoridade formal. Essa crença se reflete em comentários como “À medida que você sobe no organograma, mais poder tem”, “Se você tem autoridade, automaticamente tem poder” ou “Se você tem conhecimento, tem poder”. A abordagem branda, por sua vez, tende a enfatizar o estilo de liderança ou traços pessoais como o carisma. Essa visão se reflete em afirmações como “Ele é poderoso” ou “Sua presença projeta poder”.

Poder não é nada disso.

Até há pouco tempo, o entendimento equivocado sobre poder não causava grande prejuízo aos negócios, pois eram relativamente poucas as interações requeridas para que as coisas fossem realizadas. Contudo, quanto mais interações são necessárias entre diferentes unidades organizacionais, mais a incompreensão do poder custa dinheiro para a empresa e suas pessoas.

**O QUE É PODER, AFINAL?**

Poder é a possibilidade de alguém fazer diferença em questões que importam a outra pessoa. Como A pode fazer diferença em assuntos do interesse de B, B consegue realizar coisas que não faria sem a intervenção de A.

Para descobrir onde há poder em sua organização, dê uma olhada nas áreas em que as pessoas estão realizando algo que, se fosse por elas, não estaria sendo feito. Esteja certo: alguém está exercendo poder sobre elas.

O poder sempre existe, de uma forma ou de outra, seja para ajudar, seja para atrapalhar o alcance de bons resultados. Contribui para mobilizar as pessoas, direta ou indiretamente, na direção de um alvo ou meta específicos.

**As outras 5 regras simples**

O índice de complexidade do BCG informa que a complexidade cresceu seis vezes nos últimos 60 anos, enquanto a complicação organizacional (estruturas, processos, sistemas) aumentou 35 vezes para dar conta do desafio.

Yves Morieux e Peter Tollman escrevem, no livro Seis Regras Simples, que isso não funciona; o melhor para combater o aumento da complexidade é usar a inteligência dos colaboradores e alavancar sua produtividade. Aumentar a quantidade total de poder em vez dos poderes parciais, como sugerido neste artigo, é uma das seis regras para fazer isso. Confira as outras cinco:

**1) Entender o que os outros fazem** – É preciso saber quem realmente faz cada trabalho. Para isso, olha-se além de organogramas e responsabilidades teóricas. Então, promovem-se pequenas melhorias que ajudem no desempenho de quem faz seu trabalho.

**2) Fortalecer os integradores** – Integradores são as pessoas que realmente se envolvem com as atividades e encorajam os outros a fazê-las. Eles se fortalecem quando há menos hierarquia, menos regras e mais autonomia. Também ganham força quando as pessoas dependem mais umas das outras para executar tarefas.

**3) Aumentar a reciprocidade** – Reciprocidade quer dizer que o sucesso de um depende do sucesso do outro. O que ajuda a criar isso é gerar interesses comuns, valorizar os feitos coletivos, conectar a avaliação de desempenho à colaboração e assegurar que as pessoas façam parte de várias redes.

**4) Estender a “sombra” do futuro** – Todos devem entender o impacto futuro das ações presentes, o que é tão importante quanto receberem feedback. Isso ajuda a tomar decisões melhores e mais conscientes e substitui o alinhamento estratégico, um conceito antiquado, linear, que não empodera as pessoas.

**5) Recompensar os que cooperam** – Muita gente ainda acha arriscado cooperar. Essa cultura só vai mudar quando prêmios e punições não forem atrelados só aos resultados obtidos, mas a como são obtidos, coma disposição de trabalhar junto. Punir pelo não esforço de cooperação também é fundamental.

O poder vem da posse de controle de incertezas que são relevantes para outros e para a empresa. Esse controle determina os termos de troca entre o indivíduo e a organização. Quanto mais incertezas um membro da empresa controlar para outros membros, melhor ele poderá negociar sua participação e mais receberá da organização em retorno.

O poder existe apenas nas relações entre pessoas; é uma troca desequilibrada de comportamentos. Apesar da crença comum, não é particularmente ligado a um desequilíbrio da informação que esteja disponível para as partes. Em vez disso, a assimetria tem a ver com os termos de troca na relação: as possibilidades recíprocas de ação.

O desequilíbrio (ou seja, o poder) vem do fato de A conseguir fazer mais diferença do que B no que importa para B do que B no que importa para A. Em outros assuntos ou em outras circunstâncias, B talvez tenha poder sobre A. O poder é um atributo que não diz respeito a posição hierárquica nem a traços de personalidade. Ele brota de uma relação vinculada a uma situação.

O poder tem implicações significativas sobre como os comportamentos se ajustam uns aos outros. As pessoas que detêm mais poder arcam com o menor custo de adaptação; as que têm menos pagam mais caro. Aquele que não tem poder ajusta seu comportamento ao do poderoso.

Dependendo de como esses comportamentos se ajustem e se combinem, o resultado será mais ou menos benéfico para o desempenho do negócio. Se o que é ideal para o poderoso se desviar das metas gerais da organização, o resultado não será bom para a empresa.

**O TOTAL DE PODER E OCASO INTERLODGE**

A InterLodge, companhia de viagens e turismo da Alemanha, passava por dificuldades. Resolveu usar o poder: os recepcionistas de seus hotéis conquistaram mais poder ao ganharem mais voz na avaliação de desempenho da equipe de manutenção e limpeza. Resultado: ficaram mais capazes de assumir um papel integrador e o que se viu foi mais cooperação e mais eficácia no alcance das metas da empresa.

O que aconteceu à InterLodge, contudo, não foi um aumento de poder. Foi o que se denomina empowerment, em uma redistribuição de poder, do pessoal administrativo para alinha de frente da recepção. Ao dar aos recepcionistas oportunidade de avaliar o desempenho e influenciar promoções, a gestão da empresa mudou de lugar parte do poder.

O empoderamento pode ser especialmente eficaz quando destinado a mobilizar a ação coletiva e alcançar os objetivos organizacionais. No entanto, é importante que as organizações também vão além, gerando fontes de poder totalmente novas, já que lidar com a complexidade requer níveis mais altos de cooperação.

Explica-se: quando cooperam mais, as pessoas deixam de ser autossuficientes; ficam mais dependentes umas das outras. O resultado é que o poder torna-se mais necessário. Quando uma pessoa pode arriscar-se mais a depender de outras? Quando consegue influenciá-las.

É o poder que determina a real capacidade de ingressarmos em interações de cooperação e reciprocidade de ação, e estas são essenciais para lidar com a complexidade atual dos negócios.

Por essa razão, o poder nas empresas deve ser mais do que um jogo de soma zero a partir de agora. Ele não pode ser somente redistribuído; tem de ser expandido. A InterLodge se deu conta disso não quando queria vencer as dificuldades, mas quando precisou oferecer novos serviços de conexão à internet para seus clientes. Ela teve de criar bases de poder para sua equipe técnica de manutenção.

**COMO COMEÇAR**

Dado que o poder é tão importante ao sucesso na empresa contemporânea, encontrar caminhos para gerar novas fontes de poder e multiplicaras bases de poder na empresa passa a ser um papel fundamental do gestor atual. Como ele pode fazer isso?

O gestor pode adicionar pelo menos um novo ponto de interesse no desenho organizacional, uma atividade que seja importante para alguém e cujo alcance dependa de outros. Pode ser algo que se queira ter ou que se deseje evitar. Alguns deverão beneficiar-se de ter poder sobre aqueles para os quais essa atividade seja relevante.

Quando um ponto de interesse é realmente novo, constitui automaticamente uma nova base de poder que favorece alguns sem retirar poder de outros.

É imperativo aumentar a quantidade total de poder na organização, de modo que o poder conferido a alguns não venha à custa do poder de outros. O novo poder tende a beneficiar os gestores em seu papel integrador e também os membros de equipes, para que consigam cooperar com os outros.

É assim que se torna possível canalizar a inteligência de mais pessoas em mais frentes, de modo coerente e flexível, para ampliar tanto a eficácia do negócio como sua capacidade de adaptação às circunstâncias.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando um legado familiar redefine um pedaço da cidade

Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

A energia invisível da liderança – revelando a verdadeira natureza do “Ki” irradiado por Masao Ogura, da Yamato Transport

Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Ageivism: o que acontece quando as organizações envelhecem, mas suas ideias não?

Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
14 de julho de 2026 08H00
Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de julho de 2026 14H00
Dados mostram o avanço da solidão no ambiente de trabalho, especialmente entre profissionais remotos. O texto propõe uma reflexão sobre como relações de confiança, segurança psicológica e capacidade de convivência se tornaram ativos estratégicos para a saúde organizacional.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de julho de 2026 08H00
Durante décadas, empresas competiram por telas, cliques e atenção. Agora, à medida que agentes inteligentes passam a interpretar intenções e executar tarefas, o valor começa a migrar para outro lugar: dados, contexto e capacidade de decisão.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
12 de julho de 2026 13H00
Durante décadas, o mercado tratou a satisfação do cliente como prioridade absoluta. Este artigo questiona os limites dessa lógica e mostra como a normalização de abusos, agressões e desgastes emocionais está afetando a saúde mental dos trabalhadores e comprometendo a própria cultura das organizações.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
12 de julho de 2026 08H00
Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

Bruno Mazanek - CEO da Zanek

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo